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IV. CHAPITRE IV : PROPOSITION D’UN INDICATEUR DE

IV.2 INDICATEUR DE DURABILITE ET RGI

IV.2.1 Détection des RGI

O termo emoção é bastante utilizado em várias áreas do conhecimento, bem como na linguagem de senso comum. Esta vulgarização e popularidade fazem com que qualquer pessoa possua uma noção daquilo que se designa por emoção. Assim também ocorre nas diversas manifestações da natureza humana, como a arte e a ciência.

A investigação na área da emoção tem sido de árdua execução em razão da complexidade na elaboração de procedimentos experimentais operativos para a recolha e tratamento de dados.

Os problemas surgem com a dificuldade na definição concreta e operacional daquilo que são as emoções e da sua especificidade, dada a grande variabilidade existente na percepção das sensações proprioceptivas, interoceptivas e exteroceptivas na espécie humana, e da consequente subjectividade da sua possível expressão comunicacional. Já Descartes (1647) definia as emoções como "paixões da alma". Precisava que estas paixões da alma se resumiriam a seis: admiração, amor, aversão, desejo, alegria e tristeza. Todas as outras emoções seriam compostas por combinação destas mesmas seis emoções. Na realidade, podemos observar o alcance do pensamento de Descartes verificando como esta postura se enquadra facilmente nos modelos das emoções básicas propostas nas diversas teorias que enquadram aspectos evolucionistas da emoção.

Uma estimativa citada por Plutchik (2001) aponta para que mais de noventa definições de "emoção" tenham sido propostas no século XX, assim assinalando que um tema à partida tão pouco consensual irá despertar, no âmbito da sua abordagem e

estudo, bastante controvérsia quanto à sua conceptualização e à interpretação do seu papel no existir humano.

Conforme podemos constatar a partir da análise de várias abordagens, o estudo das emoções foi, por muito tempo, relegado a um plano relativamente secundarizado, com o interesse dos investigadores mais centrado no desenvolvimento global, em aspectos intelectuais, cognitivos, nas interacções com o ambiente, processos de socialização, ou na Psicopatologia. Muito recentemente, porém, e com maior ênfase na última década do século XX, um leque cada vez mais alargado de investigadores de áreas científicas diferentes, todavia aproximadas no tocante ao objecto da sua análise, tem-se debruçado sobre a emoção, os seus determinismos e a sua função no existir humano. O surgimento das modernas tecnologias de imagem e visualização do interior do cérebro propiciou o desenvolvimento de novas técnicas de investigação, com a possibilidade de, mais fácil e menos intrusivamente, termos acesso directo e imediato aos complexos processos e mudanças que ocorrem no cérebro humano. Esta nova perspectiva veio trazer um maior alento à investigação sobre a emoção, e de uma forma mais ampla, sobre tudo aquilo que se encontra na esfera do inconsciente. Com o conhecimento das estruturas cerebrais e com a hipótese, a partir das modernas técnicas imagiológicas computadorizadas de visualização do funcionamento das mesmas em situações tão diversas como durante o sono ou a vigília, ou em situações experimentalmente controladas dos mais variados matizes, surgem perspectivas de, empiricamente, serem demonstrados níveis diferenciados de actividade cerebral. Por outro lado, a simples evolução tecnológica global permite-nos a elaboração de metodologias de investigação muito mais acuradas e capazes de reflectir realidades antes apenas supostas, e tornam acessíveis a um maior número de investigadores a possibilidade de descobrirem novas respostas para o número cada vez maior de questões colocadas pela abrangência dos conhecimentos, continuamente produzidos. Se, por exemplo, há vinte anos quiséssemos simplesmente gravar uma sessão experimental qualquer, o aparato técnico necessário seria incomensuravelmente mais dispendioso, de difícil manipulação, envolveria outros especialistas ou técnicos, tornando o próprio ambiente experimental bastante mais limitado e constrangedor.

Todas estas novas abordagens que se descortinam trazem um muito maior leque de opções de pesquisa, e mais concretamente, de um acurado controlo experimental. Com algum humor, LeDoux (2000) observa que durante décadas, a investigação acerca

da emoção pareceria estar "encerrada num caixão", mas que na realidade estaria fechada numa "câmara de congelação".

