Na lição de 10 de janeiro de 1968, Lacan reinicia os trabalhos dizendo que ele ainda havia dito muito pouco sobre o ato psicanalítico. Ao retornar ao cogito cartesiano tomado pelo seu avesso e ao inseri-lo no grupo de Klein, ele pretende demonstrar de modo preciso em que mesmo esse ato incide: na ordem do significante, promovendo uma ruptura, uma ultrapassagem do “ou eu não penso ou eu não sou”, visando suscitar um novo desejo – o desejo do analista.
Estamos no âmago da própria definição do ato como sendo a passagem do psicanalisante a psicanalista. Passagem que não marca a autorização em si mesma, mas das condições necessárias para alguém ocupar tal posição. O desejo do psicanalista como autêntico produto do ato. O que faz um analista? Opera com o extraído em sua análise para causar a repetição das operações da análise em outra pessoa. O ato analítico do lado do psicanalista é colocar o inconsciente, apresentar a divisão no “penso, logo sou”, a divisão do sujeito entre o ser e o pensar.
Até se chegar a essa conclusão, temos todo o desenvolvimento que se segue nesse seminário, começando pela primeira apresentação, de várias viragens que Lacan fará com o grupo de Klein. Talvez seja relevante relembrarmos que uma propriedade se perde, a reversibilidade das operações. Esse grupo tem apenas um sentido, o sentido da análise, partindo de um ponto inicial no vértice superior direito para o inferior esquerdo. Desse lugar partem as operações alienação, verdade e transferência.
Trata-se primeiro de demonstrar a divisão do sujeito na entrada da análise: do lado alienação emerge o sujeito e do lado verdade se formaliza o inconsciente. Em seguida, desses dois pontos, se reproduz no sujeito a operação verdade, em que ele se reconhece no objeto a; e da posição do inconsciente se realiza uma operação que é de desalienação ao Outro, pela inscrição da falta neste: S(Ⱥ). A transferência, a operação produto em Lacan, é privilegiada pela linha que extrai o objeto a e marca a destituição subjetiva, partindo do VSD para o VIE, isto é, ela se representa pela linha que parte do início para o fim da transformação analítica. A outra operação não é nomeada como transferência por Lacan, mas provavelmente encontre nela o seu suporte, pois dá acesso ao desejo, na medida em que deslinda o falo. É apenas esgotando a demanda do sujeito endereçada ao Outro que se alcança a dimensão do desejo, e nisso, o analista possui uma função essencial.
Apenas introduzo o esquema acima para que se veja do que estamos falando, no entanto, seguirei o desenvolvimento do texto, fazendo deste modo as aproximações indicadas por Lacan. Existem algumas diferenças e acréscimos em relação ao esquema apresentado na lógica do fantasma, pois estamos na lógica da cura. Sublinho que este Grupo de Klein deve ser considerado como parcial, pois está organizado a partir de um ponto de partida e as operações da análise não são reversíveis. Devemos considerar que elas não ocorrem numa cronologia, aos moldes de etapas44, e ainda, que não se dão de uma só vez, pois a
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Aqui afirmamos uma posição contrária a Brodsky (2004) que apresenta as operações no Grupo de Klein em uma sucessão temporal, como fosse preciso trabalhar as questões de cada uma das posições para o analisante adentrar na próxima. Apesar de Lacan indicar um percurso em Z espelhado, nada indica que
cada momento da análise se trabalha ora pela alienação, ora pela verdade, para ao fim, extrair o objeto a e se chegar ao ato psicanalítico do final; um ato com a.
Lacan pergunta sobre o ato de colocar o inconsciente como ruptura do cogito, se podemos conservar sua realidade, sua validade. É importante entender que o uso do cogito cartesiano não é um recurso performático (a pirofagia não me parece ser do gosto de Lacan), é de uma precisão que se trata. Basta recorrermos às formações do inconsciente, dos sonhos aos chistes, para encontrar um “eu penso” com todas as suas características. Surge, porém, a questão se nesse “eu penso” existe um “eu estou”, se podemos encontrar, reconhecer, nesse lugar um “eu sou”, algo da ordem do ser. Ou seja, na medida em que examinamos uma formação do inconsciente nos é muito claro que há aí um “penso” à revelia de um se reconhecer “ser”.
