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3. Analyse des données

3.1 Choix des catégories d’analyse

3.1.5 Curriculum de l’enseignant

Para o paciente com Aids ser considerado cirúrgico, ele deve ser avaliado com quadro clínico e radiológico compatível, julgado pelos especialistas da infectologia ou da cirurgia geral que solicitaram o procedimento, com a concordância da equipe cirúrgica que realizará a cirúrgia. Esta, por sua vez, poderá ser diagnóstica e/ou terapêutica.

Segundo informações do Serviço de Infectologia, complementadas por outras do Serviço de Cirurgia Geral do hospital em questão, não existe no serviço nenhum protocolo específico de abordagem de pacientes imunodeprimidos que evoluem com quadro de abdome agudo, logo, os pacientes serão conduzidos da mesma maneira que pacientes imunocompetentes tendo implicações no desfecho clínico dos casos HIV em questão.

6. ANÁLISE ESTATÍSTICA:

Na presente análise foi aplicada estatística descritiva, cujo objetivo básico é sintetizar os dados obtidos, permitindo que se tenha uma visão global da variação desses dados, organizando e descrevendo-os por meio de tabelas, de gráficos e de medidas descritivas.

Foram realizados testes Qui-quadrado e utilizou-se a correção de Yates quando as tabelas apresentaram apenas um grau de liberdade. Foi realizado também o Teste Exato de Fisher quando o tamanho da amostra foi pequeno.

Foi previamente fixado o nível de decisão alfa = 0.05 (Erro alfa = 5%) para rejeição da hipótese de nulidade. Todo o processamento estatístico foi realizado nos programas BioEstat versão 5.3 e Epi Info versão 3.5.2.

7-RESULTADOS:

7.1: Distribuição dos pacientes quanto ao sexo:

Observou-se que no grupo de pacientes com Aids 17,9% são do sexo feminino, enquanto que 82,1% são do sexo masculino. No grupo controle 43,5% são do sexo feminino e 56,5% do sexo masculino. Nesta análise não houve significância estatística. A tabela 1 apresenta a distribuição dos pacientes selecionados para compor o estudo dispostos de acordo com o sexo.

Tabela 1: Distribuição dos pacientes de acordo com o sexo.

Sexo Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS

Feminino 7 (17,9%) 10 (43,5%)

Masculino 32 (82,1%) 13 (56,5%)

Total 39 (100%) 23 (100%)

p = 0,0598

7.2: Distribuição dos pacientes conforme o resultado do hemograma:

Observou-se que no grupo de pacientes com Aids 61,5% apresentaram hemograma alterado e 38,5% exibiram hemograma normal. No grupo controle 87% apresentaram hemograma alterado e 13% exibiram hemograma normal. O hemograma foi considerado alterado se houvesse presença de anemia (hb<10 ou ht<30), leucopenia (leucócitos < 4.000) ou leucocitose (leucócitos >12.000). Nesta análise não houve significância estatística. A tabela 2 apresenta os pacientes selecionados para compor o estudo, distribuídos de acordo com o resultado de hemograma.

Tabela 2: Distribuição dos pacientes de acordo com o hemograma.

Hemograma Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS

Normal 15 (38,5%) 3 (13,%)

Alterado 24 (61,5%) 20 (87,0%)

Total 39 (100%) 23 (100%)

p = 0,0657

No grupo com Aids, 6 pacientes apresentaram somente a anemia (25% dos exames alterados), anemia com leucopenia em 12 pacientes (50% dos exames alterados), somente leucopenia em 3 pacientes (12,5%) e somente a leucocitose em 3 pacientes (12,5%). No grupo controle dos 20 pacientes com resultado alterado, 16 apresentaram leucocitose (80%), 2 pacientes anemia (10%) e 2 pacientes leucopenia ( 10%), com nenhum paciente com associação de anemia com leucopenia. A tabela 3 apresenta os pacientes selecionados para compor o estudo, distribuídos de acordo com o tipo de alteração do hemograma.

Tabela 3: Distribuição dos pacientes de acordo com o tipo de alteração.

Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS

Anemia 6 (25%) 2 (10%) Leucopenia 3 (12,5%) 2 (10%) Anemia e Leucopenia 12 (50%) 0 Leucocitose 3 (12,5%) 16 (80%) Total 24 (100%) 20 (100%)

7.4: Distribuição dos pacientes de acordo com a causa do abdome agudo:

Observou-se que no grupo de pacientes com Aids 82,1% apresentaram perfuração de delgado enquanto no grupo controle a proporção foi igual a 21,7%, sendo estes dados com significância estatística (p valor = 0,0004). Em uma análise mais profunda, observou-se que a diferença ocorreu quando a causa do abdome agudo foi perfuração do intestino delgado, cujo p valor, ao nível de significância de 5%, foi igual a 0,0220. A tabela 4 exibe a distribuição dos pacientes em estudo de acordo com a etiologia evidenciada pelo histopatológico da peça cirúrgica que culminou com a laparotomia exploradora.

Tabela 4: Distribuição dos pacientes de acordo com a causa do abdome agudo:

Etiologia Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS Perfuração de intestino delgado 32 (82,1%) 5 (21,7%)

Obstrução* 4 (10,3%) 9 (39,1%)

Apendicite aguda 3 (7,7%) 6 (26,1%)

Pancreatite 0 2 (8,7)

Apendicetomia + tumor endométrio +

perfuração útero 0 1 (4,3%)

Total 39 (100%) 23 (100%)

p = 0,0004

7.5: Distribuição dos pacientes conforme o quadro clinico:

Foram realizados testes Qui-quadrado para detectar a existência de significância estatística na diferença entre os dois grupos estudados, quais sejam, pacientes com e sem Aids. Parada de eliminação de gases e flatos esteve presente em 35,9% dos pacientes com Aids e 43,5% dos pacientes sem Aids. Defesa abdominal esteve presente em 56,4% dos pacientes com Aids e 4,3% dos pacientes sem Aids. Diminuição de ruídos hidroaéreos (RHA) esteve presente em 61,5% dos pacientes com Aids e 8,7% dos pacientes sem Aids. Abdome distendido esteve presente em 74,4% dos pacientes com Aids e 69,6% dos pacientes sem Aids. Dor abdominal esteve presente em 97,4% dos pacientes com Aids e 87% dos pacientes sem Aids. Apenas o quadro de defesa abdominal e diminuição de RHA apresentaram diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos (p valor = 0,0068 e 0,0114, respectivamente). A tabela 5 apresenta os principais sinais e sintomas clínicos apresentados pelos pacientes selecionados para compor o estudo.

Tabela 5: Sinais e sintomas clínicos apresentados pelos pacientes.

Quadro clínico Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS p valor

Parada de eliminação de gases e

flatos 14 (35,9%) 10 (43,5%) 0,8857

Defesa abdominal 22 (56,4%) 1 (4,3%) 0,0068

Diminuição de rha 24 (61,5%) 2 (8,7%) 0,0114

Abdome distendido 29 (74,4%) 16 (69,6%) 0,9681

Dor abdominal 38 (97,4%) 20 (87,0%) 0,9140

7.6: Distribuição dos pacientes conforme os achados radiológicos:

Pneumoperitôneo esteve presente em 48,7% dos pacientes com Aids e nenhum sem Aids. Níveis hidroaéreos esteve presente em 66,7% dos pacientes com Aids e 65,2% dos pacientes sem Aids. Distensão de alças de delgado esteve presente em 87,2% dos pacientes com Aids e 56,5% dos pacientes sem Aids. Esteve normal em 2 pacientes com Aids e 2 pacientes sem Aids. Somente a presença de pneumoperitônio evidenciou diferença estatisticamente significativa entre os grupos em estudo (p valor = 0,0009). Quanto aos demais achados radiológicos verificou-se que não existe diferença estatisticamente

significante entre os grupos. A tabela 6 exibe os achados radiológicos apresentados pelos pacientes selecionados.

Tabela 6: Distribuição dos pacientes conforme achados radiológicos:

Rx abdominal Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS p valor

Pneumoperitoneo 19 (48,7%) 0 0,0009*

Níveis hidroaéreos 26 (66,7%) 15 (65,2%) 0,8761

Distensão alças 34 (87,2%) 13 (56,5%) 0,4055

Normal 2 (5,1%) 2 (8,7%) 0,6232*

* Como alternativa foi realizado Teste Exato de Fisher.

