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Current status and performance of the Republic of Moldova’s cereal and grains sector

CHAPTER 3: THE REPUBLIC OF MOLDOVA’S CEREAL SECTOR

3.3. Current status and performance of the Republic of Moldova’s cereal and grains sector

Ao longo das narrativas YA, ficam evidentes diversas referências a temáticas ligadas à cultura pop ou a produtos – sobretudo, americanos – muito conhecidos. O consumo dessa cultura ou desses produtos se relaciona, de forma íntima, com a construção das figuras juvenis contemporâneas, as quais, apesar de particularidades locais, estabelecem relação íntima com muitos modelos sociais enlatados dos Estados Unidos. Assim, a absorção desses artefatos evidencia uma máquina de produção digna do American Way of Life. Para Silva e Casado Alves (2018, p. 515) 27,

27 O autor referencia os seguintes textos:

HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX. 1941-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. KUMARAVADIVELU, B. Desconstruindo a linguística aplicada: uma perspectiva pós-colonial. In: FREIRE, M. M.; ABRAHAO, M. H. V.; BARCELOS, A. M. F. (Org.). Linguística aplicada e contemporaneidade. São Paulo: Pontes Editores, 2005.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017.

se compreendermos a linguagem como arena de disputa dos discursos, os Estados Unidos possuem uma produção cultural que é comercializada de forma intensa e desenfreada por todo o mundo. Esse consumo exacerbado de mercadorias que se inicia na Era dos Extremos (HOBSBAWM, 1995) e se alarga até hoje, tem por objetivo uma dominação simbólica que, cada vez mais, compromete a solidificação dos costumes locais que são, paulatinamente, substituídos por um estilo ocidental, consumista e norte-americano. Esse processo influencia, portanto, a criação das identidades das ‘colônias’ americanas, as quais como consequências da globalização geram uma ‘McDonaldização’ (KUMARAVADIVELU, 2005) cultural na qual as identidades se constroem a partir de relações de alteridade construídas com protótipos culturais enlatados. As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos, e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios (VOLÓCHINOV, 2017), nesse sentido, as estruturas de dominação estarão intrínsecas às produções culturais advindas dos Estados Unidos, sobretudo no Young Adult por ser uma literatura consumida, justamente, no momento de busca ávida pela identidade e lugar no mundo. Dessa forma, criam-se obras enlatadas que são exportadas em grande número para o Brasil e outros países, uma consequência do fenômeno de consumo dos best-sellers.

Logo, fica evidente uma íntima relação entre a construção do corpo, a relação do eu com o outro e as questões de tempo/espaço no que diz respeito à valoração e construção de sentidos para as construções de linguagem que são os corpos juvenis. Compreender a ação desses três fatores é fundamental para entender as questões daquilo que se chama jovem na contemporaneidade e, consequentemente, ter a imagem de quem é esse sujeito juvenil que está sendo refletido/refratado para a literatura chamada Young Adult.

Ao tratar de juventude, ou de sujeitos juvenis, é importante se compreender o que vem a ser entendido como jovem na contemporaneidade, especialmente, em um contexto como o evidenciado no parágrafo anterior no qual fica nítida a existência não de jovem ou juventude, mas de jovens e juventudes, diversos sujeitos singulares, históricos e, axiologicamente, inacabados que, com o auxílio de outros semelhantes – nunca iguais –, constroem grupos, enunciados e práticas discursivas muito singulares. Inicialmente, é preciso problematizar a ideia de juventude como um “vir a ser” (DAYRELL, 2003), dado que essa seria apenas uma transição da infância para a vida adulta, além da visão romântica de juventude como mero período de liberdade, de rebeldia e de crise. Na realidade, essa construção da figura social juvenil encontra sua significação comprometida a partir de cada sociedade, situada em determinado tempo histórico e de cada grupo social em específico que compõe essa sociedade. De fato, é possível mapear um período de juventude, caracterizado como a capacidade de procriar, a menor necessidade de proteção dos pais, o ato de assumir maiores responsabilidades e a necessidade de busca de independência. Mesmo assim, esses fatores biológicos e sociais apenas definem padrões marcados em todo processo de evolução dos sujeitos. Então, pressupomos a existência

de diversos modos de ser jovem, importando-nos relacionar a noção de juventude à de sujeito social para, então, compreender, de forma localizada, os sujeitos que aqui nos interessam.

