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Pública de Odessa pode ajudar a traçar as semelhanças e diferenças entre os catálogos dessas duas bibliotecas e a listagem de obras da biblioteca imperial do Brasil e da Rússia, já analisados no capítulo anterior. Abaixo, há uma lista com os 10 escritores de maior destaque nesses acervos:

Nome Número de Obras

Alexandre Dumas 240 (4,1%)

Paul de Kock 152 (2,6%)

Xavier de Montépin 134 (2,3%)

Camilo Castelo Branco 106 (1,8%)

Pierre Alexis de Ponson du Terrail 103 (1,8%)

Paul Féval 99 (1,7%)

Eugène Sue 85 (1,4%)

Jules Verne 67 (1,14%)

Émile Zola 63 (1,08%)

Enrique Pérez Escrich 51 (0.9%)

Fréderic Soulié 51 (0.9%)

George Sand 51 (0.9%)

Nome Número de obras Walter Scott 61 (2.8%) Charles Dickens 45 (2,06%) Alexandre Dumas 28 (1,28%) George Sand 26 (1,19%) Émile Zola 26 (1,19%) Victor Hugo 24 (1,1%) Liev Tolstoi 22 (1,1%) Alphonse Daudet 19 (0,9%)

Edward Bulwer Lytton 18 (0,8%)

Paul de Kock 18 (0,8%)

M. E. Saltykov 16 (0.7%)

Tabela 5: Autores mais presentes na Biblioteca Pública de Odessa

Os quadros acima mostram muitas semelhanças e diferenças entre os dois catálogos. Podemos notar, em primeiro lugar, que o catálogo do Gabinete Português de Leitura contém mais autores folhetinistas e de um período mais recente do que a biblioteca de Odessa. Enquanto o estabelecimento brasileiro tem em destaque autores conhecidos pela grande produção de romances em folhetim, como Alexandre Dumas, Paul de Kock, Montépin, Ponson du Terrail e Eugène Sue, o acervo russo parece ter em posição privilegiada autores mais clássicos e valorizados pela crítica literária do período, como Walter Scott, Charles Dickens e George Sand. Esse fato pode ter como explicação uma preferência literária do público leitor russo ou o projeto da biblioteca de Odessa que, por não funcionar por meio de subscrições, poderia montar um acervo de obras de autores mais valorizados pelos letrados.

Apesar da diferença entre a relevância de determinados escritores em cada uma das bibliotecas, não é possível negar a grande semelhança entre os autores franceses mais mencionados nos catálogos, com especial destaque para nomes como Alexandre Dumas, Paul de Kock, Émile Zola e George Sand. Todos eles foram romancistas de bastante sucesso e suas obras se destacam em muitos dos estudos sobre a circulação de romances no século XIX204.

204 Ver: ABREU, Márcia (org.). Trajetórias do romance... Op. cit. ABREU, Márcia (org.). Romances em movimento...Op. cit.

Alexandro Paixão já havia pesquisado sobre a grande predominância das obras de Dumas no Gabinete Português e sobre a possibilidade de que seus romances agradassem ao público de comerciantes que frequentava esse local205. Além disso, Andréa Müller, em seu estudo sobre os anúncios de prosa ficcional veiculados pelo Jornal do Commercio, destaca Alexandre Dumas, Balzac, Eugène Sue e Paul de Kock como os escritores mais anunciados no ano de 1857206. Na pesquisa sobre catálogos da livraria Garnier, de Juliana Maia de Queiroz, Dumas, Paul Féval, George Sand, Eugène Sue e Paul de Kock também são os que mais aparecem207. Esses mesmos nomes estão entre os mais frequentes nas bibliotecas analisadas por Nelson Schapochnik208, e Dumas e Sue estão entre os títulos de romance mais consultados na Biblioteca Nacional entre os anos de 1849 e 1856, segundo Débora Bondance Rocha209.

