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Calypso-éros à la lumière de la philosophie

B. Calypso et l’éros multiple

2. Calypso et l’ Éros de Diotime 646

2.1. Le désir est manque

No seguimento da distinção que foi discutida na secção anterior e das questões colocadas em torno da estrutura do bem-estar, referimos a associação da abordagem hedónica ao chamado bem-estar subjetivo e a utilização, muitas vezes indiferenciada, que se faz dos conceitos bem-estar subjetivo e felicidade.23 Por definição, o bem-estar subjetivo é entendido como a avaliação afetiva e cognitiva que fazemos da vida, cujas dimensões fundamentais são afeto positivo e negativo (no original, PA e NA, respetivamente) e a satisfação com a vida (Diener, 1984). A existência destas duas componentes tem reunido algum consenso sendo que, no final, são referidas três componentes fundamentais do bem-estar subjetivo (BES), a saber, satisfação de vida, níveis elevados de afeto positivo e níveis de afeto negativo baixos (Bradburn, 1969; Diener, 1984; Diener, Suh, Lucas, & Smith, 1999). A satisfação com a vida parece ser a componente mais estável ao longo do tempo e os traços de personalidade, extroversão e neuroticismo como um dos melhores preditores do BES (Diener et al., 1999). Apesar de alguns autores referirem a influência de aspetos como as variáveis sociodemográficas, de rendimento, entre outras, é um facto que a personalidade é aquela variável a que mais referência se faz quando falamos do bem- estar subjetivo (e.g., Barros, 2010), e que permite ajudar a compreender o porquê de pessoas nas mesmas circunstâncias expressarem níveis de felicidade diferentes.

23 A propósito da definição a felicidade e do bem-estar subjetivo, Barros (2010) sintetiza os principais “(...)

tipos de modelos na conceptualização do bem-estar subjetivo: 1) modelos de personalidade (...), que concebem a felicidade como um traço estável dependente primariamente da personalidade e por isso com pouca variação ao longo dos anos; 2) modelos dos acontecimentos de vida (...), que defendem o peso essencial dos diversos acontecimentos da vida e que podem fazer variar muito o nível de felicidade, se bem que tais acontecimentos positivos ou negativos sejam de algum modo controlados pela personalidade (...); 3) modelos adaptativos (...) defendendo que a pessoa se adapta rapidamente aos diversos acontecimentos de modo que pouca influência acabam por exercer." (p. 125)

Diener (1984) foi o grande impulsionador da investigação e divulgação desta abordagem, promovendo, juntamente com os seus colaboradores, alguns dos estudos mais referenciados sobre os fatores implicados no bem-estar. Depois dele, ou na sua colaboração, têm surgido dados de outras investigações que visam identificar e analisar as condições que levam a que algumas pessoas sejam mais felizes do que outras ou a sugerir formas de intervenção ou de promoção da felicidade. Um desses autores é Lyubormisky (Layous & Lyubomirsky, 2014), que tem um vasto conjunto de publicações sobre a felicidade dedicado às questões conceptuais, mas também operacionais ou de intervenção. A autora apresenta um leque de evidências em prol dos efeitos benéficos da felicidade (e.g., Jacobs & Lyubomirsky, 2013), como antes dela Diener et al. (1999) haviam indiciado, nomeadamente a nível do sucesso em vários domínios da vida, uma vez que a experiência de afeto positivo (que integra a felicidade) leva a que tendencialmente adotemos uma postura de aproximação (versus evitamento) relativamente aos outros e às situações, potenciando o desenvolvimento de recursos e competências.

No contexto português, os estudos de Albuquerque, de Lima, Matos e Figueiredo (2012), em torno do bem-estar subjetivo, da personalidade e também dos objetivos pessoais vêm reforçar a influência da personalidade no bem-estar subjetivo (nas suas três componentes, afeto positivo, afeto negativo e satisfação com a vida), nomeadamente no caso do neuroticismo, da extroversão e da conscienciosidade, por um lado, e dar apoio à multidimensionalidade do constructo e à relação entre as mesmas três componentes, por outro, ainda que independentes.

O nível de bem-estar percebido resulta, assim, do modo como o indivíduo se avalia (subjetivamente, portanto) relativamente àqueles indicadores, que habitualmente se encontram moderadamente correlacionados. Assim, o bem-estar ou a felicidade decorre, essencialmente, da ocorrência/perceção de afeto positivo e da ausência de afeto negativo (Ryan et al., 2008). Note-se, no entanto, que esta ausência dos aspetos negativos terá de ser olhada a partir da nossa matriz ocidental, pois que para outras culturas e religiões (e.g., culturas não ocidentais, filosofias como o budismo) o sofrimento constituiu uma fonte de desenvolvimento e crescimento pessoais. Bem sabemos que o entendimento do crescimento pessoal está associado ao bem-estar psicológico, mas a reflexão que os autores fazem vai para lá, porque a montante, da dicotomização dos tipos de bem-estar que, habitualmente, é feita.

