Iniciamos com o docente Getúlio, o qual relaciona diretamente sua vontade de exercer a docência com a sintonia dos estudantes:
[...] [tenho a] vontade de tratar do ensino, de uma coisa que eu prezo muito e gosto muito, com pessoas que, a princípio também, estão nessa mesma sintonia. Me parece que quando a pessoa fala: ‘Eu vou fazer faculdade de alguma coisa’, ela está dizendo que ela quer viver essa coisa e se aprimorar, se desenvolver, nisso que a gente pode chamar de profissão, ou de carreira, sei lá. Então, eu vou falar com uma pessoa que tem a mesma vontade que eu tenho, só que muito mais jovem. E é isso que mais me atraí (NR-Getúlio).
Os alunos de Getúlio apontam para a importância dessa proximidade entre professor e aluno, na vivência universitária: [...] quando você tem professores que tão próximos assim, sabe? O Getúlio, poxa, o Getúlio tá próximo, sabe? [...] Acho que isso torna mais real, mais palpável, mais verdadeiro, né? (GF-Getúlio). O professor ao refletir sobre sua presença no grupo focal, aponta:
Foi muito interessante. Eles falando, assim... Eu achei interessante eu ficar lá, porque eu falei: “Bom, será que eu saio? Eles teriam mais liberdade pra falar com você”. Mas foi interessante. Eu acho que isso reforça uma cumplicidade, ajuda, sabe? De repente, eles não falaram alguma coisa que eles queriam falar sem a minha presença, mas falaram coisas na minha presença e que foi bacana (NR- Getúlio).
E reflete sobre a relação estabelecida com a turma: [...] as químicas de sala de aula podem variar bastante. Essa classe, no geral, essa turma, foi muito boa. Todo mundo, mais ou menos, procurando as mesmas coisas, me parece (NR-Getúlio).
No trabalho que acompanhamos, identificamos uma relação de proximidade entre o grupo (professor e alunos), facilitando a interação e o diálogo. O grupo conduz o trabalho com bom humor e manifesta-se um clima de descontração.
Haieny faz referência aos professores que, na sua trajetória como estudante, estimulavam a participação, aproximando-o objeto do conhecimento:
[...] eu acho que essa doçura dessa primeira professora que me cativou. E que eu acho que eu carrego como referência, enfim, eu acho que isso me ajudou muito. Porque era alguém que ouvia, eu fazia pergunta e ela falava que tinha a ver. Então, ela dava aquela coisa de um estímulo. Então, eu acho que foram esses professores que abriam pra participação e que nos deixavam a vontade... Que eu acho que é isso, quando a gente faz questões e a gente é estimulado a isso, a gente é estimulado a pegar aquilo que muitas vezes tá distante, um texto extremamente teórico, e trazer pra dentro da sua vida, pra experiências que você tem, pra referências que você tem, anteriormente. Então eu acho que essa coisa da participação do aluno permite aproximar esse nível, de um texto, de uma reflexão intelectual, que muitas vezes é distante e não faz sentido. Aí se não faz sentido, pra mim, na minha trajetória pessoal, isso sempre foi muito frustrante. Minha cabeça ia pra outro lugar. Então os professores que me permitiam fazer essas pontes foram os professores que me cativaram, que me abriram a possibilidade de estar onde eu estou hoje (NR- Haieny).
A professora destaca, ainda, a relação que constituiu com suas professoras durante o ensino médio e sua graduação, que além da dimensão afetiva, possibilitaram também sua aproximação com os conhecimentos abordados:
[No ensino médio] [...] era uma aula super questionadora, super provocativa. E eu
gostava disso, enfim. Foi onde eu comecei a me interessar por estudar [Na
graduação] [...] eu tive uma professora [...] que eu simplesmente fiquei apaixonada
assim, porque, justamente, eu acho que tem uma coisa da disciplina que ela tava dando [...] e ela tinha um jeito muito encantador (NR-Haieny).
Assim, a professora conclui:
[...] eu acho que era uma combinação de conteúdos e de professoras muito cativantes que eu tive. E que tinham essa coisa de ouvir os alunos. A [professora x] fazia isso, que eu acho que eu tento imitar como referência, que era saber o nome dos alunos. E sempre aproveitar a fala dos alunos, ainda que não tivesse nada a ver. Então, às vezes, a gente via colegas que falavam um negócio que não tinha nada a ver, ficava um pessoal viajando. E, mesmo assim, ela fazia aquilo dizer outra coisa que tinha a ver com a aula. Então, ela tinha sempre essa postura de nunca desfazer da pergunta do aluno (NR-Haieny).
Haieny destaca que a docência envolve a capacidade [...] de ouvir e de perceber os alunos, mesmo quando eles não falam, onde podem estar os problemas, porque é uma relação muito assimétrica, sobretudo aqui na universidade (NR-Haieny). Segundo a professora:
Você tem uma posição do professor que muitas vezes ele é inalcançável. Alguns professores se colocam num lugar que o aluno não consegue propor coisas, interagir, ser ouvido. Aqui na Unicamp, a experiência que eu tô tendo, é muito mais agradável nesse sentido, porque me parece que os alunos se sentem mais à vontade. Então provavelmente, eles não tiveram professores como eu tive, que não dão abertura nenhuma (NR-Haieny).
Na continuidade dessa reflexão, Haieny reflete sobre a relação que procura estabelecer com os seus alunos, sustentada na interação, para possibilitar o aprendizado:
[...] eu acho que é esse jogo de você conseguir também perceber o aluno, ouvir o aluno e conseguir lidar com demandas que estão fora do seu script de aula. Então isso é uma coisa que eu, particularmente, acho desafiadora na atividade, que eu gosto. Porque quando a gente prepara uma aula, você tem um raciocínio ali em cima de um texto, você segue um tipo de raciocínio. E a aula é um sistema aberto, onde você tem essas interferências, você mantém isso como um sistema aberto. Ela te joga pra outros lugares não pensados. Então ela pode te fazer pensar o texto, entender coisas que talvez, inicialmente, você não tinha olhado por esse viés. Então eu acho que isso é uma coisa que me parece importante na capacidade do professor, dele ter uma relação de mão dupla com os seus alunos. O quê que essa experiência prévia [anterior, na sua trajetória, com a formação de professores], eu acho que me ajudou, de fato, é isso. Essa questão da interação, de tentar fazer com que as pessoas fiquem a vontade. Porque eu acho que quanto mais a relação é simétrica, é de mão dupla, o aprendizado é mais eficiente, ele é mais agradável, enfim. Do que essa coisa dura, de um professor que fica, enfim, sempre ele é o detentor de todo o conhecimento (NR-Haieny).