‘’Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura...’’ (Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, in ‘’O Guardador de Rebanhos – Poema VII’’, 1914)
Não sou alguém pintada de tons iguais, nunca fui, nunca serei, mas acho que a diferença é o que nos torna únicos, é o que nos carateriza. Como tal, sou o que sou, fruto das minhas vivências e experiências, da minha “bagagem. Sou o que sou não pelo ‘’tamanho da minha altura’’, mas pelas decisões que tomo e pelas opões que faço.
Nascida a 31 de maio de 1996, o meu nome é Ana Mafalda Coelho da Silva e vivo, desde que nasci, em Fiães, Santa Maria da Feira, Aveiro, a 12 km do mar, junto de todos os meus entes queridos.
A minha caminhada ao nível escolar começou na Escola Básica do 1º Ciclo de Gesteira, em São João de Ver. Seguiu-se um novo percurso na EB 2/3 Fernando Pessoa, em Santa Maria da Feira, onde frequentei o 3º Ciclo. De seguida, frequentei a Escola Secundária de Santa Maria da Feira, onde realizei o 3º Ciclo do Ensino Básico. Foi um percurso de constantes mudanças, repleto de múltiplas cores, tendo frequentado e finalizado o ensino secundário no Colégio Internato dos Carvalhos (CIC), instituição que me marcou, designadamente por ter sido aqui que dei o primeiro passo no mundo do Desporto e da Educação Física. Concluí o secundário com média de 19,7 e candidatei-me à FADEUP com uma média de 19,4. Ao longo do secundário, muitos me perguntavam porque não seguia medicina ou outro curso e a minha resposta era sempre a mesma: “o que eu quero é Desporto e Educação Física’’. O apoio da família por esta opção esteve sempre presente e nunca fui pressionada no sentido de escolher outro curso.
Mais do que o meu percurso, é importante refletir sobre cada momento, cada aprendizagem, pois tudo aquilo que vivi até agora contribuiu para me tornar
na pessoa que sou hoje. Tal como advoga Lima et al. (2014), a identidade do professor começa a ser construída desde cedo. Posso dizer, com toda a certeza, que uma das pessoas que mais me marcou, durante todo este processo, foi a minha professora de 1º Ciclo, que me acompanhou a partir dos 6 anos de idade. A sua simplicidade, ternura e calma transformou-me numa pessoa mais ponderada e tranquila, que aprendeu a valorizar as pequenas coisas da vida. Após esta primeira etapa, muitos foram os docentes, de várias áreas e com múltiplas personalidades, que acompanharam e enriqueceram o meu percurso, colocando cor numa tela branca que, gradualmente, começava a ser pintada. Tal como veicula Queirós (2014b), sinto que foram estes mesmos professores que me formaram, sobretudo enquanto pessoa, educando-me em conjunto com a minha família. Porém, o ensino secundário e a licenciatura foram, a meu ver, os momentos que mais se destacaram ao nível do meu desenvolvimento e do meu crescimento para a vida profissional, sobretudo pela vivência com professores de Educação Física e de Ciências do Desporto, funcionando como modelos de referência, tal como indicam Gomes et al. (2014). Nunca esquecerei o Professor Dani que, por querer tanto que a filha fosse como eu, lhe deu o meu nome - Mafalda. Acrescente-se que muitos outros docentes, sobretudo no Colégio Internato dos Carvalhos, desempenharam um papel de destaque na minha formação, desenvolvendo em mim a autonomia, a perseverança e a responsabilidade, competências que são indispensáveis no mundo da docência. Barros et al. (2012) reportam que não existem dúvidas de que a socialização antecipatória se afigura como fulcral para que o futuro profissional de ensino, sendo importante para melhor compreender e intervir no decurso do processo formativo. Não posso esconder que, desde pequenina, soube exatamente o que queria e, deste modo, a minha única opção sempre foi a docência. O caminho tem sido, naturalmente, sinuoso, mas sinto, frequentemente, que o rumo a seguir é este, procurando a competência que me permitirá tornar uma verdadeira profissional. De acordo com Barros et al. (2012), este sentimento de autodeterminação é essencial para a escolha e definição da profissão que queremos ser. A verdade é que sempre fui uma lutadora, uma pessoa que não desiste à mínima adversidade e que não para de tentar. Penso
que esta minha faceta surgiu do desporto e dos valores que surgem imbuídos da sua prática. Tal como mencionam Batista e Pereira (2014), nunca se devem esquecer os professores que acompanharam o percurso dos alunos, incutindo e desenvolvendo múltiplas competências nos mesmos, cumprindo a sua responsabilidade enquanto docentes.
