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Délibérations du Conseil d'Administration du 27 jan- 27 jan-vier 2021

Analisar cotidiano das cidades de terceiro mundo e, em particular, como as camadas excluídas produzem novas formas de ocupar e transformar o espaço é analisar a complexidade da modernidade que envolve os países que recebem a alcunha de subdesenvolvidos. Certeau relaciona o cotidiano a formas de jogar com o espaço proposto, onde o agir do Estado e das populações é o que faz a diferença na modificação espacial. No que diz respeito à relação entre esses atores, Certeau apresenta a dualidade entre

estratégias e táticas. A estratégia, que diz respeito à ação do Estado e demais

poderes que atuam sob uma perspectiva externa sobre o espaço, é o calculo de forças, trabalhado a partir de uma exterioridade que torna possível o isolamento do objeto no qual será alvo da ação. Aos fracos corresponde à ação da tática, operando da perspectiva oposta a da estratégia, ou seja, formulando o movimento de manipulação do espaço tendo em vista a alteridade; jogando de maneira que contorne e ludibrie as operações realizadas pela força exterior (CERTEAU, 1994, p.99-102).

Pode-se em considerar então que o projeto do progresso existe como conjuntura ideológica da dominação estratégica do Estado sobre o espaço. Logo, se existe a possibilidade de um outro encaminhar da modernidade em sua condução pelas pessoas ordinárias, ele se dará través da ação tática. Se Benjamin coloca a questão de que Baudelaire repugna o progresso e foi isso que o permitiu que conquistasse Paris com sua poesia, é que a proposta do poeta, compreendendo por meio de seu fazer as sutilezas do cotidiano e a ação das forças externas em sua lírica, é o de uma ação tática que apresenta um projeto de modernidade que joga em contraponto aos critérios de dominação e responde a estes com sua proposta de vitória. “Nela, a imagem

do esgrimista pode ser decifrada: os golpes que desfere destinam-se a abrir-lhe o caminho através da multidão” (BENJAMIN, 1994, p. 113).

Semelhante jogo ocorre com os fazeres urbanos operados nas cidades brasileiras: pensar nas produções operadas pelos excluídos das metrópoles urbanas - onde as zonas de exclusão são parte considerável de estratégia de manutenção do poder - como formas de táticas que nascem em resposta à manipulação do espaço pelo Estado. É por via de oposição à estratégia desenvolvimentista do Estado e a sua conexão histórica com a opressão que a semiótica dos excluídos povoada por signos como malandragem e orgia se transforma em tática, correspondendo assim a uma forma de fazer política. Tratam-se de táticas que se significaram como os mitos da modernidade brasileira, em consonância do fazer artístico como figuração do artista como pessoa ordinária que assim tenta entender o fenômeno da modernidade urbana para além dos pressupostos do Estado. Existem como manifestações de uma população que busca reinventar o espaço com seus fazeres, algo que se confere no relato de Levi-Strauss durante sua incursão no estado de São Paulo:

Finalmente, nos arredores de São Paulo, podia-se observar e registrar um folclore rústico: festas de maio, quando as aldeias enfeitavam-se de palmas verdes, combates comemorativos fiéis a tradição português, entre ‘mouros’ e ‘cristãos’, procissão da ‘nau catarineta’, navio de papelão armado com velas de papel, romaria a distantes paróquias protetoras dos leprosos onde, entre os eflúvios da ‘pinga’ - aguardente de cana-de-açúcar muito diferente do rum e qeue se toma pura ou em ‘batida’, quer dizer, misturada com suco de limão -, bardos mestiços, de botas, vestidos de ouropéis e fantasticamente embriagados, provocavam-se ao som do tambor para duelos de canções satíricas. Havia também as crendices e superstições cujo mapa era interessante fazer: cura do terçol pela fricção de um anel de ouro; repartição de todos os alimentos em dois grupos incompatíveis: ‘comida quente e comida fia’. E outras associações maléficas: peixe e carne, manga com bebida alcoólica ou banana com leite. (LEVI-STRAUSS, 1996, p. 105)

Inventar o cotidiano é retomar o espaço. Se a população excluída consegue, ao modificar o seu cotidiano, ressignificar o território que foi concebido com o propósito de institucionalizar a exclusão, ocorre da mesma também alterar o cotidiano dos espaços no qual ela deveria ser excluída. Se na Paris de Baudelaire o aparecimento dos excluídos no espaço dos que detém o privilégio diz respeito a uma dialética entre a calçada e a sarjeta (BERMAN, 1984, p.153), no Brasil essa dialética assume a forma de morro e de rua, com um

apelo simbólico ainda maior ao entrar na questão relativa a de como essas duas figuras são ligadas a formação da desigualdade brasileira. Quando o excluído entra na rua como um indivíduo, o espaço da multidão, espaço no qual ele deveria ser condicionado como apenas soma de um, ele modifica o estatuto desse espaço. Acontece o encontro dialético: o choque da multidão com o individuo, seu grito.

Se a multidão é alienante, nela se pratica a vivencia como conceito reacionário, misturando-se à massa e se entregando à alienação capitalista no cotidiano apático e desmemoriado da modernidade urbana. Em contraste, o individuo moderno, no que diz respeito à afirmação de si mesmo como agente que busca se afirmar na modernidade, se propõe a fundamentar para si uma experiência; que emerge do choque e que permite jogar com a memória, fazer dela o cerne de uma ação cotidiana (BENJAMIN, 1994, p. 108 - 110). O individuo retoma a rua, o andar se configura como linguagem, uma gramática na qual considera o movimento como um rastro, exercício constante das atividades cotidianas aplicadas (CERTEAU, 1984, p. 177). Assim, afirmar a individualidade na rua é modificar o caráter desta como espaço.

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