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Les défis et les perspectives de la finance islamique

La deuxième partie : le fonctionnement de la finance islamique

Section 2 Les défis et les perspectives de la finance islamique

O conceito de arqueologia do saber desenvolvido por Foucault (1985, 2008) pode ser considerado uma abordagem histórica fundamentada na análise de formações discursivas e sua relação com os diversos campos do saber – científicos ou não. Essa abordagem está bastante associada aos seus primeiros trabalhos e se baseia fortemente em conceitos desenvolvidos por Nietzsche (1976), assim como nas linhas de pensamento estruturalistas. Associa o significado às suas condições de significação e sua possibilidade de existência a partir da historicidade em que estavam inseridos, de seus saberes e do senso comum.

"... o que se quer trazer à luz é o campo epistemológico, a episteme onde os conhecimentos, encarados fora de qualquer critério referente a seu valor racional ou a suas formas objetivas, enraízam sua positividade e manifestam assim uma história que não é a de sua perfeição crescente, mas, antes, a de suas condições de possibilidade; neste relato, o que deve aparecer são, no espaço do saber, as configurações que deram lugar às formas diversas do conhecimento empírico. Mais que de uma história no sentido tradicional da palavra, trata-se de uma "arqueologia" (FOUCAULT, 1999: XVIII).

A arqueologia pretende estudar a ordem e as regras inconscientes que dão significado às coisas dentro de uma rede. São leis inerentes a certas realidades que direcionam a forma de agir e perceber o mundo definindo os códigos culturais. Participam da configuração da rede leis governamentais, a linguagem, a técnica, valores, hierarquias, assim como teorias científicas e filosóficas. Desse modo, se configura como uma abordagem transdisciplinar que busca a partir do cruzamento de informações de natureza diversa dar luz a uma visão de mundo local e temporal, suas regras são singulares e só podem ter valor dentro da realidade estudada. As formações discursivas analisadas participam de diversos campos de conhecimento, de diferentes formas e distintas funções. Tem como foco, portanto, não a verdade científica, mas o saber.

Bem diferente, ainda nisto, das descrições epistemológicas ou “arquitetônicas” que analisam a estrutura interna de uma teoria, o estudo arqueológico está sempre no plural: ele se exerce em uma multiplicidade de registros; percorre interstícios e desvios; tem seu domínio no espaço em que as unidades se justapõem, se separam, fixam suas arestas, se enfrentam, desenham entre si espaços em branco (FOUCAULT, 2008: 177).

O autor entende como saber o “conjunto de elementos, formados de maneira regular por uma prática discursiva e indispensável à constituição de uma ciência, apesar de não se destinarem necessariamente a lhe dar um lugar”... (FOUCAULT, 2008: 204). Associa o saber diretamente ao seu contexto, valores, pensamentos, assim como à própria ciência e sua constituição – se a ciência se constitui a partir de saberes, e estes a partir da prática discursiva, o saber científico não é algo puro ou neutro, o campo epistemológico

está nele presente, precisa ser considerado. “O saber não está contido somente em demonstrações; pode estar também em ficções, reflexões, narrativas, regulamentos institucionais, decisões políticas” (FOUCAULT, 2008: 205). O saber, portanto, se constitui a partir das possibilidades que se apresentam em certas realidades, sendo também constituído pelo conhecimento vulgar (Quadro 2).

... um saber se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso. (...) Há saberes que são independentes das ciências (que não são nem seu esboço histórico, nem o avesso vivido); mas não há saber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma (FOUCAULT, 2008: 203).

O que a arqueologia tenta descrever não é a ciência em sua estrutura específica, mas o domínio, bem diferente, do saber. Além disso, ela se ocupa do saber em sua relação com as figuras epistemológicas e as ciências, pode, do mesmo modo, interrogar o saber em uma direção diferente e descrevê-lo em um outro feixe de relações (FOUCAULT, 2008: 218).

Quadro 2 – arqueologia do saber

A abordagem usa o conceito de arquivo, - que seria uma espécie de domínio, ou campo de abrangência local e temporal que abrigaria a tradição, o senso comum, os pensamentos científicos, o conhecimento – e que funcionaria como uma espécie de filtro na identificação de novas abordagens ou conhecimentos. “Não entendo por esse termo a soma de todos os textos que uma cultura guardou em seu poder... [mas]... do que faz com que tantas coisas ditas por tantos homens, há tantos milênios, não tenham surgido apenas segundo leis do pensamento” (FOUCAULT, 2008: 146).

Deste modo, o arquivo, tanto especifica o campo de aceitação dos saberes como caracteriza a prática discursiva. “O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares” (FOUCAULT, 2008: 147). Assim, aceita a regularidade discursiva, como uma visão de mundo, a condição de existência do saber – que perde seu valor e sentido fora da regularidade (FOUCAULT, 2008: 163). A regularidade não pressupõe homogeneidade, mas uma conformação de elementos heterogêneos que atendem a uma idéia ou regra geral comum, que direciona – mas não determina – seus caminhos, seus pensamentos e sua intervenção. Cada novo elemento modifica as relações na rede podendo trazer alterações em suas regras, de modo que a rede é dinâmica – está sempre sujeita às transformações.

... todo enunciado se relacionava a uma certa regularidade – que nada, por conseguinte, podia ser considerado como pura e simples criação... Mas vimos também que nenhum enunciado podia ser considerado como inativo e valer como sombra ou decalque pouco reais de um enunciado inicial... o menor enunciado – o mais discreto ou banal – coloca em prática todo o jogo das regras segundo as quais são formados seu objeto... As regras jamais se apresentam nas formulações; atravessam-nas e constituem para elas um espaço de coexistência; não podemos, pois, encontrar o enunciado singular que as articularia (FOUCAULT, 2008: 165).