Levando em consideração esse panorama da circulação de romances de autores franceses no século XIX, é possível compreender por que esses autores se destacam tanto no catálogo do Gabinete Português, e o motivo de sua fama ter se estendido até uma biblioteca pública da Rússia, onde seus livros poderiam ser lidos em língua original ou por meio de traduções. Não é possível deixar de notar que a maioria dos autores em destaque na biblioteca brasileira e russa costumavam escrever folhetins: Alexandre Dumas, Paul de Kock, Xavier de Montépin, Ponson du Terrail, Paul Féval e Fréderic Soulié foram famosos folhetinistas e conseguiram se tornar os autores mais adquiridos pelas bibliotecas estudadas. Isso mostra como o folhetim alterou a maneira como se lia romances e favoreceu a proliferação das obras de determinados escritores em diferentes partes do mundo210. Esses autores franceses de ampla circulação acabaram por formar, assim, um elo entre as práticas de leitura de diferentes países do mundo e são responsáveis por grande parte dos 387 títulos que os catálogos estudados possuem em comum. As bibliotecas públicas brasileira e russa contam, por exemplo, com 19 títulos iguais de Alexandre Dumas, 13 de Paul de Kock, e um de Paul Féval, Xavier de Montépin e Fréderic Soulié. Há ainda a semelhança entre 12 títulos de Émile Zola e 7 de George Sand, que tiveram grande circulação no século XIX, mesmo que esta não tenha advindo do folhetim.

Esses dados não significam, no entanto, que a disseminação de obras mais antigas não existia, ou que estas também não formavam uma ponte entre diferentes partes do mundo. A

205 PAIXÃO, Alexandro Henrique. Elementos constitutivos para o estudo.... Op. cit. 206 MÜLLER, Andréa Correa Paraíso. A ficção francesa... Op. cit. p. 67.

207 QUEIRÓZ, Juliana Maia. “Em busca de romances: um passeio por um catálogo da Livraria Garnier”. In: ABREU, Márcia (Org). Trajetórias do romance...Op. cit.

208 SCHAPOCHNIK, Nelson. Os Jardins das delícias...Op. cit.

209 ROCHA, Débora Cristina Bondance. Bibliotheca Nacional e Pública do Rio de Janeiro...Op. cit. 210 Sobre isso, ver: MEYER, Marlyse. Folhetim: uma história. Op. cit.

maioria dos livros com mais de uma edição nos catálogos, ou que estão tanto nas bibliotecas imperiais quanto nas públicas, foram escritos em períodos anteriores ao século XIX, ou no início desse século. O único título que consta nos quatro catálogos estudados é Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre, que foi escrito em 1787, e aparece com quatro edições diferentes no Gabinete Português de Leitura, sendo duas delas em inglês (uma sem informações sobre a edição e a outra publicada em Londres, em 1839), uma em português, produzida em Paris, em 1838, e uma em espanhol, e publicada em 1851, em Madrid. Essa obra também tem quatro edições em Odessa, duas delas em traduções para o russo, e publicadas em São Petersburgo (apenas uma delas é datada, com o ano de 1892), e duas edições em francês, sendo que uma foi impressa em Bruxelas, em 1843, e a outra é de Paris e não foi datada. No catálogo da família imperial da Rússia, a obra de Bernardin de Saint-Pierre está em francês e foi editada em 1907, em Londres e, na Biblioteca imperial brasileira, a edição é em francês e foi publicada em Paris, em 1863.

A diversidade de locais de edição, línguas e datas de publicação dessa obra francesa, escrita no século XVIII, mostra que a circulação de uma mesma obra não dependia necessariamente da sua atualidade, ou do seu local de origem. Um romance de sucesso, como esse, poderia continuar a ser publicado mais de um século depois da sua primeira edição, mesmo após o aparecimento do folhetim e de uma nova forma de ler obras ficcionais. Esse exemplo não é único e se estende a outras obras francesas, como Les Aventures de Télémaque, de Fénelon, que data de 1699 e tem 6 exemplares no Gabinete Português de Leitura (4 em francês, um em inglês e um em português, publicados entre 1785 e 1882), 10 na biblioteca de Odessa, publicados entre 1713 e 1832 (7 em francês, um em espanhol e um em russo) e um na biblioteca da nobreza brasileira, publicado em 1773, em francês. Um dos fatos que pode ter colaborado para o grande número de edições desse livro nas bibliotecas é o seu uso escolar. O romance de Fénelon era utilizado, muitas vezes, de maneira didática. Além do seu conteúdo altamente moralizante, que era considerado positivo, ele era material para o estudo da língua francesa, além de ser utilizado em exames de alunos e em provas de tradução e versão em concursos públicos de professores de francês na década de 1830211.

