A Indústria e Comércio Arno Gärtner (ICAG) foi fundada em 1939, como uma empresa individual de propriedade de Arno Gärtner, desenvolvendo atividades de mecânica e retífica de caminhões. A retífica Arno Gärtner (AG), segundo Koerich (2006), foi uma das primeiras
instaladas no Estado de Santa Catarina e grandes empresas eram suas clientes62. Em 1945, a
empresa foi alterada para Ltda, com participação de dois outros sócios, mantendo-se o controle acionário com o sócio fundador. Em 1947, a ICAG passou a ser acionista de outras empresas,
entre elas a DICAVE e a VOLVO de Itajaí __ primeira distribuidora Volvo em Santa Catarina __,
62 Entre elas: a Companhia Hansen através da Rodotigre, a DVA, agencia Mercedes em Florianópolis, essa última,
ambas ligadas à empresa distribuidora de veículos Gärtner, levando, mais uma vez, o sobrenome do fundador.
Se, nas décadas anteriores, a ICAG estava bem situada no mercado em todos os seus ramos de negócios, no final da década de 1980, começou ter problemas no ramo de mecânica de automóveis e no ramo de retífica de motores a diesel, agravando-se no final da década de 1990. Foi quando a ICAG encerrou suas atividades no ramo de prestação de serviço e continua
existindo como holding63, denominada de Indústria e Comércio Arno Gärtner,fortalecendo as
atividades de consórcio e revenda de caminhões e automóveis.
Quanto ao ramo de mecânica, segundo Koerich64 (2006), eram muitas as pequenas
oficinas oferecendo o mesmo serviço e com um custo de pessoal trabalhador mais baixo. Em geral, eram trabalhadores autônomos prestando o serviço de oficina. Além do mais, o local de sua sede passou a ser problemático para sua atividade, instalada que era no centro da cidade de Blumenau, dificultando, principalmente, o acesso de caminhões para retífica.
Com o desenvolvimento urbano da cidade de Blumenau, desde a fundação da ICAG, a empresa passou a estar instalada em local considerado inapropriado, sua sede estava localizada em ruas centrais do município, dificultando o tráfico de caminhões e nos finais da década de 1990, a legislação local passou a proibir o transito de caminhões pesados em tais ruas.
Mas, a mudança da sede poderia ser facilmente resolvida e a empresa continuar oferecendo o serviço em outro local fora do centro urbano; contudo, a rentabilidade já não era atrativa para os proprietários da empresa. Diante de tais dificuldades, de acordo com Koerich (2006), a diretoria da ICAG decidiu encerrar as atividades do ramo mecânico. No entanto, por determinação do proprietário fundador, Arno Gärtner, não poderiam simplesmente fechar o setor da oficina mecânica e demitir todos os seus empregados.
A alternativa encontrada, pelos patrões, foi a organização de uma cooperativa de trabalho formada por empregados da oficina mecânica Arno Gärtner, evitando a demissão de um grupo de, aproximadamente, 20 mecânicos, o que resultaria num gasto bem elevado, considerando as indenizações, fundos de garantia, etc.. Então, o primeiro evento no processo de cessamento das atividades dos ramos de mecânica e retífica da ICAG foi o encerramento do setor de oficina
mecânica e a organização de uma oficina mecânica, denominada cooperativa de Mecânicos65
63 A empresa proprietária holding se chama Arno Gärtner Participações Ltda, pertencente à família de Arno Gärtner,
com 92% das ações, pertencendo os outros 8% a outras pessoas. Essa empresa tem loja de venda de veículos: a DICAVE – Gärtner Distribuidora Catarinense de veículos VOLVO –, localizada nas cidades catarinenses de Itajaí, Içara, Chapecó, Concórdia, Lages, Videira e Araguari.