Das condições para as consequências, encontramos autores que identificaram alguns dos efeitos da felicidade em dimensões relevantes da vida dos sujeitos, avançando com a possibilidade da bidirecionalidade na relação entre as origens e os resultados

da felicidade. Se é razoável considerar que determinados aspetos/dimensões da nossa vida ou traços de personalidade facilitam a predominância de um dado tipo de humor, também o é admitir o retorno positivo que a felicidade tem em áreas como a saúde (indicadores fisiológicos e psicológicos) ou a produtividade. Mais especificamente, o impacto das emoções positivas, dimensão em que a felicidade é aqui entendida, faz-se sentir diretamente com evidências de que as pessoas mais felizes são, igualmente, mais propensas a relações interpessoais significativas de qualidade e, em sentido geral, são mais sociáveis e "contagiantes" na sua felicidade, e indiretamente, pelo efeito que as emoções positivas parecem ter na capacidade

cognitiva e na estimulação de comportamentos potencialmente mais

eficientes/produtivos (e.g., de cooperação, motivação, etc.) (Boehm & Lyubormisky, 2009) ou na resiliência e satisfação com a vida (Cohn, Fredrickson, Brown, Mikels, & Conway, 2009).

É relativamente consensual que a felicidade acarreta um conjunto de aspetos positivos, facilitando o funcionamento cognitivo flexível e criativo, ou a concretização de relações significativas e de objetivos importantes para os indivíduos. Não obstante, uma questão se coloca sobre a existência de limites para estes efeitos positivos da felicidade. Haverá tal coisa como "felicidade a mais"? Aparentemente sim, ou, dito de outro modo, como uma boa parte das questões em psicologia, a frequência, intensidade ou duração destes estados parecem ser elementos, cautelosamente, considerados na resposta, separando o que é adaptativo ou aquilo que será funcionalmente excessivo.

De facto, a permanência de estados emocionais positivos nem sempre se revestirá de consequências (também elas) positivas, como referem Gruber e colaboradores (2011). A valência desses estados dependerá da valorização ou enquadramento que o contexto faz (grau de adaptação ou adaptabilidade), do nível experienciado pelo sujeito (ao moderado corresponderá um estado ótimo) e do balanceamento que é feito entre as emoções positivas e as negativas, utilizados aqui como indicadores de felicidade. Dos resultados apurados pelos autores, sobressai a ideia de que, quando toca a este tipo de felicidade, a manifestação de níveis muito elevados de emoções positivas e de relativamente ausentes ou diminutos níveis de emoções negativas, poderá ter consequências não desejáveis. Tal é válido em contextos regulares de funcionamento como em contextos clínicos. Situação diferente é o exercício de uma procura da positividade na vida (Catalino, Algoe, & Fredrickson, 2014) ou da saliência desta nas nossas vidas, dado que tal indicador parece ser preditor de componentes do bem-estar, como as emoções positivas, com os indivíduos com este perfil a

experienciarem mais emoções daquele tipo e mais recursos para lidarem com as situações. Ao contrário do que parece estar implícito à posição de Kashdan et al., (2008), que define o bem-estar simplesmente como um estado mental, e em que mais felicidade seria sempre significado de mais bem-estar, aspeto que, como acabámos de ver, nem sempre é um facto. Para Ryan e Huta (2009), críticos da perspetiva de Kashdan sobre o bem-estar (o qual, de resto, devolve a cortesia), o funcionamento saudável da personalidade não é linear, antes tem subjacente uma dinâmica organizativa que decorre da capacidade autorregulatória dos indivíduos, dimensão do funcionamento à qual uma abordagem puramente hedónica parece não dar particular atenção. Ainda assim, autores como Jacobs e Lyubormisky (2013) reconhecem que são as pessoas moderadamente felizes que têm níveis mais elevados em indicadores tradicionais de sucesso, como seja o rendimento, o nível de formação, do que aquelas “mais ou muito felizes”. Uma possível explicação para tal é a de que estas últimas estarão menos motivadas para melhorar a sua situação nesses domínios. É à capacidade mobilizadora do bem-estar subjetivo que Busseri e Sadava (2013) se referem quando o definem como um sistema de “agência”, de promoção de um funcionamento adaptativo. Diener et al. (1999) consideram o bem-estar subjetivo como uma medida da qualidade de vida (do indivíduo, da sociedade), a par dos indicadores económicos e sociais, daí considerar-se que é uma dimensão ou característica necessária, mas não suficiente, para uma “vida boa”. Podemos, por isso mesmo, encontrar diferenças individuais e societais em termos dos níveis de bem-estar subjetivo, uma vez que para ele contribuem desde a personalidade, à genética, passando pela valorização que os contextos fazem às emoções positivas, ou dos valores e objetivos individuais. Daí que à questão da universalidade versus especificidade do BES os autores respondam com um “meio caminho”.

Uma perspetiva que também considera aspetos da personalidade e o afeto positivo, mas que complementa com um outro racional o modo de encarar o bem-estar subjetivo, mais integrativa, é aquela que nos apresenta Lent (2004), cujos estudos que a validam nos dão informação relevante sobre o bem-estar subjetivo em contexto universitário e cujo Modelo de Bem-estar Subjetivo passamos a apresentar.

1.2.6 Os mecanismos sociocognitivos e o Modelo de Bem-estar