• Aucun résultat trouvé

Dépôts

Dans le document COMPTERENDUINTÉGRAL SÉNAT (Page 35-62)

- E estava lá alguém à tua espera, à chegada Dar-es-Salam?

- Sim, foram-me buscar ao aeroporto e levaram-me para o Instituto Moçambicano. Lembro- me que cheguei lá por voltas das 11 horas. Aí mostraram-me onde é que eu ia dormir... e depois fui para a sala principal, onde havia uma mesa muito grande, onde as pessoas se sentavam para pequenas reuniões ou para conversar mas onde também se sentavam para almoçar, jantar, tomar pequeno almoço...

- Mas o Instituto Moçambicano era num edifício, era uma caserna, era o quê?

- Não era uma caserna, eram dois grandes edifícios... com algumas casas... era uma coisa grande... mas ali ficava pouca gente... não tinha militares, não tinha nada ali... eram só pessoas que estavam de passagem, ou para Nachingwea ou para o Bagamoyo... e os que ficavam lá eram, na verdade, só as pessoas que trabalhavam no Instituto.

- O que faziam?

- O Instituto naquela altura produzia a revista A Voz da Revolução... produzia panfletos, cartazes para distribuição... ali era fundamentalmente o departamento de informação e propaganda da Frelimo... tinha câmara escura, faziam-se as fotos ali... e tinha também quartos para as pessoas que viviam lá... mas nem todos os que trabalhavam no instituto viviam lá, eram poucas as pessoas que residiam mesmo lá... o Jorge Rebelo por exemplo não vivia lá, o Mbanze acho que sim...

- Não tinha alunos?

- Não, porque tinha acabado como Instituto, Centro Educacional... na altura aquilo era mesmo um sítio de propaganda da Frelimo, onde se faziam os recortes de jornal para guardar, de todas as notícias que eram publicadas pelo mundo... respondia-se a cartas, lidava-se com os grupos de apoio contra as guerras coloniais espalhados pelo mundo...e era a partir dali que se fazia todo esse sistema, digamos, de propaganda, de informação e propaganda. Trabalhava lá o Jorge Rebelo, de vez em quando o Marcelino dos Santos, o Mbanze que era o director

daquele Instituto, trabalhava a Pamela Santos... tinha uma série de gente... era um staff que funcionava para que tudo o que fosse propaganda da Frelimo chegasse aos diferentes lugares do mundo. Trabalhavam lá também os fotógrafos, as pessoas que trabalhavam na câmara escura... era isso fundamentalmente...

- Então tu chegaste nesse dia...

- Eu cheguei por volta das 11 horas... as pessoas estavam a chegar para almoçar e iam-se sentando naquela mesa grande... a primeiro pessoa que encontrei foi o Marcelino dos Santos, que eu já conhecia de termos estado juntos em Bruxelas... cumprimentou-me muito bem, estivemos a conversar um bocado, como ele era amigo da Noémia, estivemos a falar sobre a Noémia...

- Ele não te disse nada em relação a ti e à tua chegada? A teres vindo lá para o movimento? - Não... já tínhamos falado sobre isso em Bruxelas....

- Mas deu-te boas vindas, aquelas coisas?

- Sim, aquelas coisas triviais, mas tudo muito seco... depois apareceu o Sérgio Vieira, que se envolveu na conversa... nem foi uma conversa, foi uma daquelas coisas horríveis, à moda do Sérgio Vieira...

- Como foi?

- Ele chegou e perguntou: - É o camarada que acabou de chegar? Sim, sou eu. E então, vem de Bruxelas, não é? Sim, venho. Eu sei que é sobrinho da Noémia de Sousa. Sim, ela não pôde estar comigo, mas o marido dela, o Gualter Soares, veio de Paris para Bruxelas para se despedir de mim. Ele saltou do banco - eram bancos assim corridos: - “Esse bandido! esse traidor! ... e começa a gritar até não poder mais! Eu pensei: eh pá, há algum problema aqui... Veio o Marcelino dos Santos: - O que é que se passa? Eu disse: não sei, não percebo...

- Mas qual era o problema?

- Sei lá, os problemas do Sérgio Vieira com o Gualter Soares... porque o Gualter nunca se quis ligar à luta de libertação, achava que podia ter outro tipo de participação, sem estar exactamente na frente de combate... poderia dar todo o apoio à luta de libertação a partir de Paris, mas se mudassem algumas coisas dentro do movimento...

- Como quê?

- Ser um movimento menos conservador do que era a Frelimo ... um movimento mais aberto as pessoas, mais... que fosse capaz de juntar todos, várias sensibilidades...

- Então a contestação deles é que a Frelimo era um movimento autoritário e não democrático? - Sim. Eles tinham vivido bastante tempo na Europa e tinham a ideia de que... aqueles ideais franceses... e queriam um movimento mais transparente, democrático...

- A Noémia nunca foi à Tanzânia?

