O P’na-Ku ou Pan-Gu, como mais comumente é grafado e falado, é um
dos muitos antigos mitos. Essa cosmogonia é de provavél origem indo-chinesa elaborado no século VI16 antes da era cristã (CAMPOS, 2015) por antigas
civilizações chinesas que perduram na contemporaneidade. O Pan-Gu também conhecido como Hoen Tsin é uma divindade que ainda hoje é cultuada no sudoeste da China.
O país chinês preserva uma história e cultura milenar constituída de uma extensa riqueza cultural e filosófica. Literaturas apresentam registros de fontes escritas dessa antiga civilização que datam, ao menos, a partir do século XVI antes da era cristã. Em estudos sobre a cultura chinesa, Ming (2003) revela que os jesuítas nas suas expedições culturais, foram os primeiros grupos de ocidentais a empreender investigações sobre os mesmos. Relata que,
Desde fins do século XVI até o século XVIII foram eles os grandes transmissores de cultura entre a China e o Ocidente. Para a China, além do cristianismo, exportaram os jesuítas as ciências ocidentais e algumas invenções tecnológicas; no Ocidente introduziram a cultura chinesa através de publicações e traduções de clássicos chineses. (MING, 2003, p.2).
Visto isso, agregramos a cosmogonia da China17 nas propostas a serem
experienciadas nas reflexões praxeológicas das professoras. Primeiro, por ser
16Alguns pesquisadores defendem que a mitologia fora elaborada no século III antes da era
cristã. Ver: Skolimoski et al., 2012, p.413.
17 “No Brasil, a imigração chinesa ganhou alguma força apenas a partir dos anos 60 do século
XX. Com a chegada de pequenos grupos movidos pela Revolução Comunista, pela desagregação das colônias portuguesas na África, destino anterior de muitas famílias chinesas e, em tempos mais recentes, anos 90, pelo empobrecimento de populações chinesas colocadas à margem do “milagre econômico” promovido por Deng Xiaoping e seus sucessores. Mesmo atualmente, vale observar, seguimos como destino pouco interessante para imigrantes chineses. Acredita-se que haja entre 40 mil e 200 mil imigrantes chineses e descendentes, estabelecidos principalmente em cidades como São Paulo, Foz do Iguaçu e Curitiba”. Ver: AGUIAR, José Otávio. Literatura Wushia, Budismo, marcialidade e acesse: da arte da guerra à historiografia sobre o mosteiro de Shaolin. p.2.; Granet, M. A Civilização chinesa. Rio de Janeiro: FERNI, 1979.
uma das mais diversas mitologias orientais que possuem entre si, perantes as suas diferenças e especificidades, elementos comuns que dialogam com a cosmogonia afro-brasileira-indígena. O lidar com a natureza, o diálogo e preservação dos(as) ancestrais, enquanto fonte de conhecimento e respeito são pontos convergentes e que é muito presente entre as famílias tradicionais e não tradicionais da Bahia; segundo, para além de outras justificativas, por terem imbricadas nas suas concepções e interpretação de tempo18 elementos
que muito se aproxima da leituras de antigas civilizações africanas, essa convergência pode ter explicações, nitidamente, demográficas e históricas.
A ubiquidade presença da população africana19 em todos os cantos do
planeta (MOORE, 2007, p.49), podem justificar o intercâmbio entre as práticas socioculturais e de como interpretar o ambiente e os(as) envolvidos(as) nele. Além disso, o (re)conhecimento da perenidade cultural, de tradição, da China é de admirável e relevante importância a ser abordada nos espaços de aprendizado.
Diante da utilidade e importância dos Mitos, Martins (2012) explica que as concepções sobre a origem do universo e da humanidade, além de satisfazer a curiosidade intelectual, era utilidade prática nas vidas de pessoas em diferentes civilizações. Segundo o mesmo, os mitos de origem do universo
Disponível: www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/download/2746/4025.
18Para os chineses o tempo era ininterrupto, cíclico [...] não separando o temporal do
atemporal, não concebia o eterno, mas o ‘constante’, o processo. O tempo não aparece como intervalo entre um ponto de partida (início da criação) e um ponto de chegada (o fim da criação, fim do mundo). (TRIGOSO, 2014, p.3); tal compreensão coaduna-se como as interpretações de sociedades tradicionais africanas. As gerações passadas não são perdidas para o tempo presente. À sua maneira, elas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes, se não mais, quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, não apenas pela interpretação dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupção direta que pode se exercer em todos os sentidos. Assim, o tempo não era a duração capaz de dar ritmo a um destino individual, mas ao ritmo respiratório da coletividade. (KI-ZERBO et al., 2010, p.24-25).
