4.3 Approximation de α opt
4.3.1 D´efinition du crit`ere
Uma das ideias mais centrais, e mais lembradas posteriormente, do Tractatus Logico- Philosophicus é a distinção entre o dizer e o mostrar, ou entre o que pode ser dito e o que não pode ser dito. Na verdade, o próprio Wittgenstein, no Prefácio da obra, acentua isso, afirmando ser essa a ideia geral dela. Ora, ao fazer isso, ele está, de certa forma, fazendo o que Kant não conseguira direito, isto é, delimitar o que é pensável (e, portanto, dizível) por outro meio que não o do próprio pensamento, já que estaríamos ultrapassando um limite para dizer até onde poderíamos ir, o que é absurdo. Por isso Wittgenstein recorre à linguagem: para ele, acentuar a lógica desta (e tendo como pressuposto que o pensamento nada mais é do que uma proposição significativa, como diz no aforismo 4)33 e delimitar, a priori, até onde ela pode ir é delimitar até podemos expressar nossos pensamentos. Ao descrever o objetivo do Tractatus, Wittgenstein diz:
O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos; a fim de traçar um limite para o pensar, deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser pensado). O limite só poderá, pois, ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será simplesmente um contra-senso (p. 131).
Tendo em vista esse interesse, podemos pensar como Wittgenstein delimita o dizível, isto é, a linguagem significativa. É preciso ter sempre em mente, antes de tudo, que é sim possível a um ser humano falar sobre aquilo que não é um fato possível. Todavia, dentro dessa filosofia da linguagem figurativa, como essa fala dessa pessoa hipotética não está se referindo a um estado de coisas possível e, portanto, não tem condições de verdade, então essa fala não passa de sinais sonoros sem sentido. Ou seja, não são tão diferentes de barulhos. Pensaríamos que ela fala algo plausível, ou significativo, porque somos enganados pela estrutura gramatical na qual a fala dela se baseia. Por isso o interesse profundo de
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Wittgenstein (e também de Frege e Russell) com a forma lógica da linguagem e com um simbolismo acurado. É por isso que quando nos referirmos ao “dizível”, estaremos nos referindo sempre à linguagem significativa, no estrito sentido lógico, e não simplesmente àquilo que podemos escrever ou falar através de nossa gramática.
Nos aforismos 4.1121-4.11634, lemos sobre como Wittgenstein pretendeu delimitar o pensável. Em sua crítica, discernimos que, para ele, os filósofos anteriores que buscaram também delimitar o que podemos pensar recorreram a meios psicológicos. Por isso ele afirma que a teoria do conhecimento é a filosofia da psicologia, e que aqueles filósofos acabaram se perdendo em discussões psicológicas “irrelevantes”. Como dissemos acima, Wittgenstein recorre, ao contrário, à linguagem. Para ele, delimitar o dizível é delimitar o pensável, e a filosofia “[...] significará o indizível ao representar claramente o dizível”. É por isso que há tanto cuidado lógico na determinação de Wittgenstein no Tractatus para saber o que pode, realmente, ser dito. Em certo sentido, ilumina-se ao máximo o que pode ser dito para, de canto de olho, vermos o que é sombra.
Ora, vimos no último subcapítulo que as proposições tautológicas e contraditórias são sem sentido, já que não possuem condições de verdade. As proposições contingentes são significativas porque as possuem. As proposições contrassenso nada dizem porque não têm condições de verdade. E que, embora as proposições lógicas (tautologia e contradição) não tenham sentido tal qual as proposições contrassenso, elas são aceitas, porque a lógica, embora não afirma nada de um mundo em específico, fala, em certo sentido, da forma possível subjacente a todos os mundos, uma vez que suas proposições são ou verdadeiras ou falsas para todos os mundos possíveis.
Portanto, o único tipo de proposição significativa é a proposição contingente. Esta fala de um fato possível. Para tal, ela precisa se referir às coisas do mundo factual, num nível elementar e num nível molecular. Ora, a área do conhecimento que se dedica a isso é a ciência natural, que fala dos fatos físicos, químicos, biológicos, etc. Por isso Wittgenstein afirma que
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4.1121 “A psicologia não é mais aparentada com a filosofia que qualquer outra ciência natural. A teoria do conhecimento é a filosofia da psicologia.
Meu estudo da linguagem por sinais não corresponderia ao estudo dos processos de pensar, estudo que os filósofos sustentaram ser tão essencial para a filosofia da lógica? No mais das vezes, eles só se emaranharam em investigações psicológicas irrelevantes, e um perigo análogo existe também no caso do meu método.” 4.1122 “A teoria darwiniana não tem mais a ver com a filosofia que qualquer outra hipótese da ciência natural.”
4. 113 “A filosofia limita o território disputável da ciência natural.” 4. 114 “Cumpre-lhe delimitar o pensável e, com isso, o impensável.
Cumpre-lhe limitar o impensável de dentro, através do pensável.” 4. 115 “Ela significará o indizível ao representar claramente o dizível.”
4. 116 “Tudo o que pode ser em geral pensado pode ser pensado claramente. Tudo que se pode enunciar, pode-se enunciar claramente.”
“4.113 [a] filosofia limita o território disputável da ciência natural”. Nesse sentido, só a ciência natural poderia produzir algo dizível, pois só ela se refere aos fatos de maneira significativa. Isso nos faz pensar: se somente a ciência natural pode ser um conhecimento dizível, então o que é que passa a ser afastado ao domínio do indizível? Ou, dito de outro modo: o que é que está no domínio do dizível apenas de maneira clandestina e enganosa?
No fundo, o que Wittgenstein faz aqui é indicar como certas coisas que tradicional e indiscriminadamente nos dedicamos a dizer não podem, por conta da própria forma essencial da linguagem, serem ditas, mas mostradas. Ou seja, há essa descoberta no Tractatus: certas coisas não podem ser ditas, apenas mostradas. Uma das coisas que não podem ser ditas é justamente aquilo que é condição da linguagem significativa: a forma lógica. Dizer significativamente a forma lógica seria, para a linguagem significativa, ir além de seus próprios limites. Por isso, a forma lógica não pode ser dita, mas apenas mostrada (Cf. 4.121). É por isso também que a proposição não pode dizer seu sentido: ela “4.02235 [...] mostra seu sentido”.
Todavia, há coisas sobre as quais não podemos dizer, e, portanto, sobre elas, devemos nos calar. Esse silêncio, como veremos agora no Capítulo III, é imposto a certas áreas que jamais pensaríamos estar clandestinamente no domínio do dizível.
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4.022 “A proposição mostra seu sentido.