Nas minhas caminhadas pelos Festejos Religiosos da Boa Vista do Padre João busquei as questões da comicidade e do riso que estavam subentendidas nas atitudes, nos afazeres, nos objetos, nas falas e no cotidiano. A intenção não foi buscar o que já estava posto, digamos oficialmente, e sim aquilo que está lá, todos veem, sentem, percebem, mas deixam adormecidos.
Foi nesse contexto religioso, ignorando o profano e o ridículo que algumas pessoas me contaram como são estes festejos religiosos da Boa Vista do Padre João.
E assim foi ...
Lá estava eu sentado no banco da igreja a prosear com os devotos.
— Isso aqui é a minha vida. Eu espero o ano todo. Me preparo o ano
todo pra isso. Me conta um jovem, que diz ser homossexual sem que eu o pergunte
sobre isso, mas que parecia ser necessário ter dito. Era o Festejo de São João Batista, no povoado Brejão, em junho de 2017.
— Apesar de tudo, de quem eu gosto ou do que eu gosto, jamais
deixarei de ser católico. Essa é a minha fé. E as coisas não se misturam.
Complementa o jovem.
No mesmo festejo, fiquei a observar uma senhora que estava quieta e não se preocupava com as atitudes dos outros, nem se importava com animação dos demais após as celebrações. Ela chegou quieta, acompanhada de uma jovem, e saíram da mesma forma.
— Venho pra agradecê. Pra pedí serenidade. Se tivé festa eu venho, se
não tivé também venho. Diz a senhora sem que parasse para conversar, ao me
responder se ela sempre acompanhava o Festejo.
O tempo passou, cerca de três semanas, então, eu já estava em outro Festejo, mas as memórias destas conversas sempre vinham à tona. Algo me incomodava, pelo menos me deixavam curioso.
No povoado Catinga, na celebração a Santa Ana em julho de 2017, encontrei outra senhora, que com seus dois filhos adolescentes acompanhava a procissão sempre cantando. Ela não se importava que seus filhos ficavam a brincar, algumas vezes de zombaria com os amigos.
— Não jóvi, aqui somu de fé. Ninguém farta com respeito com Cristo e aném com a Santa. Só vi gente rezando e adorando o senhô. Comenta a senhora quando eu a indaguei sobre as brincadeiras que seus filhos estavam fazendo. Até fui reprimido com o olhar.
Lembrei que, em outro momento, mais precisamente em agosto de 2016, conversei com um senhor na procissão do Festejo de Nossa Senhora da Consolação. Enquanto o corpo da procissão passava pelas ruas, muitas pessoas bebiam em frente as suas residências. E alguns devotos que acompanhavam o corpo paravam para cumprimentar os moradores e “tomar um gole”, como dizem os moradores locais.
— Só vejo o povo em devoção. O que tá lá fora, tá lá fora. Me responde o senhor quando o pergunto sobre o consumo de bebidas e o cumprimento das normas da igreja. Ele nem me olhou, parecia ignorar os fatos estranhos a celebração.
As lembranças me levaram no tempo, foi quando recordei da imagem caricaturada pela ironia de uma senhora, algumas semanas atrás.
— Você não venho pra rezá? Me questiona uma senhora, no Festejo de Santo Antônio, em junho de 2017, depois que eu me apresentei e a perguntei sobre o sentido do festejo na sua vida, ela me respondeu de maneira sarcástica. Com olhar na câmera me reprimiu.
Ela não parecia estar incomodada com minha presença, porém deixou claro a sua indiferença para o que estava fora do contexto religioso. Eu fiquei quase que sem reação.
— Eu venho pra rezá. Pra isso que serve a igreja. Ela me repreende!
Na Boa Vista da fé, o riso tem vez, mas é melhor ir devagar porque o andar é longo.
5.6 Desfecho
Nestes encontros conheci o padre João, mais precisamente, nas memórias de alguns devotos. Há poucas obras literárias e produções sobre o referido sacerdote, porém, apesar do tempo da sua morte, ainda pude encontrar algumas pessoas que
me contaram sobre as suas recordações. O interessante foi poder conciliar as questões da comicidade e do riso com a busca histórica local e do padre. Os festejos visitados trouxeram uma bagagem imensurável de riqueza cultural.
A dramatização, a encenação, quase que natural, dos envolvidos traz uma caracterização de cada celebração; faz parte do processo de devoção. Bem como a articulação do lado cômico de cada um em cada gesto, atitude e maneiras de se expressar, expressar a sua fé. Que nem sempre tem intenção de ser cômico, algumas vezes traz o poder da comicidade e do riso, mas o centro das atenções é a fé.
Quando se passa despercebido pelas celebrações religiosas não se consegue ver o lado extravagante do espaço, dos comportamentos e das ornamentações. Apenas é percebido o caráter religioso, porque é um espaço religioso. Todavia, o ridículo e o profano estão lá, acanhados, algumas vezes exagerados, mas o marco está no sagrado.
Parece que as coisas profanas não fazem parte do contexto e quando estão inseridas deixam de ser profanas, pelo menos para alguns dos devotos. Tudo que é inconveniente se torna conveniente ou é ignorado. A fé e a devoção são maiores do que qualquer estranhamento por questões que venham a ferir a fé ou a confrontá-la.
Em alguns festejos fui repreendido por alguns participantes, que ao registrá- los com a câmera fizeram sinais de repúdio. Esse fato também ocorreu em todos os festejos, com olhar repreendedor, gestos com as mãos e/ou a cabeça de negação e outras vezes com palavras.
Talvez seja o medo de expor, expor o ridículo, ou se expor ao ridículo. Talvez seja apenas uma resistência ao estranho. A câmera pareceu ser mais negada do que a minha presença.