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Déficit hydrique et régulation de l’eau dans la plante

III. L E STRESS HYDRIQUE

III.2 Déficit hydrique et régulation de l’eau dans la plante

Este tipo de iconicidade caracteriza-se pela imitação dos sons naturais ou da natureza, i.e., os falantes procuram produzir um som que se assemelhe e que apresente um significado de acordo com a realidade. Constituem exemplos deste tipo de iconicidade sons de animais, como hauhau ‘som de ladrar’, o choro de um bebé, ñãñã, o partir de uma árvore, tiava. Em suma, este tipo de iconicidade consiste naquilo que tradicionalmente se tem designado de onomatopeias.

(114) Uti wateka tiava. árvore partiu IDEO ‘A árvore partiu-se.’

(115) Omolã wakala lokulila ñãñã.

criança estava a chorar IDEO ‘A criança esteve a chorar.’

(116) Ombwa yakala lokuhula hauhau. cão estava a ladrar IDEO ‘O cão estava a ladrar.’

3.3.2. Iconicidade Gestalt

A discussão da iconicidade Gestalt centra-se na forma como se apresentam os ideofones em termos das suas propriedades, como por exemplo o alongamento vocálico e a reduplicação, ou seja, este tipo de iconicidade refere-se à estrutura morfofonológica dos ideofones. Verificámos que em umbundo os ideofones com vogais longas se relacionam geralmente com eventos ou estados durativos e ações contínuas (117), enquanto vogais curtas indicam a rapidez do evento e ações bruscas e repentinas (118). A reduplicação, por outro lado, tende a representar a iteratividade de uma ação ou estado, a velocidade ou a intensidade com que decorre um evento, a pluralidade e a distribuição (119).

(117) Ndepeta wanda kuvííí. Ndepeta foi-se IDEO

‘A Ndepeta foi-se sem dar notícias.’ (118) Omoko yoteta tchua.

faca o cortou IDEO ‘A faca cortou-o.’

(119) Owiñi waliongolola mbundêmbundê. a multidão juntou-se IDEO

‘A multidão juntou-se toda.’

No exemplo (117), observa-se um alongamento da vogal da última sílaba do ideofone kuví, que transmite a ideia de continuidade do evento, ou seja, o alongamento mostra uma ligação à realidade representada. Já no exemplo (118), o ideofone tchua mostra a rapidez com que a faca cortou a pessoa, por conta da vogal curta. Por fim, o exemplo (119) representa a pluralidade, ou seja, veicula a ideia de como a população está distribuída (junta) num determinado momento.

3.3.3. Iconicidade relativa

Por sua vez, a iconicidade relativa está relacionada com palavras que têm formatos similares entre si e que representem significados similares também. No umbundo, a iconicidade relativa permite contrastar ideofones pronunciados com tom baixo com os ideofones que apresentam tons altos. Como vimos anteriormente, tons baixos estão associados a significados de grandeza, superioridade ou algo pesado (120), enquanto

(120) Onjeke yakupuka posi pùlùkùtù.

saco caiu no chão IDEO

‘O saco (grande e pesado) caiu no chão com muita intensidade.’ (121) Onjeke yakupuka posi púlúkútú.

saco caiu no chão IDEO

‘O saco (pequeno e leve) caiu no chão com muita intensidade.’

No exemplo (120), temos o ideofone pùlùkùtù (queda de algo grande e pesado), que é produzido com um tom baixo, expressa a ideia ou o significado de que o que acabou de cair é algo grande e pesado. Em (121), o mesmo ideofone púlúkútú (queda de algo pequeno, leve), ao ser realizado com um tom alto, expressa a ação de algo a cair e que seja mais leve do que o objeto no exemplo anterior.

3.4. Funções e usos

Os ideofones em umbundo ocorrem com maior frequência em estórias, contos, fábulas, ditados, provérbios, canções, etc., e com menor incidência na linguagem escrita. É na conversa informal, quando o falante se encontra descontraído, que os ideofones são produzidos com mais frequência e naturalidade. Semanticamente, os ideofones em umbundo têm a função de expressar emoções, perceções de um estado ou de um evento, levando dessa forma os ouvintes a imaginar ou a ter a capacidade de recriar ou evocar eventos.

