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MATÉRIELS ET MÉTHODES

I. Culture de C. elegans

Quando em Outubro de 1992, enquanto estudante de 1º ano do bacharelato em Guias-Intérpretes Nacionais na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, os colegas mais velhos conduziram os «caloiros» ao jardim do Casino para homenagear a estátua149 central, todos nos interrogámos: quem foi o ilustre? Semanas depois, em

Introdução à Problemática do Turismo, fomos academicamente apresentados a Fausto

Figueiredo, o tenaz idealista que mudara a imagem e a gestão institucional da actividade turística em Portugal. Passaram os anos e visando esta produção permitir a nossa progressão profissional, impõe-se, por factualidade científica no âmbito da História (do Turismo) Local e até por questões de «familiaridade», apresentar uma resenha biográfica sobre o criador do Estoril.

Fausto Cardoso de Figueiredo nasceu a 17 de Setembro de 1880, na freguesia de Baraçal, concelho de Celorico da Beira, distrito da Guarda. Cedo este beirão de poucas palavras rumaria à capital para trabalhar na Farmácia Veiga150 (Rua dos Retroseiros), terminando, em 1900, o curso correspondente na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa151. Num dos andares superiores do estabelecimento onde trabalhava ficavam os escritórios de José Ferreira do Amaral152, roceiro de cacau que, em 1910, se tornaria seu sogro e o introduziria num palco social no qual acederia a contactos de remonta. No plano

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Casino, 14 de Outubro de 1928, p.18. Este «Semanario de Elegancias e Arte» tinha redacção e

administração no Casino Internacional; adiante abordaremos o Jogo e a importância do equipamento no Monte Estoril antes da inauguração do Casino no Estoril.

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Bronze de Leopoldo de Almeida inaugurado a 17 de Setembro de 1971 na presença do Presidente da República e do edil cascalense, para imortalizar o extinto empresário no dia de aniversário natalício. Nessa manhã, pelas 11h00, fora lançada a primeira pedra do Bairro Fausto de Figueiredo, no Estoril, destinado a alojar funcionários da SE e da SEP. Cf. Diário de Notícias, 17 de Setembro de 1971, p.1.

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O Século, 6 de Abril de 1950, p.8.

151 Luísa Vilarinho, Op. Cit., p.300. 152

“Abastado proprietário de São Tomé”, onde a filha Clotilde nascera. Cf. João Miguel Henriques, Da

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político, a sua adaptabilidade153 às facções no poder permitiu-lhe atingir objectivos empresariais e turísticos. Figueiredo realizou curtas passagens pela Câmara Municipal de Cascais (CMC) entre 1911/1913 e 1919/1922para fazer avançar as obras projectadas, escapando ao golpe da «Noite Sangrenta» de 19 de Outubro de 1921 ao esconder-se em casa de um amigo; foi Provedor da Assistência (1923-1928)154, presidente do Conselho Fiscal da Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira (1929-1933)155e procurador à Câmara Corporativa, na secção «Turismo». A nível profissional, as suas áreas de incidência variaram entre os planos ferroviário156, colonialista157, turístico e dos

Media158. Além de projectar a estância Estoril, a ele se deveu a idealização da Casa de Portugal em Paris159 e a organização do I Congresso Nacional de Turismo; foi ainda membro da Comissão Peninsular de Turismo.160

Figueiredo escaparia ileso a atentado perpetrado no Tamariz, em 1937, mas um acidente de automóvel frente ao Aquário Vasco da Gama, em 1944, deixaria marcas indeléveis. Fausto Figueiredo faleceria a 6 de Abril de 1950 na casa do Pinhal Manso, na encosta entre Monte e Estoril: tinha 70 anos. Em sessão camarária de 27 de Fevereiro de 1959 foi deliberada a atribuição do seu nome à artéria onde se situa a residência161. Em artigo de 1928 consultado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), saúda-se a conduta de Figueiredo em prol do desenvolvimento nacional, pois “em vez de lançar o seu dinheiro para o exílio, atrai[u] a Portugal o capital estrangeiro depois de

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Em prefácio de João Medina a um catálogo o historiador passa em revista as afiliações franquista, republicana, afonsista e salazarista de Figueiredo, rotulando-o com um termo em voga no início do século XX, devido à “sua trajectória de adesivo”. Cf. António Carvalho, Helena Xavier e João Miguel Henriques (coord.) - Cascais, o Passado nunca Passa, Catálogo da Colecção José Santos Fernandes, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2010, p.13.

