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A existência de conflitos entre a empresa e populações rurais e ou tradicionais em sua maioria, existe permanentemente oscilando de forma periódica com maior intensidade sendo latente nos momentos de menor intensidade.

A Aracruz Celulose S.A.(Fibria) é a maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto do mundo, Um empreendimento integrado: plantio do eucalipto, fábrica de celulose e terminal portuário privado. Utiliza somente madeira de eucalipto para produção, preservando áreas de mata nativa de acordo com a legislação. A fábrica incorpora avançados sistemas de tratamento de resíduos, efluentes e emissões, visando ao mínimo impacto ambiental dentro das perspectivas limitadas da produção

de celulose. Tendo a empresa a seu favor o fato da matéria prima ser um recurso renovável.

Com a implantação dos primeiros plantios de eucaliptos (1967) e a fundação da Aracruz florestal em 1972, o Grupo Aracruz não parou de se expandir: em 1978 houve a inauguração da primeira fábrica, ou fábrica A; em 1991, a inauguração da Fábrica B, e, em 2002, a inauguração da Fábrica C, todas localizadas na Unidade Barra do Riacho, no município de Aracruz. Juntas, as três contam com uma capacidade nominal total de 2 milhões de toneladas de celulose. É importante ressaltar que a área onde está instalada as três fábricas do Complexo Paraquímico pertencia ao antigo território habitado pelos índios Tupiniquim, ou mais especificamente, à antiga “aldeia” dos Macacos.(LOUREIRO, 2006, p.100)

A expansão local é acompanhada de alterações no controlo acionário. Em 01 setembro de 2009 a Aracruz Celulose fundiu-se com a VCP tornando-se a maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto. O controle acionário está 35,8% na mão do mercado aberto, BANDES detêm 34,9% e a Votorantim industrial detêm 29,3%.

Suas operações florestais alcançam os estados do Espírito Santo, Bahia e Minas Gerais com aproximadamente 279 000 hectares aos quais acrescentam-se 88 000 hectares provenientes de 3000 produtores rurais nos referidos estados através de um programa de fomento florestal de acordo com informação em site da empresa.

Como complemento a este resumo das sucessivas ampliações no tempo devem ser compreendidas por um processo em que aquilo que é citado como fábrica em realidade corresponde a uma linha de produção, ou melhor, uma máquina de pasta27. Ao assim proceder a empresa mantém as infra-estruturas de escritórios, oficinas de manutenção e outros departamentos que sofrem uma ampliação somente se necessário. A economia de custos em relação à produção fica evidente, ainda mais se considerar a construção de uma fábrica de raiz com todos os departamentos necessários.

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Estes dados são embasados em um longo contato com o mundo da celulose que passam pela minha vida profissional onde se destacam três anos como operário em uma fábrica de papel Inapa situada em Setúbal Portugal, quatro anos como comprador em uma fábrica de Celulose, SOPORCEL, na Figueira da Foz Portugal e no contato Familiar onde meu pai Manuel da Luz Florêncio foi um dos responsáveis pelo arranque de diversas celuloses em Espanha, Portugal e Brasil inclusive no arranque da Aracruz Celulose nos anos setenta tendo eu residido em Coqueiral entre 1977 e 1980.

Ao atingir o patamar de dois milhões de toneladas de celulose/dia, quantidade essa que divididas por 365 dias chegamos a 5479 toneladas de celulose produzidas diariamente. Em termos técnicos pode-se falar que uma tonelada de pasta de papel de eucalipto exige aproximadamente três toneladas de madeira de eucalipto. Atingimos assim uma aproximação de 16438 toneladas de madeira consumidas pela fábrica diáriamente. Essas sucessivas ampliações exigiram uma ampliação da área de monocultura que se faz presente em um espaço cada vez mais distante o que impactou outros espaços, atuais campos de luta social no norte do estado e sul da Bahia notadamente pelas populações quilombolas.

Como concretizações principais no espaço destacam-se as extensas plantações de eucaliptos, os objetos técnicos da fábrica e do porto e a localidade de Coqueiral, acompanhados, do grande crescimento de partes do tecido urbano regional, principalmente das localidades mais favorecidas em função dos investimentos realizados pelo município e particulares. A população municipal cresceu com os muitos migrantes chegados, que, diluíram a outrora dominante presença dos descendentes de italianos, que tinham feito Aracruz a expensas das populações litorâneas mais miscigenadas, centradas como poder político em Santa Cruz.

A presença de uma empresa não personalizada em um vizinho, uma pessoa, se torna o “inimigo” sem rosto (a companhia), facilitou a organização das populações na sua luta pela terra, essa impessoalidade que é a empresa na década de setenta, contrasta com a personalização dos bandos de “jagunços” e outros que pressionavam agressivamente os índios e posseiros para desocuparem as terras de modo a que pudessem ser usadas pela Aracruz Celulose com base na compra, via transferência de propriedade, algumas vezes escusa, ou por algum poderoso local que manipulava a “compra” e a venda para a Aracruz de propriedades locais num processo criminoso de abuso de poder e fraude onde a empresa, se omitia socialmente, usando a sua força econômica e jurídica.