7.7: Distribuição dos pacientes conforme a cirurgia realizada:

A confecção de ostomia foi realizada em 38,5% dos pacientes com Aids e 34,8% dos pacientes sem Aids. Ressecção com reconstrução do transito foi realizada em 61,5% dos pacientes com Aids e 34,8% dos pacientes sem Aids. Apendicectomia foi realizada em 3 pacientes (7,7%) com Aids e 6 pacientes (26,1%) sem Aids. Observou-se unicamente a categoria “outros” (nesse caso composta por necrosectomia, desobstrução ostomia, gastrectomia +esplenectomia e histerectomia total+ apendicetomia + biópsia hepática) evidenciou diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos em estudo (p valor = 0,0052). No que tange às demais categorias, verificou-se que não existe diferença estatisticamente significante entre os grupos.A tabela 7 mostra a distribuição dos pacientes selecionados para compor o estudo, alocados de acordo com o tipo de cirurgia realizada.

Tabela 7: Distribuição dos pacientes conforme cirurgia realizada:

Cirurgia Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS p valor

Ostomia 15 (38,5%) 8 (34,8%) 0,9548

Ressecção + reconstrução 24 (61,5%) 8 (34,8%) 0,3418

Apendicectomia 3 (7,7%) 6 (26,1%) 0,0659*

Outros** 0 5 (21,7%) 0,0052*

* Como alternativa foi realizado Teste Exato de Fisher

** necrosectomia (2 pacientes), desobstrução ostomia (1 paciente), gastrectomia +esplenectomia (1 paciente), histerectomia total + apendicectomia + biópsia hepática ( 1 paciente).

7.8: Distribuição dos pacientes conforme as complicações no pós operatório (PO): Infecção de ferida operatória (FO) esteve presente em 87,2% dos pacientes com Aids e 17,4% dos controles. Evisceração ocorreu em 33,3% dos pacientes com Aids e 8,7% dos controles. Síndrome do intestino curto ocorreu em 12,8% dos pacientes com Aids e nenhum controle. Óbito ocorreu em 53,8% dos pacientes com Aids e 34,8% dos controles. Pneumonia ocorreu em 2 paciente (5,2%) com Aids e 2 controles (8,7%). Fístula ocorreu em 1 paciente (2,6%) com Aids e 2 controles (8,7%) . Insuficiência Renal Aguda (IRA) ocorreu em 4 controles e nenhum com Aids. Somente as complicações infecção de ferida operatória e insuficiência renal apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. O Aumento do Risco Relativo (ARR) de infecção de FO em pacientes com Aids foi 31,76% do que em controles, sendo a razão de chances ou odds ratio igual a 5,01, demonstrando que a probabilidade de infecção de FO nos pacientes com Aids no estudo foi superior em cerca de 5 vezes a dos pacientes sem Aids. Quanto ao aumento do risco relativo de evisceração em pacientes com Aids foi 17% do que em controles, sendo o odds ratio igual a 3,83. O aumento do risco relativo de óbito nos pacientes com Aids foi 9,2% do que os controles e o odds ratio igual a 1,54. A tabela 8 apresenta a distribuição dos pacientes alocados de acordo com as complicações apresentadas no PO.

Tabela 8: Complicações apresentadas no pós-operatório.

Complicações Pacientes com AIDS sem AIDS Pacientes p valor

Odds ratio ARR Infecção de FO 34 (87,2%) 4 (17,4%) 0,0075 5,01 31,76% Evisceração 13 (33,3%) 2 (8,7%) 0,1271 3,83 17% Óbito 21 (53,8%) 8 (34,8%) 0,5127 1,54 9,19% Pneumonia 1 (2,6%) 2 (8,7%) 0,5494* 0,29 5,5% Fistula 1 (2,6%) 2 (8,7%) 0,5494* 0,29 5,5% IRA** 0 4 (17,4%) 0,0159 x x Sínd. Intestino curto 5 (12,8%) 0 0,1475* x x

* Como alternativa foi realizado Teste Exato de Fisher, pois nesse caso o teste Qui Quadrado não se aplica.

** Insuficiência Renal Aguda

7.9: Distribuição dos pacientes conforme a etiologia do óbito:

A causa do óbito foi sepse abdominal em 81% dos óbitos em pacientes com Aids e 87,5% dos pacientes sem Aids. Óbito por pneumonia ocorreu em 2 pacientes

(9,5%) com Aids e 1 paciente (12,5%) sem Aids. Óbito por síndrome do intestino curto ocorreu em 2 pacientes com Aids e nenhum sem Aids. O resultado do teste Qui Quadrado (p

valor = 0,5861) demonstrou que não existe diferença estatisticamente significativa entre os

grupos estudados, podendo ser atribuído ao acaso. A Tabela 9 mostra a etiologia dos pacientes que evoluíram a óbito.