64 KOERICH, J.C, era diretor da ICAG e genro do proprietário fundador.
65 Os empregados que vieram a integrar a “cooperativa” fizeram registro como autônomo na Prefeitura do município
de Blumenau e passaram a receber pelas horas efetivamente trabalhadas, e assim não mais figuravam como assalariados da ICAG. Deste modo, o trabalhador associado se tivesse trabalhado ganharia rendimentos, caso
(Coopermec), de propriedade de um coletivo de ex-empregados que atuavam no setor mecânico da ICAG.
A opção dos patrões foi pela organização de cooperativa para prestar serviços de mecânica, funcionando, durante os dois primeiros anos, no interior do prédio da empresa Arno Gärtner. Neste período, essa cooperativa não estava formalmente registrada. Inclusive, as notas ao consumidor, pelo serviço prestado, eram tiradas em nome da ICAG. Na realidade, era uma agregação de trabalhadores atuando no serviço de mecânica num mesmo local e com os mesmos instrumentos de trabalho. Esse grupo de trabalhadores mecânicos dividia os ganhos obtidos pelo serviço de mão-de-obra mecânica entre os associados. Contudo, isso só vinha a ocorrer após o repasse de comissão à ICAG pelas peças utilizadas no conserto mecânico. Ou seja, no interior da sede da empresa AG, passou a funcionar uma oficina mecânica, formada com a união de trabalhadores autônomos e, por serem ex-empregados da ICAG, nada pagavam de aluguel pelo uso do local. Foi, pois, uma cessão de uso. Por outro lado, as peças para os consertos de mecânica eram compradas na loja da ex-empresa empregadora, ficando, então, para a ICAG, o lucro obtido pela venda das peças e para os trabalhadores, o pagamento pelo serviço de consertos realizados.
A desconstrução da relação patrão/empregado foi pensada e praticada, na década de 1990,
por alguns empresários em todo o Brasil. Foi o período do boom das terceirizações66, ou até
contrário não. Este trabalhador autônomo passou a recolher sua própria previdência e não mais teria acesso aos direitos trabalhistas. Na visão da diretoria da ICAG, sem os encargos dos custos indiretos, os trabalhadores, através da cooperativa, poderiam cobrar bem menos pelo serviço prestado, o que os tornaria competitivos. Em 1992, essa cooperativa foi formalmente transformada em cooperativa, com o nome de União Cooperativada de Mecânicos - Coopermec, organizada, com estatuto reconhecido na junta comercial. Mas, nem todos os empregados da oficina Gärtner aceitaram se associar a União cooperativa, preferiram ser simplesmente indenizados; na oficina tinham aproximadamente 21 empregados e, somente, 17 se tornaram associados, para atender o mínimo exigido pela Legislação, outras pessoas, não necessariamente ex-empregados da ICAG, se integraram a cooperativa. Decorridos os dois anos iniciais, a Coopermec foi transferida para um imóvel na BR 470, o qual foi comprado com recursos das sobras acumuladas no período. A mudança do local da sede veio facilitar o acesso de caminhões na oficina. A Coopermec, segundo o ex-presidente, (KOGLIN, 2006), da cooperativa, foi constituída com grandes diferenças entre os valores das cotas/parte de cada associado e isso provocava discórdias porque as divisões das retiradas individuais mensais eram determinadas pelo valor de cotas- partes de cada um. Essas diferenças entre os cooperados os levaram a desmembrarem a cooperativa em três micro-empresas, embora continuassem todos a trabalhar no mesmo local, apenas as receitas eram diferenciadas. Em decorrência destas desavenças internas e multa por não pagamento de impostos, a União Cooperativada de Mecânicos deixou de existir, encerrando, totalmente, suas atividades em 2004.
