As relações estabelecidas entre a casa e a criança só serão compreensíveis através da inclusão de outro sujeito no âmbito desta investigação; a família.
Assim, comentar a evolução do espaço de morar e a valorização da infância requer entender as transformações que atingiram a família europeia ocidental.
O vocábulo família ainda suscita dúvidas quanto a sua origem. São identificadas duas possibilidades, ambas do latim: fames correspondente a fome, e famulus, que quer dizer servo. Pela sua etimologia, a palavra família pode ter sofrido algum cruzamento nesses dois significados. O que importa, no momento, é entender que a família se constituía num conjunto de escravos e/ou servos, esposa e filhos subjugado pelo poder de um único senhor.
Na Roma Antiga, família designava o conjunto dos escravos e dos servidores, mas também toda a domus (casa), isto é, todos os indivíduos que vivem sob o mesmo teto e os bens patrimoniais pertencentes a essa casa, numa hierarquia que mantinha, por um lado, o senhor e, por outro, a mulher, os filhos e os servidores, vivendo sob a sua dominação (Leandro, 2006:p.52).
Na Idade Média, o conceito de família passou a designar a organização dos seres humanos após a contração do matrimônio, mas ainda mantinha os criados e agregados como membros deste grupo. Esse primeiro arranjo seria ampliado com o tempo, compondo-se por pai, mãe, filhos, parentes e empregados e tinha por objetivos a perpetuação do nome, garantindo a posse e a manutenção do patrimônio já existente. A ideia da formação familiar por base do casamento veio através da interferência da Igreja Católica, que colocava como modelo a família de Nazaré, composta por Maria, José e Jesus. O matrimónio tornou-se um sacramento indissolúvel, monogâmico e com o livre consentimento dos nubentes, embora ainda houvesse muitas uniões arranjadas. A figura central ainda era o pai, que exercia o poder e autoridade sobre os outros componentes. Este modelo, denominado patriarcal, se conservou durante muitos anos e só adquiriu o entendimento mais atual
de família ao longo do século XVIII, quando a composição familiar passou a ser identificada pela presença de pai, mãe e filhos: a família nuclear moderna.
As alterações ocorridas nas relações sociais da família, promovidas tanto pelo estabelecimento de vínculos afetivos e emocionais entre seus membros como pela divisão dos poderes entre a figura paterna e o Estado, quando este passa a intervir nas questões de saúde e de educação, foram ainda mais intensificadas com a passagem da sociedade agrária para a sociedade industrializada. A vida nas cidades não dispunha de tanto espaço físico e as áreas das habitações começaram a reduzir- se, assim como o número de membros da família. Junto a isso, o entendimento da vida doméstica separada da vida social e de trabalho carregou de importância o espaço privado de cada grupo familiar, pois era nesse reduto onde se solidificavam os valores culturais e sociais que os uniam.
A domesticidade e o aparecimento das escolas promulgaram sensíveis alterações nas relações sociais. O investimento no indivíduo, com uma formação mais qualificada para a sociedade cada vez mais profissionalizada, criava a consciência de que além daquilo que se podia herdar de material, era preciso conquistar valores e saberes por esforço e méritos individuais. As crianças passaram a receber mais atenção em seu ambiente familiar, e a afeição entre os membros deste composto ganhou uma profundidade ainda não experienciada. Os filhos permaneciam em casa, na maioria das vezes, até completarem sua formação escolar e profissional. O investimento nas crianças passou a ser visto como a garantia de sobrevivência para o futuro, sentimento este que partilhamos até a atualidade.
Este estreitamento de laços entre pais e filhos tornou-se ainda mais evidente à medida que os serviçais ou criados passaram a ser excluídos da convivência. O sentimento de intimidade afastava a presença desses elementos nos momentos da vida privada, ou seja, durante o compartilhamento das refeições junto à mesa e mesmo no dormir. Ficou claro a essa altura, que a composição da família se restringia mais aos cônjuges e à prole.