A experiência mais cotidiana da análise demonstra que entre o “eu penso” e o “logo sou” existe uma dimensão de désamorçage, desarmamento, desativação. Pois, ao nos darmos conta da dimensão do inconsciente na fala, reconhecemos que há nele um “eu penso”, mas só é possível reconhecer um “eu sou”, no a posteriori. Nisso que fala em mim, ao pensá-lo, me reconheço enquanto um “lá, eu era/estava”. No mesmo sentido, afirma Lacan, ao se dizer: “um instante mais tarde e a bomba explodia”. Ela não explodiu, do mesmo modo em que me reconheço ser onde nunca fui.
Deste modo, a análise se inicia num reconhecimento da divisão que o próprio cogito já insinua, ao marcar dois momentos entre o pensar e o ser, por meio do “logo” que os une: ou se pensa e não se é; ou se é e não se pensa. Se para Lacan, a afirmação freudiana “onde isso era, devo advir” é um aforismo do que é uma psicanálise, é considerando o expresso até então que ele o remodela, dizendo: ali onde isso estava, onde não está mais, senão ali, por que eu sei que eu o pensei, o sujeito deve advir45. Essa é a operação que se pretende demonstrar por meio do grupo de Klein.
isso ocorra apenas neste sentido e numa sequência cumulativa, pois isso implicaria primeiro que fossem trabalhadas todas as identificações para então se adentrar no campo da verdade. Como se pode ver no tetraedro, da posição inicial partem setas em todos os sentidos, marcando as diversas possibilidades de movimento que ocorrem na análise.
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No original: Là où c’était, òu ce n’est plus que là, parce que je sais que je l’ai
Como indicado no início da lição, o ato se refere a um começo, uma inscrição que demarca uma ruptura e estipula um início. Assim, podemos pensar que começar uma análise seja um ato. Contudo, não é um ato que esteja do lado do psicanalisante, mas sim do psicanalista, pois o analisante quando se propõe esta empreitada desconhece seu sentido. É o analista que precisa produzir um ato que inicie a análise, que ponha em marcha seu percurso e cause no analisante, de início, uma escuta diferenciada sobre o seu dito. O ato do início46 é o de colocar o inconsciente, demonstrar a ruptura do cogito no analisante – o que poderia se reconhecer como o início das duas primeiras operações, pois formaliza a disjunção entre o sujeito47 (ser) e o inconsciente (pensar). Isto é, a primeira operação da análise desmembra o ser e o pensar, em que o sujeito, ao aceitar a associação livre, descobre nele um pensar em que não se reconhece. Do lado esquerdo (VSE), fica o sujeito assentado em seu narcisismo, em suas identificações e do lado direito (VID), a presença na fala de um pensamento que não é seu. Assim, no início da análise o sujeito se percebe como estando no lado esquerdo do tetraedro, em uma relação de estranhamento ao seu discurso.
Mas Lacan indica haver outra coisa a ser procurada, e para isso é necessário tomar um desvio, pensar outro começo: o de se tornar psicanalista. Um começo que se dá ao final de uma análise: “Chegou-se uma vez ao fim de sua psicanálise, é este ato tão difícil de apreender ao início de cada uma das psicanálises, que nós garantimos. Isso deve ter uma relação com este fim então” (p. 84-85). Isto é, o ato de iniciar uma psicanálise exige algo da ordem de uma garantia de que existe para ela um final, do mesmo modo como ocorreu na análise pessoal do praticante. Deve-se entender que não se trata de uma garantia sobre aquela análise que se inicia, mas de um saber, oriundo da experiência
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Segundo Vinciguerra (2007), o ato analítico é que instala o sujeito no “não penso”, apresenta o postulado da psicanálise de que o inconsciente é invocável a partir de um “eu não penso” que a associação livre do analisante inaugura. E ainda, diz que este “eu” presente nesta posição é o “falso ser” (presente na figura, abaixo do tetraedro), no sentido de que a verdade do sujeito só se revela por meio do “eu não sou”.