- Não! Ali na Tanzânia entrava-se e não se saía mais! Nunca foi... nem a Noémia, nem o Gualter... na altura as pessoas que estavam na Europa não queriam ligar-se ao movimento por acharem que ele mantinha fortes alianças, com o partido comunista da União Soviética, da China...

- Mas eles concebiam um movimento armado que não tivesse esse tipo de apoio de leste ? - Estou a falar de alianças ideológicas, não de apoio militar... podes aceitar apoio sem interferências daquele partido no teu movimento...

- Podes? É possível isso, tu receberes armas da União Soviética sem teres uma linha política pró-soviética?

- Na altura, recebia-se armas de todo lugar do mundo por causa da Resolução das Nações Unidas contra o colonialismo... até Israel dava armas à Frelimo...

- Então tu achas que essa aliança, não era necessária?

- É evidente que tinha de haver alguma coisa, mas não quer dizer que se tinha de seguir aquela linha, não precisavas de matar pessoas para ser igual à União Soviética...

- Mas tu achas que se matava pessoas para ser igual à União Soviética ou porque o poder gera necessariamente esse tipo de dinâmica?

- Exactamente, mas as pessoas foram aprendendo também lá, é por isso que eles querem sempre que os quadros dessas organizações vão estudar lá, porque vão aprender umas coisas... principalmente os de segurança...

- E quem achas que foram as figuras decisivas, para essa tomadas de posição ideológicas, depois da morte do Mondlane?

- Vários dirigentes da Frelimo... penso que o Samora, não... Ele era fundamentalmente um militar, formado no primeiro grupo que treinou na Argélia... foi esse grupo que abriu Kongwa188, toda a gente tinha medo de ir para lá, diziam era tudo resolvido a tiro... isso foi- me contado... diziam-me que até o Eduardo Mondlane, não entrava em Kongwa... aquilo era um campo de treino para militares, ou outros não entravam...

- E nesse conflito do Sérgio Vieira contigo, como é que Marcelino se posicionou?

- Não disse nada! Aí eu comecei a pensar: onde é que eu me vim meter?... entrei no lugar errado! Depois encontrei-me com o Daniel Mbanze que era Director do Instituto Moçambicano, que fez as honras da casa, deu-me as boas vindas, levou-me a visitar o Instituto... explicou-me como é que funcionava, tivemos uma conversa longa sobre as restrições... coisas rotineiras dos movimentos...

- Deram-te, portanto, as regras... - Sim.

- E quais eram as regras?

- Que não se podia sair sozinho do campo do Instituto Moçambicano, só acompanhado, em grupo... que era preciso autorização para sair... o que era mais? Tinha horários de recolher, acordar, almoço, jantar... foi isso, fundamentalmente. Depois começámos a conversar sobre a situação da luta, ele foi-me contando o que se passava no movimento...

- E o que é que se passava de relevante, nessa altura?

- Naquela altura o grande esforço era mesmo a guerra... formar combatentes e ir para a guerra. - Quanto tempo ficaste nesse Instituto?

- Fiquei no total uns 10 dias...

- E o que é que fazias lá? Como era o teu quotidiano?

- Nada... não havia nada programado para mim, então eu inventei... imprimia fotografias ... fiz umas propostas gráficas para a capa da Voz da Revolução... coisas assim desse tipo... melhorar algumas formas, tipos de letras... coisas gráficas, fundamentalmente...

- Então essa integração correu bem...

- Sim, parecia tudo tranquilo... até que uma semana depois, houve uma reunião geral ... fazia- se uma reunião regular do Instituto Moçambicano, acho que era uma vez cada 15 dias... uma reunião onde se analisava a vida do Instituto. A reunião era dirigida pelo Joaquim Chissano, que era na altura o responsável pela defesa e segurança da Frelimo e representante da Frelimo em Dar-es-Salam... estavam lá todos os quadros... toda a gente que vivia do e no Instituto Moçambicano... então, nessa reunião, estava-se a discutir o dia a dia do Instituto... E de repente, o Sérgio Vieira, disse: - Há um problema mais grave do que tudo isso, aqui no Instituto... nós temos aqui um agente do imperialismo internacional! E é um moçambicano!!! Ficou toda a gente assustada: mas quem é esse agente do imperialismo que está aqui? E ele apontou para mim, disse que era eu! E assim eu já estava rotulado! Logo à chegada! E de Agente do Imperialismo Internacional!!!

- E como é que ele justificava isso?

- Não justificava, só dizia que o meu comportamento era de um agente do imperialismo e que era preciso cortar isso pela raiz... e ficou ali numa coisa assim... uma coisa incrível!

- Mas de onde é que tu achas que vinha essa ideia dele?

- Não sei, as paranóias dele! Acho que ele percebeu logo - ou talvez imaginou, por causa do contacto com a Noémia e o Gualter Soares - que eu na verdade não era um jovem desses, tipo “homem novo”... eu sabia o que queria, sabia para onde queria ir... não aceitava que falassem comigo de qualquer maneira...

- E o que é que tu querias?

