da lua...
A burguesia endinheirada e a de toga cultivava esta filosofia da aparência, do mostrar-se, enfim do olhar e do poder ser visto, que desfilava ao ar livre pelo “Passeio Público”, o “Jardim Botânico”, as “Praças” do centro das cidades, pelos espaços amplos e arejados, arborizados e ajardinados, revelando o bom-gosto de uma época e seu “esprit de finesse”; ou em locais fechados como os Salões, os Teatros, onde os binóculos (para aproximar e trazer perto o relativamente distante) e os espelhos, nas amplas paredes e nos corredores refletiam as imagens que por eles passavam. Tudo não passava de um “jogo” cujas regras não podiam ser desconhecidas.
Trata-se do espírito da modernidade. Um espírito de civilização, de progresso, de bem-estar, bon-vivant e relaxante, apreciador das coisas boas e belas que a vida proporciona. É dentro deste “espírito” que escolhemos mais alguns poemas da obra que temos vindo a analisar – Bailado Lunar – da autoria de Bruno de Menezes: Passaste, Visão aérea, Alta noite, Numa tarde de inverno (não necessariamente por essa ordem).
Na atenção que prestarmos aos poemas, em um aspecto devemos ter elevada consideração, aquele que passa pela recomendação de um crítico-ensaísta que temos vindo a citar em outras circunstâncias, Hugo Friedrich:
O tipo de poesia que domina até os dias atuais, nasceu em meados do século XIX, na França, por volta dos anos 1850. Essas formas poéticas são prefiguradas por Baudelaire, após haverem sido intuídas pelo alemão Novalis e o americano E. A. Poe (FRIEDRICH, 1999: 197).222
Na prévia apresentação de Bailado Lunar o poeta em curtos flashes dá-nos algumas dicas de como devemos nos posicionar face à obra e o que nela podemos achar: “A Arte evoluiu com a Moda”. Arte e Moda são, portanto, o que encontraremos. E poeticamente completa essa asserção, sugestivamente escrevendo: “Vestir a ideia de toilletes leves, esvoaçantes, é requinte de bom taylor”. O artista se compara a um alfaiate; se este trabalha com recorte de tecidos, aquele com recortes de ideias. Bruno de Menezes mantém-se (e manter-se-á ao longo da sua vida) sempre ligado a esta dimensão artesanal, manual, do “fazer”, do produzir, que etimologicamente conceitua a poética...
Este fazer poético não é fácil, antes, pelo contrário, se configura como uma atividade árdua: “O artista que faz estilo sofre o suplício de Sísifo”. Tem consciência que sua obra Bailado Lunar mantém estreitos vínculos com uma época passada (e por que não Paris?): “Ainda há quem ame a 1830”. Num contexto simbolista em que “A poesia d’agora é mais sugestão que expressão. Sugerir é o inverso de dizer tudo, abertamente”. Mas também não lhe passa despercebido que sua obra já pertence a um outro tempo e está também com um pé no modernismo, em uma outra geração da estética: “Obra de pseudo- loucos, a Poesia terminou, escandalosamente, enlouquecendo de uma vez”.
222 “Le type de poesia qui domine jusqu’à aujourd’hui, au milieu du XX siècle, est né en France aux environs
des années 1850. Ces formes poétiques sont préfigurées par Baudelaire, aprés avoir été pressenties par l’Allemand et l’Américain E. A. Poe" (tradução minha).
E apresenta Bailado Lunar como o “último sucesso do dancing da Lua...”.
Como veremos em breve, a leitura de alguns poemas de Bruno de Menezes -- quando lidos atentamente -- nos remetem, pela semelhança de certos versos, a poemas de Charles Baudelaire. Esse fato não deve nos pegar desprevenidos ou espantar-nos se levarmos em consideração que a modernidade é em certa medida marcada pela intertextualidade. João Alexandre Barbosa reflete que “... a história do poema moderno (...) é antes uma história que só se desvela no movimento interno de passagem de um para outro poema” (BARBOSA, 2009: 15).
Mais: se a Arte, de um modo geral, e a poesia de modo particular, gozam de intemporalidade podemos então afirmar em uníssono com João Barbosa que “o tempo do poema não existe a não ser como espaço de relações: entre o poeta e a linguagem, o poema acena para a intemporalidade” (BARBOSA, 2009: 16). Efetivamente, em que consiste esta intemporalidade para além de tomá-la como a possibilidade de poder afirmar que um poema é pertença da humanidade, de todos os tempos. Barbosa explicita: “Mas o que é esta intemporalidade senão a presença, no poema, de um roteiro intertextual?” (BARBOSA, 2009: 16).
