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Développement d’un modèle de simulation du mouvement en FRM

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A produção de conhecimentos na perspectiva dialógica significa assumir um posicionamento de desvelamento crítico da realidade sócio-histórica investigada e compreender o ser humano como sujeito inserido no tempo e no espaço como partícipe consciente.

O diálogo é uma categoria mergulhada na complexa teia das relações sociais e marcada pelas condições objetivas da realidade (FREIRE, 1987). O diálogo é uma resposta político-pedagógica diante das imposições sociais, é uma escolha política e ideológica de construção de uma educação libertadora e de uma educação ético-política, que passa pelos processos de escuta, convencimento, discussões e enfrentamentos.

Nessa teia, a linguagem não é neutra, mas formada de sentidos e significados que assumem posturas ideológicas diante do mundo e das classes sociais (BAKHTIN, 2006). O diálogo apresenta-se enquanto uma construção do ser social em suas múltiplas relações cotidianas e experiências prático-discursivas.

O diálogo é, portanto, ação da linguagem humana e se constitui da palavra que, para Bakhtin (2006, p. 58), é signo ideológico, uma arena de conflitos, “o produto da interação viva das forças sociais”. Compreendemos que, nessa arena de conflito, o dialógico pode pender contra o silêncio imposto aos trabalhadores e trabalhadoras e contra a negação de direitos sociais e políticos, assumindo posturas ideológicas diferentes do que anseia a classe dominante, uma vez que esta “tende a conferir ao signo ideológico um caráter intangível e acima das diferenças de classe, a fim de abafar ou de ocultar a luta dos índices sociais de valor que aí se trava, a fim de tornar o signo monovalente” (BAKHTIN, 2006, p. 38).

A compreensão da linguagem, da palavra e do diálogo nos remete a algumas aproximações entre Paulo Freire e Mikhail Bakhtin, ambos compreendem estes termos não restritos aos fenômenos interiores, próprios do psiquismo humano ou aos aspectos fisiológicos. A linguagem para eles é produto das relações sociais; é signo que forma a consciência. É um fenômeno não da psique humana, mas um fenômeno humano social.

Na tese de Edite Marques de Moura intitulada “Paulo Freire e Bakhtin: um diálogo possível”, defendida em 2011, encontramos a discussão de categorias como linguagem,

(2011, p.144) “a exemplo de Bakhtin, a linguagem na perspectiva freireana tem as dimensões social e material, ou seja, atividade e sistema inter-relacionam-se”.

A palavra, o diálogo, e, portanto, a linguagem não é neutra. É política, é ideológica e é contraditória. Está mergulhada nos sentidos construídos social e culturalmente. A linguagem tem relação com os condicionantes sócio-históricos da realidade social, “é, por constituição, dialógica e a língua não é ideologicamente neutra e sim complexa, pois, a partir do uso e dos traços dos discursos que nela se imprimem, instalam-se na língua choques e contradições” (BARROS, 1997, p. 37).

É nessa perspectiva da linguagem que a consciência é construída, e para chegar à consciência transitiva crítica, conforme defende Freire (1987), faz-se necessário o diálogo e o encontro de consciências. Para Bakhtin (2006, p. 34-35) “A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais [...] A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social”.

E, como nem sempre, essa lógica da comunicação ideológica se coloca a favor da escuta dos oprimidos e da afirmação de valores ético-políticos, enquanto ações ético-críticas transformadoras e constituintes de uma práxis da libertação (DUSSEL, 2012), é preciso compreender que na arena das forças políticas e ideológicas haverá a pretensa construção de consciências ingênuas ou a idealização de vivências que se adaptem/ajustem à realidade de opressão.

A consciência que os sujeitos coletivos populares ensejam é de superação da consciência ingênua para a construção de experiências de organização popular e de lutas coletivas que contribuem para a formação de consciência crítica, de consciência de classe popular que se afirma capaz de lutar por uma ética da libertação, signatária de genuínas formas de resistência ao modelo de exploração capitalista.

O diálogo que forma consciência crítica é um diálogo transformador. Para Freire (1987, p. 44), a palavra também pode transformar o mundo, porque quando

tentamos um adentramento no diálogo, como fenômeno humano, se nos revela algo que já poderemos dizer ser ele mesmo: a palavra. Mas ao encontrarmos a palavra, na análise do diálogo, como algo mais que um meio para que ele se faça, se nos impõe buscar também seus elementos constitutivos [...] duas dimensões; ação e reflexão [...] Não há palavra verdadeira que não seja práxis. Daí, que dizer a palavra verdadeira, seja transformar o mundo.

