ria e método em psicologia. [Tradução Claudia Berliner; revisão Elzira Arantes].
São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 64-63.
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A consciência como um “quase-social”
Podemos formular a lei genética geral do desenvolvimento cultural do se- guinte modo: toda função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos; primeiro no plano social e depois no psicológico, a princípio entre os homens como categoria interpsicológica e em seguida no in- terior da criança como categoria intrapsicológica. Isso se refere também à atenção voluntária, à memória lógica, à formação de conceitos e ao desenvolvimento da vontade. Temos pleno direito de considerar a tese exposta como uma lei, porém a passagem do externo ao interno modifica o próprio processo e transforma sua estrutura e funções. Por trás de todas as funções superiores e suas relações encon- tram-se originalmente as relações sociais, as autênticas relações humanas. Assim, um dos princípios básicos da nossa vontade é o princípio de divisão de funções entre os homens, a separação em dois daquilo que está constituído como um, o desdobramento experimental do processo psicológico superior no drama em que vivem os seres humanos.
Por isso, o resultado fundamental da história do desenvolvimento cultural da criança poderia ser chamado como a sociogênese das formas superiores do comportamento.
A palavra “social” aplicada à nossa disciplina tem grande importância. Pri- meiro, no sentido mais amplo, significa que todo o cultural é social. A cultura é precisamente um produto da vida social e da atividade social do ser humano; por isso, a própria discussão do problema do desenvolvimento cultural da conduta nos leva diretamente ao plano social de desenvolvimento. Além disso, poderíamos salientar que o signo, que se acha fora do organismo, como uma ferramenta, está separado da personalidade e serve em sua essência ao órgão social ou ao meio social.
Poderíamos dizer, por outra parte, que todas as funções superiores não são produtos da biologia, nem da história da filogênese pura, e sim que o próprio mecanismo que subjaz nas funções psicológicas superiores é uma cópia do social. Todas as funções psicológicas superiores são relações interiorizadas de ordem so- cial, são o fundamento da estrutura social da personalidade. Sua composição, es- 1 Traduzido do espanhol para o português por Rogério Dias de Arruda.
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trutura genética e modo de ação, em resumo, toda sua natureza é social; inclusive ao converter-se em processos psicológicos segue sendo quase-social. O Homem, inclusive sozinho consigo mesmo, conserva funções de comunicação.
Modificando a conhecida tese de Marx, poderíamos dizer que a natureza psicológica do homem vem a ser um conjunto de relações sociais deslocadas ao interior e convertidas em funções da personalidade e em formas de sua estrutu- ra. Não pretendemos dizer que esse seja, precisamente, o significado da tese de Marx, porém vemos nela a expressão mais completa de todo o resultado da histó- ria do desenvolvimento cultural.
Em relação às idéias aqui expostas, que de forma resumida nos ajudam a conhecer a lei fundamental que temos observado na história do desenvolvimento cultural ligada diretamente ao problema do coletivo infantil, cabe dizer que as funções psicológicas superiores – por exemplo, a função da palavra – estavam antes divididas e repartidas entre os homens, passando logo a ser funções da própria personalidade. Era impossível esperar algo semelhante da conduta en- tendida como individual. Antes os psicólogos procuravam deduzir o social do comportamento individual. Investigavam as reações do indivíduo conseguidas no laboratório e depois no coletivo, estudavam como muda a reação da personalidade no ambiente coletivo.
Tal discussão do problema é perfeitamente legítima, porém abarca o plano secundário do ponto de vista genético no desenvolvimento da conduta. A tarefa principal da análise é mostrar como se produz a reação individual em um am- biente coletivo. Discordando de Piaget, supomos que o desenvolvimento não se orienta para a socialização, mas sim para converter as relações sociais em funções psicológicas. Por isso, toda a psicologia do coletivo no desenvolvimento infantil se apresenta agora sob uma perspectiva completamente nova. Costuma-se per- guntar como se comporta uma ou outra criança no coletivo. A pergunta que nos fazemos é como o coletivo constitui, em uma ou outra criança, as funções psico- lógicas superiores.
Supunha-se anteriormente que a função existia no indivíduo de forma aca- bada, semi-acabada ou embrionária, que dentro do coletivo se desenvolve, com- plica, acrescenta, enriquece, ou, pelo contrário, se inibe, se comprime etc. Hoje em dia possuímos todos os fundamentos para supor que a situação é oposta em relação às funções psicológicas superiores. A princípio, as funções no ambiente
do coletivo se estruturam em forma de relações entre as crianças, passando logo a ser funções psicológicas da personalidade. Considerava-se antes que cada criança era capaz de raciocinar, argumentar, demonstrar, buscar razões para alguma idéia e que do choque de semelhantes reflexões nascia a discussão. De fato, entretanto, as coisas sucedem de maneira diferente. As pesquisas demonstram que das dis- cussões nasce a reflexão. O estudo das restantes funções psicológicas nos leva à mesma conclusão.[...].
Excerto 2. Extraído de VIGOTSKI, L. S. Génesis de las funciones psíquicas