Podemos chamar João Gomes Machado Corumbá, o Dr. Corumbá, como era conhecido, como “bandeirante (desbravador) da Geometria e do quadro negro em Goiás” abrindo sua primeira aula de Geometria.
Segundo Vieira (2007), João Gomes Machado obteve o diploma de bacharel em Matemática, pela Universidade de Coimbra, retornando ao Brasil nos primeiros meses de 1828. No Brasil, João Gomes Machado fez parte de um grupo secreto, onde utilizava como nome de guerra “Corumbá”. O grupo, liderado pelo Brigadeiro Felipe Antônio Cardoso, que era contra o partido dos “brasileiros adotivos” o qual lutava para o Brasil voltar à condição de colônia de Portugal. (BRETAS, 1991)
Nos idos do ano de 1827, estava na presidência da Província de Goiás, o Marechal Miguel Lino de Morais (1827-1831) que, de acordo com Bretas (1991, p.126), tinha a pretensão de ampliar o número de escolas após a implantação da Lei de 15 de outubro de 1827, a qual mandava criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império.
Uma das preocupações deste presidente, segundo Bretas, era a de obter um professor que suprisse as exigências do artigo 6º da Lei de 15 de outubro de 1827, principalmente que soubesse Aritmética e Geometria. Conforme este artigo (figura 8).
De acordo com o autor, o presidente afirmou, numa carta ao ministro que, na Capital, quesomente Dr. Corumbá poderia exercer a função de examinador em Aritmética e Geometria. Neste período, Corumbá recebia quantia de 1000$000 [um conto de réis] para exercer o cargo de Escrivão Deputado da Junta da Imperial Fazenda, que segundo Bretas (1991, p.197), seria o único local onde poderia utilizar seus conhecimentos em matemática, uma vez que Dr. Corumbá não manifestava ao governo interesse pelo cargo de professor. Acredita-se que tal fato se deva ao cargo que já exercia, recebendo uma quantia considerável
Figura 8 – Artigo 6º e 7º da Lei 15 de outubro de 1827 Colleção Leis do Império – Actos do Governo 1827, p.72 Disponível em http://www.camara.gov.br
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e pelas diferenças partidárias em relação ao governo. Bretas (1991, p.127) relata que Lino Morais convidou o bacharel a ministrar aulas e este aceitou o convite, mas fez algumas exigências de materiais escolares para abertura de sua Aula de Matemática. Nesta aula, Dr. Corumbá exigiu desde materiais escolares de uso pessoal como, mesa, cadeira, campainha, papel, lápis, tinta, tábua preta (lousa) até uma modificação das instalações, quando o mesmo exige “uma sala boa e pintada de novo”. O autor afirma que para a construção da tábua preta foram encomendados os serviços do melhor marceneiro, o qual tentou confeccioná-la algumas vezes, até que a mesma se tornasse “aceitável” ao professor.
Vieira (2007), em sua tese, afirma que a primeira Aula do Dr. Corumbá teve sua data marcada seis meses antes da mesma acontecer, que ocorreria no dia 1º de setembro de 1831. A autora afirma que o Intendente dos Armazéns Gerais, nos quais se estocavam mercadorias, ordenou ao Dr. Corumbá que recebesse os livros existentes e os repassasse aos seus alunos para que os mesmos os utilizassem no primeiro dia de aula, porém os livros não chegaram a tempo.
Bretas (1991, p.128) relata que, no segundo dia de aula, o professor resolveu interrogar (arguir) seus alunos e ao perceber que ninguém conseguia respondê-lo, Corumbá os mandou ir embora e fechou sua Aula. O autor afirma que “enfurecido, Corumbá mandou embora os alunos, e fechou sua escola, dizendo que tinha aberto sua Aula para ensinar a moços inteligentes, e não a „burros‟” (BRETAS, 1999, p.128).
Em 1832, abriram-se os concursos às cadeiras de Geometria, Filosofia e Francês, conforme edital datado de 07 de agosto de 1832, quase um ano depois da abertura da Aula do Dr. Corumbá, no governo de José Rodrigues Jardim. Como não apareciam candidatos a estas cadeiras, Vieira (2007) afirma que, foi criado o Decreto n◦2 de 20 de junho de 1834 (figura 9), no qual a Regência Trina Permanente, em nome do Imperador D. Pedro II autorizava a provisão destas cadeiras na capital da província de Goiás. Observamos que tal decreto foi criado em menos de dois meses da institucionalização do Ato Adicional (6 de agosto de 1834) que daria às províncias autonomia para legislar sobre a instrução pública. Quanto às provisões das cadeiras autorizadas pelo decreto, a de Francês foi provida em 1836, após uma resolução que obrigou o professor vitalício de Retórica, Padre Luiz Antônio da Silva e Souza a preencher a cadeira de Francês, mesmo ocupando duas cadeiras, este professor contou sempre com poucos alunos em suas aulas (BRETAS, 1991, p. 184).
