autênticas”, o que se dá mediante ao estabelecimento, pela palavra, pela linguagem, de “uma unanimidade entre vida, pensamento, aparência e querer”.271
Escrevo, portanto, nas páginas que se seguem, um Capítulo que, dialogando com os anteriores, busca a partir deles retomar a sua interpretação acerca do problema de pesquisa a que me dedico. Coloco-me numa espécie de linha transversal em relação às memórias trabalhadas até aqui, bem como em relação a uma série heterogênea de outros textos, os quais me servem de intercessores. Desde aí eu esboço uma abordagem possível entre tantas acerca dos materiais pesquisados e explorados nas páginas anteriores.272
No entanto, não pretendo aqui explicar a tese, dando enfim as coordenadas precisas da fabulação da velhice pelos memorialistas, como se nestas penúltimas páginas pudesse estar repousada a verdade que eu teria procurado ao longo do estudo, até agora. Um tanto distante disso, o que pretendo neste texto é acentuar questões que me foram surgindo no dia a dia da pesquisa e da escrita, e que, acredito, são oportunas e merecem ser enfatizadas aqui, para além de sua exploração pontual ao longo dos outros Capítulos do estudo.
Numa espécie de homenagem a um texto que esteve sempre próximo ao meu olhar e às minhas mãos, mesmo quando em silêncio, me valho das presentes páginas para “comentar os resultados e segurar alguns dos fios teóricos desenrolados desde o princípio do trabalho.”273
Para tanto, retomo aqui o gesto característico do historiador, aquele que traz a si o vivido pelo que dele se produz como resto, indício, e a partir dali faz emergir novos sentidos.274 É desde aí que desejo ocupar o lugar de enunciação que aqui assumo para lançar do meu texto algumas setas em direção ao passado e em direção ao futuro, numa tentativa de multiplicação dos efeitos de sentido que procuro, aqui, dar forma.275
Velhices, histórias, memórias
271 NIEZTSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva. Da utilidade e da desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, cit. p. 99.
272 Com relação a uma abordagem “construtivista” da história, a qual se compromete com o acolhimento – ainda que regrado pela racionalidade historiográfica à qual é apontada, entre outros, por Michel Foucault e Michel de Certeau – do que as ciências “exatas” pensam como a incerteza e o caos, vale conferir: ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. História. A arte de inventar o passado. Bauru, SP: Edusc, 2007; MONTENEGRO, Antonio Torres . Rachar as palavras. Ou uma história a contrapelo. Estudos Ibero-Americanos, São Leopoldo, v. XXXII, n. 1, 2006, p. 37-62.
273 BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, cit. p. 39.
274 Cf. CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica; VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Ensaio sobre a imaginação constituinte. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Escrevendo suas memórias na primeira metade do século XX, Júlio Bello, Pedro da Cunha Pedrosa e Graciliano Ramos compuseram uma espécie de retrato do Brasil. Falando cada um do seu lugar, operando ali com as suas próprias crenças e em meio às singulares condições de possibilidade do seu dizer memorialístico, eles produziram, quando vistos em bloco, um conjunto mais ou menos homogêneo de verdades quanto ao Brasil e quanto à sua experiência social.
Ao cumprir aquele movimento, o de pensar o país através da escrita, eles não estavam sozinhos. Ora, ao longo do século XX, especialmente na sua primeira metade, produziram-se os variados textos que acabariam por ser conhecidos como os “retratos do Brasil”. Eles foram dados a público, em geral, sob a forma de “ensaios de história e ciências sociais”, e se dedicavam a dar uma forma escrita ao país, e ao que se imaginava, ou se desejava, que ele exibisse como suas características mais definidoras.276
Em 1902, Euclides da Cunha publicou “Os Sertões”, o que de certa forma inauguraria a moderna tradição de se retratar o país em narrativas que o descreviam e o explicavam. A ele se seguiram Paulo Prado, com o seu “Retrato do Brasil”, de 1928 (que daria nome ao conjunto textual ao qual me refiro), e a trilogia há muito tomada por clássica do pensamento brasileiro, composta por “Casa Grande & Senzala”, publicada por Gilberto Freyre em 1933, “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, que é de 1936, e, finalmente, “Formação do Brasil Contemporâneo”, escrita por Caio Prado Júnior e que data de 1942.
