Não podemos entender o fenômeno religioso, o próprio cristianismo e seus dogmas sem o influxo das condições históricas e da correlação das formações do Estado, da família e da economia. Há um condicionamento mútuo entre religião e história. A progressão e as transformações históricas condicionam e cristalizam, não de maneira definitiva, formas cristãs específicas (TROELTSCH, 1979, p.63). O pensamento troeltschiano orienta-se para a realidade concreta, para a experiência e para a história. Neste sentido, uma das perguntas frequentes no pensamento de Troeltsch é sobre a relação existente entre cristianismo e mundo, isto é, quais são as relações recíprocas entre condições histórico-materiais e desenvolvimento do cristianismo. Troeltsch capta as variantes ortodoxas e heterodoxas do cristianismo, particularmente entre Luteranismo e Calvinismo, e como o fenômeno religioso cristão lida com o mundo secular.
Troeltsch nos ajuda a pensar a religião longe de categorias abstratas, metafísicas, supratemporais como se ela existisse à margem do espaço e do tempo. O cristianismo sofreu – e ainda sofre – mutações decorrentes das necessidades de cada momento, da cultura e das mudanças históricas. A modernidade tem várias das suas características originadas a partir de transformações, especialmente de caráter institucional, que ocorreram na Europa ainda na Idade Média. Ela surge no bojo de uma época de “cultura eclesiástica”. Então, poderíamos questionar como e de que maneira se configurou esta categoria.
O chamado “catolicismo primitivo” deixa gradativamente seu status de seita
judaica, incorpora-se dos valores helênicos e se estrutura a partir do relacionamento frequente
com a cultura imperial greco-romano. Apesar dos ajustes históricos que se devam fazer, com a reforma constantiniana no século IV, aquela seita judaico-cristã assume um status de religião oficial do império e se torna, em termos troeltschianos, Igreja. De religião ilícita,
calcada em superstições, adquire uma situação de privilégio na configuração do Estado romano. Ganha um status jurídico sem precedentes na história. O regime de “cristandade” mergulha todos sob uma única fé.
Ser cristão neste cenário histórico não é mais uma questão de convicção ou compromisso com uma determinada ética cristã, mas uma exigência decorrente da nova situação criada. Os cristãos já não aparecem como os “outros”, os “demais” e nem evidenciam um tipo de conduta virtuosa, como menciona a Carta a Diogneto34. Ser cristão é cair na mesmice, na “normalidade”, naquilo que é o “óbvio”, obrigação de todo “bom cidadão do império”.
A alma do mundo é o Cristianismo, mas não um cristianismo qualquer e sim o eclesiástico. A ordem, representada pelo sagrado império romano, subjuga a “desordem social” e a sociedade de contraste. A seita judaica deixa de sê-la na medida em que abandona reações e questionamentos diante da nova ordem das coisas. O protagonismo se aloja nos sagrados pontífices e o povo cristão fica reduzido à condição de “submetido”. Neste momento histórico, que perdurará por muito tempo e chegará ao seu auge na Idade Média, os bispos se revestem de novas “insígnias” (pálio, estola, anel, báculo, mitra) que lhe dão enorme consideração social, com tratamento de honra da parte do imperador e no interior da Igreja. O protagonismo do clero se acentua e a distinção entre clérigos e leigos começa a adquirir traços característicos que irão se cristalizando ao longo dos séculos. Em linhas gerais e bem abrangentes, os leigos foram reduzidos à passividade e à receptividade e os clérigos tornam-se a “própria Igreja”, os que constituem propriamente a Igreja. A hierarquia adquire uma realidade autônoma e autossuficiente, sujeita aos privilégios civis.