Os textos, os poemas, dialogam, confrontam-se, cruzam-se, intercambiam... Imbricam-se uns nos outros. Vejamos o poema do Bruno – Passaste... – que passo a transcrever na íntegra.
PASSASTE...223
Linda sombrinha.
Dentro do parque luminoso teu vulto vinha
esplendoroso.
Num chafariz onde um tritão nadava esperto um lírio de água se esfolhava, cristalino.
Eras tu mesma. Estou bem certo que eras tu
nesse teu porte peregrino e o colo nu.
Toda de verde, o riso em festa, o olhar em brilhos
passaste, soberana, em ar de Vesta. E eu fui a folha laminada em mil vidrilhos que tu pisaste nesse parque luminoso...
Vejo tombando
o lírio líquido em desfolhos.
A água secou... Foi-se o teu vulto esplendoroso.
Chora uma fonte gotejando Nos meus olhos.
O título do poema Passaste, logo nos remete a outro de Baudelaire, por sua semelhança, En Passant (A uma passante).224 É inegável que em ambos os poetas trata-se da temática do amor à mulher que passa... A visão da mulher que no seu trajeto marca e prende a atenção do poeta. Com Bruno de Menezes ela passa e parece que o poeta a contempla enternecido em seu passar. Teriam chegado a trocar olhares? O eu lírico refere- se ao seu olhar: “Toda de verde, o riso em festa,/o olhar em brilhos” (11º e 12º versos). O que sugere pelo menos uma troca rápida de olhares.
224 Eis o soneto de Charles Baudelaire: “A rua em torno era um frenético alarido./Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,/Uma mulher passou, com sua mão suntuosa/Erguendo e sacudindo a barra do vestido. // Pernas de estátua, era‐lhe a imagem nobre e fina./Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia/No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,/A doçura que envolve e o prazer que assassina. // Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade/ Cujos olhos me fazem nascer outra vez,/Não mais hei de te ver senão na eternidade? // Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,/Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!” (BENJAMIN, 1989: 117).
No poema (soneto) de Baudelaire essa troca de olhares é assinalada com maior veemência. Talvez por provavelmente ter sido mais intensa, ou ter ocorrido num lapso de tempo maior... “Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia/No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,/A doçura que envolve e o prazer que assassina”. Olhar tão marcante que o poeta sente-se renascer: “Cujos olhos me fazem nascer outra vez”, e justifica que é “A doçura que envolve”, mas também fatal se nele se manter e perder: “prazer que assassina”. O efeito da mulher que passa, a visão despertada e a atenção concentrada nesse ato de passagem – ela vem/aproxima-se/ela vai/(afasta-se), produz uma emoção semelhante em ambos os eus-líricos. Em Baudelaire: “Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste” (último terceto). Não menos intenso é o sentimento deixado no eu-lírico que Bruno nos apresenta: “passaste, soberana, em ar de Vesta./E eu fui a folha laminada em mil vidrilhos/que tu pisaste nesse parque luminoso.../ (...) Foi-se o teu vulto esplendoroso./ (...) Chora uma fonte gotejando/nos meus olhos”.
A propósito da troca dos olhares é pertinente a seguinte reflexão, que igualmente tão bem se ajusta a Baudelaire quanto a Bruno de Menezes: 225
a imagem significa, ao mesmo tempo, o olhar do criador e o olhar do espetador, e a interpretação é a resultante desta interdependência, ou desta ambiguidade de olhares, associada ou não, a um terceiro olhar que busca compreender os mecanismos sociais que descontroem e reconstroem as informações transmitidas pelo intercruzamento dos diversos olhares (KOURY, 2001: 114).
Em síntese conclusiva podemos constatar que se o olhar foi mais intenso e marcante no eu-lírico expresso no soneto por Baudelaire, pois como que ávido sedento “afoito eu lhe bebia (...) a imagem nobre e fina”, escreve o autor das Flores do Mal; o efeito impactante da mulher no geral, todavia, restou maior no sentimento do eu-lírico na composição livre de Bruno de Menezes, quando poetiza que “... fui a folha laminada em
225
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro (Org.). Imagem e memória: Ensaios em Antropologia Visual. Rio de janeiro: Garamond, 2001.
mil vidrilhos/que tu pisaste nesse parque luminoso” e mais adiante, finaliza anotando o efeito que o vulto jovem lhe provocara: “Chora uma fonte gotejando/nos meus olhos”.