Ainda devem ser mencionados os trabalhos de Jorge Amado (“O País do Carnaval”, de 1931), de Otávio de Faria (“Maquiavel e o Brasil”, de 1931), de Raimundo Faoro (“Os Donos do Poder”, de 1958), de Celso Furtado (autor de uma “Formação Econômica do Brasil”, publicada também em 1958) de Antonio Candido (sua “Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos” é de 1959), além de outros tantos.
Adensava o cenário a organização de coleções pelas editoras Companhia Editora Nacional (que editou a “Brasiliana”, dirigida por Fernando de Azevedo), pela Editora Schmidt (que era responsável pela “Coleção Azul” receptiva a textos mais polêmicos), e pela José Olympio (que tinha a “Problemas Políticos Contemporâneos” e a “Documentos Brasileiros”, dirigida esta última por Gilberto Freyre, Otávio Tarquínio de Sousa e Afonso Arinos de Melo Franco). Em todas elas abundavam trabalhos que almejavam retratar o Brasil.
276
Cf. BOLLE, Willi. grandesertão.br. O romance de formação do Brasil. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2004, p. 23-24.
A consideração de que seria possível um empreendimento dessa magnitude, aliás, ainda chegaria ao final do século, com a publicação do estudo de Darcy Ribeiro, “O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, em 1995.
Aquele conjunto textual era composto por obras comprometidas com o exercício de experimentação da escrita sobre o Brasil. O seu horizonte do desejo se delineava como sendo a tentativa de ponderar uma série heterogênea de transformações pelas quais passava o país já desde as décadas finais do século XIX. Os “Retratos do Brasil”, assim, se estabeleciam, guardadas as peculiaridades de cada texto, como uma série discursiva que se embaralhava com outras tantas, mesmo as que se mostravam situadas no espaço de fora do discurso.
Os anos de mil novecentos e tantos, como diria Gilberto Freyre, ou seja, o momento em que grande parte dos “retratos do Brasil” foi escrita, é sabido, foi o palco de variadas e profundas transformações no país, as quais tanto implicaram na construção de novos olhares por sobre a experiência histórica do país quanto delas receberam influxos.277
Em linhas bastante gerais, cabe lembrar apenas que o Brasil, nos momentos iniciais da sua experiência republicana, tanto dava sinais de crescimento econômico e de urbanização, como também se transformava no palco de novas sociabilidades, de novas relações entre os sujeitos sociais (e destes para consigo mesmos, inclusive).
Em paralelo, aquela foi uma época em que certas dimensões da vida brasileira passaram a ser enunciadas, de forma sempre mais intensa, como problemas sociais, como problemas nacionais: o crescimento visto como desordenado das cidades, o aumento descrito como descontrolado da população, a angústia de setores sociais frente à miscigenação, a crescente delinqüência urbana, a maior visibilidade de algumas endemias e o susto trazido por algumas epidemias.
O estabelecimento daquele rol singular de problemas contribuiu, então, para a edificação dos saberes e poderes ligados à medicina, ao direito e à assistência social como repositórios das esperanças de setores das elites em ascensão, desejosas de possibilidades de controle por sobre as práticas e as populações potencialmente perigosas.
O cenário internacional, por seu turno, também oferecia sinais de reinvenção do mundo, com a nova distribuição espacial inventada pelo imperialismo, com as novas sensibilidades trazidas pelo novo século, com as novas formas de arte que se mostravam possíveis desde os anos 1870, com a Primeira Guerra Mundial. Não faltava quem pensasse que os anos iniciais do século XX, inclusive, fossem uma época especialmente destinada a
uma crise geral na humanidade (e da humanidade), a qual cumpria enfrentar com novas narrativas acerca do passado, do presente e do futuro das sociedades.