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O Século, 6 de Abril de 1950, p.8. Em 1923 O Oeirense anunciava que Figueiredo aceitara a função

pública, em comissão gratuita, no Ministério do Trabalho. Cf. O Oeirense, 10 de Junho de 1923, p.2.

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Os estatutos da agremiação definiam-na como uma instituição patriótica e conservadora; da estrutura nacional destacavam-se 14 direcções concelhias, uma das quais sediada em Cascais (Cf. Ernesto Castro Leal – Nação e Nacionalismos: A Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira e as Origens do Estado

Novo (1918-1938), Lisboa, Edições Cosmos, 1999, pp.293-305). Yves Léonard recorda que a Cruzada

congregou homens tão diferentes como o Presidente António José de Almeida, os militares Gomes da Costa e Filomeno da Câmara, e os monárquicos integralistas Salazar e Cerejeira. Visando a instauração de ordem no país, em 1924, a Cruzada começou a preparar-se para participar no golpe de Maio de 1926. Cf. Yves Léonard – Salazarismo e Fascismo, 1996. trad. Catarina Horta Salgueiro, Mem Martins, Editorial Inquérito, 1998, pp.34-35.

156 Foi administrador da CP – Caminhos de Ferro Portugueses, entre 1910-1949. 157

Pela gestão da herança da esposa, que sobreviveria em cinco anos ao desaparecimento do marido.

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Em 1919 adquirira acções do Diário de Notícias, além de que, em edições distintas, Joaquim Manso, director do Diário de Lisboa, se lhe dirige com manifestações de amizade.

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Ideia defendida pelo amigo António Branco Cabral em artigo publicado no Diário de Notícias, aquando da inauguração da estátua no Parque. Cf. Diário de Notícias, 17 de Setembro de 1971, p.1.

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O Estoril, 14 de Maio de 1933, p.4.

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Manuel Eugénio F. Silva e José Ricardo C. Fialho – Toponímia da Freguesia do Estoril – Os Nossos

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ter patrioticamente empregado o que lhe pertenc[ia].162” A ligação ao Estoril deveu-se à frágil saúde da esposa163, pois após o enlace em 1910 fixariam residência na encosta do Monte virada para o Vale de Santo António. Foi o que Manuel Marques Mata164 defendeu nas «Primeiras Jornadas Luso-Espanholas de Hidrologia Médica», pois

Não fora a regularidade do clima desta região para atrair, para almejada cura, a Ex.ma Senhora D. Clotilde Amaral de Figueiredo, que beneficiando do tratamento climático, determinou seu marido a fixar residência nestas paragens, nunca o Estoril poderia ter atingido o grau de progresso e de desenvolvimento que hoje possui.165

Licenciado em Farmácia e encarregue de representar o sogro em reuniões de negócios, bem como habituado a estadas regulares em estâncias de saúde pela Europa, Figueiredo depressa se deu conta que as potencialidades naturais do vale (microclima, nascentes termais, situação costeira e tela paisagística) podiam converter-se em recursos turísticos de abrangência internacional. Num ápice adquiriria terrenos (com destaque para a Quinta do Viana166) visando a criação do resort de luxo167 que ponderou baptizar de “Estoril-les-Bains”168. Deslocou-se a Paris para contactar Henri Martinet, a quem incumbiria de desenhar o projecto e, em 1914, submeteria à apreciação governamental a brochura Estoril – Estação Marítima, Climaterica, Thermal e Sportiva. Se os modelos a seguir eram os da Riviera francesa, o redactor recordava que o Turismo fora a mola de desenvolvimento de um pequeno Estado: a Suíça. Dos equipamentos hoteleiros e estruturas complementares a erigir, destacavam-se: (1) hotéis para diferentes estratos

162 ANTT/MI/DGPC, Nt.705, pt.108. O Prólogo da Ditadura era um suplemento da publicação ABC. 163

Clotilde Ferreira do Amaral só tinha um pulmão e fora um médico suíço quem lhe recomendara os ares do Estoril. Cf. “Estoril – Uma Realização Pessoal”, Dirhotel, nº29, Julho/Agosto 2001, p.21.

