A Cidade de Goiás, também conhecida como Goiás Velho, Vila Boa ou antiga capital, tem população estimada em 2010, de 24.727 habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). O município foi reconhecido em 2001 pela UNESCO como Patrimônio Histórico e Cultural Mundial por sua arquitetura barroca peculiar, por tradições culturais seculares e pela natureza exuberante que o circunda. A área territorial é de 3.108,018 km², a densidade demográfica 7,96 hab/km², o código do município 520890 e o gentílico goiano. Goiás é um município que tem mais de cinco mil quilômetros quadrados, cinco distritos e oito Unidades de Saúde da Família (USF).
A partir do momento em que foi inscrita na rede discursiva do patrimônio, a Cidade de Goiás passou a ter visibilidade como bem cultural e lugar histórico. Mas não significa que está tudo pronto e acabado. A configuração da cidade histórica e turística se dá em um processo lento e complexo, que pode ser compreendido por meio de análise das práticas que se imprimem nas artes e tradições.
A história, a tradição, o progresso e a cultura têm significado importante para a Cidade de Goiás, pontos fundamentais ao seu reconhecimento como patrimônio histórico. A
cidade permite que se entre em contato com sua arquitetura histórica - desde ruas, igrejas, construções diversas, como a casa onde morou a poetisa Cora Coralina - e com suas tradições e manifestações religiosas, doces, elementos que permanecem na raiz cultural da arte da cidade.
Cada época, cada formação social, tem seu próprio centro de gravidade, sua unidade de sentido, que deverá ser apreendida por meio da compreensão. Assim, impõe-se resgatar continuamente o singular, o específico, a multiplicidade de agentes e de fatores presentes e atuantes na interação tensional entre sociedade – cultura. O resultado desta dialética será sempre sedimentação provisória, continuamente desconstruída, nunca uma cristalização definitiva; será sempre a idéia de movimento, do “vir a ser”, e nunca a de fixação (BLAJ, 1998, p. 36).
A Cidade de Goiás foi capital do Estado até a década de 1930, quando ocorreu a transferência oficial da capital para Goiânia. O município, que tinha por nome de Vila Boa de Goiás, perdeu a qualidade de sede de governo em obediência ao Decreto Estadual, no 1. 816, de 23 de março de 1937, que oficializou a transferência da capital.
A Cidade de Goiás tem sua economia baseada na agropecuária, característica da região Centro-Oeste, e no turismo, haja vista que foi declarada, em 2001, Patrimônio Histórico e Cultural Mundial, condição que imprime à cidade, por meio dos movimentos sócio-históricos, culturais e religiosos, diversas atrações, dentre elas: a Casa de Cora Coralina, com objetos pessoais da poetisa; o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), realizado anualmente a partir de 1999; a Procissão do Fogaréu, realizada por meio da encenação da Paixão de Cristo, manifestação religiosa que ocorre na Semana Santa; o carnaval, com três escolas de samba da cidade: Leão de Ouro, União Goiana e Mocidade Independente do João Francisco. Há ainda museus: o Museu das Bandeiras, cujo acervo expõe peças e mobiliários do século XVIII; o Palácio Conde dos Arcos, que também expõe obras do século XVIII, utensílios domésticos, pertences, artes decorativas e mobiliários dos governantes; o Museu de Arte Sacra, comporta o maior acervo do escultor goiano Veiga Vale, nascido em Pirenópolis.
Dentre seus monumentos há o Chafariz de Cauda; a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, conhecida como antiga Igreja dos Pretos, a Catedral de Santana; a Igreja Nossa Senhora da Abadia; Igreja de Santa Bárbara; a Igreja Nossa Senhora do Carmo; o Mosteiro da Anunciação; o Convento dos Padres Dominicanos17.
17 Este foi o segundo convento da Ordem no Brasil, fazendo parte do plano que integraria os religiosos
dominicanos ao norte do país, passando por Uberaba, Goiás, Porto Nacional e chegando, enfim, à Conceição do Araguaia no Estado do Pará.
Como visto, no que se refere à religião, destaca-se a predominância católica. A cidade conta com maior número de igrejas desta facção religiosa, seguidas pelas evangélicas e espíritas.
A Cidade de Goiás apresenta aspecto oitocentista e permite praticamente uma viagem ao tempo do Brasil colonial. Conserva sua arquitetura barroco-colonial original graças ao tombamento de seu patrimônio arquitetônico do século XVIII que vem ocorrendo desde os anos de 1950. Além disso, situa-se em um cenário topográfico singularmente bonito, um vale envolvido pelos morros verdes ao sopé da lendária Serra Dourada. A Cidade de Goiás preserva também seus principais pontos turísticos, dentre os quais, além dos citados, os Becos da Cidade; o Prédio da Antiga Cadeia e Câmara Municipal18, construção de 1761; a Casa de Fundição, construção de 1752, local onde se fundia o ouro extraído das minas; o Quartel do Vigésimo Batalhão de Infantaria, de onde saíam os soldados para a Guerra do Paraguai e até o final da década de 1990 abrigou o 11-010 Tiro de Guerra do Exército Brasileiro; o Quartel do 20, que serviu de hospital durante a Guerra do Paraguai e atualmente seu pátio interno serve como local de festas populares; o Balneário da Cachoeira Grande, local de queda do Rio Vermelho, comporta praias e piscinas naturais; o Balneário Santo Antônio; a Cachoeira das Andorinhas e a Furna da Bandeirinha, túnel com dois metros de altura no Morro da Bandeirinha escavado provavelmente por escravos.
