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7. EAU, HYDRAULIQUE, AGRICULTURE, MARICULTURE

7.3 CULTURES EN ÉTANGS

A improvisação na música esteve presente na prática criativa de grandes nomes da história da música ocidental como Mozart, Beethoven, Chopin etc. Quando, após 1800, as composições começam a ser completamente fixadas na pauta, os músicos intérpretes começam a tocar estritamente o que estava registrado. Goehr (1992) aponta dois fatores como responsáveis pela perda de espaço e valor da improvisação na música clássica: a noção do compositor gênio e o surgimento do copyright. Não havia mais espaço para improvisação por parte dos solistas e as pautas tinham os direitos do autor protegidos. “A visão e o gênio do compositor subjugaram a subjetividade e a criatividade dos intérpretes.” (CUNHA, 2005, p. 96). Do intérprete só se esperava agora a perfeita execução da obra.

Com essa nova situação, o que restava era monitorar e controlar com rigor a execução de uma obra. Se pensássemos numa orquestra, existia o compositor-gênio-líder, o

maestro-capataz e os músicos-operários. Nesse caso, a semelhança com uma organização burocrática não é mera coincidência, onde muitas vezes se restringe a gestão à prática do comando e controle. Ao músico era exigida a melhor técnica, o nível mais sofisticado de domínio de seu único instrumento. “A criatividade passa a ser um domínio do gênio visionário e inspirador, mas um terreno vedado aos executantes.” (CUNHA, 2005, p. 96)

A partitura transforma a existência passageira da música tocada em algo perene, enquanto um objeto codificado que permite uma base de reativação da performance musical. (…) Entretanto, nunca saberemos ao certo como essas músicas eram executadas em suas versões originais. As composições destes artistas não são estátuas que chegaram ao nosso tempo como objetos de comprovação de suas próprias existências. Nossa ligação com esses músicos é construída por meio de registros de suas composições e não de suas obras em ação. Não saberemos, com toda a certeza, como a Nona Sinfonia de Beethoven ou 40a Sinfonia de Mozart eram tocadas por eles próprios. (NETO, 2014, p. 25)

Karl Weick (2002) analisa a problemática da inovação nas organizações tomando como fonte de exemplo o jazz. Na perspectiva dele, é fundamental estudarmos para além das organizações, se realmente queremos conhecer a sua lógica. Deste modo, o autor analisa o processo de produção e avaliação do jazz para problematizar o fenômeno da inovação, da geração de ideias e criatividade dentro do mundo organizacional, refletindo sobre o problema que se apresenta de se atingir ordem dentro da diversidade e adversidade.

Uma das maiores características do jazz é a improvisação, que pressupõe que os músicos atuem sem uma completa obediência à partitura e faz com que cada um dos integrantes da banda atue também como solista, buscando virtuosismo tanto na criação quanto na interpretação de um tema.Ou seja, temos uma situação oposta entre as horas e os meses de composição e ensaios em busca da composição e execução perfeitas em comparação aos milésimos de segundo entre as notas tocadas, irreversíveis, em frente ao seu público. Mesmo numa trajetória relativamente breve do jazz5 percebe-se que, num primeiro momento, existiam músicas que envolviam trechos compostos e instantes de improvisação solo e que, depois,

5 De criação afro-americana, o jazz é uma manifestação artístico-musical originária de New Orleans, onde,

durante o fim da escravidão, por volta do final do século XIX, artistas negros se expressavam musicalmente, utilizando-se da influência europeia da música clássica. Os instrumentos musicais básicos para o Jazz são aqueles usados em bandas marciais: metais, palhetas e baterias. No entanto, o jazz, em suas várias formas, aceita praticamente todo tipo de instrumento. O jazz não foi considerado como música até por volta de 1915, mas hoje é mundialmente conhecido, inclusive tendo se adaptado a muitos estilos musicais de cada lugar, obtendo, assim, uma grande variedade melódica, harmônica e rítmica. Possui grande variedade de subgêneros, como o Swing, Bebop, Cool Jazz, Free Jazz, entre muitos outros. Hoje, o jazz pode ser considerado um estilo musical de experimentação, no qual os artistas procuram seu estilo pessoal de execução.

passaram para completo descarte das músicas compostas. Mas é importante perceber que descartar composições feitas não é garantia de não se cair em um conjunto de clichês e maneirismos. O perigo dessa prática está justamente em o artista recorrer a territórios seguros e caminhos repetitivos, o que nos levaria a um resultado pouco inovador. Ou seja, descartar composições feitas também não é garantia para que se coloque, de fato, em posição de risco e superação.

Apreciar o jazz passa por celebrar tanto seu produto final como a forma de trabalhar desses artistas, além do modo como ele é produzido. Envolve necessariamente entender e vivenciar o mundo a partir da estética da imperfeição, aprendendo a admirar características como multiplicidade, incompletude, acaso, descontinuidade, fragmentação, instabilidade. Sem a admiração pelo impulso, pelo repentino e imperfeito, esse tipo de música será sempre relegado a uma forma artística de segunda categoria. É preciso perceber algumas das características da improvisação para poder apreciá-la, como as limitações impostas e a irreversibilidade das decisões, elementos esses que também são encontrados na vida organizacional, e de como essas condições podem favorecer a inovação nessas organizações.

A tese pós-dicotômica está interessada em representar o mundo mais próximo da realidade e menos preocupada em como ele deveria ser. Percebemos na literatura da gestão um domínio da prescrição, como se a organização fosse um lugar de ordem e rotina, uma máquina produtiva sólida, estruturada e previsível. E que a improvisação só pudesse acontecer quando surgisse um “estado excepcional”, o oposto do estado “normal”. “Ordem e desordem são, portanto, duas realidades gêmeas, mais do que opostas inconciliáveis.” (CUNHA, 2005, p. 99)