Outro título com muitos exemplares no catálogo é Corinne ou L’Italie, de Madame de Stäel, cuja primeira edição é de 1807, e que está na biblioteca imperial brasileira, com um

211 SILVA, Rita Cristina Lima Lages e. As Práticas de ensino da língua francesa em Minas Gerais na primeira metade do século XIX. In: VAGO, Tarcísio Mauro & OLIVEIRA, Bernardo Jefferson (org.). Histórias de Práticas Educativas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

exemplar em francês, de 1866, na biblioteca de Odessa com 3 exemplares em francês (um deles não datado e os outros de 1818 e 1841, publicados em Paris), e com duas edições no Gabinete Português, sendo uma delas em português e publicada em Lisboa, em 1834, e uma delas em Espanhol, publicada em Madrid, no ano de 1851.

Exemplos como esses também podem ser encontrados no que se refere a ficções de outros países, como Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, cuja primeira edição é de 1605 e que tem 18 edições diferentes no Gabinete Português de Leitura, publicadas entre 1662 e 1905 (3 delas em francês, 10 em espanhol e 5 em português), 9 na Biblioteca Pública de Odessa, cuja data de publicação varia entre 1797 e 1869 (4 delas em francês, 2 em espanhol, 2 em russo e uma em alemão) e 4 na biblioteca imperial do Brasil (3 em espanhol e uma em alemão). Outro caso é o da obra ficcional Il Decamerone, de Giovanni Boccaccio, de 1353, com um exemplar na biblioteca imperial do Brasil, traduzido para o francês, em 1846, 6 exemplares no Gabinete Português de Leitura (um deles em francês, um em português e 4 em italiano) e 10 na biblioteca de Odessa (5 em italiano, 2 em russo, 2 em alemão e uma em francês). Poderíamos citar também

The Italian or the Confessional of the Black Penintents, romance em estilo gótico de Anne

Radcliffe, que foi publicado em 1797 e tem exemplares no Gabinete Português (em português), na biblioteca de Odessa (em francês) e na biblioteca da nobreza brasileira (em francês).

Todos os casos expostos acima visam exemplificar que os autores franceses de grande produção e difusão no século XIX são bastante determinantes para as semelhanças entre as bibliotecas da Rússia e do Brasil, mas não representam o único fator que une essas coleções tão distantes. Há muitos títulos de obras ficcionais antigas que faziam parte desse repertório comum de leituras e que continuaram a ser editados e adquiridos pelos donos das bibliotecas muitas décadas após sua primeira edição, convivendo com autores mais recentes, que escreviam em estilos e contextos históricos muito diferentes. Informações como essas vão contra o que é pregado pela maioria das Histórias Literárias, que contêm uma cronologia que se organiza em função de mudanças de propostas estéticas ou acontecimentos históricos específicos, desconsiderando que o interesse dos leitores por determinada obra pode se manter o mesmo por séculos, e que um mesmo título pode conviver com outros que foram escritos em períodos muito posteriores, ou em estilos diversos212.

As tabelas dos autores mais presentes nos catálogos expõem, além das semelhanças entre acervos formados em lugares tão distantes, algumas diferenças entre eles. Uma delas é a presença de Camilo Castello Branco na quarta posição do Gabinete Português de Leitura, com

106 obras, todas em língua portuguesa e, em sua maioria, importadas de Lisboa ou do Porto, com exceção da edição de 1898 de Amor de Perdição, publicada no Rio de Janeiro. Castello Branco foi um escritor português com uma ampla produção literária: apenas entre as décadas de 50 e 60 do século XIX, ele publicou 43 romances, e suas obras fizeram muito sucesso em Portugal, permitindo que ele vivesse com o que ganhava como escritor213. Além disso, ele produziu folhetins, como os Mistérios de Lisboa, publicado em 1854 no jornal O Nacional, e que obteve grande sucesso em Portugal e no Brasil214. Por isso, não é incomum que ele seja um dos autores de destaque na biblioteca pública brasileira, ainda mais considerando que o objetivo do gabinete seria cultivar a cultura portuguesa.