Para os autores dos “retratos do Brasil”, homens em geral sensíveis aquelas novidades do tempo, fossem elas as locais ou as mundiais, parecia importante – talvez se pudesse dizer, até mesmo, que aquilo lhes parecia necessário – capturar em palavras o mundo que se descortinava à sua frente, ou que se esgarçava sob seus olhos. Havia naquela empresa ora o orgulho de se mostrar ao mundo um país embebido do seu próprio futuro, ora o desespero que derivava de uma compreensão pessimista acerca do vivido, e do por viver. O texto, cada texto, era o resultado, não raro surpreendente, de um susto, de um estranhamento – ou, por outro lado, de um reconhecimento, de uma identificação profunda.
* * *
Seria, em boa medida, numa transversal àquela série textual, às suas condições de possibilidade, às suas formas, aos seus efeitos, que emergiria a memorialística nordestina que estudo aqui – uma maquinaria literária que, tanto quanto os trabalhos a que me referi acima, também emprestou um rosto, um passado e um presente ao Brasil.
Seus autores, aliás, eram leitores, quando não amigos dos letrados que buscavam com ensaios variados pensar o país. Quando não circulavam pessoalmente, nos mesmos espaços, uns e outros se exibiam, corpos escritos, pelas prateleiras das livrarias que todos freqüentavam e das respectivas bibliotecas privadas. As relações travadas entre eles, bem como o intercâmbio cultural dali resultante, fariam com que ambas as séries textuais se fecundassem mutuamente.
A memorialística nordestina, registro de experiências vividas pelos letrados do lugar, guardaria a marca daqueles diálogos, ora na seleção de temas, ora na apresentação de relatos que buscavam eternizar aquela prática de escrever e interpretar o Brasil.
Tanto quanto qualquer um dos títulos canonizados pela crítica como sendo os “retratos do Brasil”, aquela literatura singular dedicou-se a pensar com saudade no ordenamento histórico brasileiro anterior a 1870, tomando-o como uma época de autenticidade, como o momento no qual se depositavam as raízes do país.
Também ela identificou, no panorama brasileiro após aquela fatídica data, a eclosão de séries heterogêneas, mas interdependentes de eventos que mudariam o rosto do país e transformariam – para muitos deles, transtornariam – o seu destino.
E, conforme apontei acima, elas também reforçaram a idéia de que tantos e tão variados deslocamentos de sentido só poderiam ser compreendidos mediante a sua transformação em palavras dispostas por sobre o papel. As margens da folha conteriam os fluxos da história, reteriam naquele espaço construído justamente a partir da indicação do limite os delírios de um país e de um povo que se afastavam de si em busca do desconhecido.
Ao realizar aquele movimento escriturístico, os autores daquela prosa singular construíram a si mesmos como personagens de um diálogo com a experiência de se recorrer à memória para a interpretação do mundo e com as tramas históricas implicadas na invenção histórica da região Nordeste do Brasil. Nisto elas acabavam por se singularizar, de certa maneira, em relação aos outros autores aos quais me referi, acima.
Para que se possam compreender as razões pelas quais se estruturou aquela empresa textual singular, cabe lembrar que, num movimento que datava de muito antes, mas que se acentuara ao longo do século XIX, a memória havia se tornado o horizonte de incontáveis práticas culturais. Talvez a aceleração da experiência, já comum no ocidente desde pelo menos o começo do século XIX, e crescente com a inauguração do século XX, tenha contribuído de alguma forma para imprimir nas pessoas uma sensibilidade especial em relação ao passado.
Ora, o século XIX foi marcado por uma especial centralidade do olhar histórico na construção de explicações sobre o mundo – como se, a um tempo que mudava cada vez mais rápido, correspondesse uma sensibilidade marcada pela valorização do que ia, a cada dia, sendo deixado para trás.
