5.6 Analyse du décodage des caractéristiques
5.6.1 Décodage dans l’espace des capteurs
Feudo dos duques de Bragança, a cidade de Bragança foi uma impor- tante fortaleza no período da monarquia. As montanhas circundantes constituíam uma defesa morfológica contra invasores e perigos externos. Aliás, o norte do país é muito zeloso da sua identidade, por isso se diz que «Para lá do Marão mandam os que lá estão». Atributos de carácter são também reivindicados. Como me dizia um bragançano, «nós aqui somos de cepa rija, é do frio», como se o frio obrigasse o corpo a mexer- -se para que os músculos não entorpecessem nas gélidas noites da cha- mada Terra Fria. Num dia gélido, depois de um magnífico almoço de ca- sulas secas com carnes de variadas espécies, de entre as quais merece destaque o butelo, chouriço confecionado com ossos esmagados, dei co- migo a digerir pensamentos de «casula». O proprietário do restaurante recomendara-me o prato, considerado uma especialidade transmontana. Perante a minha confessada ignorância, explicou-me que, em Trás-os- -Montes, o nome de casula é dado às cascas de um feijão corrente. O mesmo nome também é dado à vestimenta sacerdotal que se coloca sobre a alva e a estola e, no género masculino (casulo), tanto pode desig- nar o invólucro filamentoso construído pela larva do bicho-da-seda e de outros insetos, como a divisão de madeira onde as pombas chocam os ovos. Etimologicamente, supõe-se que o termo derive de casa e, de facto, em seus variados usos, o seu significado remete para a ideia de proteção, envolvimento, cobertura.
Nestes pensamentos de «casula», regados por vapores de um verde tinto, comecei a questionar o lugar da «casa» nas relações sociais dos transmontanos. Sabemos que, na maioria das sociedades, o matrimónio se encontra fortemente associado ao intercâmbio de bens.1Mas que lugar
1Ver, por exemplo, Jack Goody, Bridewealth and Dowry (Cambridge: Cambridge Uni-
versity Press, 1973) e Brian Juan O’Neill, Proprietários, Lavradores e Jornaleiros. Desigualdade
tem nesta associação o prazer erótico? Que relação poderia haver, por exemplo, entre as casas familiares e as casas de alterne que recentemente começara a frequentar, com propósitos escrupulosamente científicos?2
Há tensões entre a propriedade e o prazer sexual? Engels escreveu há bas- tante tempo uma obra clássica sobre a origem da propriedade e da famí- lia.3A mim interessam-me mais os conflitos entre propriedade, família e
prazer sexual e a hipótese de a propriedade nem sempre se aconchegar à felicidade do casal que, sói dizer-se, constitui a essência da família.
Em Trás-os-Montes, como em muitas outras regiões de Portugal, a uni- dade social primária continua a ser a casa. Não é por acaso que no norte do país persiste ainda um «individualismo familista, enquanto vivência obsessiva da casa e na casa».4E como «quem casa quer casa» é compreen-
sível que o casamento seja orientado pelo projeto da casa e dos interesses que a circundam e a envolvem. Este modelo cultural orienta não apenas quem entre si se corteja, tendo em vista o casamento, mas também as respetivas famílias. Hoje, evidentemente, esse jogo de interesses viciou- -se por efeito do abalo na rigidez das estruturas sociais, mais permeável à mobilidade, em grande parte possível devido à emigração e à escolari- zação. Um casamento significava – mas ainda significa – casamento de famílias, um acasalamento de bens e posses. Jorge Dias, no seu célebre estudo sobre Rio de Onor, deu conta desse fenómeno: «O casamento é quase sempre combinado entre as famílias, quando os futuros noivos ainda são crianças, pois convém olhar sempre aos interesses da casa. A afeição virá depois.»5Neste modelo de família, a casa era uma «enti-
dade mítica», símbolo de transmissões patrimoniais que unificavam ge- rações: «a necessidade de manter a casa (conjunto de haveres) intacta
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2Estes pensamentos foram originalmente levantados numa publicação em homena-
gem a Manuel Villaverde Cabral. Ver José Machado Pais, «Das casas de família às casas de alterne: em Trás-os-Montes com Manuel Villaverde Cabral», em Ciências Sociais: Vo-
cação e Profissão. Homenagem a Manuel Villaverde Cabral, orgs. Pedro Alcântara Silva e Filipe
Carreira da Silva (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2013), 331-356.