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Inspector de Saúde de Cascais que, a 13 de Novembro de 1931, integrou a Comissão de Iniciativa, lutando pela melhoria da salubridade municipal. Cf.Cf.AHMC/AACD/JTCE – Actas da Junta de Turismo de Cascais, Livro nº2 da CITC (1927-1931), 13 de Novembro de 1931, p.189.

165

Marques da Mata – “A Costa do Sol Hidrológica e Climática”, Separata de «O Médico» nº460, Porto, Tipografia Sequeira, Lda., 1960, p.38.

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José Viana da Silva Carvalho foi o empresário que, a partir de 1880, investiu na transformação do balneário termal visitado por D. José I em edifício neo-mourisco, erguendo o primeiro Hotel Paris junto à gare do Estoril e, do lado oposto, casas para alugar a pacientes e famílias. Para além da Quinta do Viana, outras parcelas adquiridas pertenciam às antigas quintas do Machado e do Caldas.

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Para Licínio Cunha, esta “foi uma iniciativa pioneira que só viria a ser aplicada, 50 anos depois, com o projecto de Vilamoura no Algarve”. Cf. Licínio Cunha – “A República e a Afirmação do Turismo”,

Viajar – Viajantes e Turistas à Descoberta de Portugal no Tempo da I República, Lisboa, Centenário da

República 1910-2010 e Turismo de Portugal, 2010, p.135.

168

John D. Hampton – Cascais, do Passado ao Presente (Uma breve Resenha Histórica), s/l, s/e, s/d, s/p. Outro autor recorda que essa pretensão fora, anos antes, enunciada por Ramalho Ortigão. Cf. João Miguel Henriques, Cascais, p.80.

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financeiros de topo e de classe média169; (2) um moderno balneário termal; (3) jardins ao ar livre170; (4) campo de golfe, courts de ténis e um «Palácio dos Sports»171; (5) casino com diversas salas para actividades variadas como bilhar, esgrima, dança e representações teatrais (o Jogo era então proibido); (6) esplanada à beira-mar para passeios172; (7) lavandaria173 e outros174. Apesar da modernidade revelada no entendimento da actividade turística pelas criações desejadas, não podemos deixar de manifestar preferência por um equipamento de lazer com incidência para a velocidade, num período em que competições do género marcavam já o calendário desportivo europeu. De facto, antes de se debruçar sobre os planos para o Estoril Figueiredo dedicara o capítulo intitulado «A Iniciativa Official» aos prós e contras do hotel do Buçaco, nele criticando a inexistência de uma garage para recolha de automóveis. Curiosamente, esse foi o primeiro esboço de Silva Júnior encontrado na edição de Janeiro de 1915 d’A Arquitectura Portugueza. O edifício em causa teria um corpo central com dois níveis e duas alas laterais de piso térreo; ambas estariam unidas por uma remise semi-circular projectada para a traseira da estrutura. A garage seria construída em alvenaria, cantaria, betão e coberta com telhado marselhês, excepto ao nível da remise, que, sob a cobertura de ferro, poderia albergar até 30 automóveis. O projecto estava orçado em cerca de “trinta contos de réis.”175

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A brochura menciona um hotel de luxo, outro ligado às termas por uma galeria envidraçada e um terceiro, o «Hotel do Parque», cujos “preços serão mais modestos que os do Palace-Hotel.” Cf. Estoril –

Estação Maritima, Climaterica, Thermal e Sportiva, Lisboa, Typographia A Editora Limitada, 1914, s/p.

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No capítulo «O Futuro do Estoril» são mencionadas pérgolas envidraçadas ao longo das actuais avenidas Clotilde e Aida. A nosso ver isso revelava o desejo de agradar ao mercado britânico que, havia décadas, se deslocava ao Monte Estoril por razões climáticas. Sobre esta necessidade estrutural recuperamos as palavras de Fred Gray, para quem “the seafront parks and gardens, intricately related to the promenade, were a particularly critical dimension in designing the British seaside resort…[because they] domesticated the seaside, in a familiar and comfortable way.” Cf.Fred Gray – Designing the

Seaside: Architecture, Society and Nature, London, Reaktion Books, 2006, p.133.

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O edifício teria três níveis entre rés-do-chão, piso superior e torre, terraços com pilastras e gradeamentos em ferro forjado, sendo a estrutura de betão coberta com telha de Marselha. A obra estava orçada em “cerca de quarenta mil escudos.” Cf. A Arquitectura Portugueza, Julho de 1926, p.27. O projecto podia ainda ser admirado n’A Construção Moderna de 10 de Setembro.