66 A terceirização caracteriza-se pela contratação do trabalho de uma segunda empresa ou organização de trabalho
que desenvolverá um serviço fora ou no próprio local da indústria contratante, sem a presença de relações empregatícias. Estas organizações de trabalho até podem ter o formato de cooperativas, as quais permitem a contratação de um trabalho sem a presença de vínculo empregatício, podendo, assim, mediar relações contratuais e flexibilizar as relações de trabalho, mas não era o caso da Coopermec. O serviço prestado pela União Cooperativada de Mecânicos era prestado diretamente ao consumidor e não para a ICAG. Portanto, não se constituía como uma empresa prestadora de serviço para a ICAG, mas a ICAG continuava a prestar o serviço a sua clientela e ainda obtinha lucro com a venda das peças utilizadas no serviço mecânico da cooperativa. Assim, não era uma empresa terceirizada, mas, sem dúvida, a ICAG eximia-se de qualquer responsabilidade para com os
mesmo, da utilização de falsas cooperativas67 para isenção do custo com a mão-de-obra do trabalhador, aumentando ainda mais a exploração do trabalho. Através desse tipo de relação, o patrão estava repassando para a classe-que-vive-do-trabalho todo o custo social de sua mão-de-
obra, uma forma ainda mais perversa de extração de mais-valia e, ao que parece, a Coopermec68,
enquanto atuava nas instalações da ICAG, tinha características de falsa cooperativa.
Passados cinco anos da extinção do ramo de mecânica de veículos dos negócios da ICAG, chegava o momento da finalização do ramo de retífica de motores a diesel.
Igualmente ao ocorrido com a oficina mecânica, a ICAG também não poderia continuar com uma retífica no centro da cidade de Blumenau, cujo acesso apresentava dificuldades. Além do mais, segundo Koerich (2006), os proprietários da ICAG consideravam financeiramente pouco compensador, pelo tipo de atividade desenvolvida, manter um imóvel supervalorizado e grande demais para a atividade de retífica. Por isso, a melhor opção foi transferir o local da retífica e, naquele momento, chegaram a alugar um imóvel junto à BR 470 para onde seria transferida a retífica Gärtner. O acesso à retífica ficaria facilitado, terminaria o problema decorrente do impedimento de tráfico de caminhões no centro da cidade e ainda aproveitariam o imóvel próprio para ampliação da atividade de comércio de carros e automóveis. E no novo local, a clientela da retífica tinha acesso facilitado não só para os clientes de Blumenau, pois ela recebia também clientes de outros municípios.
Apesar da credibilidade da retífica AG, junto ao mercado, pelos seus equipamentos e pela qualidade de mão-obra e com as possíveis soluções delineadas, a diretoria da ICAG optou por não mais manter sua retífica para além do século XX. Segundo Koerich (2006), a empresa de retífica não era significativa para o acúmulo de capital. Havia chegado no limite de sua lucratividade e, por isso, os empresários não tinham mais interesse em mantê-la. A decisão tomada foi pelo fechamento das atividades de mecânica e retífica fortalecendo as atividades de consórcio e revenda de caminhões e automóveis. Mesmo não sendo conseqüência de um processo de falência,
a ICAG fechou dois dos seus ramos de atividade69 e os trabalhadores foram demitidos e
67 Apesar do cooperativismo, nos anos de 1800, ter surgido dentro do campo político socialista, com o tempo ele foi
se distanciando das propostas e princípios de seus precursores e se tornando cada vez mais aliado aos propósitos capitalistas. As falsas cooperativas não preservam os princípios fundantes do cooperativismo: democracia, autonomia e cooperação. São pessoas que trabalham subjugadas aos “donos” da cooperativa. Já o novo cooperativismo busca aglutinar os trabalhadores, de forma cooperada e solidária, para produzir e gerar no e para o coletivo de produtores, sem a presença do trabalho assalariado.
68 Não é nosso objetivo fazer estudo desta cooperativa, contudo, ela faz parte do contexto da Cooperativa de Retífica
de Motores a Diesel, unidade esta contemplada em nossa amostra.