De entre a panóplia de vivências ao longo do percurso, a atividade desportiva foi, em todos os momentos da minha vida, um pedaço de mim. Depois de praticar natação de competição e hip hop, ‘’vivo’’, atualmente, no mundo do Voleibol. Sempre fui uma daquelas raparigas que não vive sem correr, sem saltar e sem uma bola por perto. Nunca vivi fechada dentro de quatro paredes. Sou, sem pensar duas vezes, uma pessoa ativa e apaixonada por tudo o que se relaciona com desporto. Deste modo, é fácil perceber que se torna impossível, para mim, encontrar um ponto na minha história que tenha despoletado a minha paixão pelo desporto, já que, desde que me lembro, que o entendo como parte integrante da minha vida. Além disso e de acordo com Morgan e Hansen (2008), a EF está presente nos doze anos da escolaridade obrigatória, fazendo, desde o primeiro momento, parte do meu dia a dia, Lembro-me de, a par da Matemática, considerar a EF a minha disciplina preferida. Aliás, eu era das poucas crianças que gostava de realizar o Teste de Cooper, o que demonstra o meu gosto pelo exercício físico, em todos os níveis.
Importa mencionar que os vários eventos da minha vida foram propiciando uma continuidade ao nível do mundo do desporto, nomeadamente no Voleibol. Comecei a jogar com 12 anos e aos 14 fui chamada à seleção, sendo este um grande marco na minha carreira enquanto atleta. Com o passar do tempo, foram vários os clubes por onde passei, destacando-se o Castêlo da Maia Ginásio Clube (CMGC), por me ter proporcionado a minha primeira experiência enquanto sénior na primeira divisão do campeonato nacional. Além disso, a partir dos 16 anos, iniciei a minha prática enquanto treinadora. O convite surgiu da parte de uma treinadora que me acompanhava e, desde então, o processo tem sido pleno de aprendizagens e de evolução. Atualmente, sou treinadora do escalão de Infantis Femininas do Sporting Clube de Espinho, tendo sido campeã regional em Janeiro e atingido o sexto lugar no campeonato
nacional, no final da época desportiva. Confesso que este meu papel ligado ao desporto, me permitiu desenvolver múltiplas competências enquanto treinadora, função similar à desempenhada pelos docentes. Tal como mencionam Barros et al. (2012), todas as experiências vividas enquanto treinador/a, atleta e/ou aluno/a influenciam a atuação dos futuros profissionais, fazendo-os acreditar que com esforço o sonho é atingível.
‘’Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.’’ (Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, 1933)
Não sou perfeita, mas todos sabem que a perfeição é utópica. Tenho caraterísticas positivas que me definem e outras não tão boas que fazem parte daquilo que sou. No que concerne a estas forças que devem ser incrementadas, às fraquezas que devem ser diminuídas, às oportunidades que têm de ser aproveitadas e às ameaças que devem ser eliminadas, passo a apresentá-las num esquema pragmático – Quadro 1, como se de uma Análise SWOT (Strengths & Opportunities e Weaknesses & Threats) se tratasse.
Quadro 1 – Análise SWOT da EE
FORÇAS / OPORTUNIDADES
Comunicativa e descontraída Sentir prazer no que faço
Forte capacidade de trabalhar em grupo e de adaptação Perseverante, trabalhadora e empenhada
FRAQUEZAS / AMEAÇAS
Negativa e pessimista Duvidar das minhas capacidades
Medo de fracassar Insegura e pouco confiante Recear a opinião dos outros
iniciei este processo de estágio também tinha consciência que o percurso não seria simples, isto tendo em conta o duplo papel que assumia, o de professora e o de aluna da FADEUP. Não obstante esta dualidade, considerava que o mais importante de tudo seria o percurso que realizaria, sendo fulcral ser capaz de transportar e transformar os conhecimentos aprendidos na escola e na faculdade para as exigências concretas do meu contexto de atuação, adequando-os aos alunos e às necessidades.
O desporto acompanhou as várias etapas da minha vida e, neste momento, o meu tão ambicionado caminho encontra-se, praticamente, concluído, com uma panóplia de conhecimentos, sentimentos, memórias e, claro, experiências. De acordo com Lima et al. (2014), o professor constrói a sua identidade a partir de múltiplas referências, nomeadamente, a história familiar, a trajetória escolar e académica, a inserção cultural na sociedade, as vivências desportivas.... tal como tenho vindo a destacar.
Nos tempos em que vivemos, em que os professores caminham sob areias movediças, a ligação aos princípios, aos valores, aos direitos e aos deveres é fundamental e imprescindível. Segundo Patrício (1993), os valores são intrínsecos à educação, sem os quais o problema educativo não é equacionável ou resolúvel. Isto é, o compromisso educativo não é possível sem valores. A educação é, indubitavelmente, uma poderosa arma de combate aos problemas sociais atuais, possuindo os docentes um papel de destaque na formação integral das gerações futuras.
‘’Ensinar não é transferir conhecimentos. É criar as possibilidades para a sua produção, para a sua construção.’’ (Paulo Freire in Pedagogia da Autonomia, 1997)