O tratamento teve início com a fixação da policromia que se encontrava em destacamento a fim de minimizar os riscos de perda. Este procedimento conservativo consiste na deposição de consolidante nas zonas fragilizadas e com micro-levantamentos na rede de estalados existente à superfície, de modo a que este penetre entre os estratos, restituindo a adesão entre eles e o suporte.
O consolidante adoptado foi o Paraloid B72®, que para além de compatível com os materiais da obra, apresenta grande estabilidade, boa reversibilidade e conservação das características ópticas com o envelhecimento118. As características deste adesivo acrílico conferem-lhe também uma grande resistência à bio deterioração e ao ataque por microrganismos119. Foi diluído em acetona com duas percentagens diferentes, 5% e 10%, conforme a necessidade de consolidação dos destacamentos. Diluído em baixas concentrações a sua capacidade de penetração aumenta, permitindo uma consolidação em maior profundidade, porém mais demorada. A sua aplicação foi realizada por deposição com pincel e pontualmente com micropipetas de vidro.
As áreas com um risco mais significativo de destacamento registaram-se nos estratos do douramento da coroa, nos lábios e na rede de estalos presente em toda a carnação do rosto. Durante esta pré-fixação das camadas superficiais em risco, foi-se fazendo a limpeza superficial da sujidade mais desagregada. Esta operação constitui um
117
BAILÃO, Ana – As Técnicas de Reintegração Cromática na Pintura: revisão historiográfica. In Ge-
conservación, p. 54.
118
CALVO, Ana – Conservacion y Restauracion. Materiales, técnicas e procedimentos. De la A a la Z, p. 166.
119
A resistência do Paraloid B72® em relação à biodeterioração foi testada por Carman Li em estudos laboratoriais e publicada em: LI, Carman – Biodeterioration of Acrylic Polymers Paraloid B-72 and B-44: Report on Field Trials, In Kaman-Kalehöyük, p. 283-289.
55 complemento à consolidação, uma vez que a cuidadosa passagem com trinchas de cerdas macias na superfície evidencia as áreas em risco, dificilmente identificáveis de outra forma.
Após esta primeira abordagem de carácter essencialmente conservativo, procedeu-se ao tratamento que classificamos como sendo o mais delicado da intervenção, o levantamento do repinte.
Depois de se realizar um primeiro teste, em que se comprovou que numa primeira fase bastaria a acção mecânica para remover a espessa camada branca, que se verificou ser facilmente quebradiça e desagregável da policromia subjacente, sem remover matéria original, seguiu-se a sua remoção (Fig. 42). O levantamento avançou com a ponta do bisturi e com a sonda periodental (de dentista), de forma muito cautelosa, recorrendo-se à lupa de mesa com ampliação de 8x, para um maior controle da acção. Sempre que se justificou, foram efectuadas novas fixações com o mesmo adesivo, a fim de garantir a integridade da policromia. Esta acção foi necessária principalmente na coroa devido ao estado quebradiço em que se encontravam as camadas do douramento.
Apesar de muito demorada a remoção da densa camada branca com este método, foi determinante para assegurar a
continuidade das camadas subjacentes, embora exista sempre alguma perda inevitável de material durante a operação (Fig. 43).
Fig. 42 - Levantamento do repinte mecanicamente.
Fig. 43 - Aspecto da escultura durante o levantamento do repinte por acção mecânica.
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Após esta primeira abordagem foi necessária a acção de solventes para tentar remover o filme branco pulverulento que se manteve depois da remoção da camada mais espessa. Esta foi antecedida pelo teste de solventes, efectuado individualmente nos dois tacelos, e em todas as cores que continham vestígios do repinte, de forma a testar a eficácia do solvente em dissolver essa camada e a capacidade de resistência dos pigmentos ao solvente. Os testes foram sempre que possível realizados em zonas escondidas, partindo-se do solvente mais fraco até ao que apresentou melhores resultados. Após cada teste, a zona testada foi passada com um cotonete humedecido em White Spirit para diminuir ou retardar a acção do solvente anteriormente usado.
Os resultados dos testes são apresentados no Anexo II. Verificou-se que no geral os pigmentos apresentam pouca resistência à acção dos solventes, principalmente o castanho da barba e do cabelo e o vermelho do laço. Com os testes fomos percebendo que a melhor forma de remover os vestígios brancos à superfície seria através do seu ligeiro amolecimento prévio, com o solvente que apresentou menor poder solvente em cada cor subjacente (Fig. 44 ). Recorreu-se depois a movimentos suaves com o bisturi para a remoção mecânica dos vestígios de repinte ainda existentes, com o mínimo possível de abrasão da camada cromática.
Fig. 45 - Aspecto da coroa após o levantamento do repinte por acção mecânica.
Fig. 44 - Remoção do repinte na coroa com solventes.