O poema a ser analisado de seguida (Visão Aérea) retrata temática semelhante à que viemos analisando em Passaste... Passamos a transcrevê-lo na íntegra.
VISÃO AÉREA 226
Loura e magra. Um tanto
de felina, outro tanto de ofídica.
Um perfil de estatueta de Tanagra, como dizem os poetas.
Mas eu achei-a fluídica, imponderável, quase etérea. Talvez, para os estetas, fosse a Visão aérea...
De onde vinha? Não sei.
O caso é que sorria, andava em passos leves, com um chapéu de organdi
talhado em rosa branca. De onde vinha? Não sei. Eu apenas a olhei uns três minutos breves.
226
Esta composição poética e as restantes que lhe seguirão são retiradas da edição de 2011, Diário do Pará, Coleção Pará de Todos os Versos, de todas as Prosas.
Se bem que o seu chapéu fosse uma rosa branca, o vestido com que a vi,
chic, em verdade, dava-lhe um ar de bebê que ainda vestisse bibe...
E ela que vinha a pé
-- vitrina humana que o rigor da moda exibe – com o vestido que a vi,
julguei que ela ficava
dependurada contra as leis da gravidade...
Fechei os olhos... Loura e magra, ela passava...
Este poema pertence ao mesmo tipo do anterior: a temática do amor à mulher que passa (“en passant”). Apresenta, no entanto, algumas particularidades. Esta jovem senhorita não se faz transportar de sombrinha. E este não é um pormenor de somenos importância. Voltaremos mais adiante, em nossa análise, a este ponto. Esparsos elementos nos poemas permitem-nos caracterizar as mulheres em causa.
As duas primeiras (dos poemas Passaste... e En passant, respectivamente) tratam-se de mulheres jovens, elegantes e charmosas, mas maduras. A do último poema – Visão aérea... – a de uma jovem senhorita. “Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa”, assim nos é apresentada logo de início a mulher do soneto de Baudelaire. Tratar-se-ia de uma jovem viúva? Talvez. Mas essa dor majestosa... Mão suntuosa... Pernas de estátua... Nobre e fina aponta-nos para maduras vivências.
Passaste... Indica-nos um vulto que vinha majestoso. Por coincidência: “dor majestosa”, “vulto majestoso”. Releva elegância, certa distinção ou nobreza, mas também uma configuração madura, que não ocorre, por exemplo, com a personagem de Visão aérea..., quando nos é descrita com uma certa simplicidade pueril e ingênua: “dava-lhe um ar de bebê/que ainda vestisse bibe...”. “Linda sombrinha” é o verso inicial que chama a
atenção do eu-lírico e à qual remete igualmente o leitor. Depois nos remete para a Dona: “teu vulto vinha/ esplendoroso..., nesse teu porte peregrino/e o colo nu”.
Essa jovem senhora, não completamente descrita, porquanto é referida como vulto, mas que porta sombrinha e apresenta um porte peregrino e o colo nu comparada com as personagens de En passant e Visão aérea..., é por isso mesmo distinta destas últimas. Não que a sombrinha não fosse um elemento comum e frequente da indumentária feminina, mas ela, nalguns casos, caracteriza a mulher dando-lhe um toque diferencial.
Este tipo de mulher foi motivo inspirador de pintores e poetas: “Femme à l’ombrelle” (1886) é uma pintura de Monet. Esse quadro, por sua vez, serviu de inspiração a Nuno Júdice,227 poeta português, para elaborar um poema cujo título é homólogo ao dado por Monet ao seu quadro e publicado em sua obra Nos braços de exígua luz (1976). No poema228 (assim como no quadro) esta personagem é descrita como “figura solitária”. Muitas vezes também nos são apresentadas em lugares ermos...
Figuras femininas da Belle Époque solitárias e/ou apresentadas em lugares ermos são sempre suspeitas. Um quadro cujo título é Coqueiros (1905) da autoria de Carlos de Azevedo, pintor brasileiro,229 retrata este assunto:
Uma moça elegantemente vestida, passeando em meio a um cenário simplório, uma poça de água, terreno baldio. O que estaria
227 Da Escola de Verão: Poesia Portuguesa Contemporânea, curso ministrado pela Prof.ª Dra. Graça Videira
Lopes, na Universidade Nova de Lisboa, 2010.