3Friedrich Engels, A Origem da Propriedade, da Família e do Estado (Rio de Janeiro: Ber-
trand Brasil, 1995 [ed. or. 1884]).
4José Madureira Pinto e João Queirós, org. Ir e Voltar. Sociologia de uma Colectividade
Local do Noroeste Português (1977-2007) (Porto: Edições Afrontamento, 2010), 375. Ver
também: Manuel Carlos Silva, «Casa e casas em espaço rural minhoto: o poder domés- tico», Cadernos do Noroeste, vol. IV, n.º 6-7 (1991): 79-99; João de Pina-Cabral, Sons of
Adam, Daughters of Eve: the Peasant Worldview of the Alto Minho (Oxford: Clarendon Press,
1986); João Ferreira de Almeida, Classes Sociais nos Campos: Camponeses Parciais numa Re-
gião do Noroeste (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 1982).
5Jorge Dias, Rio de Onor. Comunitarismo Agro-Pastoril. 3.ª ed. (Lisboa: Editorial Presença,
[originava] o casamento tardio, o celibato de grande parte dos filhos, as heranças desiguais, favorecendo um dos filhos que será o herdeiro da casa».6As normas da endogamia não apenas limitavam a autonomia in-
dividual como serviam para regular e salvaguardar a gestão patrimonial nos seus fluxos geracionais, por efeito das heranças. À luz desta lógica, o matrimónio perfeito era aquele em que as fortunas patrimoniais de ambas as partes se encontravam numa relação de equilíbrio, como fun- damento de uma negociação equitativa.7As estratégias de reprodução
social apareciam protegidas pela instituição do matrimónio.
O celibato dos filhos primogénitos não correspondia apenas a uma afirmação excessiva da autoridade dos pais, assegurava também a prote- ção do património económico, uma vez que evitava o fracionamento das terras, consolidando a propriedade na órbita da casa. Porém, a ex- clusão do casamento não significava uma «recusa do acesso à sexuali- dade»,8como bem sugerem as significativas percentagens de filhos ilegí-
timos. A salvaguarda dos «interesses da casa» era assegurada colocando em lugares distintos os filhos bastardos e os legítimos. Paula Godinho9
sugere, e bem, que o fenómeno dos filhos ilegítimos no Alto Trás-os- -Montes raiano é compreensível a partir das estratégias de preservação do património. Ou seja, de um lado teríamos as mulheres apropriadas para casar e para ter filhos legítimos, dados os seus dotes patrimoniais; de outro lado aquelas outras com as quais se poderiam ter encontros oca- sionais, os chamados deslizes ou arranjinhos, e dos quais resultavam fre- quentemente filhos ilegítimos, também conhecidos por «zorros». Quem eram essas outras? As que ficavam arredadas do matrimónio por estarem apartadas do património: jornaleiras, cabaneiras, domésticas, criadas de servir, ciganas, pastoras, carvoeiras, taberneiras, costureiras e tecedeiras – ocupações sobrerrepresentadas no conjunto das mães com filhos ilegíti- mos, segundo o levantamento feito nos registos paroquiais de batismo por Paula Godinho.10A existência de elevadas percentagens de filhos ile-
gítimos e de mães solteiras em aldeias transmontanas, designadamente
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6Idem, 318.
7Theodore Zeldin, Histoires des passions françaises, 1848-1945: ambition et amour. Vol. 1.
(Paris: Seuil, 1980).
8Paula Godinho, O Leito e as Margens. Estratégias Familiares de renovação e situações limi-
nares em seis aldeias do Alto Trás-os-Montes raiano (1880-1988) (Lisboa: Edições Colibri,
2006b), 198.
9Paula Godinho, «A bastardia como mecanismo estratégico no Alto Trás-os-Montes
rural», Ethnologia, vol. I, n.º 2 (1995), 52.
no período que antecede o avolumar dos fluxos migratórios a partir de 1960--1970, é sugerida por diversos estudos antropológicos.11Os deslizes
ou arranjinhos constituíam uma fuga ao modelo de conjugalidade de cunho patrimonialista. Aliás, Teresa Albino, ao pesquisar mães solteiras numa aldeia transmontana, sugere a existência de dois modelos de se- xualidade: «uma sexualidade socialmente controlada e uma sexualidade ilícita e “amorosa” entre membros de grupos económicos diferentes».12
A sexualidade extramatrimonial, sinalizada pela elevada percentagem de mães solteiras, acabava por assegurar a reprodução da mão de obra nos campos, graças aos filhos bastardos, também conhecidos por «filhos das ervas», geralmente concebidos nas eiras e leiras, fora do espaço domés- tico, isto é, da casa. Nesta, lugar sacro da família, concebiam-se os filhos legítimos. Fora de casa, nos lameiros, surgiam os deslizes, os filhos ilegí- timos, ou zorros. Adiante veremos que a casa de alterne não é propria- mente um equivalente dos lameiros e jeiras. Mas a sua aproximação é dada por uma comum exterioridade em relação ao espaço da casa, em ambos os casos havendo lugar para uma sexualidade ilícita.