Para destacar apenas alguns exemplos da valorização do passado naquele momento, posso mencionar o culto à memória, visível desde a segunda metade do século XIX, e nas primeiras décadas do século seguinte. Cabe citar, quanto a isso, as obras de Marcel Proust, Sigmund Freud, Henri Bergson, Maurice Halbwachs, além de todo o empreendimento de ordem autobiográfica ou memorialística que se produziu após a Primeira Guerra.
Lembrar, a partir daquele momento, no entender de muitos letrados, seria reescrever a história, restaurando espaços subjetivos perdidos em meio a uma experiência histórica cada vez mais veloz e voraz, a qual se faria mediante a destruição de territórios existenciais os mais variados. Entendia-se que a força do tempo condenava a uma espécie de orfandade simbólica cada vez mais indivíduos e grupos, que se sentiam desnorteados no seu presente pela desaparição dos seus marcos referenciais mais significativos. Cabia resistir a tudo aquilo.
Àquela civilização do descarte, que idolatrava não mais o passado ou a permanência, mas, sim, o futuro e a volatilidade, corresponderia, de forma a potencializar a dimensão
tendencialmente ambígua da própria modernidade, uma tendência à produção da memória. Imersos numa história que invadia e reordenava os corpos no que dizia respeito ao seu espaço psíquico e ao seu espaço social, os indivíduos e grupos mais sensíveis à perda de referências simulavam alguma densidade monumentalizando a si e às suas recordações. Exilado tragicamente no próprio presente, o protagonista daquele gesto se resguardava num passado que, pouco importando até mesmo seu deslocamento ou sua relação de estranhamento em relação à história oficial, lhe dava alguma segurança ou, quem sabe, alguma esperança.
O presente, naquele contexto, era o tempo a partir do qual se falava – mas era, de muitas formas, também, o tempo sobre o qual se falava. Ou, ao menos, era o tempo para o qual se falava. Assim, a narrativa memorialística, referida às experiências vividas, era construída tendo em vista tensões e exigências do instante em que ela estava sendo elaborada e estabelecida. E, além disso, ela incidia por sobre a sua atualidade, reconstruindo seus contornos à medida que lhe emprestava uma nova imagem para o seu passado.
O pensamento produzido naquelas circunstâncias, em relação à prática da memorialização, se caracterizou por uma crescente dicotomia entre o que então se nomeava como sendo o passado e o que passava por ser o presente (ou o futuro).
A compreensão que a memória coloca em circulação acerca do passado interfere, na atualidade da sua enunciação, nas políticas de regulação do corpo, seja ele o corpo do indivíduo, seja ele o corpo da sociedade. A memória, neste sentido é política, no sentido de que todo projeto para a sociedade reelabora seu passado, e no sentido de que toda reelaboração do passado está implicada na tessitura de alguma imagem outra para a sociedade.278 Há que se pensar, no que toca à reverberação destas idéias no movimento de análise da literatura memorialística, na relação entre aquela série textual e uma crítica em relação às formas pelas quais o Brasil conheceu, ao longo do século XX, a sua inserção no mundo capitalista.279
Era construído no âmbito daquele conjunto textual um passado que era, por definição, apartado do presente – tanto porque o presente foi ali inventado como um instante de ruptura em relação ao tempo idealizado, quanto porque as marcas daquele tempo encenado pela memória em quase nada se assemelhavam ao que afinal estava sendo vivido no presente dos autores. Esta idéia de ruptura é explorada pela historiografia na sua ambigüidade, visto que as
278 MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e memória. A cultura popular revisitada. São Paulo: Contexto, 1994, p. 10-11; 15 e segs.; 24.
279 LARRETA, Enrique Rodriguez. “À procura do menino perdido”: Gilberto Freyre, modernidade e memória. In. LEIBING, Annette & BENNINGHOFF-LÜHL. (orgs.) Devorando o tempo. Brasil, o país sem memória. São Paulo: Ed. Mandarim, 2001, p. 25-33, cit. p. 30.
interpenetrações entre tempos distintos são comuns à experiência social. Entretanto, fazia parte da aposta dos memorialistas na acuidade do seu olhar a acentuação dos rompimentos entre o passado e o presente.