57 Esta operação extremamente delicada e difícil, principalmente nos cabelos e na barba devido à densa textura destas áreas, permitiu obter muito bons resultados, infelizmente contrastantes com as áreas em que o repinte já tinha sido removido na intervenção anterior, para a prospecção das camadas policromas.
No tacelo inferior do busto, o avanço na remoção do repinte foi muito ponderado e consecutivamente executado de forma muito gradual, seguindo-se a direcção de cima para baixo e optando-se por remover o repinte apenas quando foi confirmada a existência de policromia subjacente, de forma a garantir a continuidade estética entre os dois tacelos superiores e os inferiores que permaneceram na Sala dos Reis (Fig. 46). Este procedimento revelou-se bastante delicado devido ao risco de destacamento dos vários estratos inferiores, sendo constantemente necessária a sua consolidação com Paraloid B72® diluído a 5% e a 10% em acetona. O mesmo adesivo numa concentração inicialmente de 3%, e quando se verificou necessidade a 5%, foi usado para reverter o aspecto pulverulento em que se encontrava a camada pictórica azul e amarela do manto e do alamar. Apesar de ser um adesivo que facilmente deixa filme à superfície, quando aplicado em finas camadas e em baixas concentrações permite realizar uma consolidação eficaz em camadas pictóricas pulverulentas e sem deixar filme.
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Fig. 47 - Preenchimento ao nível da camada de preparação.
A
B
C
A limpeza das camadas polícromas por via de solventes inicialmente programada na proposta de tratamento revelou-se praticamente desnecessária, uma vez que após a remoção do repinte se constatou que a superfície não apresentava sujidade significativa, capaz de perturbar o equilíbrio cromático da policromia. Assim, foram apenas limpas pontualmente algumas manchas existentes na coroa e no busto com uma suave passagem de White Spirit, respeitando-se a pátina natural da camada policroma, testemunho histórico da alteração natural dos materiais.
Para restituir o equilíbrio cromático e a leitura do rosto, procedeu-se ao preenchimento das lacunas ao nível da camada de preparação com Modostuc®, uma massa de preenchimento acrílico vinílica, estável e altamente reversível em água, acetona ou etanol (Fig. 47). O nivelamento das massas de preenchimento foi realizado com papel abrasivo, de modo a obter o nível da camada de preparação perdida para a posterior reintegração cromática das descontinuidades.
A realização da reintegração cromática das descontinuidades procedeu-se com a técnica da secção cromática, em que a formação da cor surge com aplicação de traços curtos, justapostos, verticais e modelados (conhecido como uma variante do tratteggio – o tratteggio modelado), que acompanham a volumetria da escultura e reconstituem as formas quando existe continuidade formal das camadas polícromas.
59 Através da aplicação de cores puras (não misturadas na paleta), seleccionadas pela decomposição da cor que se quer reintegrar, a cor pretendida é formada pela equivalência óptica com as cores da camada pictórica original que se encontram em proximidade, unificando cromaticamente a zona reintegrada quando vista a uma certa distância. No entanto, ao perto, é perfeitamente perceptível o grafismo que se diferencia do original (Fig. 48).
Em teoria, o número de cores usado em cada lacuna não deverá ser superior a três ou quatro sendo que o branco não é utilizado, por quebrar a transparência dos tons. O claro e o escuro obtêm-se por maior o menor diluição das cores. Na intervenção foram usadas aguarelas Vang gogh® em tubo, como material diferenciado e facilmente reversível. Uma outra vantagem deste material é o facto de não originar empastamento das camadas e permitir transparência para obtenção da vibração da cor através do branco da preparação120.
120
MORA, Paolo [et al.] – Problems of Presentation. In Conservation of wall paintings, p. 308.
A B
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Para a camada final de protecção foi utilizado um filme de Paraloid® a 5% em acetona, aplicado a pincel, que funcionou em primeiro lugar como último consolidante dos vários estratos da policromia, mas desempenhando no entanto o papel principal de verniz, devido à vantagem de formar um filme mate quando usado em baixas percentagens121.
Após aplicação da camada de protecção verificou-se a necessidade de realizar pontualmente alguns retoques nas reintegrações, tendo sido usados pigmentos aglutinados em Paraloid®122 diluído a 3% em xileno, permitindo finalizar com perfeição a reintegração.
121
LOURENÇO, Ana – Potencialidade da aplicação de pigmentos estruturados em conservação e restauro
de pintura de cavalete, p. 38.
122
O Paraloid® pode ser aplicado pigmentado ou não, possuindo uma reactividade muito baixa com pigmentos sensíveis. A sua viabilidade como aglutinante de pigmentos brancos foi demonstrada por Ana Lourenço, tendo ficado comprovada a estabilidade da cor em testes de envelhecimento. Contrariamente, o verniz de retoque, normalmente utilizado como aglutinante de pigmentos para o retoque final da reintegração cromática, apresenta uma maior alteração da cor (idem).
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