Quanto à cadeira de Geometria, estava sendo oferecido um ordenado para quem a ocupasse no valor de 600$000 [Seiscentos mil réis], (BRETAS, 1991, p.185). Talvez este fosse o motivo de Corumbá tê-la requerido e de provê-la vitaliciamente, a partir de 12 de agosto de 1839 sem concurso, pois, além de ter seu diploma de Bacharel em Matemática pela Universidade de Lisboa, não havia candidatos que concorressem a esta cadeira. No entanto, nas palavras deste autor, em 1840, por motivo não sabido, o presidente da Província, José de Assis Mascarenhas, deu como vaga a cadeira de Geometria sem justificar o que possa ter acontecido.
Na Cidade de Goiás, ainda com a idade de 40 anos, Dr. Corumbá deixou um testamento dos seus bens, sem saber que morreria seis anos mais tarde (no Rio de Janeiro), em 1850. A questão dos bens deixados por este professor, como espólio, durou 68 anos. Bretas (1991) apresenta em seu livro o testamento deixado pelo Dr. Corumbá. Nele, o professor afirma que apesar de possuir dois irmãos e pelo fato de ambos serem desprovidos de filhos e ainda por considerá-los ricos, constituiria a “Nação Brasileira” por sua universal herdeira escrevendo que
Figura 9 – Decreto 20 de junho de 1834 – Autoriza provisão cadeira de geometria, Coleção Leis do Império. Disponível em: www.camara.gov.br
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“ [...] O cabedal que houver será entregue ao Ministro do Imperador, e do Imperador macho ou fêmea somente, nunca do Regente, o qual Ministro for o da Instrução e
será constituído Capital em Renda, e esta aplicada para a propagação da Geometria na Província de Goyaz, ou nesta Cidade, ou na Villa de Santa Cruz, onde nasci, e podendo ser em ambas as partes. – O ensino se fará sob a
immediata direcção do dito Ministro, salvo se uma Lei sanccionada pelo Imperador mudar esta direcção. – Nasci e pretendo morrer na Religião Catholica Apostolica Romana – O meu funeral (podendo ser) será com medíocre apparato. – Cidade de Goyaz cinco de Dezembro de mil oito centos e quarenta e quatro. – João Gomes Machado Corumbá”.(BRETAS, 1991, p. 622, grifo nosso).
Neste testamento, o professor deixa claro que o destino de sua riqueza seria em prol da difusão da Geometria em Goiás. De acordo com Bretas, o valor arrecadado pela receita, no Rio de Janeiro, representava vinte e três contos, quinhentos e noventa e oito mil e cento e vinte e quatro réis (23:598$124), era mais de cinqüenta contos de réis só de rendimentos sob forma de apólices, e ainda uma casa na Cidade de Goiás.
Para se ter uma ideia de como era abastado este valor, um professor recebia aproximadamente quinhentos mil réis anuais (500$000), o equivalente a metade de um conto de réis Corumbá enquanto trabalhou no cargo de Escrivão Deputado da Junta da Imperial Fazenda na Província de Goiás, recebia 1 conto de réis anuais (1:000$000).(BRETAS, 1991, p. 197).
Segundo este autor, quando o governo imperial colocou a casa do Dr. Corumbá à venda, na Cidade de Goiás, o presidente da província protestou, uma vez que o Liceu estava estabelecido nesta casa e já havia uma cadeira de Geometria funcionando. Logo depois, o governo tratou logo de criar uma cadeira de Geometria em Santa Cruz, cidade natal de Corumbá, porém foi extinta logo depois. O motivo era o de que não havia alunos interessados, nem foi encontrado professor para regê-la, o mesmo que ocorrera em 1831, com as aulas avulsas de matemática que foram criadas.
De acordo com Bretas (1991), no ano de 1879, o presidente da província pediu para que a cadeira de Geometria do Liceu fosse paga pelo espólio deixado por Corumbá, no lugar de criar outra. O governo Imperial aceitou, mas pediu que a província devolvesse aos cofres gerais o pagamento das outras cinco disciplinas que funcionavam na casa pertencente ao espólio, no Liceu, decisão que ambos concordaram.
Desse modo a cadeira de Geometria do Liceu foi preenchida, por meio de concurso, por Joaquim Rodrigues de Morais Jardim, que já havia a regido muito bem, preenchendo a vaga novamente até 1886, quando o ministro do Império proibiu o mesmo a ocupar dois cargos públicos, tendo que optar por um deles, escolhendo o cargo de Engenheiro do Exército,
deixando o Liceu. Iniciava assim um período de transformações na cadeira de matemática, passando pela mesma cerca de doze professores até o final do período imperial.
Bretas (1991) narra que o governo republicano soube desta questão em 1896, mas somente tomou providências em 1914, pedindo a Jerônimo Rodrigues de Morais (que fora professor de matemática do Liceu), Secretário da Instrução, para elaborar um relatório sobre a situação do espólio.
A questão somente se resolveu em 1918 quando o ex-governador de Goiás e atual Senador, Olegário Pinto, após levar a questão ao senado, todos chegam à conclusão que os bens pertenciam ao Estado e não ao governo Federal, e que os mesmos deveriam ser administrados em benefício à Geometria.