No entanto, por esta biblioteca ter sido composta em solo brasileiro, não é possível deixar de notar a falta de alguns escritores, como Machado de Assis, que é muito valorizado nas histórias literárias como um dos principais autores brasileiros, mas que aparece no catálogo com apenas 15 obras. José de Alencar que, como já mencionado, era bem conhecido dentro e fora do país por seus romances que contavam com elementos da “cor local” brasileira, se destaca mais do que Machado de Assis, com 39 obras, mas ainda assim não se encontra entre os mais presentes do catálogo. O mesmo vale para Joaquim Manoel de Macedo que, apesar de também ser bastante citado nas histórias literárias, aparece com apenas 14 edições de seus livros. Esses dados são um exemplo de que a historiografia da literatura não contém as únicas obras com as quais os leitores tinham contato no século XIX. Pelo contrário, ela trabalha com recortes temporais e de autores que nem sempre correspondem aos títulos que eram mais encontrados em anúncios, catálogos de livreiros e bibliotecas do período215.

A fama dos escritores de língua portuguesa também não chegou ao catálogo da biblioteca Odessa, no qual não consta nenhuma obra que tenha sido escrita originalmente em português. No entanto, nesse catálogo, se destacam alguns romancistas russos, como Liev Tolstói e Mikhail Ievgrafovitch Saltykov-Schchedrin, que não estão presentes na biblioteca brasileira. Tolstói foi um dos escritores russos mais consagrados e participou do movimento nacionalista gerado a partir da guerra de 1812. Esse momento da história do seu país é contato, inclusive, em um de seus romances mais famosos, intitulado Guerra e Paz, e alguns de seus outros livros buscam mostrar a realidade vivida pelo país no século XIX. Por isso, é compreensível que ele

213 OLIVEIRA, Paulo Motta. Algumas afinidades: Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco e Machado de Assis. Machado Assis Linha. São Paulo, v. 8, n. 15, p. 10-25, June 2015 .

214 PAIVA, Cláudia Gizelle & SALES, Germana. De Portugal ao Brasil: Os Mistérios camilianos em terras Paraenses. In: XIV Congresso Internacional ABRALIC, 2015, Belém. Anais do XIV Congresso Internacional ABRALIC. Belém: UFPA, 2015.

esteja bastante presente na biblioteca pública de Odessa, criada em meio ao movimento de valorização da cultura da Rússia. Saltykov-Schchedrin também foi um romancista com uma produção bastante vasta, tendo trabalhado em jornais periódicos e publicado alguns livros que tinham como plano de fundo a realidade vivida por seu país no período216.

Apesar do destaque desses escritores em Odessa, nenhum dos dois está presente no Gabinete Português de Leitura, que não contém nenhum romance escrito originalmente em russo. Esse fato que mostra como o local de origem das bibliotecas influencia em seu catálogo e em sua composição e é responsável por diferenças entre as obras ficcionais que circulavam em cada país. Afinal, as semelhanças que os catálogos apresentam não resultam do fato de que os leitores de bibliotecas públicas do Brasil e da Rússia estivessem diretamente em contato com as obras produzidas nos países uns dos outros. Elas se dão, pelo contrário, a partir do compartilhamento de uma cultura em comum, disseminada principalmente a partir do extenso mercado editorial da França, que permitia que um mesmo título ou autor chegasse a lugares tão distantes do mundo.

No entanto, a presença ou não de romances russos em solo brasileiro pode se alterar de acordo com o tipo de biblioteca analisada e os leitores que a frequentam. Na parcela da biblioteca imperial do Brasil estudada, há a presença de 5 romances escritos originalmente em russo, sendo 4 deles de Liev Tolstói, autor que está entre os maiores destaques do catálogo de Odessa, e uma de Turguêniev, que não aparece na tabela, mas que tem 9 romances na biblioteca pública russa. Os romances de Tolstói, A la Recherche du Bonheur (edição de 1886), Anna

Karenina (edição de 1885), Katia (1886) e Le Prince Nekhlioudov (1889), estão presentes em

edições francesas, de Paris, no catálogo da nobreza brasileira, e Liza, de Tolstoi, está em inglês, em uma publicação de Londres, de 1869. É possível afirmar que houve, dessa maneira, a presença de romances russos no Brasil. No caso da biblioteca imperial, o interesse por essa literatura pode ter tido sua origem no imperador Pedro II, que visitou a Rússia em 1876, período em que o país já contava com um grande número de obras de Tolstói, Dostoiévski e Turguêniev217. Outro fato que pode ter colaborado com a presença de romances russo no Brasil é a fama que esses livros ganharam após a década de 1880, quando Eugène Melchior de Vogué publica seu ensaio-manifesto218. Nesse ensaio, Vogué “ofereceu o romance russo como uma forma de corretivo aos desvios que, no seu entender, a literatura francesa vinha trilhando na

216 Biobibliographical Dictionary. Moscou: Prosveshcheniye Publishers, 1990. Disponível em: http://az.lib.ru/s/saltykow_m_e/text_0540.shtml. Acesso em: 01 out. 2018.