É de salientar que o léxico ideofónico apresenta variação. No dominío fonológico, por exemplo, essa variação pode manifestar-se através de presença ou ausência de nasalidade. A título exemplificativo, o ideofone hu ‘eternidade’ pode ser realizado com a vogal nasal hũ sem alterar o significado. Em outros casos, no entanto, a nasalidade pode implicar uma alteração de significado: o ideofone tui ‘ideofone de rebentar’ contrasta com tuĩ ‘ideofone de estado de completa embriaguez’. Este último ideofone, por sua vez, varia lexicalmente com tupi ‘ideofone de estado de completa embriaguez’, dependendo a escolha de um ou de outro da variante do umbundo do falante.

Embora o umbundo continue a ser amplamente falado em Angola, na qualidade de falante nativo da língua tenho verificado que o léxico ideofónico do umbundo parece estar a desaparecer, ou seja, os falantes têm usado muito menos palavras ideofónicas. Este ‘abandono’ dos ideofones pode, entre outros fatores,

explicar-se pelo facto de se tratar de uma categoria muito específica e limitada, que consiste em expressões parcialmente lexicalizadas, constituindo dessa forma um fator que poderá conduzir ao desaparecimento mais acelerado dos ideofones do que de outras categorias de palavras. Apesar desse aparente desaparecimento dos ideofones, não deixa de ser curioso como as pessoas usam frequentemente ideofones do umbundo quando se expressam em português, como neste exemplo:

(122) O carro passou por aqui feõ.

‘o carro passou por aqui num ápice.’

3.3.4. Sumário

É pelas suas funções e expressividade que os falantes do umbundo reconhecem a importância do vocabulário ideofónico, que, à semelhança de outras línguas, pode ser caracterizado como iconicidade imagética, iconicidade Gestalt e iconicidade relativa. Na prática, esses padrões são representados por sons que imitam ou mimetizam sons naturais (onomatopeias), pelo alongamento vocálico, pela reduplicação ou pelos tons. Os falantes do umbundo usam os ideofones nas conversas diárias, embora haja também uma tendência de diminuição do uso dos mesmos, principalmente pela crescente presença do português em detrimento do umbundo.

4. CONCLUSÕES

Durante muito tempo, os ideofones não eram considerados uma classe de palavras autónoma, sendo tipicamente incluídos (e dicionarizados) em outras classes de palavras como adjetivos, verbos, ou advérbios, o que se pode dever a vários fatores, tais como a inexistência de ideofones em diversas línguas mais bem descritas e a natureza multifacetada dos ideofones, nos quais se cruzam diferentes domínios da gramática, como ficou também patente nesta dissertação. Não obstante o interesse por parte de autores como Koelle (1854), Vidal (1852), Scripture (1902), entre tantos outros, naquilo que viria a ser a classe dos ideofones, foi a definição de Doke (1935: 118) que impulsionou esta área de estudo.

Ainda assim, o reconhecimento dos ideofones como classe tem tido um percurso pouco sólido. Por exemplo, Doke (1935) classifica-os como onomatopeias e Newman (1968: 111) como intensificadores adjetivais, intensificadores verbais e advérbios. É apenas em trabalhos mais recentes que autores como Dingemanse (2011, 2012, 2015) refutam de forma mais contundente a ideia de que os ideofones sejam, por exemplo, meramente onomatopeias, argumentando que se trata de uma classe específica cujo significado está também relacionado com a representação sensorial das imagens, no sentido em que as pessoas vivam uma experiência por via da perceção sensorial.

Tal como em outras línguas africanas e especialmente nas línguas bantas, procurámos demonstrar ao longo deste trabalho que os ideofones estão bem representados no umbundo, embora o primeiro e único trabalho que conhecemos sobre este tema é o artigo de Tchimboto & Putu (2017), cujo estudo introdutório se revelou fundamental para a realização desta dissertação.

