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Découvertes récentes

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3.2 Une nouvelle base pour la datation

3.2.3 Découvertes récentes

A proposta deste item será sustentar o materialismo espinosista, cujo ponto de partida consiste em apresentar uma leitura monista da substância ou, se preferirmos, a realidade de uma e única substância, ou natureza.

Afirmar a realidade de uma só substância parece, antes de mais nada, uma atitude extremamente dogmática. Como podemos afirmar, sem qualquer prova empírica e sem qualquer formulação teórica mais detalhada, que há substância e, além disso, que esta mesma substância é una?

Essa propensão ao dogmatismo é rapidamente dissipada quando concebemos essa afirmação como um ponto de partida formal. Espinosa não afirma o que é essa substância. É Deus, ou Natureza. Mas a “essência” dessa Natureza não é dada. Ao contrário, temos que a descobrir por conta própria. Somos obrigados a investigar, a partir das circunstâncias, o que é essa substância. Vemos aí já uma grande diferença não só em relação ao reducionismo, como também ao seu ancestral mecanicista.

Como visto no capítulo anterior, as teses reducionistas (sobretudo o fisicalismo) tendem a reforçar o dualismo. Se há um gap, se há dualismo de propriedades, este dualismo tem lugar apenas na medida em que o materialismo reducionista não admite disposições emergentes na própria matéria. Melhor dizendo, o reducionismo descarta que a realidade possa ser, ao mesmo tempo, contínua e descontínua (postura de certa forma inexplicável do ponto de vista da física contemporânea)24.

24 Para o reducionismo, a realidade pode ser explicada (e reduzida) pelo emprego de abstrações, ou seja, entidades teóricas destacadas da realidade. Os dois candidatos imediatos são os conceitos de partícula e de estrutura. Abordo este tema quando apresento a tese emergentista.

Pois bem. O espinosismo não descarta essa possibilidade. Aliás, o espinosismo reconcilia monismo e pluralismo sem abrir mão do materialismo. E o faz a partir dos modos de percepção.

Em Espinosa, como em Hume, e mesmo no pragmatismo, o ponto de partida dá-se pela sensação, pela experiência, pela percepção. A partida é, portanto, o corpo. As relações que compõem um corpo. Mas o fato é que, ao instituir o corpo como modelo, ao fazer essa “provocação”, como nos diz Deleuze (2002, p. 23), Espinosa não está afirmando que um corpo seja isso ou aquilo. Ao contrário, está dizendo que se temos o corpo como modelo, nosso corpo é a medida de todos os corpos. Portanto, nossa experiência, a experiência da relação com os outros corpos é nossa primeira percepção. Esta percepção é limitadíssima, de modo que sequer sabemos do que um corpo é capaz. Se sequer conhecemos nossos próprios corpos, como vamos ter a pretensão de esgotar o conhecimento de todas as relações, i.e., como nos é possível conhecer, de antemão, a substância?

A estratégia de Espinosa consiste em apresentar a percepção como uma modulação. Um modo é justamente isso, o conjunto das relações ou afecções (capacidade de afetar e ser afetado) entre corpos. Note-se, entretanto, que dessa relação puramente material, Espinosa já desliza para os mecanismos que estão por trás da consciência. Percebemos, ou seja,

experimentamos as modificações em nosso corpo e em outros corpos quando nos relacionamos.

Junto com a própria relação material, como um “efeito de superfície”, já tem vazão uma

experiência como imagem e como retenção.

Espinosa se apressa para não reduzir a experiência à extensão. Do contrário, estaria fadado a integrar as fileiras do monismo reducionista. O autor afirma que o conjunto dos mecanismos por trás da consciência é uma modulação irredutível e paralela à relação entre corpos. Dito de outra forma, não há relação causal real entre o espírito e o corpo. Entretanto, dado o postulado monista, o que acontece no corpo, acontece também no espírito, de modo que a mente é uma “leitura”, uma imagem que temos do corpo. As emoções são, por seu turno, as primeiras imagens que temos do nosso corpo (e dos corpos que nos afetam).

Eis, portanto, o célebre paralelismo espinosista que propõe a dessubstancialização da consciência. Se é certo que a extensão tem muito mais realidade do que podemos conhecer de antemão, o pensamento ultrapassa em muito a consciência que dele temos. Há, verdadeiramente, um inconsciente do pensamento como pano de fundo daquilo que chamamos consciência.

São esses os dois modos que, como experiência, expressam25, através dos atributos extensão e pensamento (sem esgotá-los, entretanto), a substância una. Os modos (corpo e mente) não são substâncias, são expressão da substância. Enquanto expressão, estão inseridos em redes de relações, de modo que não podem ser capturados por qualquer conceito abstrato. Quando dizemos: “o corpo” ou “a mente” tornamos abstratas as relações, as modulações que são concretas. Daí que Espinosa rejeitará qualquer tentativa de substancializar a alma. Não há uma “alma” (consciência) como substância apartada do corpo que, por sua vez, interage com a primeira. Não há um hard problem da consciência, pois não há consciência nesse sentido substancialista. A consciência, enquanto modo, é pensamento. O pensamento é um processo, é uma atividade, a formação de uma ideia. Assim, tanto as propriedades psicológicas quanto as fenomênicas são já ideias. Ideias do corpo e ideias de ideias, na medida em que são modos de percepção26.