217 GOMIDE, Bruno Barretto. Da Estepe à Caatinga... Op. cit. p. 42. 218 Idem.

esteira de Flaubert e Zola.”219 Dessa maneira, ele destaca a literatura produzida na Rússia como uma alternativa ao naturalismo, fazendo, como afirma Gomide, um “contra-ataque ao Roman

Experimental de Zola, que tinha aparecido alguns anos antes”220. Na visão de francês, a obra de Zola não possuía o toque surpreendente dos personagens dos romancistas russos, pois funcionavam como engrenagens de uma máquina regidas por uma voz narrativa221. Além disso, o realismo russo, diferentemente do francês, seria derivado de características específicas da nacionalidade russa e entenderia a vida “em sentido amplo”222, incorporando “o invisível e o mistério às reflexões”223, algo que os franceses não fariam.

No entanto, é interessante notar que, apesar de ter sido um ensaio que opunha o romance russo ao naturalismo francês o que fez com que as obras provenientes desse país fizessem um grande sucesso em outros lugares do mundo, essa informação parece não importar ao observarmos a lista de romancistas mais presentes nos catálogos. Afinal, ambas as bibliotecas possuem muitas obras de Émile Zola, que é o tido como o grande inimigo da qualidade da literatura francesa nesse ensaio de Vogué que, segundo Gomide, repercutiu em diferentes países. Das 26 obras desse escritor presentes no catálogo de Odessa, 21 foram publicadas após 1884, quando o ensaio já teria sido bastante conhecido. Zola também está muito presente no Gabinete Português de Leitura, onde aparece com 63 livros, 30 deles publicados após 1881. Esses dados evidenciam que, mesmo com a crítica negativa ao naturalismo francês e à Zola, esse autor continuou tendo seus romances publicados, reeditados, traduzidos e importados para diferentes lugares do mundo. Isso mostra que o gosto do público nem sempre corresponde ao que é pregado pelos letrados nas críticas literárias do período.

Ao observarmos as diferenças entre as tabelas de autores em destaque nos acervos, notamos a presença dos escritores língua inglesa Walter Scott, Charles Dickens e Edward Bulwer Lytton, apenas na biblioteca de Odessa. Na verdade, eles também são bastante frequentes no Gabinete Português, apesar de não constarem na tabela dos mais proeminentes: esse acervo tem 33 obras de Dickens, 26 de Scott e 8 de Bulwer-Lytton. Ainda assim, sua presença é bem maior em Odessa, onde Walter Scott tem 30 de seus romances traduzidos para o russo, 27 para o francês e 4 títulos na versão original inglesa. A presença desse escritor escocês no Brasil também foi considerável, conforme já foi comentado no capítulo anterior, mas esses dados mostram que 219 Idem, p. 97. 220 Idem ibidem. 221 Idem ibidem. 222 Idem, p. 99. 223 Idem ibidem.

seu sucesso se estendeu à Rússia, onde ele recebeu diversas traduções ao longo do século XIX. O fato de ele também ter 19 de seus livros na biblioteca imperial brasileira, em traduções para o francês, alemão e na língua original, e de um de seus romances ter sido lido em conjunto por Pedro II e pela princesa Isabel, conforme veremos no capítulo a seguir, também sugere que esse escritor circulou entre os mais diversos tipos de público, nos mais diferentes países, fazendo parte do repertório de leitura de pessoas variadas ao redor do globo.

Charles Dickens também foi um escritor inglês de ampla circulação, que se destaca pela quantidade de publicações e traduções que circularam em solo brasileiro224. A Biblioteca imperial do Brasil possui apenas uma de suas obras, The Mystery of Edwin Drood, em inglês e não datada. Já no Gabinete Português, ele aparece com 17 títulos em francês, 13 na língua original inglesa e 2 em português, e, em Odessa, com uma edição de suas obras completas em russo e 28 títulos individuais nesse idioma, 10 em inglês e 7 em francês. Dickens se torna,

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