A NALYSE BIBLIOGRAPHIQUE
I.1. a.i. Les déchets à Vie Longue
Esta subcategoria expressa a “dúvida” e “obscuridade” frente à tomada de decisão do tipo de leite a ser oferecido ao boneco (recém-nascido) pelas mulheres que participaram da dinâmica interativa, a partir do (des)conhecimento dos vírus. Tais escolhas foram baseadas
nos (des)conhecimentos que possuíam sobre os vírus, as doenças associadas a eles, a transmissão vertical e a atitude frente ao contágio do leite materno.
Sabe-se que o conhecimento sobre os vírus é importante na tomada de decisão para ações de prevenção da infecção. Entretanto, conhecer não foi suficiente para prevenção, é preciso haver mudança de comportamento, e esta requer mudança de atitude das pessoas em relação ao objeto.
A atitude é entendida como uma preparação para ação, podendo ser positiva ou negativa, favorável ou desfavorável, forte ou fraca, e será utilizada de acordo com o que foi apreendido e com que frequência é utilizada, direcionando um comportamento ou uma escolha (VALA, 2006; JODELET, 2001; MOSCOVICI, 1978).
Segundo Vala (2006), a atitude se expressa sempre por respostas avaliativas, sendo identificadas três modalidades que correspondem a formas de expressão: cognitivas, afetivas e comportamentais. As cognitivas referem-se aos pensamentos, idéias, opiniões e crenças que ligam o objeto de atitude aos seus atributos ou consequências e que exprime uma avaliação mais ou menos favorável. As respostas avaliativas afetivas referem-se às emoções e sentimentos provocados pelo objeto de atitude e as respostas comportamentais, dizem respeito aos comportamentos ou intenções comportamentais em que as atitudes podem se manifestar.
Desta forma, “as atitudes referem sempre a objectos específicos (grifos do autor), que estão presentes ou que são lembrados através de um indício do objecto” Continua o autor, referindo que “quase tudo pode ser objeto de atitudes”, uma vez que “temos atitudes face a entidades abstractas ou concretas, a entidades específicas ou gerais e a comportamentos ou a classe de comportamentos” (VALA, 2006, p. 190).
As atitudes podem ser avaliadas mediante a utilização das técnicas de medição das atitudes, a depender de suas formas de expressão – cognitivas, afetivas e comportamentais. Neste estudo, não é intenção nos determos nas explicações da maneira como estas técnicas são aplicadas, mas saber usá-las na compreensão das representações que emergiram das evocações das informantes.
Entretanto, vale salientar que ao ser realizada a dinâmica interativa, foram obervados, medidos e avaliados os conhecimentos que as mulheres possuíam sobre os vírus, as doenças decorrentes deles e as atitudes e comportamentos diante do contágio do leite materno pelo HIV e HTLV.
Os significados abstraídos dos discursos das informantes demonstraram a importância de suas atitudes em suas representações sociais, orientando condutas e comportamentos frente ao contágio do leite materno. As escolhas emergiram a partir do julgamento de valor que
atribuíam ao leite materno e ao leite contendo os vírus. Quando unanimemente escolheram o leite materno sadio, elas justificavam suas escolhas a partir da ausência do vírus no leite, já que se escolhessem o leite com o vírus estariam prejudicando o recém-nascido, podendo infectá-lo.
Porque se eu escolho o leite que tem o vírus é obvio que este vírus vai infectar a criança (MULHER 13 SP HTLV).
Eu escolho o leite materno porque no caso não seria infectado, não ia passar o problema para a criança que é um problema para o resto da vida (MÃE 17 SP
HIV).
Para mim significa (pausa) porque se eu fosse pegar este leite materno com HIV para dar ao meu filho, eu não vou estar fazendo o bem dele, eu vou estar prejudicando ele, porque eu sei que HIV é uma doença que não tem cura, entendeu? Então, por isso, este foi o motivo (da escolha do leite materno) (GESTANTE 13
SN).
Escolhi a mamadeira sem o vírus porque pode passar para o bebê, que é uma coisa que previne logo. Quando a gente tem o vírus HIV, identifica logo no exame para poder não contaminar o bebê. Então porque dá a mamadeira com o vírus? Eu não escolheria a com vírus de jeito nenhum. Escolhi esta porque está saudável, sem vírus, sem nada, só o leite materno (GESTANTE 11 SN).
Nessas falas percebe-se a compreensão das informantes sobre a transmissão do vírus pelo leite e a possibilidade de prevenção da doença no(a) filho(a) e demonstra que elas detém informações que reforçam o senso de proteção e a maternidade. Esse discurso foi unânime no desenvolvimento da dinâmica onde ocorreu a encenação para a escolha das mamadeiras com leite materno, quando foram solicitadas a escolher entre o leite materno e o leite materno com HIV.