228
“A Revolução nasce do chapéu de chuva de Monet,/não por acaso, mas porque estava um dia de chuva. Ou antes,/as nuvens que cobrem a parte superior dos dois lados/da tela tornam inevitável e evidente a aparição do chapéu de chuva/nas mãos da mulher. É que algures, por detrás daquilo que se vê/e é claro, uma sombra próxima e de cuja transparência se faz reflexo/o poema, concentra as diversas tensões convergentes na proximidade/do temporal. Por que razão, perguntar‐se‐ia a propósito, aquela mulher/ está ali, à espera da chuva, batida pelos ventos e rasgada pelos/arbustos?/Também a impressão, que tenho na minha frente, pouco/ transmite da cor original. Só um brilho, sobretudo quando apenas entreabro/a janela, não deixando entrar um excesso de luz, se solte e bate/na parede, sobre o tampo da secretária em que escrevo, e momentaneamente/reproduz aquela figura solitária – agora que este adjetivo,/inesperado, aqui surge logicamente solicitado pelo poema.//Por fim, a própria parede se identifica com o horizonte: para onde me dirijo, de certo modo sem a esperança de um próximo regresso” (“Femme à l’ombrelle”, 1886 – (Nuno Júdice apud LOPES, 2010: s/p).
229 FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Janelas do passado, espelhos do presente: Belém do Pará, arte, imagem e
história. Curadoria, Belém: Prefeitura Municipal de Belém/Fundação Cultural Municipal de Belém, FUMBEL, 2011.
fazendo? A cor de sua roupa pode ser uma pista. No final do século XIX, a cor de rosa era quase um privilégio das prostitutas e das mulheres liberadas (FIGUEIREDO, 2011: 65).
A cor rosa, portanto, é um atributo de vulgaridade.230 Este aspecto da cor do vestido, por acaso, não coincide com a da personagem de Passaste...: “Toda de verde, o riso em festa/o olhar em brilhos/passaste, soberana, em ar de Vesta231”. Porém, o “porte peregrino” e o “colo nu” são indicativos indiscutíveis de que tipo de figura em questão se trata.
Voltando agora à nossa personagem de Visão aérea... Ela nos é descrita através de um número maior de elementos fruto provavelmente de um tempo maior de contemplação, apesar de o eu-lírico considerar esse tempo (três minutos) como um intervalo de tempo breve: “Eu apenas a olhei/uns três minutos breves”. Ora, aqui como em tudo resto, a concepção do tempo acaba sendo relativa...
A descrição física, de um modo geral, não é muito acentuada; a imagem desta Visão aérea..., no entanto, nos é dada e caracterizada mais pela indumentária que porta tal figura. Assim: “Fechei os olhos... Loura e magra, ela passava...”. Esta é a visão geral transmitida pelo eu-lírico, que fecha os olhos, para manter ainda mais viva e acesa a imagem em sua mente! Não se trata mais apenas de um vulto. Seus contornos são mais definidos e substanciais. Dos olhos e de “o olhar em brilhos” – fogo -- da soberana vestal (Passaste...) há a passagem aos lábios e a referência ao sorriso: “O caso é que sorria...” da personagem de Visão aérea.
A imagem “Um tanto/de felina” (que pode sugerir-nos desde a visão de uma elegante e simples gata até à atitude atenta e concentrada de uma predadora como a da imagem de uma leoa) em simbiose com a da bíblica tentadora serpente, astuta e não menos “venenosa”: “outro tanto/de ofídica”; é complementada pela possibilidade de percepção de
230 Cf. PASTOREAU, Michel “também associa essa tonalidade a um atributo de ‘vulgaridade’ e mau gosto”
(Michel Pastoreau apud ALDRIN, 2011: 118).
231 Vesta: deusa do fogo entre os romanos. Também referência a Tanagra, necrópole na Grécia (Antiga)
onde foram encontradas abundantes estatuetas em terracota de representações femininas. Hoje, esse termo é utilizado com o sentido de “Mulher perfeita de corpo, esbelta, elegante como essas estatuetas” (Cf. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio de Buarque de Holanda).
um cenário leve, descontraído e até mesmo gracioso transmitido pelo seguinte verso: “O caso é que sorria, andava em passos leves,/...”.