Umas vezes havia falatório fofoqueiro sobre a provável paternidade dos filhos ilegítimos, apontando-se a dedo o causador do deslize. Outras vezes a paternidade era assumida e os rumores desapareciam. As gravi- dezes indesejadas eram uma prova inequívoca dos deslizes que a todo o custo se procuravam remediar. Eram até usadas práticas medievais abor- tivas, como era o caso da sargacinha, também chamada erva de sete san- grias: «À sargacinha dos montes/ Devo eu obrigações/ Qu’encobre os meus segredos/ Em certas ocasiões».13Outras vezes, ainda, invocavam-
-se «manigâncias diabólicas» para abafar sussurros de má-língua sobre al- guns suspeitos. Numa aldeia transmontana corria a crença lendária de que o Diabo se disfarçava de padre – o senhor padre Bento, um «santo homem» – e, astutamente, esperando as mulheres pela caída da noite, junto a uma fonte, o maganão atraía-as para trás de umas carvalheiras
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11Brian J. O’Neill, «Jornaleiras e Zorros: dimensões da ilegitimidade numa aldeia trans-
montana 1870-1978», in Les campagnes portugaises de 1870 à 1930: images et réalité, orgs. Marie-Christine Volovitch-Tavares, Albert-Alain Bourdon e Maria de Fátima da Silva Brandão, s. p. (Paris: Fondation Calouste Gulbenkian/Centre Culturel Portugais, 1985); Teresa de Jesus Albino, «Mães solteiras numa aldeia transmontana..., 683-695.
12Teresa de Jesus Albino, «Mães solteiras numa aldeia transmontana», Análise Social
(92-93), 3.º-4.º (1986): 692-693.
13Guilherme Felgueiras, «O Mundo vegetal no conceito popular Fitolatria. Práticas e
crenças supersticiosas de feição dendrolátrica», em Trabalhos de Antropologia e Etnologia, vol. XXI(Porto: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia e Instituto de Antro- pologia Dr. Mendes Correia, 1969), 167.
para logo as possuir. Era tamanha a tentação do demónio, que as mu- lheres, mesmo sem necessidade de água, lá iam à fonte, como que arre- batadas pelo magia do diabo, mascarado de padre Bento.14
O acesso a um bom casamento dependia da disponibilidade de patri- mónio.15Num livro desse grande romancista transmontano que é Pires
Cabral (A Loba e o Rouxinol), o personagem central é um antigo marçano, posteriormente caixeiro, que, depois de muito amealhar, lá conseguiu comprar a mercearia da viúva onde trabalhava, adquirindo o estatuto de merceeiro. Só então se atreve a aproximar-se daquela com quem se viria a casar: «O estatuto social autorizava agora a ousadia: um simples caixeiro nunca se atreveria, um merceeiro sim.»16Os casamentos eram realizados
por conveniência, segundo uma regra simples de isogamia: «tanto tens quanto vales». A casa aparecia sempre como o núcleo de união do pa- rentesco com a propriedade. Assim sendo, os casamentos não podiam colidir com os interesses da casa. A relação entre património e matrimó- nio na região transmontana foi bem evidenciada por Brian O’Neill,17ao
mostrar como o acesso à terra e ao trabalho ia a par com o acesso ao ca- samento e à herança. Numa recensão ao seu marcante livro – Proprietá-
rios, Lavradores e Jornaleiros – Manuel Villaverde Cabral antevia, contudo,
uma pista por explorar: «O que falta nesta pesquisa para que percebamos claramente o modo como os indivíduos foram, até há muito pouco tempo, brutalmente subordinados às casas nesta comunidade é um es- tudo sobre as sanções a que eles estariam sujeitos caso não se submetes- sem à ferocidade das estratégias coletivas.»18
A insubordinação às casas podia ocorrer em dois momentos distintos: antes ou depois do casamento. Antes do casamento, a «ferocidade das estratégias coletivas», nomeadamente das estratégias familiares, criava bar- reiras complicadas de ultrapassar por todos aqueles que pretendessem casar fora do seu círculo social. As violentas reprimendas funcionavam, na maior parte dos casos, como sanções inibitórias de todos os que amea-
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14Cláudio Amílcar Carneiro, Pelo Nordeste de Trás-os-Montes (Mem Martins: Edições
do Jornal Amadora-Sintra, 2001), 216.