172 Qual Promenade des Anglais, criada em Nice. 173

A brochura propunha a localização de “estabelecimentos de desinfecção e lavandarias a vapor” em São João do Estoril. Cf. Estoril – Estação Maritima, s/p. Serviços de higiene fulcrais às actividades hoteleira e de restauração, os alçados e planta interna do edifício de piso térreo, também assinados por Silva Júnior, seriam publicados n’A Construção Moderna de 25 de Junho de 1916.

174

Exemplos seriam o «Pavilhão de Floresta» e a linha de tramways. No primeiro caso o projecto de Silva Júnior teria estrutura quadrada, em madeira, assente em alvenaria e servindo de restaurante (Cfr. A

Construção Moderna, 10 de Dezembro de 1916, capa e pp.178-179;A Arquitectura Portugueza, Setembro

de 1916, p.34). No segundo, tratava-se de uma linha electrificada entre o Parque Estoril e Sintra, à qual deveria seguir-se a reformulação da Baía de Cascais, para tornar-se porto de escala de iates de recreio. Cf.

Estoril – Estação Maritima, s/p.

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De visão arguta e contactos felizes, Figueiredo procedeu ao início das obras antes da aprovação oficial, como se lê na Illustração Portuguesa de Agosto de 1914. O autor da peça descrevia o abate de pinheiros, as fundações do novo complexo termal, a pólvora empregue para modelar blocos de calcário oriundos de pedreiras vizinhas e as dezenas de laborantes. Após três horas de visita ao estaleiro o jornalista iniciaria o artigo com uma frase profética: “Vamos ao Estoril – ao Estoril que se prepara a desafiar a Riviera, Biarritz e Ostende.176” Anos mais tarde, Pedro Falcão recordaria a pesada actividade diária no vale, ao qual acorriam carros de bois carregados de pedra, ao indicar que, “no Estoril e no Monte, não havia pedra, mas em Cascais havia por todos os lados. Toda a gente carregava pedra para o Fausto. A estrada entre Cascais e o Estoril era um corrupio de bois para lá e para cá.177” Apesar dos traços megalómanos o projecto seria aceite pelo governo e, sem demora, Figueiredo e o cunhado Augusto Carreira de Sousa178, bem como selectos contactos de negócios, formariam a SE. Assertiva, esta definia-se como detentora de terrenos a urbanizar no vale do Estoril, para fins turísticos, bem como de escritórios e representações no país e no estrangeiro. Henri Martinet179 foi o autor técnico do sonho faustino, mas cedo a parceria se revelaria tão frágil quanto as mal calculadas fundações dos edifícios erigidos pelos técnicos franceses, o que depressa conduziria ao termo do contrato180. Aos edificadores estrangeiros seguir-se-iam autores

176

Illustração Portuguesa, 10 de Agosto de 1914, p.165.

177 Pedro Falcão, 1970 – Cascais Menino, 2ª ed., Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2005, p.108. 178

Filho do industrial João Pedro de Sousa, um dos accionistas iniciais da SE. Apesar de pouco visível quando se aborda o resort Estoril, ao lermos o anúncio do falecimento no Diário de Lisboa verifica-se o paralelismo profissional dos genros do falecido capitalista Ferreira do Amaral: ambos foram administradores da CP, da SE e da SEP. Casado com Aida Ferreira do Amaral Carreira de Sousa, Augusto Carreira de Sousa faleceria, aos cinquenta anos, no hotel do Bom Jesus de Braga, onde veraneava com a família, vítima de síncope cardíaca. Cf. Diário de Lisboa, 18 de Setembro de 1933, p.5.

179

Arquitecto francês que fora discípulo de Edouard André e estagiara em Inglaterra (Cf. Helena Gonçalves Pinto e Jorge Mangorrinha – O Desenho das Termas, História da Arquitectura Termal

Portuguesa, Lisboa, Ministério da Economia e da Inovação/Direcção Geral de Energia e Geologia, 2009,

pp.206-210). Em Março de 1936 um periódico indicava que a Martinet se devera a criação de Hendaye- Plage e o embelezamento das estâncias de Biarritz, Aix-les-bains e Vittel (Cf. Diário de Lisboa, 9 de Março de 1933, p.6). Martinet trabalhara ainda em Paris e Pau; em fase posterior à colaboração do arquitecto francês em Portugal, Fausto Figueiredo e a esposa continuavam a deslocar-se a Pau, tanto que, em Junho de 1931, são tidos como residentes no Chalet Saint Michel da Rue Bonnado, nº1. Cf. Elysio de Mattos (ed.) – Contra-minuta de Agravo a Citação Postal do Snr. Fausto de Figueiredo e esposaem

processo de posse judicial avulsa requerida por D. Ana Maria Penazzi y Lanzoni,s/l, 1932, p.6.