- Queria integrar-me no movimento, participar do que fosse necessário, desde a informação e propaganda até à guerra... mas não queria que ninguém me cavalgasse dentro do movimento... queria estar em pé de igualdade com os outros...

- Mas sabias que em qualquer movimento havia uma hierarquia a respeitar...

- Sim, sabia que em qualquer exército havia hierarquias... mas eu sempre pensei que as pessoas que estivessem dentro do movimento pudessem ter acesso à informação sobre o movimento de igual forma... aquela informação simples, como o que as pessoas faziam, o que acontecia no estrangeiro em relação ao movimento, o que estava a ser feito no interior e nas zonas libertadas. Alguma informação militar, aquela que não fosse de extremamente sensível, também devia ser divulgada entre os guerrilheiros, para se saber dos avanços da luta ... para mim fazer parte do movimento significava poder olhar as coisas que eram produzidas, que explicavam o que era o movimento, tanto para as pessoas de dentro, como para as de fora... ajudar a pensar como podíamos melhorar a qualidade dessa informação... mas de repente, parecia que não era suposto nós mesmos, os militantes, termos acesso à informação...

- O problema era portanto com a tua perspectiva de democratização da informação dentro do movimento?

- Sim... mas juntam-se aqui coisas: eu ter defendido o Gualter Soares, que ele dizia que era um bandido e eu achar que estávamos dentro de um movimento e portanto devia haver alguma democratização... e como ele era uma pessoa paranóide, juntou tudo na cabeça dele achou – ou pelo menos disse - que eu era um agente do imperialismo internacional! Eu na altura achava incrível existir uma pessoa paranóide desse tipo, num cargo de chefia dentro de um movimento de libertação. ( E só mais tarde, depois da Independência, é que entendi melhor quem era essa estranha figura). E o mais incrível era ninguém se opor a ele, ninguém o mandar calar... ninguém saiu em minha defesa naquele momento. Só quando saímos da sala, logo a seguir, o Mbanze veio ter comigo, pegou-me na mão e disse: não te preocupes com aquilo que o Sérgio disse, ele é assim... depois ficou a conversar muito tempo comigo... disse que ele é que era o Director do Instituto Moçambicano, ele conhecia as pessoas que tinha lá dentro e não tinha nada a apontar no meu comportamento, “nunca vi nada no seu comportamento que me indicasse que você podia ser um agente do imperialismo” ...

Bom... mas o problema para mim não acabou ali, eu não percebia porque é que ninguém tinha saído em minha defesa, mesmo aquelas pessoas com quem eu tinha tido contacto antes de vir para a Frelimo e me conheciam... e ao mesmo tempo não entendia que poder é que o Sérgio Vieira tinha ali, ao ponto de todos os outros ficarem calados... então eu disse para mim mesmo: tens de ir embora daqui... o melhor é fugir daqui antes que me façam alguma coisa... por norma, nós não podíamos sair do Instituto Moçambicano, mas não estávamos vigiados... então no dia seguinte, fui a Dar-es-Salam, estudar as possibilidades de saída em caso de necessidade, se visse a minha vida ameaçada. Encontrei várias possibilidades e a partir daí passei a ter uma retaguarda, no caso de sentir que estava em risco de vida. E voltei para o Instituto disposto a sair logo fizessem mais alguma coisa contra mim...

Mas é incrível que o Daniel Mbanze percebeu tudo! Percebeu que eu não tinha gostado nada daquela reunião e que eu ia fazer alguma coisa, percebeu logo... e quando eu regressei de Dar- es-Salam, ele veio falar comigo... ficámos até à noite a conversar, ele dizia: - Camilo, eu sei que deves estar muito mal, mas tem calma, não faças isso, não saias daqui, porque esses aí podem te matar... porque ali naquele movimento, quando tu entravas não saías mais... só me

lembro de um único caso, do Chico Munhá, que vivia na Holanda e que um pouco antes de mim foi para a Tanzânia ... e foi expulso...

- Porquê?

- Foi expulso porque era um freack... foi para Bagamoyo, que era uma escola secundária, um internato... ele era professor... e chegou lá, tinha levado uma viola, então aquilo era festa todas as noites lá no campo da escola secundária de Bagamoyo! Ele não tinha remédio! Então foi expulso, mandaram-no de volta para a Holanda, foi “devolvido”... foi o único caso que eu conheci, os outros todos continuaram lá pelo movimento ou acabaram sendo eliminados... contavam-se essas histórias...

Então alguns camaradas explicaram-me quem era o Sérgio Vieira, que eu não conhecia de lado nenhum..

- O que é que eles explicaram?

- Disseram-me que o Sérgio Vieira era uma pessoa com problemas, com complexos, e que fazia isso com muitas pessoas que pudessem ter algum papel diferente no Movimento... que era um mau carácter... e disseram-me para eu não me preocupar com as palavras dele. E disseram-me: fica aqui connosco, a gente vai encontrar uma forma de contornar isso... mas foi muito complicado tudo aquilo...

BAGAMOYO

Dans le document COMPTERENDUINTÉGRAL SÉNAT (Page 35-62)

Documents relatifs