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Na primeira versão do grupo de Klein, Lacan afirma ser uma divisão entre o
isso e o inconsciente, porém agora a define como uma divisão entre o sujeito e o
inconsciente. Se de início temos um sujeito como mero efeito da cadeia significante, com o tempo, essa noção se aproxima cada vez mais do isso, será situada no campo pulsional, sem perder, contudo, essa origem significante. Assim, a divisão do sujeito se faz entre o significante (eu não sou) e a pulsão (eu não penso).
pessoal do praticante de que há um ponto de basta para análise, que uma modificação do lugar do sujeito realmente seja possível – mesmo que isso nada revele ou garanta sobre as outras análises.
Entendo também que Lacan está dizendo que ao aceitarmos um novo candidato a análise é preciso estar certo de que existam algumas condições deste levá-la até o final, mas enquanto uma aposta: “este que me procura, existe aí um sujeito”. Isso não nos diz nada sobre como será o percurso, nem mesmo se produzirá um analista ao fim. Mas a aposta é condição, o primeiro passo a ser dado e o ato psicanalítico do analista é a sua expressão significante. Ato apenas possível por ter se realizado um outro ato ao final da análise do praticante, é aí que Lacan procura os seus fundamentos. Então temos dois passos: indicar a ruptura do cogito chamada por Lacan de “pôr o inconsciente”, e sustentar a aposta de que um final é possível.
Talvez alguns possam estar pensando que faço referência a um diagnóstico diferencial, em que se busca definir se aquele paciente é realmente um neurótico, ou mesmo, se existe nele as condições de escuta sobre o seu próprio inconsciente e assim vir a saber do desejo. Contudo, é enquanto uma aposta que essa “garantia” entra em jogo; uma decisão que não se dá neste nível consciente e racional, do “eu penso”. Existe realmente algo da ordem do desejo do analista que precisa se fazer presente e operar como função, incitar ao saber e expor a divisão.
Da posição do sujeito no “eu não penso”, por meio da operação transferência capaz de ser suporte da análise, ora se trabalha por via das identificações, numa redução da posição fantasmática; ora por uma abertura ao inconsciente, na produção dos significantes mestres do sujeito e o encontro com a castração. Vemos no esquema de Klein, que existem setas sobrepostas apontando para o mesmo sentido, indicando a importância de se repetir, repassar pelas questões postas, em cada um dos lados, para o sujeito. Há também duas setas que partem do “eu não penso”, em direção ao “eu não sou” e que tocam o falo (-φ) enquanto significante da falta, do desejo do sujeito. Isto mostra que a questão da castração apenas se realiza pela interação da falta de significante do Outro com a vacilação das certezas sobre o ser. Segundo Lacan, é preciso dois “là où c’était” para que a questão do “eu devo aí advir” torne-se clara.
O que se procura no fim, para dar início a outros começos, implica numa extração lógica. Uma análise para ter fim pressupõe a realização da operação verdade: um percurso que parte do sujeito
instalado em seu falso-ser48 e que lhe faz realizar um pensamento que comporta um “eu não sou” (VID). E também, em sua dupla vertente, a operação verdade não ocorre sem reencontrar seu lugar mais verdadeiro, no que se apresentava como “lá onde isso estava” (VSE): o objeto a, no vértice inferior. Do outro lado, nos diz Lacan, há uma falta que subsiste no sujeito do conhecimento, chamada de desejo, que se traduz sob o rótulo de (-φ), mas que ao final é encarnada enquanto castração.