Este tipo de atitude perante a emoção pode ser compreendido se procurarmos contextualizar a abordagem da Psicologia enquanto ciência, o que data de finais do século XIX mais precisamente na Alemanha (Boring, 1950) com a fundação, no ano de 1879, do Laboratório de Psicologia da Universidade de Leipzig. As preocupações de seu mentor Wilhelm Wundt levaram-no, curiosamente, a investigar nos seus trabalhos de cunho racional e sistemático, aquilo a que chamou sentimentos humanos – amor, afeição, alegria, humor, inveja, paixão – que eram vistos como a combinação de três elementos fundamentais, cada um dos quais descrito segundo dimensões distintas: agrado – desagrado, tensão – relaxamento, excitação – calma. De acordo com Wundt, a variedade dos sentimentos humanos é formada por uma mistura destes três sentimentos fundamentais combinados em graus diferentes (Kendler, 1980). São evidentes as implicações dos factores emocionais nesta abordagem, como ressaltado por Damásio (2000).

Ainda nos finais do século XIX, verificamos o surgimento de teorias que viriam a exercer uma forte influência em toda a ciência a partir de então, e que segundo Damásio (2000) proporcionaram à emoção um lugar privilegiado no discurso científico. São as marcantes obras de Darwin (1872) que abordam a emoção evolutivamente a nível filogenético, estudando sua expressividade em diferentes culturas e diferentes espécies, e considerando-a como herança ancestral, respeitam a sua importância enquanto fenómeno. William James, por sua vez, abordou o problema com clareza, colocando em evidência, numa sequência temporal, o desencadear do processo emocional considerando a representação de um objecto emocional exterior, a percepção do mesmo, a excitação simpática e somática e o comportamento. Siegmund Freud, por seu lado, destaca a importância das emoções e seu embate com a realidade onde se insere o indivíduo, essenciais na formação e inserção deste no ambiente social (Schütz, 1990).

Todavia, como considera Damásio "... teria sido razoável esperar que no início do novo século as ciências do cérebro tivessem incluído a emoção na sua agenda de trabalho, e resolvido os seus problemas. Porém, isto nunca chegou a acontecer. Pior ainda, o trabalho de Darwin foi esquecido, a proposta de James foi injustamente atacada, e a influência de Freud fez-se sentir em outra direcção. Ao longo da maior

parte do século XX, a emoção não foi digna de crédito nos laboratórios. Era demasiado subjectiva, dizia-se. Era demasiado fugidia e vaga. Estava no pólo oposto da Razão, indubitavelmente a mais excelente capacidade humana, e a Razão era encarada como totalmente independente da emoção" (2000, 59).

Segundo este autor, a ciência do século XX reformulou o ponto de vista do Romantismo, que colocava a razão no cérebro e a emoção no corpo. Assim, a emoção encontrou seu lugar no cérebro, porém nas camadas neurais mais baixas, "aquelas que habitualmente se associam com os antepassados que ninguém venera. A emoção não era racional, e estudá-la também não era" (Damásio, 2000, 59).

Também Rorty (1979) nos remete a semelhantes observações, ao notar que a Psicologia Científica teria herdado da Filosofia, que era quem historicamente (até ao século XIX) reflectia sobre os fenómenos mentais, o binómio mente – consciência. Estas não seriam concepções tão permutáveis antes de Descartes introduzir a noção de uma alma omnisciente (a consciência) que não possuía aspectos irreconhecíveis (inconscientes). Se não era reconhecível (disponível ao consciente) não era mental. Assim sendo, fenómenos hoje considerados como mentais (sentimentos, emoções) foram relegados a aspectos físicos por Descartes.

Um outro factor que não deve ser estranho à posição que a emoção e o seu estudo ocuparam durante a maior parte do século XX relaciona-se directamente com a necessidade de afirmação da Psicologia enquanto ciência, como mencionado anteriormente, mas também com a implantação, relativamente recente de cursos específicos de Psicologia nas Universidades, proporcionando a que esta se emancipasse da tutela da Filosofia ou da Medicina, áreas onde mais frequentemente era incluída, ou mais recentemente ainda da área das Letras, Literatura e Educação. Estamos em crer que os próprios elencos disciplinares dos cursos de Psicologia tenham vindo a reflectir em certa medida a sua necessidade de afirmação científica, dando atenção a bases metodológicas, quantitativas, sociológicas, anatómicas, fisiológicas e neurológicas.