Com base num corpus de ideofones (cf. Anexo II), nesta dissertação propomos-nos descrever e analisar um conjunto de propriedades morfofonológicas e sintático-semânticas destas palavras em umbundo, conscientes de que há ainda muitos aspetos por tratar e aprofundar, especialmente por se tratar de um tópico de investigação que não só se situa nas interfaces da gramática como também requer uma abordagem extralinguística.

Os resultados permitem-nos concluir, globalmente, que nesta língua os ideofones constituem, de facto, uma classe distinta de outras classes de palavras pelo facto de apresentarem todas ou diversas das seguintes características:

i) Associam-se a uma base verbal específica; ii) Não apresentam morfologia de classe; iii) Apresentam reduplicação (inerente); iv) Apresentam alongamento vocálico;

v) Apresentam padrões suprassegmentais específicos; vi) Contribuem para evocar imagens sensoriais;

vii) Apresentam efeitos de intensificação e distribuição.

A restrição referida em i) é o traço que se aplica de forma generalizada aos ideofones em umbundo, pois observamos que existem restrições do ponto de vista da ocorrência dos ideofones quando desempenham funções adverbiais enquanto modificadores de VPs. O ideofone mbũ, por exemplo, só forma uma unidade parcialmente lexicalizada com o verbo okutekãvã ‘estar, ser preto ou escuro’. Ainda assim, verificamos que em alguns casos os ideofones podem ocorrer isoladamente. Mostrámos também que as palavras ideofónicas ocorrem em estruturas sintáticas onde não se aplicam as mesmas restrições combinatórias, nomeadamente estruturas sem verbo, um verbo fixo (okulinga ‘fazer’) e estruturas de modificação genitiva e associativa. Nestas últimas, no entanto, as formas ideofónicas apresentam, inequivocamente, propriedades de nomes, desafiando diversos dos critérios acima elencados.

Constatamos também que a morfofonologia é um outro domínio onde os ideofones se destacam pelas suas propriedades, ainda que os formatos silábicos sejam bastante diversificados (cf. Anexo II). A reduplicação caracteriza algumas destas formas, porém, trata-se frequentemente de casos de reduplicação inerente, visto que as formas não reduplicadas não possuem significado próprio. Vimos que o alongamento vocálico da vogal final dos ideofones também é uma estratégia recorrente para dar a ideia de continuidade, perpetuidade e intensidade. Em muitos casos, a reduplicação (inerente) e o alongamento vocálico não obedecem a um formato específico, apresentando um grau variável em função da intenção discursiva. Por fim, determinou- se que o uso de padrões tonais distintos também pode contribuir para a descrição de eventos e que estão intrinsecamente ligados à iconicidade.

Os ideofones são sobretudo um fenómeno da linguagem oral, como afirma Bodomo (2006: 207): “[I]deophones in dagaare, as in many other languages, are very much used in oral descriptions and recountings such as in stories and folktales”. Para os

destacam-se pelas suas funções e expressividade, que podem ser caracterizadas de acordo com tipos de iconicidade que ativam imagens sensoriais.

Estamos conscientes de que a natureza multifacetada dos ideofones do umbundo nunca se esgotaria num trabalho de dissertação. Como se pode verificar, os aspetos morfológicos, fonológicos, sintáticos, e semânticos abordados aqui oferecem ainda muitas oportunidades de investigação futura. Por exemplo, há necessidade de se desenvolver um estudo fonológico mais apurado dos ideofones, nomeadamente no que toca à sua tonologia e prosódia; na área da morfologia podem ser aprofundadas as relações que os ideofones estabelecem com outras categorias de palavras, nomeadamente nomes e verbos; no domínio da semântica será oportuno reavaliar os campos semânticos e funções dos ideofones e determinadas restrições relacionadas com o sistema de tempo, modo e aspeto, que aqui não aflorámos. Como qualquer outra categoria, os ideofones apresentam variação, pelo que seria de interesse promover um estudo mais detalhado sobre a variação interna à variedade de umbundo de Benguela face a outras variedades do umbundo.

