Foto 31 e 32: Cleonice e amiga em Santo Amaro, Praia Azul, 11-2-1940. Dimensões: 6 x 9 cm.
No verão de 1940, Cleonice vai a Santo Amaro na Praia Azul e na Riviera Paulista (fotos 31 e 32). A pose diante do carro demonstra que as moças e a pessoa que as fotografou chegaram ao destino de automóvel. Sabemos que até os anos 1930 somente as elites fazendeiras possuíam carros e que a partir de 1940, uma classe média alta também passou a adquiri-los (INOUE, 2011: 175). Cleonice, portanto, mantinha vínculos sociais com gente abastada.
Cinco anos antes da captação de tais imagens, o Jornal O Estado de S. Paulo publicava um anúncio sobre a “Auto-Estrada29” que levava à Represa de Santo Amaro. Na margem da estrada, os terrenos postos à venda podiam ser admirados e/ou adquiridos. Informava o jornal: “Vende-se 7 alqueires mais ou menos 400 metros de
29 S/A Auto-estradas era o nome de uma empresa fundada em 1929 “que ambicionava implementar
lucrativos negócios imobiliários na região e construiu uma estrada de rodagem que interligava São Paulo
frente à represa lugar de grande futuro em frente à praia Azul, com barco. 50 contos. Mais informações largo de S. Efigênia30, 15 – tel. 4 – 2472,” (O Estado de S. Paulo, apud JORGE, 2006: 130). Este foi um dos poucos dados que encontrei sobre a localidade; embora breves, as informações são relevantes para compreender como Santo Amaro começou em meados da primeira metade do século XX a transformar-se em polo de diversão para os moradores da capital. Até 1934, era um município com autonomia administrativa; em 1935, foi anexado à capital, tornando-se mais um bairro paulistano. Seu desenvolvimento ocorreu de modo semelhante a outros lugares que passaram a manter comunicação cada vez mais intensa com a cidade de São Paulo, a partir de fins do século XIX. Esse contato entre os arredores e a capital constituiu-se em fator determinante para o progresso de bairros inteiros e, como mostrarei nos próximos capítulos, modelou novos destinos recreativos como o litoral e o campo.
O enriquecimento da cidade de São Paulo causa impacto no seu entorno, transformando suas funções originais, como no caso de Santo Amaro que, até meados do século XIX, fornecia gêneros alimentícios, madeiras, carvão e pedra de cantaria31 à capital (RIBEIRO, 2002:58). Todavia, tal comunicação não se faz aleatoriamente, ela vem acompanhada da circulação de produtos, coisas, símbolos e pessoas. Em 14/3/1886, é inaugurada a ferrovia que ligava Santo Amaro à capital e, mais tarde, o trecho é adquirido pela firma Light and Power em 1900. Se a ferrovia é o símbolo mais eloquente da modernidade do período, instrumento útil à circulação, é possível dizer o mesmo em relação à fotografia: ela colocou em circulação a variedade e a diversidade do mundo visível (KOSSOY 2010; ROUILLÉ 2009; SONTAG 2004; BARBUY 2002; BARTHES, 1984). Lembremos que, em 1913, a linha férrea Santo Amaro-São Paulo é substituída pela Linha de Bonde Elétrico. Já em 1908, a mesma empresa começa as obras da Represa de Guarapiranga para a construção da Usina Hidrelétrica de Paranaíba, modificando assim o nome da então Represa de Santo Amaro.
Em 1930, é fundado o Yacht Club de Santo Amaro32. Nota Janes Jorge como
30
O Estado de S. Paulo, 16/6/1935, p.21.
31 “Por definição, a cantaria é entendida por pedra lavrada ou simplesmente aparelhada em formas
geométricas para construção de edifícios e, em geral, para qualquer construção. As rochas são cortadas
segundo as regras da estereotomia, esta definida como “a arte de dividir e cortar com rigor os materiais de construção”, a fim de serem aplicadas às diferentes partes do edifício, como constituição das paredes,
etc”. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br/emfoco/emfoco.asp?id=8901. Acesso em 23/5/2012.
32 No site do Instituto Hans Staden é apresentada uma exposição virtual com 30 fotos sobre São Paulo
produzidas entre 1883 e 1960. Entre as imagens há uma fotografia da antiga Represa de Santo Amaro. Disponível em: http://www.martiusstaden.org.br/Events/MemoriasDeSP.aspx acesso em 24/01/2012.
Santo Amaro (e a represa), comparativamente ao Clube de Regatas Tietê, por serem afastadas das áreas mais populosas da cidade, mantinham moradores pobres e proletários à distância. Diz ele: “Sintomaticamente, a região acolheria clubes de iatismo, mas não de remo” (2006: 129). A represa tornara-se local de recreação e passeio, constituindo-se um lugar da moda. Ainda que a zona já fosse valorizada em meados da década de 1910, de acordo com Langenbuch: “Varias chácaras recreativas, ostentando belas vivendas, passaram a perfilar às margens da represa de Guarapiranga. Um trecho de sua margem ocidental foi pretensiosamente denominado Riviera Paulista” (1971: 163).