Tabela 9: Distribuição dos pacientes que evoluíram a óbito conforme etiologia:

Óbito Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS

Sepse abdominal 17 (81%) 7 (87,5%)

Pneumonia 2 (9,5%) 1 (12,5%)

Síndrome intestino curto 2 (9,5%) 0

Total 21 (100%) 8 (100%)

p = 0,5861

7.10: Distribuição dos pacientes ostomizados conforme etiologia do óbito:

Nos pacientes ostomizados que evoluíram a óbito constatou-se pneumonia como causa do óbito em 3 pacientes (20%)com Aids e 1 paciente (12,5%) sem Aids. Síndrome do intestino curto foi causa de óbito em 4 pacientes (26,7%) com Aids ostomizados e nenhum sem Aids. Sepse abdominal foi causa de óbito em 8 pacientes (53,3%) ostomizados com Aids e 7 pacientes (87,5%) ostomizados sem Aids. A Tabela 10 exibe a etiologia do óbito nos pacientes que foram ostomizados. O p valor encontrado não foi significativo, demonstrando que não há diferença entre os grupos em estudo.

Tabela 10: Etiologia do óbito nos pacientes que foram ostomizados.

Óbito em pacientes ostomizados Pacientes com AIDS Pacientes sem AIDS

Pneumonia 3 (20%) 1(12,5%)

Síndrome intestino curto 4 (26,7%) 0

Sepse abdominal 8 (53,3%) 7 (87,5%)

Total 15 (100%) 8 (100%)

7.11: Distribuição dos pacientes que evoluiram a óbito conforme presença ou ausência de aids associada:

A Tabela 11 apresenta os grupos de pacientes estudados distribuídos de acordo com o resultado óbito. O Aumento Relativo do Risco de óbito em pacientes com AIDS foi 19,06% do que em pacientes sem AIDS. A razão de chances ou odds ratio foi igual a 2,1875, demonstrando que a probabilidade de óbito nos pacientes com AIDS em estudo foi superior em cerca de 2 vezes a dos pacientes sem AIDS, no presente estudo.

Tabela 11: Distribuição dos pacientes que evoluíram a óbito conforme presença ou ausência de Aids:

Óbito

Sim Não Total

Pacientes com AIDS 21 18 39

Pacientes sem AIDS 8 15 23

7.12: Média, mediana, desvio padrão e variância dos pacientes com Aids conforme tempo de internação e tempo de pós-operatório (PO) até o óbito.

A média do tempo de internação foi 7,94 dias e tempo de PO até o óbito foi de 4,17 dias. A mediana do tempo de internação foi 5,5 dias e tempo de PO até o óbito de 4,5 dias. O desvio padrão do tempo de internação foi de 6,86 dias e tempo de PO até o óbito de 1,47 dias. A variância foi 47,03 no tempo de internação e 2,17 no tempo de PO até o óbito.

Tabela 12: Distribuição dos pacientes com Aids conforme média, mediana, desvio- padrão e variância do tempo de internação e tempo de pós-operatório (PO) até o óbito.

Tempo de internação Tempo de PO óbito

Média 7,94 4,17

Mediana 5,5 4,5

Desvio padrão 6,86 1,47

7.13: Média, mediana, desvio padrão e variância dos pacientes controles conforme tempo de internação e tempo de pós-operatório (PO) até o óbito.

A média do tempo de internação foi 21,13 dias e tempo de PO até o óbito foi de 12,63 dias. A mediana do tempo de internação foi 11,5 dias e tempo de PO até o óbito de 8 dias. O desvio padrão do tempo de internação foi de 20,08 dias e tempo de PO até o óbito de 10,46 dias. A variância foi 403,27 no tempo de internação e 109,41 no tempo de PO até o óbito.

Tabela 13: Distribuição dos pacientes controles conforme média, mediana, desvio- padrão e variância do tempo de internação e tempo de pós-operatório (PO) até o óbito.