Depois desses versos descritivos da personagem, caracteristicamente mais acentuados e completos comparados com aqueles que se referem à da figura feminina de Passaste. O vulto desta acaba por justapor-se à imagem de leveza, sutileza daquela de Visão aérea. “Mas eu achei-a fluídica,/imponderável, quase etérea./Talvez, para os estetas,/fosse a Visão aérea...”. E esta imagem de leveza, de configuração etérea, quase gasosa, e, portanto, que ascende como que volátil é reforçada no final do poema: “E ela que vinha a pé/ (...) julguei que ela ficava/dependurada contra as leis da gravidade”.
Segue se a descrição au point da moda art nouveau, primeiramente partindo de uma visão geral que a marca como uma “- vitrina humana que o rigor da moda exibe -”. O talhe perfeito e elegante, o bom-gosto marcante: “com um chapéu de organdi/talhado em rosa branca./” motivo floral, “o vestido com que a vi,/chic, em verdade,/” comunicava a quem a olhasse o ar infantil ainda de jovem donzela: “(...) um ar de bebê/que ainda vestisse bibe...”
NUMA TARDE DE INVERNO
Chove. Tarde de inverno.
A rua é triste e as casa têm a cor nevoenta. Nos jardins os choupos são lágrimas verdes, são um traço moderno
dessas silhuetas que o cubismo inventa.
Toda de branca – esguia garça cismarenta – e esse nome andaluz de Mercedes,
temendo a chuva
Para onde vais?
Vejo do teu chapéu os cachos de uva. Irás à toa
ou não voltas mais?
E chove... Vestes de bruma o vulto branco... E eu me fico num banco
da praça úmida... Eu e o inverno...
Não voltes mais!
Fica lá com o teu táxi, viva eu neste inferno!
Numa tarde de inverno é um poema que nos remete para vários elementos contextualizadamente europeus. A descrição da “rua triste” e da “cor nevoenta” das casas faz-nos lembrar duma tarde de chuva em Paris ou mesmo Londres. Num daqueles dias ‘pesados’ de intensa cor plúmbea. Um dia de luminosidade angulosa, de fria chuva oblíqua, de silhuetas vagas que se intersectam definindo “um traço moderno (...) que o cubismo inventa”. Uma referência ao Sul da Espanha, à região da Andaluzia: “e esse nome andaluz de Mercedes”. E “Nos jardins os choupos” tipo de árvore não comum ao clima de uma região equatorial como a do Norte do Brasil.
Ainda a figura dessa mulher elegante -- “esguia garça cismarenta” – que surge “De onde vinha?/Não sei” (11º primeiro verso de Visão aérea...) e desaparece “Para onde vais?/(...) Irás à toa/ou não voltas mais?” como um enigma. Desta ficamos sabendo pelo menos o nome: Mercedes. Porém, não deixa de ser menos mistérica que as outras: “Vestes de bruma o vulto branco...”. E de todas elas talvez a que desaparece mais rápida ou instantaneamente da nossa visão: “sobes a um táxi, que buzina e voa...”.
E à semelhança do que ocorre com Passaste...: “E eu fui a folha laminada em mil vidrilhos/que tu pisaste nesse parque luminoso...” (14º e 15º versos) o estado de espírito animicamente estraçalhado, se assim o podemos dizer, e triste: “Chora uma fonte
gotejando/nos meus olhos” (19º e 20º versos) do espírito do eu-lírico, ao final, após a visão da elegante e mistérica figura, é idêntico ao de Numa tarde de inverno representado como que num estado de espírito triste e recolhidamente cataléptico: “E eu me fico num banco/da praça úmida... Eu e o inverno...” (15º e 16º versos).
Mas os dois últimos versos do poema que estamos analisando tornam-se irmãos gêmeos daqueles de Baudelaire no poema En passant. Comparemo-los. Escreve Baudelaire, nos seus dois últimos tercetos conclusivos do soneto: “Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste...”. E no Bruno de Menezes nos dois últimos versos de seu poema: “Não voltes mais!/Fica lá com o teu táxi, viva eu neste inferno!”. Mas no poema um verso ainda – “Vejo do teu chapéu os cachos de uva” -- nos remete a um ou outro dos textos de “poemas em prosa” de Baudelaire. Esta é a primeira vez que Bruno de Menezes fez uma referência clara e direta àquilo que na mulher,