É preciso compreender que juventude e adolescência não são sinônimos. Essa observação se sustenta porque a juventude pode ser entendida, em termos quantitativos, como um período muito superior ao da adolescência. Dado que o interesse pelo estudo da juventude se dá pelo interesse em suas construções sociais identitárias, em suas ações como sujeitos sociais e em seu consumo cultural e movimento social, estatutos oficiais que formalizem a questão da juventude se tornam menos importantes, e as trajetórias desses sujeitos juvenis ganham mais importância (FEIXA & NILAN, 2009).

Seguindo essa perspectiva, adotamos, neste trabalho, a concepção de jovem como um ser aberto a um mundo que possui historicidade, portador de desejos – e movido por eles – e que está em processo de alteridade com os outros do seu meio social; o jovem é, pois, singular, portador de historicidade e interpreta o mundo, dando-lhe sentido, agindo no e sobre o mundo, e é a partir disso que se produz e, ao mesmo tempo, é produzido no conjuntos das relações sociais nas quais está inserido (DAYRELL, 2003). Portanto, o jovem deve ser visto como sujeito social e, embora esteja em uma fase sensível de seu desenvolvimento, de produção de sentidos e construção de sua identidade, esse não deixa de agir no mundo e a partir dele, sendo, logo, um sujeito social e sujeito à formação de culturas juvenis inacabadas, híbridas e transculturais (FEIXA & NILAN, 2009).

Na pós-modernidade, parece necessário pensar não só em processos mais confusos, difusos e plurais, mas, especialmente, supor que o sujeito que viaja é, ele próprio, dividido, fragmentado e cambiante. É possível pensar que esse sujeito também se lança numa viagem, ao longo de sua vida, na qual o que importa é o andar e não o chegar. Não há lugar de chegar, não há destino pré-fixado, o que interessa é o movimento e as mudanças que se dão ao longo do trajeto [...] também há, aqui, formação e transformação, mas num processo que, ao invés de cumulativo e linear, caracteriza-se por constantes desvios e retornos sobre si mesmo, um processo que provoca desarranjos e desajustes, de modo tal que só o movimento é capaz de garantir algum equilíbrio ao viajante. (LOURO, 2016, p. 13).

Ao imaginar a formação do sujeito juvenil, Feixa & Nilan (2009) apontam três aspectos: a fragmentação, a hibridização e a questão transcultural. Compreender um sujeito como fragmentado28, ou mesmo um grupo, quer dizer que ele adota para sua constituição identitária

28 Aqui, o termo fragmentado aparece como apresentado pela teoria dos estudos culturais. No entanto, não

usaremos o termo com o mesmo valor em nossa análise por considerar que a visão da identidade como fragmentos ignora o caráter responsivo da linguagem e do materialismo marxista. Assim, traçaremos adiante uma forma mais adequada de se observar o fenômeno identitário a partir da alteridade, inclusive, sugerindo uma releitura do que seria fragmentado.

diversos aspectos – muitas vezes, até opostos entre si – na tentativa de suturar uma série de elementos que, unidos, construam o eu coeso e acabado. O grande problema da contemporaneidade é que esse eu coeso e definitivamente acabado não existe, justamente pelo que é apontado por Louro (2016). Os sujeitos estão em um processo contínuo de movimento, e isso implica um processo contínuo de colecionamento de novos fragmentos identitários e, em consequência, um contínuo processo de acabamento, já que o novo fragmento se forma um novo ser. A transculturalidade é resultante do grandioso processo de democratização da tecnologia e dos artefatos de mídia em parceria com a crescente interação dos sujeitos nos meios virtuais. A ligação desses sujeitos a meios cada vez mais globais provoca uma espécie de crise nos sistemas de identidade, tendo em vista a grande gama de possibilidades oferecida por esses construtos e o constante processo de individualização dado às diversas possibilidades de se construir socialmente a partir da gama de produtos que se oferecem nas prateleiras de todo o mundo. Por fim, a hibridização, nesse processo de uma cultura global, é favorecida pelo constante apagamento das fronteiras, possibilitando identidades, práticas discursivas e construtos sociais que não se originam de uma única matriz, mas da miscigenação de diversas formas de ser, fazer e viver.

