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O caminho feito desde estão para ir até o CMEI era por essa outra escadaria. Consideram a Ilma de Deus muito suja e perigosa e evitam passar por lá. Passei a subir a chamada escadaria do Cruzeiro. O nome Cruzeiro faz referência à praça do Forte São João que foi assim nominada por nela haver uma cruz. Ninguém soube me explicar a razão de ter sido erigida uma cruz na praça. Contam apenas que as inúmeras marcas nessa cruz tratam-se de bolinhas de gude que a enfeitavam em sua inauguração e que arrancadas serviram de brinquedo para as crianças do morro.

A escadaria do Cruzeiro é bem movimentada. Ao subirmos, encontramos crianças a caminho da escola, mães subindo com crianças de colo, homens levando materiais de construção, pessoas com compras e material escolar carregados nos braços. Difícil é ver quem suba sem levar nada consigo. Os degraus são disformes, uns grandes, outros estreitos, é preciso estar atento a todo tempo para não tropeçar nesse variante chão. As sombras feitas por árvores no quintal são preciosas, pois no sol quente proporcionam a parada necessária para retomar o fôlego e prosseguir.

A dificuldade de realizar esse trajeto ajuda a compreender porque a conquista de um CMEI no morro é tão valorizada e quanto o acesso aos demais equipamentos é marcado por complicações. Quando se tem crianças e não se tem com quem deixá- las é preciso levá-las junto, mesmo ainda muito pequenas, submetendo-as a essa atividade desgastante e tornando o trajeto ainda mais cansativo. Além disso, nem todos os serviços e profissionais fazem esse trajeto que para os moradores é atividade cotidiana, situação interpretada pela população como justificada pelo medo ou mesmo por indisposição.

Em diversos momentos fui alvo de risos por depois de já ter sido acompanhada por um trecho, passar novamente por ele e errar a direção a seguir. Parece mesmo um labirinto, confuso aos desavisados ou desacompanhados. Os moradores até estranham o olhar perdido e desarrumado de quem não entende por onde entrou ou saiu. Mas seus habitantes sabem a importância de sua companhia a esses “estrangeiros”. E foi com essa disponível companhia que pude realizar os primeiros

encontros dos grupos e aprender um pouco como se sobem e descem essas escadarias.

Reunir pessoas no Forte mostrou-se uma ação difícil. Todas as solicitudes demonstradas no momento do convite não repercutiram em presenças nos encontros agendados. Pela manhã, os encontros tiveram no máximo quatro participantes e à tarde não aconteceram os grupos narrativos, pois os usuários convidados não compareceram.

Razões para não terem aparecido havia, os moradores explicavam sua ausência com questões emergentes no dia, mesmo que essas fossem o esquecimento ou a perda do horário. Poderia também ser um trabalho que surgiu, a necessidade de ficar com as crianças para o companheiro trabalhar, um sol perfeito para dar faxina ou ter amanhecido sem sentir-se muito bem. Motivos que pareciam expressar que a pesquisa estava distante do que se passava em suas vidas, das urgências da vida cotidiana, da vontade, das ocorrências do hoje, de uma agenda cujo modo de lidar com o tempo e com os acontecimentos era outro.

Manter exclusivamente essa estratégia poderia significar estender a pesquisa de campo por um tempo que eu já não tinha e ainda deixar de acompanhar esse movimento que fala também de modos de vida que se atualizam ali. Mais uma vez seguir adiante no cumprimento do planejado seria insistir em imprimir ali um movimento alheio. Não que fosse necessário abandonar por completo a proposta dos grupos, mas era preciso prosseguir no aprendizado de como se faz para seguir adiante andando por quebradas.

Realizamos os grupos narrativos pela manhã, sem mais distinguir os participantes por suas inserções no CRAS. Fomos surpreendidos por uma rotatividade nas participações. Não foram todos os moradores que compuseram a narrativa no primeiro encontro que retornaram no segundo, e novos compareceram. Foi preciso construir com o grupo a proposta de uma narrativa que emanasse do Forte São João, de modo que sua validação pudesse ser feita por outros moradores que se agregassem à pesquisa no decorrer de seu processo no morro. Tal proposta foi acolhida e compartilhada mesmo quando a polifonia da vida emergiu, e a variabilidade pôde ser incluída no registro narrativo. Tal como os narradores

trapeiros que vão seguindo de acordo com a insígnia: quem conta um conto, aumenta um ponto.