Temos noção de que, para chegar nessa concepção de modulação, Espinosa parte de algumas definições e axiomas prévios. O primeiro deles: a substância (Deus, ou Natureza) como o real, ou seja, como o Todo que não encontra negativo. Essa substância, por seu turno, comporta infinitos atributos, pois esta realidade, além de inesgotável, é causa de si mesma. Espinosa propõe, então, uma distinção formal na substância. Os atributos não são distinções numéricas (não podem haver duas ou mais substâncias), mas sim expressão formal de uma única realidade material infinita. Uma única substância que pode ser explicada por infinitos atributos.

Este postulado espinosista encontra certa ressonância na física contemporânea, o que, por sua vez, contribui para reduzir o peso das acusações de dogmatismo e de excesso de especulação.

25 É exatamente este o termo utilizado por Espinosa na primeira Definição do Livro II da Ética: "Por corpo compreendo um modo que exprime, de uma maneira definida e determinada, a essência de Deus, enquanto considerada como coisa extensa." (Espinosa, 2007, p. 79). O modo exprime a substância que, por sua vez, se explica através do modo.

26 Estamos diante do problema dos próprios. Não podemos confundir as propriedades (enquanto abstrações úteis até certo ponto) com os atributos. As propriedades são leituras das modulações, são tentativas de reter alguma noção acerca da substância (ou plano de imanência). Mas não são a substância, nem pertencem à substância. Quando dizemos que Deus é bom, por exemplo, estamos conferindo à substância uma propriedade que não a pertence, estamos projetando uma abstração no plano de imanência. Deus não é bom nem mau, Deus é extensão e pensamento. Cada vez que usamos esse "atalho" das abstrações recusamos, implicitamente, buscar compreender as relações concretas entre os corpos. Nos contentamos como uma abstração como se fosse uma explicação, mas que na verdade não explica nada.

Nise da Silveira ressalta a sintonia entre o espinosismo e algumas vertentes da física, sobretudo as teorias desenvolvidas por David Bohm. Dada a importância, permito-me uma citação extensa de um trecho das Cartas a Spinoza:

Num clima de opinião cartesiano, em que a razão (pensamento) reina absoluta, muito distante da extensão (matéria), certamente escandalizava sua afirmação de “não saber por que a matéria seria indigna da natureza divina” (K, I, XV escólio). E mais: que “a ordem e a conexão das ideias são as mesmas que a ordem e a conexão das coisas” (£.,11,VII). No escólio desta última proposição, você sublinha ainda: “substância pensante e substância extensa constituem uma só e mesma substância, que é compreendida seja sob um atributo, seja sob o outro”.

Só recentemente alguns físicos estão vindo ao seu encontro, sem dúvida usando outro vocabulário. Assim David Bohm, físico contemporâneo, parece-me ter muitas afinidades com você. Existiria uma dimensão oculta de infinita profundidade, que Bohm denomina ordem implícita. Da ordem implícita originar-se-ia a ordem explícita, correspondente ao nosso mundo dos objetos, que se movem no espaço e tempo. A totalidade da ordem implícita, oceano de energia, não é manifesta para nós; apenas nos apercebemos de alguns de seus aspectos, pois é condição de nosso pensamento não conseguir apreender a totalidade em seu completo esplendor. (SILVEIRA, Carta III)

Dentre a infinidade de atributos, temos acesso a dois, nos orientamos, por assim dizer, a partir de dois atributos: extensão e pensamento. Não há, para nós, nada fora da extensão e do pensamento. As diferentes intensidades de expressão da substância ocorrem como modulações do corpo e do espírito. Corpo e consciência são a substância em ato ou uma

existência finita que implica a substância.

São esses os pressupostos da teoria da percepção do espinosismo. Uma substância real que se desenrola em atributos que são extensão e pensamento. Dois modos que expressam aquela substância através desses atributos e nenhum outro. Em conjunto, essas definições dão conta da união indissolúvel entre essência e existência.

Faço questão de ressaltar essas definições, pois acredito que, bem compreendidas, serão o pano de fundo para a formulação da tese que defende a hipótese de uma epigênese da

consciência. Entretanto, para sustentar essa tese, não há como manter uma adesão incondicional

a Espinosa.

São dois os pontos que pretendo reformular. A ideia de substância como sendo um Uno-Todo. Além disso, pretendo apresentar uma releitura dos atributos extensão e pensamento. Vou começar por este segundo ponto, deixando a questão da substância para o próximo tópico em que vou voltar-me para o perspectivismo.

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