Tempo de internação Tempo de PO óbito

Média 21,13 12,63

Mediana 11,5 8

Desvio padrão 20,08 10,46

8. DISCUSSÃO:

No Hospital Universitário João de Barros Barreto o paciente imunodeprimido já vem referenciado de outras unidades de saúde do Sistema Único de Saúde com o diagnóstico de aids e, na maioria das vezes, com infecções oportunistas associadas. Na admissão, é colhida anamnese minuciosa, realizado exame físico e solicitados exames laboratoriais e radiografias de tórax. Caso na admissão ou durante a internação haja evolução com quadro compatível de dor abdominal de duração superior a 6 horas com diagnóstico etiológico incerto ou deterioração clínica, o cirurgião geral é acionado para avaliação do quadro clínico. Porém nos pacientes HIV o quadro abdominal inicial pode ser completamente assintomático ou com poucas alterações no exame físico, sendo realmente iniciado o processo de investigação clínica em estágios avançados de sepse abdominal.

Durante a avaliação cirúrgica é realizada anamnese, exame físico minucioso com especial atenção para o exame físico do abdome e o toque retal ou combinado ao vaginal em mulheres. São feitas solicitações de exames laboratoriais que incluem hemograma, exame de urina, amilase, e radiológicos no padrão da rotina radiológica para abdome agudo, composto por radiografia de abdome em pé e deitado, e radiografia do tórax em antero-posterior. Outros exames são solicitados conforme cada caso clínico podendo englobar desde ultrassonografias do abdome, tomografia computadorizada, lavado diagnóstico até a própria laparoscopia ou laparotomia exploradora nos casos conclusivos ou de diagnóstico incerto.

Feito diagnóstico de doença que necessita de intervenção cirúrgica, no intraoperatório é realizada a abordagem curativa do mesmo, desde apendicectomias, enterorrafias, colostomias de proteção ou terminais na maioria dos casos, associados com biópsias e coletas de materiais para cultura. Posteriormente o paciente é encaminhado para unidade semi-intensiva ou intensiva conforme disponibilidade de leito e quadro clínico.

Observou-se no presente estudo que a maioria dos casos operados apresentavam alterações radiológicas na rotina de abdome agudo que justificasse procedimento cirúrgico independentemente do quadro clínico abdominal inicial, pois em grande maioria os pacientes não tinham sinais de irritação peritoneal, justificando, portanto, a solicitação precoce de rotina de abdome agudo nos pacientes HIV que evoluem com dor abdominal. Por isso os autores deste trabalham pretendem a criação de um protocolo padronizado para abordagem precoce dos pacientes HIV que evoluam com dor abdominal de duração maior que 6 horas, associado ou não a sintomas abdominais e sistêmicos, independente da intensidade dos mesmos.

De acordo com o último Boletim epidemiológico a maioria dos casos de Aids relatados são do sexo masculino , cerca de 65,4%, enquanto o sexo feminino corresponde a 34,6%. O Boletim epidemiológico de 2011 revela uma diminuição na proporção de sexos, pois em 1985 havia 26 casos de homes para uma mulher, enquanto em 2011 essa relação é de 1,7 homens para cada caso em mulheres. A casuística do presente estudo revela a proporção de 4,5 homens para cada mulher com Aids e abdomen agudo, revelando resultado similar a literatura. Em relação ao grupo controle, a proporção de homens e mulheres foi similar (56,5% e 43,5%, respectivamente), cerca de 1,2 homens para cada mulher, porém estes dados quando comparados ao grupo com Aids não apresentaram significância estatística.

O hemograma, no presente estudo, foi considerado alterado na presença de anemia, leucopenia ou leucocitose, sendo que as alterações laboratoriais encontradas foram evidenciadas em maior proporção no grupo controle, com cerca de 87% dos pacientes apresentaram alguma alteração laboratorial, sendo a maioria devida a leucocitose (80% dos exames alterados). No grupo com Aids 61,5% dos pacientes apresentaram alteração laboratorial, sendo que nestes a alteração mais frequentemente observada foi a associação de anemia com leucopenia (50% dos exames alterados), seguida da anemia isoladamente em 25% dos exames , sendo portanto a anemia presente em 75% dos pacientes com resultados alterado. Em 38,5% dos pacientes com abdome agudo e Aids tiveram resultado normal, diferentemente do grupo controle que foi menor (13% dos exames), refletindo a deficiência imunológica no grupo com Aids. Porém estes resultados não apresentaram significância estatística. Esta casuística está de acordo com os trabalhos de Daminelli e colaboradores, pois observaram que na população com Aids as alterações hematológicas mais frequentes são anemia, leucopenia e plaquetopenia, que ocorrem como resultado da replicação viral e depleção de linfócitos TCD4, sendo que a anemia pode estar presente em até 63% a 95% dos pacientes. Silva e colaboradores também observaram que na fase da infecção primária, pode ocorrer inicialmente linfopenia, seguida por linfocitose, posteriormente na fase assintomática ocorre queda gradual no número de linfócitos TCD4+, que pode inicialmente ser mascarada pela linfocitose atribuída a um aumento das células TCD8+. No momento em que ocorre a definição do diagnóstico de Aids, ocorre linfopenia e, frequentemente, pancitopenia.