Importa destacar que o tempo enunciado por aquele discurso da memória não era o tempo vivido: entre ambos, entre o que se viveu e o que se narrou. Há um hiato, uma distância, um espaço vazio. A memória simulava, no seu instante de enunciação, uma temporalidade que a seu ver já havia desaparecido, e que persistia ainda apenas como inscrição nos monumentos erigidos no passado e retomados desde lá, entre os quais o corpo mesmo dos autores. Com isso se quer dizer que o passado que se encontra narrado na memória é uma imagem que resulta da negociação do olhar da própria memória para com as indicações oferecidas por outras práticas de significação do vivido, entre as quais a história. O registro da memória, enfim, dialogava com o registro da história, e o submetia a uma apropriação que, ela mesma, é histórica (no sentido de seu uma prática humana, demasiado humana).280
Aquela simulação pode muito bem ser entendida como o gesto criativo do memorialista, uma intervenção estética que entremeia em si a consideração dos restos do passado e as pressões do presente em torno da significação. Daí porque analisar o discurso memorialístico é um gesto que se deve marcar, entre outros, pelo cuidado em destacar quais os marcos ali estabelecidos, quais as condições de possibilidade daquela monumentalização singular e, finalmente, quais os efeitos daqueles marcos na organização dos sentidos que emergem da trama mesma das memórias.281
Há algo, portanto, de resistência, de invenção, de biopotência, enfim, na memorialização, ainda que ela em geral se mostre como uma força histórica avessa ao que vai sendo vivido como sendo a própria história. Ela pode ser vista como uma intervenção dinâmica nas relações estabelecidas entre o presente e o passado, ainda que sua forma seja no mais das vezes a da nostalgia ou a da melancolia.282
A apropriação desta tendência pelos letrados brasileiros, especificamente, foi praticada em várias frentes da vida cultural. Pensar a realidade como algo cindido em campos opostos era uma tradição recorrente na prática intelectual dos letrados brasileiros, atualizada nos fins
280 MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e memória, p. 17. 281
MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e memória, p. 10; 15. Cf., tb.: GUATTARI, Félix.
Caosmose. Um novo paradigma estético. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1992.
282 LARRETA, Enrique Rodriguez. “À procura do menino perdido”: Gilberto Freyre, modernidade e memória, p. 25-29. Cf., tb.: LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin. Tradução & melancolia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002; SCLIAR, Moacyr. Saturno nos trópicos. A melancolia européia chega ao Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
do século XIX e começos do século XX, face às novas e intrigantes configurações que vinha assumindo a vida social e cultural do país. Tal tendência tornava possível a cisão entre o passado e o presente, condição do discurso memorialístico.283
Daí, derivava o que é apontado por Massaud Moisés acerca desta questão: a literatura brasileira é caracterizada por uma significativa produção de obras de cunho memorialístico, as quais se mostram no cenário desde pelo menos o século XIX e se multiplicam ao longo do século XX. Para isto certamente confluiu o culto ao passado que, comum àquela época, foi entre nós potencializado com o Romantismo estético e atualizou-se episodicamente a cada influxo modernizador.284
Quanto a isso, por sua vez, recuperando reflexões de Karl Mannheim, Alfredo Bosi faz alusão ao quadro histórico do século XIX, quando as elites agrárias em crise e a crescente burguesia urbana em ascensão não conseguiam se sintonizar confortavelmente ao seu tempo presente, produzindo “atitudes saudosistas ou reivindicatórias” que era, no fundo, uma crítica ao instante em privilégio de uma valorização de outros tempos, de outras experiências.285
Isto teria se mostrado no Brasil ainda mesmo sendo guardadas as diferenças da nossa experiência histórica em relação, por exemplo, com as da Europa Ocidental, marcada já desde os fins do século XVIII pela afirmação da ordem burguesa. Aqui, ainda segundo Bosi, os