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ANEXO I. LISTA DE IDEOFONES EM UMBUNDO

Ideofone Contexto de utilização

chã ideofone de pisar, esmagar

chẽdẽdẽ ideofone de amarrar ou apertar com força

chõ ideofone de cheiro intenso

fakũ Ideofone de sentimento de repulsa perante uma situação feõ ideofone de passar muito rápido (pessoa, animais ou coisas)

ideofone de algo quente

foto ideofone de sair apressadamente

fuomo ideofone de tirar num ápice alguma coisa das mãos de alguém hauhau Ideofone de som de ladrar

hu ideofone de duração de tempo, eternidade

hulue ideofone de chorar gritando ielaiela Ideofone de andar de mansinho kasiãkaiã ideofone de andar muito devagar kilili ideofone de altitude

koe ideofone de algo amargo

kuã ideofone de estar seco

kuvi ideofone de desaparecer por tempo indeterminado

lanalã ideofone de estar na posição horizontal liambilikiti ideofone de escorregar

liuliu ideofone de intensidade luminosa

luiti ideofone de mole, lento (pessoa, animais ou coisas) mbiõ ideofone de voz muito afónica

mbũ ideofone de escuridão

mbũi ideofone de completamente molhado

mbundembunde ideofone de se juntar em multidão

miũ ideofone de estar firme, sentido

muanhũ ideofone de destroçar algo, partir, quebrar

ndẽ ideofone de amarrar ou apertar com força

ndiendiẽlẽ ideofone de imitação do som de um metal, vidro, ao bater sobre uma superfície dura

ndõendõe ideofone de gotejar

ndõndõ ideofone de picar de uma áve, cobra; som do bater de um machado numa árvore, por exemplo

ngãĩ ideofone de temperatura alta

ngẽ ideofone de muito vermelho

ngõ ideofone de algo seguro, apertado, fixo

ngõlĩlõ ideofone de entrar num orifício apertado

ngonhõ ideofone de silêncio subsequente a um barulho ngutiõngutiõ ideofone de engolir

nhã ideofone de saltar, pular

nhomiãnhomiã ideofone de andar devagarinho, pé ante pé nini ideofone de luz, de luz cintilante

ñu ideofone de silêncio

paũ ideofone de estar completamente bêbado

pe ideofone de branco, claro, imaculado

pelele ideofone de plenitude pikipiki ideofone de levantar ao alto

pio ideofone do som de um pintainho

polõ ideofone de estar vazio

potopoto ideofone de barriga grande por estar empanturrado

pua ideofone de bater palmas

puakapuaka ideofone de estremecer, tremer

pualañanha ideofone de porta estar escancarada, completamente aberta puata ideofone de queda brusca

puetete ideofone de algo salgado

pulũ ideofone de silêncio subsequente, por ex. depois de disparos pululu ideofone de estar limpo

puti ideofone de estar apagado, escuro sandusandu ideofone de dispersar-se

simini ideofone de um pouco, algo que dura pouco tempo sito ideofone de intransponibilidade

sunhu ideofone de morder e tirar um pedaço

suĩ ideofone de olhar fixamente

susuvia ideofone de aproximar-se devagar

tasa ideofone de deitar-se descuidadamente, a vontade tcholondo ideofone de andar sorrateiramente

tchu ideofone de rasgar

tchua ideofone de cortar, rachar

tchuẽ ideofone de pessoa muito magrinha

tchukutchuku ideofone de mexer, agitar

tẽ ideofone de saltar

teñuteñu ideofone de coxear

tiapa ideofone de deixar algo sem cuidados, sem atenção tiava ideofone de partir, fraturar

tiẽ ideofone de algo repentino, surpreendente

to ideofone de muito cheio (um copo de água por exemplo)