“O trânsito é a organização do isolamento de todos (...) É o avesso do encontro” Attila Kotányi e Raoul Vaneigem, Programa Elementar do Bureau de Urbanismo Unitário. A origem do nome Ceilândia merece sempre ser lembrada: nascida da Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), a cidade-satélite foi criada em 1971 a 30 km do centro do Plano Piloto para dar um destino aos indesejáveis que tentavam ocupar os espaços vazios do Plano. A terra dos invasores erradicados.
As famílias — cerca de oitenta mil pessoas naquele momento — foram deslocadas sem nenhuma infraestrutura, sem falar em oportunidade de trabalho ou oferta de serviços básicos. O abastecimento de água intermitente, os equipamentos públicos inexistentes, as ruas sem asfalto — a história de Ceilândia é a história de várias famílias removidas no Brasil, mas
ganha força simbólica pela relação com Brasília e por particularidades próprias que, como vamos ver, a tornariam um centro de produção cultural na capital.
O termo cidade-satélite está proibido de ser veiculado em documentos oficiais desde 1998, por ser considerado pejorativo (PEIXOTO et al, 2017, p. 3), mas, na proibição do termo, há também uma tentativa de apagamento da memória, já que este é o termo utilizado por Lúcio Costa, inspirado pela ideia de Cidade-Jardim do inglês Ebenezer Howard. Acredito que, nessa proibição, haja um reconhecimento implícito da colonialidade do termo, que naturaliza uma hierarquia na divisão da cidade.
Fig. 9. O mapa do metrô demonstra como Ceilândia desloca o centro do conjunto urbano – o Plano Piloto é o
arco que a linha de metrô faz ao longo do Lago. A viagem do centro do Plano Piloto até o centro de Ceilândia no metrô demora hoje cerca de quarenta e cinco minutos.
O nome de Brasília para o conjunto urbano também até hoje é disputado: a capital é dividida em 31 Regiões Administrativas (RA), sendo que a RA I, o Plano Piloto, era denominada Brasília até 1997. Apenas em 2015, o Governo do Distrito Federal (GDF) passa a se chamar Governo de Brasília — a confusão entre Brasília e Plano Piloto ainda perdura em algumas sinalizações de trânsito.
O primeiro filme de Adirley, Rap, o Canto de Ceilândia, registra a tensão social que alimenta essa confusão: Japão, rapper ceilandense, diz que não se reconhece de Brasília, mas sim de Ceilândia e do Distrito Federal. Ou seja, ele nega não apenas a relação com o Plano Piloto, mas o próprio nome de Brasília para o conjunto urbano. Não são apenas os nomes e os
termos mais básicos que estão em disputa no imaginário local, mas a percepção elementar de coabitar a mesma cidade, como coloca o título de outro filme de Adirley, A cidade é uma só?, abordado a seguir.
O poeta Drummond percebe essa tensão no poema “Favelário Nacional (confronto)”, de 1984, quando diz que Brasília e Ceilândia são “gêmeas criações do gênio brasileiro”, e pergunta: “Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar da goela coletiva e não se exprimem?” (DRUMMOND, 2002).
Para AQ, Ceilândia foi um aborto territorial de Brasília, e, por isso, seus filmes têm a ambivalência de negar e afirmar Brasília ao mesmo tempo, já que querem combater tudo que ela representa, mas, por outro lado, não existiria sem ela. Aborto territorial ou criações gêmeas, hoje é impossível falar de Brasília sem falar de Ceilândia se queremos ter uma visão mais completa do gênio brasileiro.
A campanha de erradicação tem efeitos inesperados: além de espalhar a população pelo território, criando um problema enorme de mobilidade e segregação pela distância, ela cria também uma zona de densidade como não existia no plano original. Ceilândia (e, gradativamente, a conurbação que forma com Taguatinga e Samambaia) acaba se tornando o centro de massa do Distrito Federal.
Fig. 10. A cidade tricéfala: Ceilândia não aparece – está à esquerda – mas é ela que faz o centro de massa se
As três cidades-satélites reunidas têm hoje cerca de um milhão de habitantes. Ceilândia sozinha tem hoje uma população estimada em 489.351 moradores, mais do que o dobro do Plano Piloto, estimada em 220.393 (CODEPLAN, 2015). É possível que os dados oficiais não compreendam toda a população, já que é difícil acompanhar o crescimento de comunidades como a ocupação Sol Nascente, em Ceilândia. Em resumo, a campanha que surgiu para erradicar os invasores acaba criando a região mais populosa do Distrito Federal, o que traz consequências políticas e culturais.
A segregação massiva e distante gera aquilo que o urbanista Frederico Holanda (2010) chama de cidade tricéfala (i.e., cidade de três centros): o centro de massa não coincide com o centro morfológico nem com o cruzamento dos eixos, que marca o centro simbólico da capital. Ou seja, do ponto de vista demográfico, o Plano Piloto está na periferia suburbana da metrópole liderada por Taguatinga e Ceilândia.
Fig. 11. A disparidade entre empregos e habitantes.11 Fonte: Holanda (2012)
Como é comum nas metrópoles brasileiras, a oferta de serviços e empregos não acompanha a distribuição da massa populacional (vide Figura 11), o que gera um sistema pendular de movimentos: a coreografia diária de ir e voltar do serviço que configura a rotina desgastante de boa parte da população. O termo “satélite” pode estar proibido, mas o fato é que boa parte dos moradores da capital orbitam, mas não habitam o centro. Embora, como vamos ver, cada vez mais as cidades-satélites conquistem certa autonomia cultural e econômica.
Ceilândia é marcada, portanto, pela distância e pela falta de investimento público inicial, mas também pela densidade demográfica. Sobre a potência dessa densidade, é interessante compararmos o pensamento de Milton Santos com o de Lúcio Costa (LC), partindo daquilo que o arquiteto chama de escala gregária.