O futuro próximo se apresenta sombrio sob o ponto de vista ecológico. Ampliação portuária, estaleiro multifuncional para aproximadamente 3000 empregos diretos e de mais alguns milhares indiretos em empresas associadas ao estaleiro e ao boom do petróleo. Parte significativa da praia entre Barra do Sahy até ao porto privativo da

FIBRIA desaparecerá engolida pela doca seca e partes dos estaleiros navais, acontecimentos anunciados e tratados adiante na parte final do quarto capítulo. O reforçar da agressão ao ambiente ecológico e humano cresce pondo em causa novos territórios escassos como são o território litorâneo.

3.2 A NATUREZA NO PIRAQUÊ-AÇU: ATRIBUTOS DA GEOGRAFIA FÍSICA

Pretende-se, de acordo com a metodologia, descrever suas particularidades geológicas, biogeográficas assim como se fornecem informações sobre o funcionamento dos ecossistemas estuarinos. É sobre esta base que o homem se instala e com ela vive de modo integrado, pelo menos aquelas populações cujo modo se volta para dentro, para as margens do Piraquê-açu, relacionando-se diretamente com os ecossistemas locais.

Quando se escreve sobre o Piraquê-açu e sua natureza temos que não só caracterizá-lo, como desfazer equívocos que a ele estão associados. Nesta obra, chamamos de Piraquê-açu ao conjunto de dois braços de mar que são chamados popularmente de rio Piraquê-açu e rio Piraquê-mirim. A razão disso é que naturalmente eles formam uma unidade nas suas características físicas, na paisagem natural e nos modos de vida a ele associados. Os processos geológicos que atuam e atuaram nos dois braços são os mesmos.

O braço norte é ligeiramente maior e mais largo, provavelmente mais profundo e em decorrência disso, movimenta maior volume de água salgada e doce, conforme se pode observar pela bacia hidrográfica (mapa 04) que alimenta o braço norte a causa de maior variabilidade nas características químicas da água do estuário, notadamente quando chuvas pesadas caem sobre a sua bacia.

Na atualidade, o que se chama de rio Piraquê-açu e rio Piraquê- mirim é um complexo estuarino amplamente varrido pelas marés que abriga extensos manguezais. Não há rios de água salgada, há estuários de água salobra, o que é o caso. A diferença, em todos os níveis, de um rio para um estuário é enorme. A montante dos dois braços de mar há pequenos rios que alimentam e enriquecem a

biodiversidade do Piraquê-açu. Para o nosso estudo o interesse nesses rios é marginal. O leitor que desconhece o “lugar” de que estamos falando, para esse é importante clareza técnica na escrita. Para o habitante local do “lugar” é vivida a relação com a toponímica, consistindo os territórios referidos lugares com nomes próprios, aceites por todos ou por recortes populacionais que são mais complexos do que chamar de rio a um braço de mar.

Um estuário (aestus, maré), de acordo com a definição de Pritchard (1967) modificada, é uma massa de água costeira semi-cercada que tem uma ligação livre com o mar; deste modo é fortemente influenciada pela ação das marés, e no seu interior, a água do mar mistura-se (e geralmente é possível medir o grau de diluição) com água doce proveniente da drenagem terrestre. São exemplos, as fozes de rios, baías costeiras, sapais e massas de água retidas por línguas de areia. Os estuários podem ser considerados como zonas de transição ou ecótonos, entre os habitats de água doce e marinho, embora muitas de suas mais importantes características físicas e biológicas não sejam de transição, mas sim específicas. (ODUM, 1997, p. 563)

Está-se assim não lidando com o interior, mas sim com a praia, ou melhor, com a dinâmica do estirâncio e sua Geomorfologia peculiar litorânea, não estamos lidando com rio, nem com mar, mas sim com um estuário, que pelas suas características de clima e equilíbrio da mistura de água doce e salgada têm a cobertura vegetal de Manguezal como a mais evidente. Quem acompanhar as margens próximas à boca do estuário verá o gradual desaparecimento do manguezal e a ação cada vez maior das ondas do mar que se somam às marés, ondas essas, não presentes dentro do estuário.

Figura 08: Paisagem “Poluída” Piraquê-açu, Manguezal e Eucaliptal. Fonte: Acervo do autor, Trabalho de Campo (2010)

Local Fotografia Trab. Campo 2010

A poluição visual da monotonia do Eucaliptal empobrece a Paisagem da reserva do Piraquê-açu. O recuo pontual dessas plantações e o retornar da cobertura vegetal natural valorizará o recurso.