A palavra, autônoma para gerar o efeito da imaginação, é a máquina indutora da criação artística que finge ser uma história a partir do verossímil. Essa perspectiva é recurso para trazer à tona da malha narrativa o fantástico. O questionamento da mimese absorve e baliza a ordenação do mundo fantasioso, sendo uma espécie de pré-requisito para a formação do jogo entre real e irreal, natural e sobrenatural.
Questionar então significa romper, no século XX, com o princípio ordenador do universo fantástico. Opera-se a plena separação entre a ficção e o real, de forma a redimensionar o universo fantástico. Para o plano do sobrenatural se opor ao da realidade, é necessária a delimitação dos elementos encontrados no tecido textual. Desse encontro, não se pretende separar o que é uma coisa e outra como se fosse possível clarificar as distinções, mas apenas colocar à baila que os referenciais se imbricam de forma tão homogênea que se dissolveram para formar uma coisa só, isto é, o conjunto que compõe a malha do texto literário.
O mundo da arte literária moderna não é mais explicável sem considerar o desenvolvimento da malha narrativa. Conceituar as possibilidades interpretativas tem sido forma de ampliar a própria arte, pois esta imerge em si a realidade pelo fato de não ter compromisso em ser texto informativo. Ela fluidifica mundos para influir em si mesma. Isso, para Carla Cristina de Paula (2009),
remete, pelo engendramento criativo e imaginário, uma realidade artística, subjetiva, ficcional. A tradição realista da verdade explícita é substituída pela
investigação da verdade implícita, objetivando revelar as camadas não visíveis da realidade aparente. E, para tanto, insistem no absurdo (p. 4).
A palavra é trabalhada para engendrar significados implícitos, que podem ser encontrados nas camadas internas do discurso. As concepções do real aparente dão lugar à fluidez da racionalidade. As fronteiras da interpretação estão no próprio texto. Os elementos considerados irreais e os sobrenaturais ganham destaque e razão de ser dentro da espacialidade narrativa. É como se uma dimensão subterrânea das palavras emergisse dos liames subjetivos da gama textual. A linguagem tem natureza ambígua para que o sobrenatural, por si só, seja supostamente possível de ser crível pela imaginação.
Nessa concepção, o fantástico predomina o discurso literário e ressignifica o termo verossimilhante, pois ele se torna ainda mais fingido na arte a partir do século XX. A linguagem parece domesticar qualquer insinuação de que a arte literária esteja ligada ao cotidiano. Há a exploração de realidades concretas e abstratas para ressignificá-las, mostrando a condição humana. O estranho toma proporções de ser, instituído como o que é provável de acontecer na realidade.
Para as personagens é como se não houvesse mais nada espantoso, pois não espanta ninguém. É como se o sobrenatural fosse banalizado como algo corriqueiro, no sentido de transformá-lo em algo normal ou, pelo menos, explicável no cotidiano da vida organizada.
O elemento sobrenatural passa a não ser algo excepcional, pois a composição narrativa finge não haver exceção em seu mundo normal. A descrição dos acontecimentos com o uso de linguagem articulada esmorece qualquer reação de choque diante do suposto fato.
Destarte, o fantástico cria a imagem de uma situação absurda, mas que pressupõe ser possível de acontecer, mesmo que muito improvável, conforme as leis naturais do cotidiano. O fantástico contemporâneo figurativiza manifestações absurdas como sendo condutas normais, também podendo nascer de um simples exagero, entendido como hiperbolização de situações reais.
Os lugares narrativos parecem comuns, e a explicação para os eventos absurdos omite que sejam considerados sobrenaturais. As personagens fingem não se espantarem com nada. O que motiva as ações dos protagonistas intensifica o absurdo, embora não se pretenda explicá-lo. Tudo passa a ser relativizado, para que
a significação da causa e do efeito não obedeça às leis naturais. O que importa é a realidade interior da narrativa, apresentando-se e criticando a si mesma. Para Bella Josef (apud DANTAS, 2002),
[...] a arte moderna apresenta-se como eminentemente critica. Nega o compromisso com o mundo empírico das aparências, isto é, com o mundo temporal e espacial, concebido até agora como real e absoluto, e assimila esta relatividade à sua própria estrutura. A linguagem passa a ter sentido criador e não designado (p. 137).
O realismo maravilhoso prepondera as rupturas com a realidade para tratar de sua realidade própria, já que os planos dos acontecimentos não se concebem com suas partes legítimas. A narrativa fantástica cria um único plano, no qual outros planos coexistem para fazer o efeito uníssono da obra literária. O estranho deixa de ser o lado oposto do natural e incorpora-se ao outro para o efeito de encantamento. As duas esferas se juntam, fazendo a imagem do real com o irreal, portanto, outra coisa: o fantástico ou o maravilhoso.
IV - LINGUAGENS DE FRONTEIRAS
As linguagens de fronteiras abordam percepções dos realismos mágicos para o maravilhoso em Os Pecados da Tribo. Muitos pesquisadores aplicaram o termo realismo mágico para tematizar a percepção de objetos palpáveis, revelar-lhes um significado oculto, referir-se à superação do movimento de vanguarda do futurismo e exaltar a vida cotidiana, sem evadir a realidade visível. Contudo, aborda-se a aplicação do conceito para a produção hispano-americana no que tange à prosa que surgia nos anos de 1940.
Fundava-se a ruptura com a estética naturalista de então para um outro realismo que começou a traçar um plano do real, narrado pela nova atitude do narrador que revela, em parte, a face oculta da história, a fim de garantir a verdadeira composição da parte fingidamente integrante da narrativa. De acordo com Dantas (2002, p. 23), “Se há um consenso entre os críticos ‘canônicos’ do fantástico literário é de que ele é construído pela representação de eventos de uma esfera sobrenatural em um ambiente, um mundo, regido pelas leis naturais”.
As linguagens na obra em análise são constituídas de fronteiras, pelo delineio do fantástico, surgido no século XVIII, pela consolidação dos aspectos do elemento sobrenatural, carregado de negatividade, que se situa num plano diferente do natural, mas fazendo junção a ele, pelo realismo maravilhoso, na aparente oposição entre mundo real e irreal. Os movimentos artísticos locais apresentam-se pela predisposição do universo ficcional de sugerir e se misturar com a vida cotidiana.