Nesta cena revolucionária, a introdução do casamento civil com peso maior diante das autoridades legais e, posteriormente, com a aceitação do divórcio (conquanto em casos específicos) permitiu o surgimento de várias outras modalidades familiares e recomposições.
A evolução da família nuclear para a família contemporânea do século XX ocorreu com a diminuição da autoridade parental. A inserção da mulher no mercado de trabalho, o divórcio e os novos arranjos por novos casamentos geraram muito impacto na vida familiar.
As mudanças ocorridas na casa e na família, devidas à industrialização, à revolução do consumismo e alimentadas pelo processo de individualização, acarretaram naturalmente em uma mudança nas relações sociais (cit. por Dantas, Thereza Christina Ferreira – O mobiliário infanto-juvenil da casa paulista na década de 1950 e suas relações com o espaço físico da criança, p.42).
O processo de modernização, ao incorporar a ideia de que a felicidade de cada indivíduo é que compõe a felicidade da família, deu muita liberdade para as relações familiares. A exacerbação da individualidade trouxe algumas consequências para o convívio social e, principalmente, para os filhos, as crianças. Ninguém precisa ficar ligado a outro por simples convenção; hoje a procura intensa é da satisfação de cada um dos componentes do casal. Nem mesmo a presença de crianças interfere nesse assunto, pois como ocorre em diversos países e em Portugal, a guarda dos filhos pertence aos dois progenitores, salvo em exceções de litígio. Ao assumir a responsabilidade de pôr uma criança no mundo, assume-se um laço biológico e afetivo indelével.
O aumento da instrução para toda a população, homens e mulheres, também ocasionou uma mudança no perfil das sociedades. As mulheres, anteriormente confinadas aos ambientes domésticos e ao papel de reprodutoras, passaram a orbitar o espaço da sociedade economicamente ativa. A sua preocupação com a formação e com a ascensão profissional acabou deixando de lado a maternidade. Apesar de a utilização de métodos contracetivos não ser uma invenção da modernidade, o entendimento e a convicção de que é a mulher que controla a fecundidade foi uma conquista ímpar do ponto de vista histórico e social. Não nos podemos esquecer que, embora fizesse parte do grupo familiar (desde os tempos mais remotos), e dos diversos papéis que desempenhou ao longo da História, a mulher estava destinada a
obedecer. “A questão da continuidade das gerações é hoje tanto mais importante quanto os casais são mais instáveis” (Leandro, 2006:p.67).
Com essas abordagens, não se pretende rotular uma crise na família. Da mesma maneira que transformações estão em curso tanto na produção do espaço construído como no entendimento e ações para a infância, a família passa por mutações. Contudo, ainda se constitui como base da sociedade, pois é em seu seio que os indivíduos obtêm valores que não são passíveis de troca monetária: amor, carinho, aconchego, felicidade e identidade sociocultural.
A criança está completamente imersa na infância a criança não sabe que há-de fazer da infância a criança coincide com a infância a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono deixa cair a cabeça e voga na infância a criança mergulha na infância como no mar a infância é o elemento da criança como a água é o elemento próprio do peixe a criança não sabe que pertence à terra a sabedoria da criança é não saber que morre a criança morre na adolescência Se foste criança diz-me a cor do teu país Eu te digo que o meu era da cor do bibe e tinha o tamanho de um pau de giz Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez Ainda hoje trago os cheiros no nariz Senhor que a minha vida seja permitir a infância embora nunca mais eu saiba como ela se diz ‘Algumas Proposições com Crianças’ Ruy Belo, 197820
20Belo, R. (1978) ‘Algumas Proposições com Crianças’. Homem de Palavra[s]. 2ª Edição Lisboa: Presença.
Disponível em http://www.citador.pt/poemas/algumas-proposicoes-com-criancas-ruy-belo (Consult. em 15 Nov. 2017)