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Aludindo a artigo publicado em A Construção Moderna, a 25 de Janeiro de 1916 (Cf.Raquel Henriques da Silva, “Estoril”, p.50). Sarcástico seria Figueiredo em carta aberta a Afonso Costa publicada em várias edições d’O Séculoem finais de 1934, nas quais aborda o rumo que a amizade tomara. Figueiredo indica ter apresentado Martinet a Costa, descobrindo depois que, não só fora Costa quem incitara o francês a arrastar em tribunal a contenda com a SE, como, após o seu exílio em Paris, Costa e Martinet fundariam a fábrica Le Liquer d’Hendaye. Cf. O Século, 11 de Dezembro de 1934, p.6.

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nacionais liderados por António Rodrigues da Silva Júnior181, o qual não era um estranho perante os planos encetados. Três anos depois, revista técnica enalteceria, tanto o resort em criação, como a salutar mudança de direcção artística, publicando que

depois de se ter ido buscar ao estrangeiro artistas para concessionar as obras e dirigi-las, embora tivessem sido escolhidos os que a fama considerava como mais abalisados, se viu a Sociedade Estoril na necessidade de lhes dispensar os serviços, cunhando, ainda a tempo, que tinha no seu próprio país, quem melhor se desempenhasse do grandioso encargo.182

Desbravado o pinhal e definidos os espaços a ocupar, a 16 de Janeiro decorreria a cerimónia de lançamento da 1ª pedra do Casino. Ao evento compareceu o então Presidente da República, Bernardino Machado. Contudo, para perturbar o projecto que a brochura de 1914 vaticinara exequível em dois anos, factores externos à sua realização pautariam a vida nacional, tais como: (1) a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, ainda em 1916; (2) a instabilidade social e política derivada do assassinato do Presidente Sidónio Pais, em 1918; e (3) a insegurança geral causada por facções políticas rivais (que conduziria à «Noite Sangrenta» de 1921), apenas dominada após a instauração da ditadura militar a 28 de Maio de 1926.A este propósito são esclarecedoras as palavras de Maria da Graça Briz quanto à disparidade entre as projecções oníricas faustinas em papel, mas não concretizadas in situ. Briz recorda que, “Se o Estoril não foi capaz de ser aquilo que os seus promotores sonharam, a culpa não está neles ou no seu projecto, mas numa conjuntura que largamente os ultrapassa.183”Apesar dos contratempos, entre 1916 e 1928 a SE logrou erguer a estância Estoril e, conforme indicámos no capítulo anterior, claros exemplos de perseverança foram: (1) a assinatura do contrato de arrendamento do ramal ferroviário, em 1918; (2) a inauguração do novo edifício termal, em 1918, e a realização de eventos desportivos, quer no seu hall, quer no Parque defronte da estrutura; (3) a fundação da SEP destinada a gerir o resorte distinta na acção da SE; (4) a realização da circulação eléctrica entre Cais do Sodré- Cascais, em 1926; (5) a inauguração da gare de Pardal Monteiro para o Cais do Sodré, em 1928. Embora algumas estruturas da brochura de 1914 não fossem materializadas, a maioria participaria no esforço de projecção da imagem do resort. Eco disso foi a publicação, por Lady Alice Lowther, em Londres, do diário da viagem realizada por

181

A título de curiosidade, membro fundador da Sociedade Teosófica e profícuo autor de projectos entre 1914-1919. Cf.Ana Maria Ferreira, Op. Cit., p.103.

182

Arquitectura Portugueza, Novembro de 1918, p.42.

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Portugal; apesar de não referir qualquer deslocação à Costa do Sol, no instante em que se refere a D. Afonso Henriques, a autora identifica-o como o rei que atribuíra «Carta de Foral», a Cascais, em 1154, ignorando a sede concelhia face à realidade turística que mais interessaria aos conterrâneos, ao defini-la como “a little town near Estoril”.184