A conjugação destes diferentes prismas do estudo do género humano traz à luz, mais recentemente, uma convergência de vários saberes, aos quais se convencionou chamar de "neurociências". Por Neurociência, ou Neurociência Cognitiva como precisa Damásio, entende-se que "desde que há mais de um século os neurologistas Paul Broca e Karl Wernicke descobriram uma relação entre a linguagem e determinadas regiões do

hemisfério cerebral esquerdo (...) o poder de triangulação da mente, comportamento e cérebro tornou-se evidente (...) Esta triangulação tem permitido uma evolução bastante feliz: os universos tradicionais da filosofia e da psicologia têm-se aproximado gradualmente do universo da Biologia e criado uma estranha mas produtiva aliança. Por exemplo, através do grupo de abordagens científicas actualmente conhecido por neurociências cognitivas, esta aliança tem permitido novos progressos na compreensão da visão, da memória e da linguagem. É de esperar que esta aliança possa igualmente vir a permitir a compreensão da consciência" (2000, 32).

A naturalidade com que nos últimos (poucos) anos a temática relacionada com a emoção tem sido colocada em evidência é consequência das abordagens vindas tanto das ciências cognitivas como da Neurociência, que têm convergido decididamente para seu estudo e investigação. Afirmando que a suposta oposição entre a emoção e a razão deixou de ser aceite automaticamente, Damásio cita a evidência demonstrada nos trabalhos concretizados em seu laboratório, de que "a emoção faz parte integrante dos processos de raciocínio e tomada de decisão, para o melhor e para o pior" (1995, 202).

Uma outra linha de investigação reporta-se ao contexto da Psicossociologia e tem a ver com o conceito de Inteligência Emocional popularizado por Goleman (1999) na obra do mesmo título de 1996. O trabalho de Goleman fornece um modelo bastante em voga nas áreas científicas ligadas à socialização, motivação, e as suas aplicações a nível institucional (escolas, empresas, etc.) confere-lhe grande notoriedade.

A abordagem da emoção enquanto processo relacionado com a inteligência veio modificar radicalmente a noção desta última, uma vez que tradicionalmente o conceito de inteligência era limitado a qualidades distintas mas complementares da inteligência académica, as capacidades puramente cognitivas medidas pelo Quociente de Inteligência (Goleman, 1999).

A diferenciação do conceito de inteligência foi fundamentada a partir do trabalho de Gardner (1993) que apresenta o modelo de Inteligência Múltipla. Este modelo considera sete tipos diferentes de inteligência, abrangendo não apenas as capacidades matemáticas e verbais tradicionalmente avaliadas, mas ainda aptidões sociais e o conhecimento do mundo interior.

As origens da intersecção emoção/inteligência foram, segundo Goleman (1999) propostas ainda nos finais dos anos 80 por Reuven Bar-On, em Israel e em 1990 por

Peter Salomy e John Mayor da Universidade de Yale, EUA. Deste embasamento, deriva o modelo proposto por Goleman, com a preocupação de mais adequadamente compreender como esses talentos (competências emocionais e sociais) se manifestam na vida laboral (Goleman, 1999).

A grande divulgação e consequente popularidade do trabalho de Daniel Goleman encontra-se relacionada à aplicabilidade da sua abordagem no mundo laboral e ao facto de ser uma postura claramente voltada para a maximização da produtividade, se bem que centrada no ser humano e no aproveitamento do seu potencial. Assim sendo, e ainda que lidando com temas relativamente familiares no âmbito da Psicologia Social, como a dinâmica e o exercício de papéis em grupos, a liderança, a motivação, a auto- confiança, o auto-domínio, a capacidade de comunicação, a flexibilidade à mudança, introduz no seu enquadramento o factor emoção, centrando neste todo o desenvolvimento e aplicabilidade daqueles temas.

O facto da Inteligência Emocional ter uma aplicabilidade bastante alargada e directamente relacionada às organizações, configurando-se numa postura que lida com situações bastante valorizadas do comportamento humano no contexto laboral, proporcionam a sua alargada divulgação e contribui decisivamente para que a temática relacionada às emoções passasse a ser muitíssimo mais divulgada e os trabalhos que exploram a vertente emocional pudessem ser vistos com maior frequência.

Os recentes desenvolvimentos das ciências cognitivas, da Biologia e de técnicas de exame imagiológico têm fornecido elementos importantes para a compreensão do funcionamento das estruturas cerebrais envolvidas no processamento emocional, porém como é salientado por Plutchik "identifying the structures of the brain related to emotion is not a theory of emotion, nor can such a theory be built from a knowledge of the chemicals involved in mood states, just as an adequate theory of depression can not be constructed simply from a knowledge of the availability of serotonin" (2001, 344). A este propósito também Damásio (1995) lembra que a recente acumulação de dados não é suficiente para a compreensão de um fenómeno, tornando-se necessário encontrar novos caminhos para a conceptualização de um problema.

1.2. A EMOÇÃO E O SEU SIGNIFICADO – ALGUNS MODELOS DE