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C « Migration d’agrément » et moyenne montagne

Carte 6 – Altimétrie des cantons du Morvan

C. La méthodologie de recherche et les sources

3) Une démarche principalement qualitative mais n’excluant pas l’approche statistique

Enquanto muitos autores da comunicação, da semiótica, da fotografia se preocuparam com a relação entre objeto e a sua representação, Flusser elaborou a sua teoria a partir de uma abordagem completamente distinta. Ao invés de tomar a imagem como uma representação indical (PEIRCE), ele a analisa como o resultado de um gesto, ou seja, como um movimento significante que objetiva intervir no mundo, de modo a dialogar com os outros fenômenos que o compõem, com o único propósito de fazer parte da sua construção.

Apesar de não ter tido o tempo necessário para observar o amadurecimento de certas práticas artísticas e midiáticas que hoje se apresentam à nossa experiência, Vilém Flusser deixou importantes pistas para a análise dos regimes de sentido das imagens contemporâneas. As principais delas partem da concepção da imagem como projeto, isto é, a imagem passa a ser entendida como um fenômeno que se projeta do dispositivo rumo ao mundo. Trata-se de uma nova condição na qual a imagem passa a existir como uma projeção da abstração conceitual para uma nova concretude, particular ao mundo dos fenômenos que se dão à experiência. É justamente a partir deste seu modo particular de conceber a imagem como projeto de um fenômeno que partem as hipóteses que dão origem às proposições teóricas desenvolvidas ao longo desta tese.

Para compreender o que aqui está sendo concebido como regimes de sentido

fundados na imagem como fenômeno é necessário retomar o conceito flusseriano de

mundo codificado e de aparato técnico, conforme já definido no primeiro capítulo da tese. Sintonizado com as teorias científicas mais recentes, Flusser afirma que não é possível obter informação imediata a respeito do mundo concreto (o mundo da natureza). Todo acesso a este mundo natural exige um processo de mediação, que se dá, sobretudo, por meio de símbolos. Para ele, o mundo natural é absurdo, ou seja, é desprovido de sentido, e, exatamente por isso nada há nada nele que possa ser lido. Na sua concepção, mesmo as teorias científicas não lêem o que foi previamente inscrito no mundo, mas projetam no

mundo natural seus próprios conceitos, de modo a conceber um mundo de segunda ordem: um mundo codificado.

Inspiradas pela fenomenologia de Kant (1724-1804) e Husserl (1859-1938), suas teorias defendem que o único mundo ao qual temos acesso, aquele que concebemos como real, nada tem de natural; é ele o resultado de sobreposições e atravessamentos de inúmeros processos de codificação de sentido. Para Flusser, esta codificação que cria o mundo não se dá, no entanto, exclusivamente por meio das estruturas de poder ou pelos aparatos técnicos. Ela seria resultado dos processos semióticos implicados na fala, nos gestos, em símbolos matemáticos, nas instituições, na escrita e em todos os outros dispositivos que se estabelecem em nossa cultura. Sendo assim, todo fenômeno projetado de um dispositivo apresenta-se ele mesmo como uma realidade particular, a qual somente pode ser compreendida em relação aos outros fenômenos que fazem parte do seu contexto.

Há sempre vários mundos codificados que se entrecruzam, entrelaçam e que interferem um no outro de mil maneiras: o mundo da palavra falada, o mundo dos gestos, o da palavra escrita, o das imagens, o dos símbolos matemáticos, o dos símbolos do código de trânsito, o dos projetos e esboços desenhados, o das curvas e estatísticas, o das fórmulas, das prescrições e das regras. Em suma os vários mundos que “significam”, (apontam com o dedo). [...] Por ser fundamentalmente indecifrável (supercomplexo), o mundo dos códigos esconde o que pretende significar: o contexto absurdo da dor e do gozo, do amor e da morte, e destarte torna vivível a vida que não suportaria a consciência do absurdo (FLUSSER,

Nascimento de imagem nova: 2).

De acordo com a filosofia de Flusser, cada um destes mundos que se contaminam, sobrepõem-se e rivalizam deve ser compreendido como um fenômeno que se projeta a partir de um dispositivo. Assim, não é possível mais falar em uma realidade homogênea ou um mundo da experiência uniforme, mas em um complexo sistema composto por fenômenos que se apresentam como vetores de significado codificados. Movimentos, cores, edifícios, objetos, espacialidades e temporalidades tornam-se resultado de gestos que, por meio de dispositivos como a arquitetura, o design, a arte, e tantas outras instituições, produzem fenômenos que visam criar significado em um mundo que nada significa sem eles. Passa então a não ser mais possível falar em realidade, pelo menos não assim no singular, uma vez que a realidade somente pode ser compreendida como o espaço das relações entre os inúmeros fenômenos que se projetam dos dispositivos, sejam eles técnicos ou não.

A análise da imagem a partir da filosofia flusseriana do dispositivo mostra que, sendo o mundo da experiência exclusivamente resultado dos fenômenos projetados pelos

dispositivos, não faz mais sentido considerar oposições como as do tipo artificial e real, sujeito e objeto, realidade e simulação. Tudo é artificial na medida em que é produzido por um dispositivo e ao mesmo tempo é real porque compõe o mundo da nossa experiência, interferindo concretamente na nossa maneira de estar no mundo.

Os deslocamentos conceituais promovidos pelas propostas de Flusser ficam evidentes quanto se compreende que a imagem não mais pode ser entendida como uma janela, um espelho de Alice, um mundo alternativo ou outra definição que a apresente como um mundo incompossível. Desse modo, também, analisados a partir da filosofia flusseriana, a separação entre o mundo da experiência e o mundo das imagens virtuais não faz mais sentido. A imagem passa a ser mais um dentre todos os fenômenos que compõem o mundo com o qual temos contato. Assim, a virtualidade da imagem digital é então fundida à virtualidade da própria existência. Do mesmo modo como, segundo Lévy, a árvore está virtualmente presente na semente, a imagem está contida no seu algoritmo. De acordo com esta sua proposta, a imagem concebida como um mundo incompossível dá lugar a uma imagem que se relaciona com os outros fenômenos que nos cercam. A realidade projetada pela imagem torna-se então, de acordo com Flusser, um mundo

compossível.