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Um trabalho significativo sobre construções SCLs é o de Sibaldo (2009). Em sua tese de doutorado, o autor apresenta a primeira revisão sistemática das SCLs.

Após um reexame da literatura sobre as sentenças copulares e cópulas em Português e nas mais diversas línguas, o autor apresenta uma descrição das propriedades dessas sentenças, primeiramente apresentadas por Kato (1998, 2007). Ao levantar as propriedades de tais sentenças, relaciona: especificidade do sujeito, existência de predicados do tipo individual level avaliativos e tempo não morfológico entendido como presente.

Por especificidade do sujeito, o autor entende a impossibilidade de sujeitos sentenciais que contenham nomes nus37, assim como, qualquer espécie de sujeito genérico ou inespecífico. Essa impossibilidade pode ser atestada pela agramaticalidade das sentenças (39) a (41) abaixo. Em (39), temos uma sentença com sujeito indeterminado e, portanto, “inespecífico” nos termos do autor. Em (40), o

37 Por nomes nus (bare noun), aqui, estamos entendendo tanto os nomes nus plurais (bare

plurals) quanto os nomes nus singulares (bare singular). Um maior detalhamento sobre os

usos dos nomes nus está fora do escopo deste trabalho, para um maior entendimento desse assunto, remetemos o leitor a Müller (2000).

sujeito da sentença é nome nu plural e, como tal, comporta um traço de genericidade incompatível com a inespecificidade requerida. Já (41) apresenta um item de polaridade negativa.

(39) *Muito boa, uma proposta qualquer!

(40) *Muito boas propostas!38

(41) *Muito boa(s) nenhuma/poucas propostas!

(SIBALDO, 2009, p. 61)39 Contudo, se analisarmos melhor o paradigma das SCLs, veremos ser possível encontrar sujeitos determinados, nomes genéricos e até itens de polaridade negativa. É o que apresentamos em (42) a (44).

(42) Muito boa, uma proposta real de mudança!

38 Não entraremos em detalhamento sobre essa questão, que será objeto de estudo futuro, porém, é válido mencionar que, na presença de um predicado genérico com forma masculina, essas sentenças têm um acréscimo de gramaticalidade.

Aqui, caberia um paralelo com a ausência ou mismatch de concordância na linha do que têm sido explorado por Rodrigues e Foltran (2015; 2013), Foltran, Rodrigues e Conto (2016), Conto (2016) e Carvalho (2015, 2016, 2017) para citar alguns. De forma bem geral, podemos dizer que se trata de sentenças que parecem ter uma forte correlação com um caráter situacional (passível de discussão) e, para os quais, a concordância entre predicado e sujeito acarreta agramaticalidade. O clássico exemplo dessas sentenças sem concordâncias contendo nome nu e cópula é o que se segue: “Cerveja é bom” versus “* Cerveja é boa”. Assim, vemos que se (39) e (40) são agramaticais, suas versões sem concordância apresentadas, aqui, respectivamente como (39)b e (40)b tem uma melhor aceitabilidade.

(39) b. ? Muito bom, propostas!

(40) b. ? Muito bom, diversas propostas!

À primeira vista, a emergência de sujeitos bare nouns comporta uma leitura situacional em construções copulares. Assim, não seria a indefinitude de tais sujeitos que explicariam a não aceitabilidade das mencionadas sentenças, mas a ausência do ancoramento temporal, visto que a leitura genérica não traz a temporalidade de tempo presente, necessária ao licenciamento das SCLs.

(43) Muito boas, essas propostas!

(44) a. Naquele lugar, carinhosa, pessoa alguma/ nenhuma! b. De ferro, pessoa nenhuma!

As sentenças (42) a (44) apresentam, respectivamente, um sujeito determinado ((42)), um sujeito quantificado contendo um pronome demonstrativo ((43)) e itens de polaridade negativa não genéricos ((44)). Sendo assim, vemos que, mais do que especificidade, é requerido que sujeitos de SCLs tenham uma saliência discursiva, que poderia ser capturada como um requerimento de D-linking40 no sentido de Pesetsky (1987).

Sibaldo (2009) reconhece a necessidade dessa saliência semântica capturando-a, a partir da noção de rema (informação velha ou já conhecida pelo interlocutor), mas opta por definir a propriedade dos sujeitos de SCLs pela regra abaixo:

(45) “(72) Os sujeitos das SCLs do PB devem ser específicos.”

