Com este estudo pretendeu-se proceder às medições ventriculares (altura, rácio de altura ventrículo/cérebro e rácio ventrículo/hemisfério) de cães de raças pequena e miniatura, por forma a comparar estes valores entre os diferentes géneros, raças e entre animais com e sem convulsões, bem como identificar a ventriculomegalia na amostra em estudo. Uma das dificuldades encontradas para este estudo foi o número de animais relativamente pequeno (47), levando a não ter exemplares suficientes de cada raça para uma análise a mais detalhada possível. Para além disso, a inexistência de TC de animais sem sinais clínicos de prosencéfalo leva a não poder ser efetuada uma análise comparativa entre animais com e sem sinais de doença cerebral. Dadas as variações na anatomia dos cães, torna-se difícil a comparação entre raças e mesmo dentro de uma mesma raça (Esteve-Ratsch et al., 2001). Desta forma, este estudo limitou-se a animais de raças pequenas e miniatura, com pesos que não excederam os 12kg. Associadas a este estudo estão as limitações de precisão de medições, bem como a ausência de seguimento dos animais por exames neurológicos e TC de controlo. Para além disso, o facto da maioria dos animais serem referenciados de outras clínicas/hospitais torna difícil aceder a sinais clínicos e sinais de disfunção neurológica destes, impossibilitando a comparação detalhada entre animais e conclusões de presença ou ausência de hidrocefalia.
Ventrículos normais têm, em média, 0,15 cm de altura, considerando-se anormais quando excedem os 0,35 cm (Hudson et al., 1990). Em termos de rácio de altura ventrículo/cérebro, este está subdividido em 3 categorias, sendo elas normal (<0,14), ventriculomegalia moderada (0.15-0.25) e ventriculomegalia grave (>0.25) os quais foram obtidos a partir de comparações em humanos com e sem hidrocefalia e por indução de ventriculomegalia e mensuração ventricular em cães (Spaulding & Sharp, 1990). Relativamente ao rácio ventrículo/hemisfério, estes foram considerados anormais quando os valores excediam 0,19 (Hudson et al., 1990).
Przyborowska e seus colaboradores (2013) referem que as principais raças com ventriculomegalia são Maltês, Bulldog Inglês, Pug, Lulu da Pomerânia, Yorkshire Terrier, Chihuahua, Lhasa Apso, Caniche miniatura, Boston Terrier e Pequinês, sendo que Henninger e Hittmair (2015) acrescentam a raça Shi Tzu entre as mais afetadas. Neste estudo, a raça predominantemente estudada foi a Pinscher (12/47), seguindo-se os Chihuahuas (8/47), no entanto, os valores superiores de altura ventricular foram encontrados no Lulu da Pomerânia
39 (altura ventricular média de 1,844 cm), seguindo-se o Bulldog Francês (altura ventricular média de 1.8 cm) e o Shi Tzu (altura ventricular média de 1.135 cm), todos raças predispostas para a ocorrência de ventriculomegalia, no entanto há que ter em conta que a amostra de cada uma das raças é bastante variável, sendo que apenas foi analisado um animal destas 3 raças. Neste estudo, a presença maioritária de animais de raça Pinscher indica-nos uma predominância destes animais no que toca a tomografias computorizadas de encéfalo.
Carvalho e seus colaboradores (2007) referem haver maior predisposição das fêmeas para o aparecimento desta anomalia congénita. No entanto, neste estudo, os valores de altura ventricular, rácio de altura ventrículo/cérebro e rácio ventrículo/hemisfério foram superiores em média no género masculino (0,89 cm, 0,23 e 0,4, respetivamente) face ao feminino (0,77 cm, 0,20 e 0,36, respetivamente). No entanto, não há diferenças significativas por género face às alturas ventriculares e rácios estudados, o que mostra que o género não influencia o tamanho ventricular.
Kii e seus colaboradores, em 1997, referem que em medicina humana a assimetria ventricular é relativamente frequente, sendo mais comum o ventrículo esquerdo estar aumentado face ao direito. Em 1998, Kii e seus colaboradores realizaram um estudo em que 21 de 66 Beagles tinham o ventrículo esquerdo mais aumentado, enquanto o direito só apresentava dimensões superiores em 4 dos 66 animais. Neste estudo, a altura do ventrículo esquerdo obteve uma média de 0,81 cm, enquanto o ventrículo direito atingiu, em média, 0,85 cm, ou seja, ao contrário do estudo de Kii e seus colaboradores em 1998, o ventrículo direito apresentou dimensões superiores face ao esquerdo. Comparativamente, na totalidade da amostra (47), 24 animais apresentavam dimensões superiores do ventrículo direito, enquanto nos restantes 23 foi superior a altura do ventrículo esquerdo.