15Robert Rowland, «Sistemas matrimoniales de la Península Ibérica (siglos XVI-XIX).
Una perspectiva regional», em Demografía Histórica en España, orgs. Vicente Perez Moreda, e David-Svens Refer (Madrid: El Arquero, 1988), 72-137.
16A. M. Pires Cabral, A Loba e o Rouxinol (Lisboa: Âncora Editora, 2004), 24. 17Brian O’Neil, Proprietários, Lavradores e Jornaleiros. Desigualdade Social Numa Aldeia
Transmontana, 1870-1978. Colecção «Portugal de Perto» (Lisboa: Publicações Dom Qui-
xote, 1983).
18Manuel Villaverde Cabral, «Trás-os-Montes entre as máscaras e a roda da fortuna»,
çassem os interesses da casa. As fontes literárias dão-nos sugestivos exem- plos dessas sanções dissuasoras. A título de exemplo, vejamos como uma jovem, convicta dos seus sentimentos, se enfrenta com a sua exaltada mãe:
– Sua cabra! De todos os rapazes que te andam a cheirar o rabo, só se havia de agradar daquele valdevinos.
– Que é que vossemecê quer? – tornava a filha, muito fouta e desenga- nada – Fique sabendo que o bem-querer não se compra nem se vende. Só quero àquele rapaz e, se não casar com ele, descanse que nenhum outro se gozará de mim.19
Se antes do casamento as reprimendas aparecem como uma força dis- suasora, depois do mesmo os interesses da casa correm riscos quando um dos cônjuges – normalmente o marido – ameaça desmembrar o pa- trimónio da casa por efeito de traições conjugais ou viciação na chamada «má vida». Por aqui vemos que enquanto o casamento aparece como uma instância que assegura a permanência da casa e da propriedade, o «putedo» é uma espécie de vendaval que ameaça essa permanência, ao contrário do que acontecia quando o património – simbolizado pela casa – era assegurado através do celibato masculino, daí derivando o ele- vado número de mães solteiras e filhos ilegítimos. O movimento das Mães de Bragança que tanto brado deu pode interpretar-se como um grito de revolta de mulheres traídas quando os homens que as levaram ao altar fogem às suas responsabilidades económicas perante a casa.
Aliás, a favor da casa mobilizam-se sacrifícios que chegam a perigar o equilíbrio emocional da família e a sua sobrevivência económica. Um padre de Bragança deu o exemplo de uma família da sua paróquia: «Fi- zeram investimentos em casa própria, contraíram empréstimos bancários, mas com a crise económica vivem com dificuldades. Às vezes aparecem- -me: “Se pudesse arranjar alguma coisa para os meus filhos que já não comeram ontem”... Há muita gente que tem um bom carro até, um bom apartamento ou uma vivenda, mas hoje não tem de comer. A banca ab- sorve-lhe os rendimentos.» Se as dificuldades económicas podem levar a família a uma situação de crise, dados os investimentos excessivos na casa, há também quem sugira que os interesses da casa não raramente se sobrepõem ao interesse dos casados, no que respeita ao relacionamento
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19A. M. Pires Cabral, O Diabo Veio ao Enterro. Contas do Nordeste. 2.ª ed. (Macedo de
afetivo e sexual. O proprietário de um acolhedor restaurante de Bragança falou-me dos «casamentos arranjados» que normalmente não funcionam bem: «têm casas, bens... mas na cama são dois sacos de palha». E expli- cou-me a razão das maleitas conjugais: «Depois de casado, o homem tem vergonha da mulher. A mulher pode ser muito honesta, mas depois de casar engorda, as mamas ficam descaídas, não dá importância à se- xualidade.»