(SIBALDO, 2009, p. 63) Nesse caso, concebe a noção de saliência semântica como um componente da especificidade do sujeito. Sendo assim, propomos avançar na análise do autor, sugerindo a existência de um Foco (algo não assumido abertamente para o português brasileiro). Nesse caso, essa categoria estaria localizada no predicado e seria do tipo informacional, seguindo a tipologia de Kiss (1998), que apresentaremos a seguir.

Para a autora, focos informacionais (information focus) estariam presentes em todas as sentenças, não desencadeariam movimento e não expressariam uma identificação exaustiva gerada a partir de um conjunto de entidades determinadas contextualmente ou situacionalmente.

40 D-linked, abreviação de Discourse-linked foi um termo empregado por Pesetsky (1987) para referir-se à sintagmas ligados discursivamente. O termo foi criado para capturar a noção de assimetria de -Whts in situ.

Por contraste, os focos identificacionais (identificational focus) teriam

propriedades sintáticas e semânticas. Do ponto de vista semântico, o foco identificacional representaria o valor de uma variável ligada a um operador abstrato, que permitiria a expressão de uma identificação exaustiva.

Já sintaticamente, agiria como um operador, que se moveria para uma posição de escopo no especificador de uma projeção funcional e ligaria uma variável.

Utilizando dessas definições, acima, tentaremos melhor capturar a generalização sobre sujeitos de SCLs (vista nos exemplos (39) a (44)), avançando para além da proposta de Sibaldo (2009).

Proporemos que SCLs têm, além de um foco informacional, representado pelo predicado, um foco identificacional presente no sujeito de SCLs. Será esse foco identificacional, por vezes, materializado como um foco contrastivo, o responsável por gerar o que descritivamente entendemos como aceitabilidade de sujeitos pragmaticamente definidos e específicos em SCLs.

A ausência do foco identificacional seria a responsável por gerar a agramaticalidade das sentenças contendo sujeitos indefinidos. Corrobora nossa hipótese o fato de que itens de polaridade negativa, como apresentados no exemplo (41), só serão agramaticais se não portarem o traço [+ exaustivo], presente nos focos identificacionais.

Esse traço fica mais claro se houver delimitado no discurso uma espécie de lista de referentes sujeitos. Para as sentenças abaixo, consideremos um contexto já bem determinado de referênci acomo, por exemplo, um concurso de beleza com 20 candidatas. Nesse contexto, em que temos como que um “delas” implícito, as sentenças (46) abaixo são aceitáveis.

(46) a. Linda, nenhuma (das candidatas)! b. Lindas, apenas algumas!

Feita a nossa proposta alternativa quanto aos predicados de SCLs, retomaremos as propriedades elencadas por Sibaldo em sua tese de doutoramento.

SCLs, conforme o autor apresenta, têm uma restrição sobre o predicado. Apenas predicados do tipo avaliativos parecem ser aceitos em tais sentenças.

À essa restrição, o autor relaciona também outra recuperada da intuição dos trabalhos de KATO (1998, 2007): serem predicados do tipo individual level (predicados de indivíduo). Como já demonstrado nas seções anteriores, tal restrição não condiz com os dados empíricos existentes.

Para abordar a avaliatividade, o autor ressalta que SCLs são sentenças exclamativas e, como tal, sujeitar-se-iam a uma propriedade típica das sentenças exclamativas: a ampliação (widening, nos termos de Zanuttini & Portner (2003)).

O conceito de ampliação, proposto por Zanuttini & Portner (2003), prediz a existência de um domínio de quantificação cujo operador do tipo -qu (wh) origina um conjunto de proposições alternativas denotadas pela sentença. Seria essa operação a que permitiria o que, descritivamente, entende-se como sentido de surpresa, ou de inesperado41.

Sibaldo (2009, 2013, 2016) não aprofunda, porém, a noção dos operadores das autoras. Em sua proposta, o autor captura a restrição do predicado de SCLs não apenas com a noção de requerimento de grau em exclamativas, mas como um critério de seleção da categoria relacional RP (Relator Phrase) como proposto por Den Dikken (2006) e apresentado abaixo.

41 Agradeço a Tescari Neto (comunicação pessoal) por apontar a possibilidade de tais características pragmáticas poderem vir codificadas na forma de traços. O sentido de surpresa, poderia, assim, estar relacionado a um traço mirativo presente no item lexical referente ao predicado, na derivação. Tal abordagem, porém, não estará no âmbito de discussão desse trabalho, ficando para discussão em trabalhos futuros.