19A forma pré-sapiens mais conhecidos do gênero Homo é a que foi atribuída a uma espécie
morfológica bastante diversificada que se expandiu amplamente: Homo erectus. Essa espécie foi encontrada pela primeira vez no Extremo Oriente e na China; mais recentemente, foi descoberta na África do Norte, na África oriental e talvez no sul da África. [...]Os espécimes da África oriental provêm de sítios onde foi possível fazer datações físico-químicas, tendo sido datado de aproximadamente 1.600.000 anos o mais antigo exemplar de Homo erectus. Essa data tão remota poderia indicar uma origem africana para o Homo erectus, e muitos especialistas são favoráveis à ideia de que todos os testemunhos dessa humanidade descobertos fora do continente africano seriam provenientes de populações que teriam emigrado no início do Pleistoceno. (LEAKEY, 2010, p. 501-502)
e da vida, assim com as teorias da evolução, serviram, e servem, como modelo para criação, renovação ou revitalização de qualquer coisa20.
Figura 1: Selo da República da China representando o Mito Pan Gu
Fonte: Cartões postais21: carimbo Taiwan, 1993.
São as suas curiosidades intelectuais com a exímia prática de observar a natureza que os faz desempenhar uma ‘longa tradição de observação astronômica’22. Os estudos astronômicos apresentam ricos elementos que
compõem o mito P’na-Ku ou Pan-Gu, como é observado em uma das diferentes narrativas:
Mito I: Pan Gu
No início existia apenas um negro e enorme Ovo Cósmico, continha Caos. Era a completa desordem, onde tudo estava misturado, luz e trevas, masculino e feminino, assim como Yin & Yang. Do ovo cósmico surge Pan Gu que é cercado por Yin e Yang que quebra com um machado o ovo cósmico. Pan Gu levanta-se dividindo
o ovo ao meio, e assim separa Yin de Yang. Eles formam a Terra. Depois de muitos anos Pan Gu morre e então seu Corpo torna-se Montanha; seu Sangue torna-se
Rios; seu Crânio torna-se o Topo do Céu; seu Cabelo torna-se Vegetação; sua Respiração torna-se Vento; seus Braços e Pernas tornam-se as Quatro Direções; 20 MARTINS, 2012. 21Disponível: https://40.media.tumblr.com/8193d25b07133a8f46e36b6eb7aba774/tumblr_inline_o2jjnoBUHa 1sorhz5_540.jpg. Acesso: 04/06/2016. 22Skolimoski et al, 2012, p. 413.
sua Voz torna-se o Trovão; seu Olho Esquerdo tornou-se o Sol; seu Olho Direito tornou-se a Lua; seus Ossos tornaram-se os Minerais. Surge depois da morte de Pan
Gu, Nuwaé formada por Yin e Yang, que cria os Homens a partir do Barro.
Fonte: Skolimoski et al., 2012, p.413
Diante dessa narrativa mitológica é possível ser observado o olhar da civilização perante à natureza e como a partir dela são possibilitadas as integrações com a sociedade. Enquanto utilidade prática dos mitos no contexto do ensino e do aprendizado, o simbólico é vivo e valorizado em meio ao diálogo que inter-relacionam o metafísico com o físico, o sobrenatural com o natural, o imaterial com o material, o sagrado com o profano.
Elementos que permanecem imbricados ao longo da história da civilização chinesa, ainda que estejamos vivendo em uma era global, do comércio e do capitalismo voraz, a manutenção das antigas tradições permanecem. Introduzir esse conteúdo e mostrar aos alunos a importância desse assunto para todos os seres humanos, como afirma Skolimoski et al. (2012), é apontar a necessidade ancestral do homem de explicar o universo a sua volta, e que tal necessidade deu origem, muito mais tarde, ao desenvolvimento científico e principalmente a astronomia.
Nesta direção, Campos (2015) nos aponta que os mitos da criação, encontrados em diferentes culturas por todo planeta, traduzem a inabalável crença de que a natureza é a fonte geradora e mantenedora de tudo que existe. Nesse contexto, patrocinamos situações de/para o ensino das cosmogonias, onde professores (as) refletiram sobre as praxeologias históricas das organizações pontuais propostas.