Observa-se assim que a tomada de decisão emerge de um saber construído no imaginário social em relação ao vírus HIV, que guia a atitude de não transmitir a infecção ao(a) filho(a). No entanto, essa escolha, embora aparentemente fácil, traduzia, na maioria das vezes, um sentimento de revolta e culpa, pois o ato de amamentar para elas era inerente ao ser mulher-mãe. Por outro lado, observou-se que as mulheres do estudo ressignificavam sua soropositividade, pois maior que ser mãe para amamentar, era ser mulher para criar e educar o(a) filho(a) numa sociedade em que a estigmatização da doença é forte concorrente no convívio social, o que, para elas, era maior que o sofrimento que o vírus causava em seu organismo. Sobre tudo isso se assentou a tomada de decisão – não amamentar.
No entanto, não se pode dizer que elas conhecem a transmissão vertical dos vírus HIV e HTLV, pois ainda existiam dúvidas que pairavam sobre elas quando as mulheres foram submetidas à encenação: LM com HIV e LM com HTLV, emergindo nos discursos
interpretações que demonstravam este estado de dúvida frente à escolha do leite a ser oferecido ao boneco (recém-nascido), como se pode observar nas falas que seguem:
Escolho essa daqui (leite com HIV) porque eu não tenho conhecimento nenhum com a de cá (leite com HTLV) entendeu?Eu escolhi o leite com HIV porque [...] se a pessoa não tiver com a contaminação bem ultrapassada, só com o vírus pelo menos ainda dá para levar, e já com a doença passada não dá, entendeu? Como eu estou lhe dizendo, eu escolhi a de cá porque eu não tenho experiência nenhuma sobre esta outra doença (MÃE 32 SP HIV).
Do HIV sincera e honestamente eu tenho todas as dúvidas. Porque conheço ‘n’ casos de crianças que foram amamentadas com mães soropositivas e que elas são negativas. Elas não desenvolveram o HIV através do leite materno. Já há outras mães que não amamentaram e que as crianças são soropositivas. E não me deixa claro, se apesar de ter escolhido o HTLV pelo impacto de ser soropositiva e ver HIV uma coisa muito difícil de lidar e como eu estou te explicando, HTLV foge aos meus conhecimentos, então eu escolhi o HTLV, mas acho também que o HIV não seria um risco tão grande, seria pequeno, remoto (MULHER 19 SP HIV).
Porque aí se eu tivesse com HIV, tinha que escolher o leite materno com HIV
(GESTANTE 26 SN).
Nessas falas observa-se que a tomada de decisão pelo leite materno com o HIV é mais evidente do que o com HTLV. Tal fato, compreendido à luz do saber dessas mulheres, nos remete à interpretação de que, por ser o vírus HIV mais conhecido delas e ter maior circulação de informação pelos meios de comunicação de massa, permite que elas tracem um julgamento clínico de tratamento e de convívio com a doença, diferentemente do que ocorre com o HTLV.
Embora a minha expectativa de pesquisadora guiasse o meu raciocínio no sentido de que as mamadeiras com os vírus HIV e HTLV seriam recusadas por essas mulheres, tal fato não ocorreu e elas preferiram a opção da mamadeira com vírus HIV. O que me levou à indagação: por que em pleno século XXI pairam dúvidas desta natureza nessas mulheres? Penso que resposta a essa pergunta nesse estudo poderá clarear alguns caminhos, e, embora não alcancem todos os pontos escuros e obscuros na promoção de sua saúde e prevenção de doenças, favorecerão ao processo de viver humano de forma mais saudável.
No entanto, o alcance desse viver mais saudável, entre outros aspectos, assenta-se naquele que diz respeito à apreensão do conhecimento para atitudes e comportamentos mais saudáveis e a preocupação com o social e, em particular, a educação que vai ao encontro da cognição, remetendo à necessidade da informação e sua propagação, aspecto que não foi bem enunciado nos saberes constituídos dessas mulheres, como pode ser observado no discurso da mulher 31 SP HIV, a qual demonstrou conhecer o HIV e desconhecer o HTLV.
[…] você botou duas mamadeiras e então essa dai eu observei que tinha o HIV, o outro eu não sei, então veio o que na minha cabeça, se eu tivesse um filho, lógico, eu ia escolher o outro, que eu não conheço, não sei o significado do outro ainda! Mas eu sei que é com o HIV eu não escolheria (MULHER 31 SP HIV).