Tendo em conta o valor normal de 0,35 cm de altura dos ventrículos laterais, nesta amostra de 47 cães de raças pequena e miniatura, 44 apresentaram valores superiores a este, o que perfaz 94% de ventriculomegalia na totalidade dos animais. Mesmo a média de valores de altura ultrapassa os valores tabelados, tendo sido de 0.81 cm no ventrículo lateral esquerdo e 0.85 cm no direito. Estes dados revelam que a identificação de dilatação ventricular recorrendo à altura dos ventrículos laterais leva a que sejam encontradas percentagens elevadas desta alteração na prática clínica, sugerindo um ajuste do valor e/ou concluir que a ventriculomegalia é um achado comum. No entanto, ao longo do estudo, foram comparados os valores obtidos por diferentes fórmulas acerca dos mesmos ventrículos laterais, embora sempre numa só dimensão.
40 Desta forma, para além de compararmos as alturas com os rácios ventriculares, foi possível chegar a uma conclusão efetiva de ventriculomegalia apenas quando os três valores calculados se evidenciavam superiores ao reconhecido como normal. Recorrendo aos valores de altura isoladamente, concluir-se-ia que, numa amostra de 47, 44 seriam detentores de ventriculomegalia. Tendo em conta o rácio ventrículo/hemisfério (que relaciona a altura ventricular com a espessura do hemisfério cerebral), encontraríamos 40 animais com dilatação dos ventrículos laterais. Por fim, utilizando apenas os rácios de altura ventrículo/cérebro (que relacionam a altura ventricular com a altura cerebral) reduziríamos o número de ventriculomegalias para 38. Se em vez de termos em conta apenas um dos cálculos forem relacionadas as três metodologias unidimensionais, terminamos a identificar 38 (38/47) animais com dilatação dos ventrículos laterais, o que reduz este diagnóstico de 94% para 81%. É importante referir que, apesar da identificação da ventriculomegalia nestes animais, não são dados suficientes para concluir a existência de hidrocefalia nesta amostra, pois concomitantemente teríamos de interpretar mensurações, sinais clínicos e exame neurológico.
Do total da amostra (47), quanto ao rácio de altura ventrículo/cérebro, 21 cães (21/47) apresentaram valores uni ou bilaterais superiores a 0,14 e 10 (10/47) apresentaram valores uni ou bilaterais superiores a 0.25. Segundo a classificação referida por Spaulding e Sharp (1990), podemos então classificar a ventriculomegalia dos 21 animais com valores superiores a 0.14 como moderada, enquanto a ventriculomegalia revelada pelos 10 animais com valores superiores a 0,25 é classificada como grave. Do total da amostra, 7 animais (7/47) demonstraram assimetria ventricular, dado que num ventrículo o valor foi >0.14 mas <0.25 e no outro >0.25, e 9 animais não obtiveram valores superiores ao normal.
Comparando animais com e sem convulsões (Tabela 3), os valores foram superiores na presença deste sinal de disfunção neurológica relativamente ao ventrículo esquerdo, sendo que no ventrículo direito a situação inverte-se, revelando-se superiores os valores nos animais com ausência de sinais convulsivos. Desta forma, a presença de convulsões não está relacionada com a dilatação ventricular, dado que mesmo com valores aumentados este sinal pode não estar presente, tal como valores normais não invalidam a existência de convulsões. Para além disso, 12% dos animais com este sinal de disfunção neurológica apresentaram valores normais de altura ventricular e 19% apresentaram valores normais tanto de rácio de altura ventrículo/cérebro como de rácio ventrículo/hemisfério, o que mostra a possibilidade de ausência de ventriculomegalia e presença concomitante de convulsões. Independentemente de
41 ser ventrículo esquerdo ou direito, alturas ventriculares laterais e rácios foram, em média, superiores ao normal tanto em animais com convulsões como sem convulsões.
As correlações positivas e altamente significativas encontradas entre os valores de altura dos ventrículos laterais e os respetivos rácios está baseada no facto destes últimos serem provenientes da altura encontrada em cada ventrículo. Assim, quanto maior o valor encontrado nos ventrículos esquerdo e direito, maior será o rácio respetivo, dependendo dos valores obtidos de altura cerebral e espessura do hemisfério cerebral. Desta forma, animais com alturas iguais não valida rácios semelhantes, dado estes dependerem dos denominadores referidos anteriormente.
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