Ora, Cleonice, sua amiga anônima e o fotógrafo puderam circular tanto na Praia Azul quanto na Riviera, levados por um automóvel, importante objeto de distinção e diferenciação social (foto 31). O veleiro que aparece na foto 32 é um símbolo do tipo de lazer ali oferecido. Aqueles que para lá se dirigiam (muitos de bonde elétrico) buscavam a contemplação da natureza, o descanso para fazer piquenique e praticar esportes náuticos (idem: 129).
Nas fotos 33 e 34, é possível visualizar a aparência concreta destes lugares. Na primeira, vê-se a ponte que leva ao imenso lago (que não é o mesmo onde o veleiro da foto 31 descansa). A verticalidade da vela contra o fundo excessivamente iluminado e pastoso ressalta manchas distantes, que são as montanhas, permitindo identificar a linha do horizonte que, se não aparecesse na foto, causaria a sensação de desorientação completa33. Como na foto 31, há aí o veículo, que cumpre o papel de dar mobilidade; já o veleiro figura como um artefato, cuja presença caracteriza o lugar onde essa prática esportiva tinha especial apelo. A foto 33 aproxima o fotógrafo das moças e, caso não houvesse qualquer identificação, seria possível confundir a Praia Azul com o trecho em que estão: a Riviera.
33Cf. Rubens Fernandes Júnior no texto sobre a exposição “Pittoresco” do fotógrafo Antonio Saggese no
Foto 33: Cleonice e amiga anônima em Santo Amaro, Riviera, 11-2-1940. Dimensões: 6 x 9 cm.
O fato de haver em ambas as imagens uma ponte poderia levar a esta confusão, desfeita, porém, quando se observa que a ponte da foto 33 apresenta padrão geométrico diferente do detalhe 32. Observemos:
Detalhe 31 a: ponte.
Observemos ainda que Santo Amaro, como Cleonice conheceu, nada tinha a ver com a “Colônia Velha” localizada a 35 quilômetros de Santo Amaro formada em 1827- 28 e que rapidamente entrou em decadência (RIBEIRO, 2002: 75).
Porém, este não é o único grupo que se instalou na região; houve aqueles que, ao chegarem, percebendo as difíceis condições, trataram de fixar-se como sitiantes no sertão de Santo Amaro, uma vasta área que começava na região da Capela do Socorro e
estendia-se até o alto da Serra do Mar nos limites com São Vicente e Itanhaém. A foto 34, apesar de oferecer somente um fragmento de paisagem ao fundo permite ter uma noção da extensão dessa área em 1941.
As palmeiras evocam o ambiente litorâneo, e a água à distância assinala os limites com o mar. Conforme Janes Jorge, o município de Santo Amaro, na primeira década do século XX, era “cercado de matas e praias”, características que tornaram a região um “ponto turístico” apreciado pelos paulistanos (JORGE, 2006: 129).
Foto 34: Cleonice na Praia Azul em 13/7/41. Ampliação das dimensões originais: 6 x 9 cm. Papelaria Léo. Papel Agfa Lupex.
Para termos uma ideia mais clara das atrações oferecidas pela região, olhemos para Isto é São Paulo - 96 flagrantes da capital34, lançado em 1951 pelas Edições Melhoramentos. Trata-se de um volume ricamente ilustrado com fotografias de Alice Bril, Francisco Schlater, Léon Liberman, Max Wirth, entre outros. A legenda de uma das imagens expostas nesta publicação informa: “Buscando descanso do estafante trabalho diuturno, o paulistano passa o fim de semana nos pitorescos arredores montanhosos... e no ambiente bucólico da região lacustre de Santo Amaro” (MELHORAMENTOS: 1951:70). Tais palavras indicam que, ainda na década 1950, a região era procurada pelos paulistanos, que para lá acorriam em busca da paisagem
34
A propósito deste álbum e da produção de álbuns fotográficos sobre a cidade de São Paulo editados pela Editora Melhoramentos, ver CARVALHO & LIMA (1997: 22-27).
bucólica e do ambiente peculiar. Paralelamente a essa fuga para os arredores nos fins de semana, que se intensificará ao longo dos anos 40, ocorria um novo surto de remodelação urbana na região central, no qual edifícios e casas residenciais ou comerciais do período colonial, do século XIX e primeiras décadas do século XX, estavam vindo abaixo em nome do progresso da cidade35.
Cleonice muda com essa nova cidade: começa a trabalhar e a ter uma atividade profissional que lhe possibilitará manter e desenvolver novas relações de amizade, garantindo passeios, agora não apenas com membros de sua família (como o irmão ou os primos), mas também com colegas do trabalho.