Por outro lado, o conhecimento para determinar atitudes e comportamentos precisa ser objetivado e ancorado para se tornar familiar, daí porque é possível inferir que como o HTLV ainda não está ancorado no universo cognitivo destas mulheres, ainda não possui representações sociais formadas para as mulheres soronegativas e para as soropositivas para o HIV e estão em processo de germinação para o grupo de mulheres soropositivas para o HTLV, ou seja, para muitas mulheres deste estudo o HTLV era algo estranho e desconhecido. Segundo Moscovici (2003), as coisas que não são classificadas por serem estranhas possuem existência considerada ameaçadoras. Este autor segue afirmando que é impossível classificar e ao mesmo tempo dar nomes ao que não pode ser nomeado, por ser anônimo, ao que não pode formar uma imagem comunicável, por não estar ligada a outras imagens.
Embora os ensinamentos trazidos por Moscovici conduzam para a compreensão de que é necessário formar uma imagem para ancorar o saber, o HTLV, como ainda não está ancorado no saber das mulheres deste estudo, é remetido para a compreensão e a imagem que elas têm do vírus HIV. Assim, elas não escolheram nenhuma das mamadeiras com os vírus por desconhecer a potencialidade de infecção do HTLV, reconheciam o risco para o filho.
Isso conduz à compreensão de que a imagem pode apresentar-se fora de foco, dupla, embaçada, mas ao longe há, mesmo que superficial, uma ideia do que possa representar, de modo que para estas mulheres a representação que construíram diz respeito à representação de vírus, nominando-o como: horrível, triste, uma doença que causa medo e sofrimento, palavras evocadas pelas mulheres soropositivas para o HTLV durante a realização do TALP e que ressoam naquelas mulheres não portadoras deste vírus, dado que, mesmo não conhecendo o vírus, não o escolheram, como seguem anunciadas as falas abaixo:
Eu não escolho nenhuma das duas porque os dois contêm o vírus que pode ser transmitido. Já o HIV eu sei que não tem remédio, que não tem vacina para isso, e o outro já não sei, aos tipo que causa, se tem cura ou não, aí eu já não sei
(GESTANTE 20 SN).
É como eu expliquei, eu não escolho nenhuma das duas porque eu ainda não sei o que significa este HTLV. Este daqui eu sei que é o vírus da aids. HIV é o vírus da aids. Mas o HTLV eu não sei (GESTANTE 22 SN).
Eu achava que não deveria escolher nenhum, porque todos os dois nenhum vai servir para ela. Mas tudo indica que talvez este [leite com HTLV] tenha menos contaminação do que o de lá (MULHER 21 SP HIV).
Já a decisão assertiva encontrava-se naquelas mulheres soropositivas para o vírus HTLV, pois demonstravam conhecer os dois vírus e o risco da transmissão vertical, não escolheram, assim, nenhuma das duas mamadeiras como se observa nas falas a seguir:
Eu não escolheria nenhuma para dar ao nenê, porque estão contaminados e pode passar para a criança (MÃE 33 SP HTLV).
Mas os dois vão fazer mal a ele. Eu não ia escolher nenhuma. Pelo menos eu não amamentei a minha, o médico me orientou (MULHER 22 SP HTLV).
Porque ele ia adoecer o bebê (MULHER 19 SP HTLV). Porque os dois não têm cura (MULHER 20 SP HTLV).
Nessas falas pode-se observar o emergir da teoria das representações sociais quando nos coloca que as vivências cotidianas refletem as representações que as pessoas constroem sobre as suas relações sociais e afirmam-se ancoradas no discurso socialmente elaborado. Para essas mulheres soropositivas para o HTLV, as representações emergiram das manifestações físico-corporais-emocionais experienciadas com a vivência de serem portadoras dos vírus.
Moscovici (2003) refere-se à representação como um sistema de classificação e de denotação, de alocação de categorias e nomes, onde cada objeto deve possuir um valor positivo ou negativo, assumindo um lugar determinado numa escala hierárquica. Neste sentido, as mulheres que optaram por não escolherem nenhum dos leites, colocaram numa posição superior hierarquicamente à saúde dos(as) seus(suas) filhos(as) mantendo-os não portadores dos vírus.
O enunciado por Moscovici (2003) sobre valor positivo ou negativo também apareceu fortemente neste estudo, a exemplo do citado anteriormente para o qual as informantes atribuem valores positivos e negativos para o leite materno. Como num sistema de cascata estão demonstrados nas subcategorias subsequentes, as quais reforçam a escala hierárquica de valores referida por Moscovici.