Para Freire (1987) e Bakhtin (2006) a palavra não é neutra, pode manter ou transformar a realidade. A palavra que não transforma – aliena e acomoda, principalmente as classes populares. “As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” (BAKHTIN, 2006, p. 37). O domínio da palavra nas artes, na cultura, na economia, na história, no direito, na tecnologia é o domínio do poder ideológico e material, e, dessa forma, pode regular as relações humanas. Essa multidão de signos ideológicos não é monovalente como pretendem as classes dominantes, mas plurivalente. “O signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes. Essa plurivalência social do signo ideológico é um traço da maior importância” (BAKHTIN, 2006, p. 37). Isso, também, leva a compreender o signo como um fenômeno humano fundamentado na dialeticidade, na não neutralidade e na não-unicidade de sentido e de significado.

Nessa perspectiva, o diálogo como um processo dialético é articulado com o mundo social, ou seja, é mediatizado pelo mundo. “O diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu” (FREIRE, 1987, p. 45). O diálogo não é neutro, funcional, mas resultado de uma produção histórico-social.

O estudo de Moura (2011, p.47) indica que dentre os princípios filosóficos da teoria freireana adotados para a construção da Pedagogia do Oprimido está à defesa da “construção do conhecimento como resultado das relações travadas com a realidade, cuja materialização se dá pela linguagem; esta instituída, socializada/socializadora por meio do(s) diálogo(os)”.

Diante disso, é necessário que a educação seja compreendida em sua natureza dialógica (FREIRE, 1996), ou seja, como um ato de criação, onde a palavra pode produzir um pensamento crítico e problematizador diante da realidade de manipulação ideológica, política e ética. A manipulação ética ocorre por meio da imposição de uma ética reformista e de uma moral utilitarista (DUSSEL, 2012), cujos valores e atitudes se ajustam ao sistema vigente e suplantam valores que têm como princípio a vida em sua condição concreta.

No jogo de sentidos e significados para a manipulação ética, ganham voz e vez palavras como individualismo, competitividade, flexibilidade, seletividade, funcionalidade, que dia a dia vão se ajustando nos parâmetros de normalidade. E assim, valores que deveriam ser matrizes geradoras da vida em sua condição material, contraditoriamente, vão transformando-se em matrizes geradoras de opressão e morte.

As palavras coletividade, solidariedade, respeito, alteridade, cujas raízes estão fincadas na defesa da vida não podem ser silenciadas. Nesse sentido, é preciso que os povos se

expressem. Expressem suas culturas e identidades. Expressem seu contexto sócio-histórico no texto da vida para transformá-la. “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão” (FREIRE, 1987, p. 44). O silenciamento é a reprodução do poder dominante, espelhado no período colonial, em que o ser era um não ser, sem voz, transformado em objeto, coisificado.

A educação dialógica contribui para romper com as formas de silenciamento, não podendo ser feita “pelo poder que silencia, mas somente dentro dos movimentos sociais populares, dentro dos sindicatos, dentro dos partidos populares não-populistas” (GADOTTI; FREIRE; GUIMARÃES, 1995, p. 93).

A educação dialógica está fundamentada em diferentes formas de participação dos diferentes grupos sociais nas instâncias decisórias da sociedade. Instâncias, cujos canais de escuta das vozes foram construídos historicamente. Ressaltamos que a participação na teoria freireana é o processo de dizer a palavra e fazer a escuta, palavra que é mediatizada pelo mundo. Para Freire (2001, p. 37) a participação é o “exercício de voz, de ter voz, de ingerir, de decidir em certos níveis de poder”.

Também destacamos que, para Bakhtin (2006, p. 125), é importante compreender o diálogo além do seu sentido estrito, formal, “pode-se compreender a palavra „diálogo‟ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja”.

A realidade dialógica envolve toda enunciação. Logo, torna-se uma importante categoria de compreensão não só de textos literários, mas de diversos fenômenos histórico- sociais, das mais diversas áreas do conhecimento, porque apresenta vozes e consciências num processo de comunicação interativa e intersubjetiva, que se articula à perspectiva histórica.

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