69 As empresas regidas sob o modelo fordista tendem para a verticalização de suas atividades e, com a adoção do
modelo de produção toyotista, elas procuram desconcentrar da empresa as atividades não diretamente relacionadas a sua atividade fim; disto veio a ampliação do setor de prestação de serviços. E também a ICAG acompanha essa nova tendência e concentra suas atividades no ramo do comércio. Parece contraditório ela encerrar suas atividades no ramo da prestação de serviços exatamente no momento que este ramo da economia toma fôlego. Mas, nesse
indenizados. No entanto, nem todo o grupo de demitidos ficou imediatamente sem alternativa de renda. Entre eles, houve aqueles que preferiram constituir uma cooperativa. Desse modo, o fato de os patrões quererem se desfazer de parte de seu capital variável e de seu capital constante foi determinante para vir a existir outra cooperativa de ex-empregados da ICAG.
Segundo os entrevistados, Koerich (2006), Koglin70 (2006) e Gaulke71 (2006), mais uma
vez, o proprietário Arno Gärtner não quis, simplesmente, fechar um ramo de atividades de sua empresa, vender o maquinário e demitir seus empregados, entre os quais havia aqueles com mais de 20 anos de trabalho para a ICAG. Muito embora, conforme Koerich (2006), se dependesse de alguns diretores (inclusive ele), o maquinário seria vendido, os empregados indenizados e a retífica AG fecharia suas portas. De fato, a retífica Arno Gärtner fechou as portas e este evento resultou na constituição de outra cooperativa: a Cooperativa de Retífica de motores a diesel – Reticooper –, fundada em março de 1997.
Os trabalhadores da Cooperativa de Retífica de Motores a Diesel (Reticooper), conforme apresentamos no capítulo anterior, tiveram uma trajetória ocupacional regular, com constante presença do emprego formal e, ao longo da trajetória, mudaram de emprego com o objetivo de aumento em seus rendimentos. Quando fizeram a opção por montar uma cooperativa, a perspectiva de trabalho ou emprego em Blumenau não era das melhores; contudo, segundo os cooperados, o ponto determinante foi acreditarem na possibilidade de trabalho e renda sem mais dependerem da venda da força de trabalho. De fato, porém, o mercado de trabalho não se mostrava com grandes facilidades de emprego. Na época, Blumenau tinha um índice de desemprego, considerando-se o número de admitidos e demitidos, próximo aos 10% da população ativa. E as demissões ocorriam em todos os ramos da economia (SIMÃO, 2000).
Quando a Arno Gärtner fechou, para não ficarmos desempregados, achamos viável montar a cooperativa. Ser empregado não é ruim porque tem todos os direitos trabalhistas, mas ser cooperado também é uma boa; não tem um cara em cima de ti o tempo todo cobrando produção (VIGUERANI72, 2006).
período, houve mudanças em todo o setor automobilístico: montadoras de automóveis vieram a desconcentrar suas empresas dos grandes centros urbanos e, apoiadas na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo, passaram a montar suas empresas também em cidades do interior do país. Não podemos dizer que este novo comportamento das montadoras tenha determinado o fechamento dos ramos de mecânica e de retífica da ICAG, mas, com a flexibilização e automação da produção e rompimento das fronteiras de mercado, o consumo de automóveis ficou facilitado. Com o aumento do consumo de automóveis e o crescente desemprego decorrente deste novo modelo de produção, muitos foram os trabalhadores que buscaram na prestação de serviço uma alternativa de renda. É bem provável que essa conjuntura tenha influenciado no surgimento de novas oficinas mecânicas (não retíficas), aumentando a oferta deste tipo de serviço e, conseqüentemente, maior concorrência entre aqueles que prestavam este tipo de serviço ao consumidor, e, logicamente, quem tinha um serviço de qualidade e de baixo custo tinha maior número de clientes. E ICAG, com sua estrutura pesada, estava em desvantagem em relação às novas e pequenas oficinas de mecânica.
70 Ex-Presidente de fato da Reticooper.
O nosso objetivo, quando montamos a cooperativa, era crescer (brincadeira). Não dá para ficar rico, eu vejo a cooperativa como alternativa ao desemprego; ninguém ficou desempregado. Eu já era aposentado, mas olha lá quantas famílias dependem da