Simultaneamente aos grupos, passei a ir ao Forte em outros dias da semana, ora aguardando o horário dos pais buscarem crianças no CMEI, ora visitando alguns moradores, e a fazer conversações22 nas quais buscava discutir questões semelhantes às abordadas nos grupos. Essa foi a estratégia usada para tornar a pesquisa elemento emergente do dia, já que o agendamento estava alcançando apenas um pequeno grupo. Para isso, era preciso estar atenta aos caminhos mais utilizados e também contar com a cooperação dos moradores já envolvidos na pesquisa para me acompanharem até casas, aguardando, auxiliando e participando da inclusão de novos participantes à composição das narrativas. Quebrada indicada por eles, variância necessária para melhor compor com a vida ali e incluir outras vozes na pesquisa.

Assim, os grupos aconteceram no CMEI e conversações foram feitas nas casas e pelo caminho. Casas e CMEI que falavam muito também da vida ali. No Forte São João, como em outros morros de Vitória, a situação das casas, em sua maioria, se torna mais precária quanto mais alto na escadaria elas estão localizadas. Há no bairro casas grandes e pequenas de alvenaria, casas de madeira ou barracos e, passando a compor recentemente essa paisagem, casas construídas pelo Projeto Moradia23 da Prefeitura Municipal de Vitória.

Receber uma casa do Projeto é o sonho de muitos moradores. Motivos como deixar de pagar aluguel e ter uma casa em risco de desabamento eram os principais relacionados. Alguns, tendo uma propriedade em situação precária, são alojados em casas de propriedade de outros moradores, pagando um aluguel de valor mais baixo que o comumente praticado, enquanto aguardam que uma nova casa lhes seja construída pelo ‘Moradia’. As casas que já foram construídas pelo projeto foram pintadas da cor escolhida pelos moradores entre um pequeno leque de opções,

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Usamos o termo conversação por entender que o procedimento entrevista não expressa e tampouco se adequa à metodologia de pesquisa que utilizamos. As conversações pautavam-se em questões que a pesquisa pretendia abordar e acolhia as questões trazidas pelos moradores.

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O Moradia é um projeto da Prefeitura Municipal de Vitória que oferece a famílias de baixa renda duas modalidades de aquisição da casa própria: construção e reconstrução de unidades habitacionais. O projeto Moradia prioriza famílias de baixa renda que constituem 92% do déficit habitacional de Vitória (http://www.vitoria.es.gov.br/sehab.php?pagina=moradia).

podem ter um ou dois pavimentos, dependendo da composição familiar. Todos comentam que novas casas serão construídas no próximo ano e muitos aguardam que seu cadastro seja contemplado. Mas essa relação com o projeto, em que ele compõe com seus sonhos, só se deu quando ao invés de propor reassentar as famílias do Forte em outros bairros, a Prefeitura com o projeto Moradia deu início à construção ou reforma de casas no terreno da família desalojada.

E o CMEI, como era cuidado quando nos encontrávamos lá! Fui apresentada a todo espaço do CMEI pelas crianças, que faziam questão de também mostrar as atividades trabalhadas durante a semana e expostas pelas paredes do equipamento. Enquanto realizávamos os grupos, as crianças se juntavam para brincar no pátio livremente. Após cada encontro, todos (crianças e adultos) se movimentavam para limpar e arrumar o CMEI, sem ter sido preciso para isso fazer qualquer solicitação. Relação com esse espaço que não tinha como passar despercebida, e também como não se presentificar nos relatos sobre a experiência de viver ali.

Cada vez que subia o Forte São João me propunha a fazê-lo sozinha. Apenas na quarta vez que fui ao Forte a proposta foi acolhida e eu fui aguardada já na entrada no CMEI. Tempo, companhia e experiência essa que acalmou meu medo, possibilitou que a perdida visitante conseguisse fazer sozinha o caminho e fosse cumprimentada por alguns transeuntes como alguém cuja presença e atividade já eram conhecidas no bairro. Quer tenha sido o cuidado de apresentar-me o Forte (seus caminhos, marcos, pontos de referência, moradores) ou me apresentar ao Forte (fazer-me conhecida em seus caminhos e por seus moradores), a companhia disponibilizada de diferentes formas no decorrer da pesquisa foi elemento fundamental para tornar possível sua construção.

Companhias fundamentais mesmo, e no sentido que esse verbete assume no socioleto musical. Nesse meio, o verbete fundamental pode ser usado como um adjetivo que distingue as notas. Nota fundamental é o som que serve como base a um acorde, qualquer que seja seu lugar nesse acorde. A companhia dos moradores nessa pesquisa foi fundamental assim como essa nota. Foi o som que se fez ouvir mais alto que o medo, a nota que me possibilitava compor com o Forte São João de outros modos, cooperando na tarefa de não fazer deste texto algo alheio ao tocar da vida no Forte.