(47) TP 3 DegPj TP Predicado 3 T RP Fi 3 tj R´ 3 R DP ti Sujeito (SIBALDO, 2009: 174)

Para o autor, os sintagmas predicativos são “avaliativos” e comportariam alguma noção de grau, uma vez que representam uma opinião, uma avaliação do falante ou uma surpresa não podendo ser mera constatação de um fato. Pondera, em seguinte, que essa caracterização de avaliatividade seria semelhante à caracterização de grau comumente encontrada na literatura para sentenças exclamativas.

Entendemos, contudo, que seria vantajoso aprofundar a noção de ampliação de Zanuttini & Portner (2003), assim como das relações de operador e variável lá presentes. O princípio da ampliação é concebido não como diretamente codificado na sintaxe, mas derivado de uma denotação com base pragmática.

Esse conceito estaria também relacionado não apenas a uma força ilocucionária (presente em qualquer sentença), mas a uma força sentencial, na qual tal operador funcionaria. Retomaremos essa questão no próximo capítulo.

Retomando o trabalho de Sibaldo (2009), falta-nos explorar um pouco melhor a estrutura da sentença proposta pelo autor. Sibaldo (2009) propõe que as SCLs sejam analisadas como sentença raízes TPs contendo um relator mediando a predicação, tal como proposto por Den Dikken (2006) e ilustrado em (48) abaixo.

O relator seria uma categoria funcional e abstrata que permitiria a manutenção da estrutura abstrata em detrimento de uma estrutura não assimétrica

exclusiva - e problemática do ponto de vista teórico - para essas construções, tal qual proposto pelas teorias tradicionais sobre small clauses (cf. Capítulo 1. ).

(48) RP 3 XP R´ 3 R YP (DEN DIKKEN, 2006: 11) Vale ressaltar que a estrutura proposta por Den Dikken no referido trabalho é não direcional. Logo, tomando a estrutura exemplificada em (48) XP, tal qual YP, seriam posições que poderiam ser ocupadas tanto por sujeitos como por predicados. Sibaldo (2009, 2011, 2013, 2016) propõe que SCLs não estariam deslocadas à esquerda, mas in situ. A possibilidade de termos o ordenamento típico de SCLs e SCics com o predicado antecedendo o sujeito seria decorrente dessa não direcionalidade. Essa propriedade permitiria que o sujeito já fosse gerado na base na forma de (49)

(49) [RP Predicado [R [Sujeito]]]

O principal argumento encontrado, pelo autor, para defender a ausência de um movimento do predicado para a periferia esquerda da sentença reside na impossibilidade de encontrarmos advérbios ou PP locativos intervindo entre predicado e sujeito nas SCLs.

O autor apresenta os exemplos replicados abaixo como (50), julgados agramaticais. Ocorre, porém que tal análise não considera posições mais à esquerda da periferia da sentença. Os exemplos são possíveis na presença de foco ou com alguma acentuação, como podemos verificar por (51). O teste em questão também tem interferência do sujeito.

(50) a. *Bonita sempre a sua roupa b. *Muito chata sempre essa aula

Sibaldo (2009: 140). (51) a. Bonita SEMPRE sua roupa!

b. Muito chata SEMPRE essa aula

c. Uma merda SEMPRE aquele programa de televisão

Como discutido anteriormente, sujeitos precisam ser específicos ou, em nossos termos, discursivamente ligados tendo um foco identificacional. Porém, os sujeitos que figuram na sentença em (50), especialmente nas alíneas “a” e “c”, a saber “a sua roupa” e “aquele programa de televisão” não tem uma especificação forte, podendo facilmente ser interpretados como genéricos.

Notamos que há uma melhora na gramaticalidade com a retirada dessa leitura genérica (52). Em especial, destacamos a melhora da sentença com a retirada do determinante “a” da alínea a do exemplo (50), como apontado em (52).

(52) a. Bonita sempre aquela sua roupa! b. Muito chata sempre essa aula aí!

c. Um merda em geral aquele programa de televisão lá!

Vimos assim, que o teste que serve de base para Sibaldo (2009) alegar a impossibilidade do predicado em posições mais na periferia esquerda da sentença, apresenta as incongruências acima apresentadas.

Dessa forma, proporemos assumir a estrutura proposta por Den Dikken (2006) e utilizada por Sibaldo (2009, 2016) para gerar as SCLs, a saber: RP. Contudo, exploraremos a relação da categoria Foco e as relações de operador-variável propostas por Zanuttini & Portner (2003), assim como desenvolvimentos posteriores (a serem apresentados no próximo capítulo) para melhor capturar o paradigma de nosso interesse, isto é, SCLs versus SCics.

Na próxima seção, apresentaremos outro caso de SCs sem cópulas: as sentenças do chinês.

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