A Cruz do Anhanguera é um dos símbolos da cidade. Foi transferida para a antiga Vila Boa por Luiz do Couto, em 1918, que a reencontrou depois de ter sido levada, juntamente com a Igreja da Lapa, pela enchente de 1839. Nova tempestade do final de 2001 destruiu a Cruz mais uma vez, que precisou ser reconstruída nos mesmos moldes da original. A cidade é banhada pelo Rio Vermelho cuja nascente fica a 15 quilômetros da cidade de Goiás e o rio desemboca cerca de 180 quilômetros adiante, no Rio Araguaia. Ele deixa de ser um ribeirão tranquilo ao atravessar o feixe dos morros e serras e percorrer um trecho de fortes declives composto de rocha mesclada a solos diversos. Do Poço do Bispo as margens se alargam, sendo contidas apenas pelas barreiras das matas ciliares, fartas até meados do século XVIII. A exploração do ouro formou núcleos populacionais na região. O município de Goiás instalou-se nos dois lados do rio, além das margens. O Rio corta a cidade e passa do lado da casa da poetisa Cora Coralina.
18 O prédio é um enorme casarão que em seu andar térreo abrigava a cadeia e, no superior, a Câmara. A cadeia
Todos reconhecem que a deterioração ambiental da bacia do Rio Vermelho é a principal causa das enchentes que deixam a Cidade de Goiás, a 130 km de Goiânia, debaixo da água sempre que o volume da chuva aumenta no final de todos os anos. Todos sabem e admitem uma parcela de culpa do mal que causam à natureza e ao município, patrimônio cultural da humanidade. Contudo, não se percebe nenhum esforço para mudar a situação.
A infraestrutura turística da cidade abrange pousadas no centro histórico e hotéis instalados nas fazendas dos arredores. Há agências dos principais bancos, universidades (Federal, Estadual e faculdades privadas), escolas municipais e estaduais, hospitais, postos de saúde, restaurantes, comércios e serviços, artesanatos, arquivos históricos, atendimento previdencial e atenção da assistência social por meio dos programas federais e outros.
Na área da saúde, a Cidade de Goiás, desde quando era denominada Vila Boa, enfrentou inúmeros desafios em todas as gestões municipais, pois o acesso a bens e serviços sempre foi restrito e ainda não garante o atendimento às demandas dos vilaboenses, em especial ao se considerar o fluxo intenso de turistas, o que acarreta sobrecarga nos serviços de saúde.
Gráfico 1: Instituições de saúde no município Cidade de Goiás: particulares, filantrópicas, federais, estaduais, municipais.
Fonte: Dados da pesquisa realizada em 2011 pela pesquisadora.
0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 01 10 0 0 8 1 0 0 0 0 56 5 26 0 010 0 0 0 0 0 0 0 010 0 0 0 0 0 10 20 30 40 50 60
Federal Estadual Municipal Privada Filantrôpico
USF
Hosp. Municipal (funcionamento precário)
Hospital Privado - Brasil Caiado
Hospital Filantrópico - São Pedro de Alcântara (não está funcionando) SAMU
Corpo de Bombeiros
Equipe de PSF
Distritos
O atendimento à demanda nas dimensões básicas – prevenção e promoção – de média complexidade - consultas, exames laboratoriais e práticas complementares em saúde - e de alta complexidade se dá de forma precarizada, insuficiente. Conforme mostra o Gráfico 1, existem na cidade três hospitais – um municipal, um particular e outro filantrópico que, segundo o estudo realizado, há meses não funciona – e oito unidades de saúde básicas para uma população estimada em 24.727 habitantes. (Anexo 07 - instituições de saúde no município Cidade de Goiás).
No que se refere à administração municipal, a prefeitura dispõe das seguintes secretarias: de Administração, Obras Públicas e Finanças, Meio Ambiente, Agricultura, Cultura, Turismo e Trânsito, Educação, Desporto, Promoção e Igualdade Social, Saúde, Controle Interno, e a Procuradoria Geral do Município.
As configurações da política de saúde nesse município expressam contradições, conflitos e disputas. Esses elementos, quando analisados para além da beleza cultural estampada nas ruas e praças, da popularidade, da consagração como patrimônio da humanidade, das comidas típicas e das expressões religiosas, escamoteiam a relação equivocada entre público e privado, a força das oligarquias e o conservadorismo. As dimensões históricas, políticas, econômicas e sociais serão tratadas a seguir.