Na presente casuística a causa mais frequente de abdome agudo na população com Aids foi perfuração intestinal, presente em 82,1 % dos pacientes, enquanto no grupo controle foi obstrução intestinal em 39,1% dos casos, sendo estes dados com elevada significância estatística. A identificação da perfuração intestinal como principal causa de abdome agudo em

pacientes com Aids também foi evidenciado por Steinman e colaboradores em 1996, que realizaram estudo retrospectivo em 31 pacientes com Aids atendidos no Serviço de Cirurgia de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com diagnóstico clínico de abdome agudo e submetidos à laparotomia exploradora onde encontraram como causa mais freqüente a perfuração do trato gastrointestinal, sendo a infecçao por citomegalovírus a etiologia mais freqüente da perfuraçao.

Em relação ao quadro clínico inicial de apresentação dos pacientes com Aids, observou- se que a dor abdominal esteve presente em quase todos os pacientes com e sem Aids, 97,4% e 87% respectivamente. Porém apenas o quadro de defesa abdominal (56,4% em pacientes com Aids e 4,3% nos controles) e diminuição de ruídos hidroaéreos (61,5% em pacientes com Aids e 8,7% nos controles) apresentaram diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos (p valor = 0,0068 e 0,0114, respectivamente). Na literatura, observou-se resultado semelhante nos trabalhos de Steinman e colaboradores onde a principal manifestação clínica dos 31 pacientes com Aids acompanhados foi a dor abdominal. Yactayo e Rodriguez, em 2004, também realizaram uma série de casos retrospectiva no Hospital Nacional Cayetano Heredia, durante o período de 1997 a 2002, onde observaram 23 pacientes com HIV e abdome agudo, sendo que o quadro clínico principal foi composto por dor abdominal, sinais de irritação peritoneal, febre, náuseas, ruídos intestinais diminuídos e distensão abdominal. No que diz respeito às alterações radiológicas evidenciadas, verificou-se que a maioria dos pacientes com ou sem Aids apresentaram alguma evidência radiológica de abdome agudo cirúrgico, confirmando o papel imprescindível da rotina radiológica na avaliação inicial do paciente com abdome agudo e Aids. A alteração predominante nos pacientes com Aids, foi a presença de distensão de alças de intestino delgado ou cólon em 82,7% das radiografias. No entanto, a única alteração radiológica estatisticamente significativa que diferenciou os grupos, foi a presença de pneumoperitôneo em 48% dos pacientes com Aids e nenhum nos controles (p valor = 0,0009), sendo justificada pela etiologia do abdome agudo nos pacientes com Aids ser predominantemente por perfuração intestinal, presente em mais de 82% dos casos. Esta casuística difere dos dados encontrados por Steinman e colaboradores, pois não encontraram alterações radiológicas que diferenciassem os grupos.

No que tange à cirurgia realizada pelos pacientes, a realização de ressecção com reconstrução primária do trânsito intestinal esteve presente em 61,5% dos casos com Aids, seguida da realização de ostomia em 38,5%, e apendicectomia em 7,7% dos casos, sendo esses dados justificado pela etiologia perfurativa do abdome agudo em Aids nesta casuística.

As únicas cirurgias estatisticamente relevantes foram as cirurgias por outras causas de abdome agudo nos pacientes controles, quais sejam necrosectomia, desobstrução de ostomia, gastrectomia, histerectomia com apendicectomia. Na literatura, Yactayo e Rodriguez, evidenciaram em seus 21 pacientes com Aids e abdome agudo, que os procedimentos cirúrgicos realizados foram enterectomia (26,1%), apendicectomia (26,1%), biópsia de linfonodos (21,74%), colecistectomia (17,4%), lise de aderências (4,35%), drenagem de abscesso (4,35%) e ressecção de tumor (4,35%), sendo que em 26,1% dos casos foram realizados procedimentos cirúrgicos desnecessários.

Em relação às complicações evidenciadas no pós-operatório, constatou-se que os

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