Companhia que deu a essa experiência de mestrado a possibilidade de ser coletiva. Não que essa coletividade não tivesse existido também na UFES. O grupo de orientação e o projeto de pesquisa e extensão ‘Redes no Território’ garantiram que na universidade a construção dessa pesquisa não fosse algo solitário. Esse cuidado, necessário, foi feito de forma compartilhada com esses grupos. No entanto, construir esse caráter coletivo da pesquisa com a população do Forte era laboro essencial e foi a companhia dos moradores em cada visita ao bairro que deu a esse trabalho esse precioso tom, para que fosse possível fazer soar desse morro outra música diversa à ladainha do medo e da miséria; música de vozes dissonantes envolvidas no trabalhoso exercício de compor uma melodia comum24.

Não bastou para isso, contudo, apenas apresentar ideias e tê-las bem acolhidas. Foi preciso porosidade, abertura para ver a pesquisa deslocar-se à medida que incluía outros atores em seu fazer, buscando sua coletivização no debate, pluralizando e não unificando a construção das análises efetuadas.

No primeiro encontro do grupo narrativo, assumir essa postura ou negá-la declaradamente já se apresentou como questão imperativa. “O que podemos esperar dessa pesquisa?” “O que você acredita que pode alcançar com ela”? Respondi a essa questão de forma muito semelhante ao que foi traçado nos objetivos colocados na primeira versão do Termo de Consentimento apresentado ao Comitê de Ética e Pesquisa da UFES. Disse que objetivava trazer elementos para discussões acerca da construção de políticas públicas e que isso contribuísse para tornar mais pública a política nacional de assistência social, visando interferir em especial na sua implementação no município de Vitória.

Mesmo procurando esclarecer cada ideia dessa sentença, os moradores logo comunicaram que isso pouco sentido tinha para eles. Percebi que minha resposta era repleta de apostas, preenchida demasiadamente de conceitos, mas distante das lidas cotidianas para chegarem a poder ser compartilhadas.

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Comum no sentido dado a esse conceito por Hardt e Negri (2005): comum como produto e produtor de comunicação entre singularidades manifestas através de processos sociais colaborativos de produção. Difere-se assim da noção tradicional de comum correspondente a uma unidade homogênea, pois é na expressão das singularidades que o comum a que nos referimos se manifesta.

Retornei ao grupo esse incômodo e a pergunta em que pensavam eles que poderíamos fazer com essa pesquisa. Disseram que poderiam utilizá-la para as lutas que estavam compartilhando nas narrativas, como instrumento de intervenção nas políticas sociais, a fim de atravessá-las com o que se passa no cotidiano de suas vidas: “Falar com o CRAS, com a prefeitura, secretaria de saúde... Dizer que o Forte está aqui”.

Construíram narrativas sobre a vida no Forte, e não era apenas a política de assistência social que elas precisavam atravessar. Ainda que tenham falado sobre as conexões que a vida no Forte estabelece com a PNAS, estavam falando de modos de vida mantidos à distância não só dessa política, e nisso veio a sugestão de encontrar estratégias de levar essas narrativas também a outras políticas sociais. Era imprescindível abertura para deixar a pesquisa ser atravessada pelas questões que traziam como essenciais. Essa quebrada construímos juntos, abrindo novos trajetos para desviar este trabalho do ainda corriqueiro caminho de pesquisas extrativistas, distantes e comprometidas com projetos individuais. Não fomos os primeiros, há muitos atores nessa empreitada, mas isso ainda não faz dela atividade de pouca importância ou de fácil realização.

A pesquisa incide e se constitui nessa abertura para o atravessamento pelas lutas compartilhadas pela população do Forte, fazendo-se material e estratégia para transversalizar políticas sociais com o cotidiano da população do Forte São João. Eis a aposta que não é “una”, mas multipovoada de proposições: a de convocar os serviços públicos que estabelecem conexões com o Forte a contaminar-se com a vida que se forja ali, pois pensamos ser esse exercício potente em provocar nas políticas dobras para fora, para o plano coletivo, plano em que a política pode consolidar-se efetivamente como experiência pública (PASSOS e BENEVIDES, 2005).

2 A VIDA NO FORTE E SUAS CONEXÕES COM POLÍTICAS