A cristandade medieval é uma época que forma um bloco homogêneo de características básicas. Isto é, a Europa tornou-se globalmente cristã, tanto em suas instituições como em seus costumes. É uma civilização fecundada pela Igreja Católica Apostólica Romana que se evidencia por suas catedrais e sumas-teológicas. Como bem referenciou Troeltsch, é uma “cultura autoritária em grau máximo” que orienta o mundo “corrompido pelo pecado original” até desembocar na vida celestial e que tem como consequência o menosprezo àquilo que é mundano. A absolutização do sistema eclesiástico
34
Uma carta pseudocanônica datada do séc. III dirigida a um pagão de nome Diogneto, tenta convencê-lo da superioridade do cristianismo. Expus aqui apenas um trecho que ilustra bem esta mentalidade de normalidade: [...] Os cristãos residem em sua
própria pátria, mas como residentes estrangeiros. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos e suportam todas as suas obrigações, mas de tudo desprendidos, como estrangeiros… Obedecem às leis estabelecidas, e sua maneira de viver vai muito além das leis… Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo …Tão nobre é o posto que lhes foi por Deus outorgado, que não lhes é permitido desertar (GOMES, 1973, p.43).
foi defendida como verdade revelada, eterna e imutável, que sinteticamente se estabiliza pela Lex Dei composta pela tríade Lex Mosis – Lex Christi – Lex Ecclesiae (TROELTSCH, 1951, p.14-15). Esta Igreja, de cunho autoritário e eclesiástico, que se configurou historicamente no mundo medieval será mantida estática e hermeticamente fechada ao diálogo com o mundo moderno. Este é questionado e rejeitado porque, segundo a “cultura autoritária”, não se enquadra nos próprios esquemas sociais e mentais da Lex Dei. Nessa perspectiva, a hierarquia eclesiástica já possui respostas para todos os problemas que se possam apresentar. Desta forma, a modernidade que desponta, segundo Troeltsch, confrontar-se-á com a cultura eclesiástica de modo a substituí-la por ideais culturais mais autônomos.
Como bem notou Troeltsch, a modernidade não foi somente um movimento ideológico ou religioso, mas também o predomínio de um setor social – sem absolutizá-lo - que impulsionou as transformações históricas na Europa no final da Idade Média: a emancipação da economia monetária e industrial. Na esteira deste, emancipou-se o caráter “científico-naturalista da cultura moderna” e como tal torna-se cada vez mais relativista e fiel à emancipação do progresso sócio-cultural. (TROELTSCH, 1951, p.19-20). A cultura
eclesiástica visivelmente manifestada através da hierarquia católica já assumia um
posicionamento defensivo muito antes de aflorar a Reforma Protestante. Atuou mais como integração social e força cimentadora do que como veículo alternativo de diálogo com ela. Esta postura antidialogal cindiu a Igreja Católica Apostólica Romana em dois grupos: a Igreja clerical, que se considera “a Igreja”, e os leigos. Dessa cisão, nasce uma desconfiança ante ao laical que, de fato, é temporal, secular, e essa mentalidade conduzirá a uma postura de radical desconfiança ante ao mundo moderno, que nascerá deste setor laical.
Em contrapartida, o protestantismo abriu-se à modernidade embora não a tenha criado. Os avanços do mundo moderno se deram à revelia de qualquer influência do chamado protestantismo originário do século XVI (DA MATA, 2008, p.245). O protestantismo dissolve o regime eclesiástico cristão, encerra esforços que vão de encontro ao mundo moderno e lhe permitem dialogar com o novo, criando assim um tipo de religiosidade que se adéqua ao mundo em marcha, mas que concomitantemente, preserva características medievais (TROELTSCH, 1957, p.57).
Se por um lado, o protestantismo teve uma postura mais maleável diante da modernidade, bebendo dos seus efeitos e redimensionando um novo papel para a vida social - família, vida estatal, direito público, ciência etc. - por outro, preservou a “formulação católica dos problemas”: a idéia de salvação, Deus, a figura do diabo, pecado original etc., embora tenha eliminado e substituído do seu campo simbólico o sacerdócio hierárquico celibatário,
pela casa paroquial protestante. Em seu texto Protestantismo e repressão, Rubem Alves sintetiza o pensamento troeltschiano em relação à aparente oposição entre catolicismo e protestantismo em que ambos, embora sejam adversários em um jogo de xadrez, aceitam passivamente as mesmas regras do jogo (ALVES, 1979, p. 77).