A dinâmica das formações discursivas está associada às contradições. Destas irão surgir novos conhecimentos a fim de explicá-las, configurando novas visões de mundo e, assim, novos saberes27 – lógica de rede. Desse modo, a contradição não é um erro, mas a “verdade” originada do saber de uma época que os supera conformando assim, conhecimentos futuros. Tal fato leva à admissão da idéia de sucessão histórica, que aqui se dá de modo diverso ao pensamento determinista, como uma espécie de fundamentação. “A precedência não é um dado irredutível e primeiro... Não basta a demarcação dos antecedentes para determinar uma ordem discursiva: ela se subordina, ao contrário, ao discurso que se analisa” (FOUCAULT, 2008: 161). Só é analisável em si mesma.

Longe de ser indiferente à sucessão, a arqueologia demarca os vetores temporais de derivação. (...) O que ela [a arqueologia] suspende é o tema de que a sucessão é um absoluto: um encadeamento primeiro e indissociável a que o discurso estaria submetido pela lei da sua finitude; e também o tema de que no discurso só há uma forma e um único nível de sucessão (FOUCAULT, 2008: 190).

A abordagem arqueológica, portanto, busca estabelecer as relações que conformam as sucessões a partir da continuidade, como um processo complexo que se dá a partir de alterações em pontos do sistema; não como uma transformação geral a partir de um elemento único modificando a um só tempo todos os elementos e suas relações. Busca um feixe de acontecimentos, não uma origem – essa modificação não se dá de forma maciça, mas a partir de fragmentos associados. “Não se deve mais procurar o ponto de origem absoluta ou de revolução total, a partir do qual tudo se organiza, tudo se torna possível e necessário, tudo se extingue para recomeçar” (FOUCAULT, 2008: 165). Uma nova formação discursiva se conforma a partir de um emaranhado de fatos que

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Cf. Foucault (2008: 170), ”tal contradição, longe de ser aparência ou acidente do discurso, longe de ser aquilo de que é preciso libertá-lo para que ele libere, enfim sua verdade aberta, constitui a própria lei de sua existência: é a partir dela que ele emerge; é ao mesmo tempo para traduzi-la e supera-la que ele se opõe a falar; é para fugir dela, enquanto ela renasce sem cessar através dele, que ele continua e recomeça indefinidamente, é por ela estar sempre aquém dele e por ele jamais poder contorna-la inteiramente que ele muda, se metamorfoseia, escapa de si mesmo em sua própria continuidade. A contradição funciona então, ao longo do discurso, como o princípio de sua historicidade”.

modificará uma série de conceitos, objetos, pensamentos, mas não é possível ignorar os traços do seu passado, sua tradição.

A idéia de um corte que divide de uma só vez, e em um momento dado, todas as formações discursivas, interrompendo-as com um único movimento e reconstituindo-as segundo as mesmas regras, não poderia ser mantida. A contemporaneidade de várias transformações não significa sua exata coincidência cronológica... (FOUCAULT, 2008: 196).

A história arqueológica fundamenta-se no estudo das relações entre fragmentos, a partir do conceito de Episteme, que diz respeito às formas que nos permitem o acesso ao conhecimento num dado momento histórico, ou seja, às condições discursivas que constituem uma epistemologia. A configuração do conhecimento de uma Episteme é baseada em concepções tão fundamentais, que são imperceptíveis para os envolvidos – são códigos sócio-culturais que estão presentes em todas as nossas ações, intervenções e realizações: técnicas, práticas, valores, linguagem, são ordens empíricas (FOUCAULT, 1985: 10). A episteme se relaciona aos processos de uma prática histórica, e se configura

no interior das práticas discursivas, “não é o que se pode saber em uma época, tendo em conta insuficiências técnicas, hábitos mentais, ou limites colocados pela tradição; é aquilo que na positividade das práticas discursivas, torna possível a existência das figuras epistemológicas e das ciências” (FOUCAULT, 2008: 215). É, de certa forma, a idéia de mundo presente nos homens de cada época, de modo inconsciente, que direciona suas ações.

Suspeitamos talvez, que a episteme seja algo como uma visão do mundo, uma fatia de história comum a todos os conhecimentos e que imporia a cada um as mesmas normas e os mesmos postulados, um estágio geral da razão, uma certa estrutura de pensamento a que não saberiam escapar os homens de uma época – grande legislação escrita, definitivamente, por mão anônima. (...) A episteme não é uma forma de conhecimento ou um tipo de racionalidade que, atravessando as ciências mais diversas, manifestaria a unidade soberana de um sujeito, de um espírito ou de uma época; é o conjunto das relações que podem ser descobertas, para uma época dada, entre as ciências, quando estas são analisadas no nível das regularidades discursivas (FOUCAULT, 2008: 214).

A aplicação da abordagem da história arqueológica no presente trabalho é fundamental por permitir que se analise a relação da idéia de encarceramento, suas instituições, sua arquitetura e suas transformações, o surgimento de novos conceitos em diversos períodos a partir de suas visões de mundo, conformando uma compreensão mais aproximada e profunda do tema estudado. Para complementar a análise arqueológica, será utilizado o conceito de Genealogia, que se fixa na relação entre os objetos de uma mesma episteme e suas características particulares, explicitado a seguir. (FOUCAULT, 1979),