A consequência desses três fatores é um mundo com infinitas possibilidades de “ser”, mas que são diariamente coibidas pelo sistema que opera nas sociedades ocidentais em favor da sua manutenção. As transformações sociais, responsáveis por construir novas formas de relacionamento e estilos de vida, já se mostravam, nos anos 1960, profundas e perturbadoras, o que só se aprofunda em um ritmo imenso até a atualidade, intervindo em valores considerados, até então, imutáveis, trans-históricos e universais (LOURO, 2016b). Paralelo a essas inovações, vieram também novas formas de policiar os corpos que transgrediam as regras já sedimentadas para construir uma nova pedagogia dos corpos, a fim de os educar para uma realidade que, cada vez mais, saía do controle do que era imaginado por aqueles que dominam os poderes. Isso se justifica em razão de os corpos ganharem sentido socialmente. Butler (2016) afirma que a matriz de relações são fronteiras rígidas construídas em performances normativas fixadas por serem, repetidas vezes, divulgadas e demonstradas. Seres, corpos, que não se acomodam a essas normas, são tratados como abjetos. É daí que, provavelmente, surge o grande adjetivo de juventude como época de crise. O jovem sai da infância com a ideia do “felizes para sempre” dos contos de fada e com a de perfeição do mundo em sua totalidade. Ao se deparar com as

primeiras decepções em casa, as decepções amorosas na escola e encontrar o bullying29, o

jovem descobre que nem tudo é perfeito e que não há garantia alguma para o “felizes para sempre”. Ao observar o mundo como local estranho, percebe a si também como estranho, em virtude de passar a não compreender bem seus primeiros impulsos sexuais, as mudanças de seu corpo e as respostas da sociedade ao que seu corpo representa. A crise da juventude consiste na mutilação diária da sociedade para que esse corpo se adeque à matriz padrão.

À medida que a vida dos jovens reflete ativamente sua relação com as estruturas de poder dominantes (MILES, 2000, p. 6), o grau de ressentimento e a oposição em relação a elas se refletem na cultura expressiva dos grupos e das tendências juvenis (FEIXA & NILAN, 2009). Esse panorama explica, em partes, a razão do surgimento de diversas manifestações culturais ao longo da história que revelam muitos aspectos inerentes aos sujeitos juvenis em seus devidos recortes temporais. Na atualidade, uma das produções em que se pode encontrar muitos desses embates entre juventude e cultura dominante é a narrativa do gênero literário Young Adult.

O romance YA é caracterizado por possuir uma temática que se passa no universo jovem, sobretudo na transição da passagem de adolescente/jovem para a idade adulta. Esse ritual de passagem não necessariamente está aí em um sentido literal, em que por questões naturais/biológicas do processo de desenvolvimento um jovem cresce e se torna adulto. Até porque a noção de juventude tem sido alargada pelos estudos identitários e culturais para além de uma mera questão quantitativa, mas uma espécie de reconhecimento a partir de questões sociais. Na realidade, o que geralmente acontece no gênero é uma situação problema na qual à medida que vai se desenvolvendo e tentando se resolver pelas personagens, esses adquirem um certo amadurecimento, reflexões e características que serão importantes na fase adulta. Assim, o que se tem é uma jornada heróica no qual esse protagonista à medida que resolve as problemáticas e nós da narrativa vai adquirindo acabamento, até que chegue no momento final no qual, ao invés de uma moral derradeira, adquire uma identidade mais nítida e palpável. Ao levar em consideração a possível crise de identidade pertinente à contemporaneidade (HALL, 2015; BAUMAN, 2001) é notório que a fase juvenil contempla os primeiros sintomas dessa crise, uma vez que é justamente o momento de quebra da perfeição e naturalidade das questões da infância e, de fato, o início da trajetória por si mesmo no mundo. (SILVA & CASADO ALVES, 2018, p. 543).

A partir da definição de YA dada por Silva e Casado Alves, é palpável um gênero discursivo com personagens que se encaixam com os que estão sendo descritos ao longo desta seção. Em geral, nessas narrativas, as personagens principais recebem um dilema – justamente o nó da história – que, quase sempre, envolve a sua identidade, ou seja, esse nó implica a

29 O termo bullying, numa definição bastante utilizada, pode ser compreendido como todas as formas de atitudes

agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder, tornando possível a intimidação da vítima.

homoafetividade da personagem, as constantes violências sofridas na escola por ser diferente – o bullying –, a dificuldade de aceitar o próprio corpo, uma doença repentina, os problemas de ansiedade e uma série de outras problemáticas pertinentes ao universo de uma juventude já nascida em tempos líquidos (BAUMAN, 2018) e em uma sociedade de desempenho (HAN, 2017). O sujeito fictício que protagoniza as tramas YA pode ser comparado com o viajante do gênero bildungsrooman – que mantém outras similaridades com o YA – o qual “não ensina nada, não convida a ser seguido, simplesmente dá a distância e o horizonte, o 'não' e o impulso para se caminhar” (LARROSA, 2000, p. 60). Nesse sentido, esse protagonista não deve ser visto como um modelo ou como uma luz que convida jovens desajustados a seguirem seu modelo, antes esse ser do mundo da arte é apenas uma força desestabilizadora de certezas – centrífuga (BAKHTIN, 2015) – e provocadora de novas percepções.