Esse reviramento dos elementos que foram separados, uns sobre os outros, possibilita identificar o que permanecia oculto até então: o objeto a como causa do desejo e o falo como o lugar onde se inscreve a hiância própria ao ato sexual. Ou seja, temos dois “là où c’était” que formalizam a distância que cinde o inconsciente do isso. O primeiro está ligado ao sujeito como falta (VSE); e o outro, situado do lado do inconsciente, unido ao “eu não sou” como objeto de perda (VID)49. A seta que parte do VSE para o VID mostra que se trata de um caminho que vai da falta para a perda do objeto, ao que Lacan afirma: a falta é a
perda, e essa perda é a causa de outra coisa, é a causa de si, do sujeito enquanto dividido pelo objeto a. É preciso o sujeito se colocar como
consequência da perda para saber o que lhe falta: o objeto a como o princípio do ato.
O objeto perdido inicial de toda a gênese analítica, aquele que Freud martela em todo tempo do nascimento do inconsciente, ele está aí, este objeto perdido, causa do desejo. Nós teremos que
vê-lo como no princípio do ato (p.85)
Então, o que Lacan mostra a partir desse desvio, ao falar da passagem a psicanalista, é que o objeto a está na origem do ato, funda o
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Segundo Lima (2008), a expressão em francês faux-être guarda uma homofonia com outra expressão, il faut être, “é preciso ser”, acentuando o aspecto ideal deste “ser” sustentado nas identificações.
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« où il reste attaché à ce sujet comme manque. Il y a l’autre [...] qui reste attaché au je ne suis pas de l’inconscient comme objet, objet de la perte” (p.85). O mais comum seria apresentar os termos de modo inverso, a falta para dizer do falo e a perda relacionada ao objeto a. Penso que Lacan esteja dizendo sobre uma falta constitucional em relação ao objeto da pulsão; e o falo como uma representação, no inconsciente, da perda do objeto. Contudo, são apenas suposições, pois é apenas nesta passagem que ele o faz desta forma, mostrando a seguir que o falo é um trabalho do inconsciente em significar a perda enquanto uma falta.
sujeito e é causa de seu desejo. Porém, trata-se de um sujeito que não é
do saber, consciente, ele sequer sabe sobre o que ocorre na análise, apenas tem notícias dela pela transferência. Por isso, é preciso incluir a transferência entre as operações da análise para compreender os passos dados dentro do esquema de Klein, pois o final de uma análise consiste também na queda do sujeito suposto saber para se obter a redução à “causa de si”. Quer dizer, de início o sujeito define-se por sua relação aos significantes, preso ao saber do Outro. No percurso de uma análise trabalha-se para saber que esse Outro não existe, não há o significante do ser. Processo que ocorre graças à transferência, ao supor o analista neste lugar e, conforme o engano é desfeito, há uma destituição do sujeito que se definia a partir do Outro, ele se transforma, vê-se liberado daquela escravidão e se reconhece causado por uma perda irreparável, chamada de objeto a.
Se de início o analista joga fantasmaticamente a partida como sujeito suposto saber, ao seu termo ele vem suportar não ser mais nada que este resto da operação. Ele não ocupa de fato este lugar na estrutura, ele se faz de a, por ter sido suposto nele um saber, destino lógico do analista na operação transferência.
Já o analisante no final da análise, por um ato pode se tornar psicanalista, entendido como a sua emergência enquanto objeto a, daquilo que restou da queda do sujeito suposto saber. Nada diz em se tornar praticante ao final da análise, mas em se tornar, por um ato, a. Esse é o desafio proposto pelo ato psicanalítico ao analisante: admitir tornar-se aquilo que restara do lado do analista; assumir “sou esta verdade”, esse dejeto.
Como esse salto ocorre no analisante, exige um avançar nas próximas lições, mas se prenuncia como um salto de duplo efeito, em relação ao Outro e ao objeto; saída da posição de escravo de A, para se reconhecer causado por a, e não mais em sua busca.
O colocar em colapso o sujeito suposto saber ao final de análise é uma subversão que implica todo o funcionamento do saber inconsciente, um desvanecimento da consistência do Outro e a extração do objeto a nesse campo. Emerge daí um ser sem qualquer essência, uma espécie de “sujeito do ato”, diz-se uma “espécie” de sujeito, pois, ao final, espera- se uma destituição subjetiva: se tu não és, eu não sou, a não ser, a.
Lição VI 17 de Janeiro de 1968