A oposição entre a casa (lugar do lícito) e o que se passa fora dela (onde o ilícito ocorre) – no fundo, uma dualidade entre o dentro e o fora – reproduz-se a uma outra escala territorial quando uma dada comunidade (aldeia) se opõe ao exterior (aldeias vizinhas). Em Trás-os-Montes, o sen- tido da comunidade é sinalizado pela existência de baldios comunitários, onde se faziam roçadas, subsistindo ainda hoje uns quantos moinhos do povo. Era aliás comum o trabalho comunitário gratuito, a chamada torna-jeira. Embora, sob a pretensa unidade anunciada pelo termo «co- munidade», exista, na verdade, uma diversidade de situações e relações sociais, o certo é que em muitas regiões do norte de Portugal eram abun- dantes os ritos celebradores desse espírito de comunidade. Em algumas aldeias do concelho de São João da Pesqueira, na época natalícia, rapazes e homens, armados com chuços e espingardas, iam fora da aldeia roubar árvores para queimar em fogueiras. Pelo caminho de regresso davam tiros para que ninguém se abeirasse das janelas das casas, afastando assim a possibilidade de servirem de testemunhas. As árvores eram queimadas em grande festa, no adro da igreja, com grande ajuntamento de gente.20
O roubo executado fora da aldeia e comemorado na mesma era um pre- texto de celebração para a comunidade.
Este espírito comunitário desencorajava namoros e casamentos entre rapazes e raparigas de aldeias vizinhas. Esta era uma realidade de muitas aldeias de Trás-os-Montes e de outras aldeias do norte do país e das Beiras. Um escritor transmontano relata num dos seus livros: «Uns anos atrás foi para a minha aldeia um peliqueiro de Argozelo, já casado e com filhos. Quando estes chegaram à idade núbil foram procurar consorte à terra pa- terna, onde haviam nascido, à exceção de uma rapariga que se enamorara de um rapaz da aldeia onde vivia e casara, quebrando assim a tradição e contrariando a vontade parental. Ia-lhe custando cara a desobediência! O pai, que, como aos demais filhos, lhe havia dado quinhentos contos, ameaçara tirar-lhos e expulsá-la de casa antes do casamento.»21O mesmo
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20Augusto C. Pires de Lima, «Tradições populares de Santo Tirso», Revista Lusitana,
n.º 22 (1919), 73-74.
escritor assevera: «Namorar em terra alheia não era nada fácil nem acon- selhável... mesmo nada... Estava-se sujeito a ser malhado como ferro em brasa na bigorna do ferreiro.»22O escritor, natural de Chacim, conta a
história de uma «moça de bem» de quem se aproximou um modesto za- galinho de uma aldeia vizinha. Num dos primeiros encontros saíram-lhe logo a caminho dois rapazes da terra «intimidando-o a entrar na próxima taberna e pagar o vinho, como era costume de quem namorava em terra alheia».23
Os rapazes consideravam as raparigas de suas aldeias propriedade in- terdita aos forasteiros. No Barroso (Trás-os-Montes) exerciam uma espécie de direito sobre as moças da terra que consistia em as apalpar quando circulavam pelas ruas: «Um rapaz passa por uma moça, na rua pública, seja diante de quem for, embora haja recato diante dos pais dela, e ape- tece-lhe passar as mãos pelas mamas ou tetas da moça e agarra-a pelos dois braços e ela, embora barafuste e estrebuche, ele sabe que não há mal e toca a apalpar.»24No entanto, em relação aos rapazes de fora da aldeia,
o direito somente era concedido contra o pagamento de vinho e baca- lhau: «botam-no ao poço se não paga».25A «endogamia aldeã» revelava-
-se «a forma mais segura de arranjar noivo».26Os que arriscavam casar
fora da sua aldeia sujeitavam-se a penalizações. Um dos mais interessantes estudos sobre estas sanções foi publicado na Análise Social, por Mário Lages.27A pesquisa sobre casamentos exolocais numa aldeia do concelho
de Vila Nova de Paiva (Aldeia de Touro), de onde o autor é natural, apre- senta-nos uma rica etnografia sobre o chamado «pagamento da cabrita». À época em que realizou a pesquisa (finais dos anos 70, inícios de 80) ainda perduravam traços culturais desse rito, também denominado «pa- gamento do vinho».
O rito do pagamento da cabrita projeta-se num universo de significações onde impera a ideia de ordem prescrita. Ao descobrir-se que uma rapariga se embalava pelo arrastar de asa de um rapaz de fora, um grupo de rapazes da aldeia, liderado por um coxo, assaltava a casa dos pais da rapariga quando o noivo lá estava, obrigando-o a sair e a pagar as inevitáveis rodadas
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22Idem, 171. 23Idem, 174.
24António Lourenço Fontes, Etnografia Transmontana I: Crenças e Tradições de Barroso