Explica-se, então, o sucesso dessas tramas. Cerceados por uma família constituída de tabus para tratar a temática da sexualidade como se ainda vivessem em uma época vitoriana e sem muitas oportunidades para discutir o corpo, as questões sociais e as diferenças em uma escola cada vez mais preocupada com a formação de robôs para atividade laboral e preparados para exames de acesso às universidades, muitas vezes, a literatura acaba sendo o último refúgio para se contemplar o diferente na busca do que seria o eu. Os próprios amigos podem ser, por vezes, pessoas não confiáveis para que os sujeitos juvenis dialoguem sobre as descobertas típicas de sua idade. Afinal, caso uma dessas descobertas envolva uma identidade valorada negativamente pelo grupo, caso o sujeito jovem esteja fora da matriz normatizadora, a revelação de si como diferente pode causar reações do grupo, tanto de forma simbólica quanto violenta. A leitura, em seu ato silencioso e solitário, confere, pois, esse acalanto e diálogo que o jovem quer ter e não consegue com outros interlocutores.

A série Harry Potter, composta por sete livros no total, é quase sempre apontada como a causadora do grande boom editorial na virada do último século e por revolucionar, de uma vez por todas, a relação entre produtores, produto e consumidores. De fato, a série teve um papel muito importante, vide não só a comercialização de livros e as adaptações para o cinema, mas de cadernos, roupas, garrafas, acessórios, jogos e diversos outros produtos baseados na trama do bruxo. Apesar disso, Harry Potter apenas deu prosseguimento a um sistema de consumo de séries que já existia há algum tempo com obras como O Senhor do Anéis (2002), As Crônicas de Nárnia (2009) e os grandes colecionadores da cultura de fã: Star Wars (1977) e Star Treek (2008). Para Certeau (2014), a autonomia do olho suspende a cumplicidade do corpo com o texto, uma vez que ela o desvincula do lugar escrito; faz do escrito um objeto e

potencializa as possibilidades que esse leitor tem de circular. Logo, essa capacidade de ler e, a partir da leitura, chegar ao outro, interagir com ele e contemplá-lo por inteiro dá ao leitor possibilidades de acabamento de si que ele ou não teria ou teria muita dificuldade de achar às claras em seu meio social. Partindo de uma concepção bakhtiniana que recusa o eu absoluto do método cartesiano em prol de um outro e, portanto, alerta para a urgência de uma ciência outra – uma heterociência –, Bubnova (2016, p. 17) defende que

O outro é a primeira condição de emergência do sujeito que se diz ‘eu’. O postulado ontológico não seria então ‘eu sou’ ou, coloquemos por acaso, ‘penso, logo sou’ – porque, diz Bakhtin, somente por advertir que penso, devo considerar que penso a verdade? – mas sim um ‘eu também sou’, mediante o qual se outorga a primogenitura ao outro.

A relação eu e outro – alteridade – nos é muita cara nesse estudo, tendo em vista que a relação entre leitor e sujeito juvenil da ficção gera uma série de interações, questões e posições éticas que, ao serem estudadas, podem nos dizer muito sobre as organizações ou comunidades desses sujeitos leitores, seus modos de agir em sociedade como seres em formação e, principalmente, seus modos de resistência frente a situações sociais tão adversas e avessas ao diferente. O que nos interessa, diante disso, é entender esse “estar na linha de fronteira”, em que esses sujeitos se colocam ao adentrarem a adolescência, e quais as implicações dessas narrativas para eles. A fronteira é o espaço da relação, o lugar do encontro, cruzamento, confronto. Ela separa e, ao mesmo tempo, coloca culturas distintas em contato, apresenta os grupos de policiamento, choca identidade e diferença... O ilícito circula ao longo da fronteira (LOURO, 2016). Incapacitado, muitas vezes, de cruzar a fronteira da identidade presumida e aquela que se é de fato, as narrativas em que o outro ultrapassa e vivencia, de fato, as consequências de ser o que é, de colocar para fora sua identidade, funciona como um acalento, como uma forma de contemplar enquanto se consegue acabamento suficiente para também ser aquilo ou é mero artifício para nunca pôr os pés para além da linha fronteiriça.