• Aucun résultat trouvé

Este modelo serviu de base para a construção do modelo do compromisso desportivo. Assim, Rusbult (1980, 1983) definiu o compromisso como a estabilidade do envolvimento e o grau de ligação psicológica, que é determinado pela satisfação, pelas alternativas e pelos investimentos. Ainda segundo este autor, o compromisso é o termo que significa a força motivacional por detrás da persistência.

A análise dos custos/benefícios é expressa por uma variável atrativa, a satisfação (Rusbult, 1980, 1983). Esta depende da perceção dos indivíduos, das recompensas e dos custos associados ao envolvimento. Obviamente, uma grande satisfação ocorre quando as recompensas excedem os custos, por oposição à situação contrária, que provoca insatisfação. Assim, a análise dos custos/benefícios é sempre expressa por uma avaliação global do afeto positivo, que sumariza as experiências afetivas individuais para uma relação ou atividade.

Kelley (1983) identificou três classes de condições causais para o compromisso. A primeira classe identifica a extensão de como a relação é vista como atraente, por exemplo em termos de amar, gostar, satisfação, divertimento. Por sua vez, a segunda classe reflete o grau de alternativas serem vistas como mais ou menos atraentes. Por fim, a última classe considera as forças impeditivas ou barreiras. Estas conseguem reter o indivíduo na atividade (Rusbult, 1980, 1983).

Várias forças foram examinadas pela investigação e dois construtos foram frequentemente usados: investimentos pessoais e constrangimentos sociais. Os investimentos são os recursos individuais que são colocados diretamente no envolvimento, tais como o tempo e o esforço (investimentos intrínsecos), e ainda aspetos ligados à continuação do envolvimento, como os amigos e partilhar atividades (investimentos extrínsecos).

Este modelo pretende provar que a grande satisfação está relacionada com um grande compromisso.

52 2.3.6.2. O modelo do compromisso de Scanlan, Carpenter, Schmidt, Simons e Keeler (1993)

Com base na teoria do intercâmbio social e no modelo do compromisso de Rusbult (1980, 1983), Scanlan et al. (1993) apresentaram um modelo teórico específico para o desporto – o modelo de compromisso desportivo – que está centrado em processos psicológicos subjacentes à participação desportiva.

O maior desafio, neste processo, foi partir da literatura geral do compromisso, que se foca nos adultos em contextos como o trabalho e as relações, para o domínio do desporto. O modelo do compromisso emergiu de uma investigação téorica e empírica na literatura da psicologia social (Kelley, 1983) e da sociologia (Becker, 1960).

Neste modelo, a análise dos custos/benefícios é expressa por uma variável atrativa, o divertimento (Scanlan et al., 1993). Scanlan e Simons (1992) resumiram os preditores do divertimento: aprender/melhorar os skills, estar com os amigos/estar em equipa, sentir-se competente, receber instruções e encorajamento dos treinadores e ganhar.

Num estudo no terreno, com um largo número de pessoas, de diferentes idades, etnias e género, Scanlan, Carpenter, Lobel e Simons (1993) comprovaram a existência destas categorias para predizer o divertimento dos atletas. Esta análise deu-lhes uma maior compreensão e conhecimento do construto divertimento e é mais consistente com a noção de custos e benefícios descritos na teoria do intercâmbio social (Thibaut & Kelley, 1959).

Assim, depois destes estudos, Scanlan et al. (1993) definiram o divertimento como a resposta afetiva positiva à experiência desportiva, que reflete sentimentos generalizados, como o prazer, o gosto e a diversão. Este construto afetivo mostrou ser importante para a motivação dos jovens e foi considerado a variável mais determinante do compromisso (Scanlan & Lewthwaite, 1986; Scanlan & Simons, 1992; Scanlan, Stein & Ravizza, 1989; Wankel & Sefton, 1989).

Muitas investigações feitas no desporto utilizam a estrutura da teoria do intercâmbio social para explicar o compromisso desportivo e o abandono (Carpenter & Coleman, 1998; Gould, 1987; Johns, Lindner & Wolko, 1990; Scanlan et al., 1993; Schmidt & Stein, 1991; Smith, 1986). Geralmente, essas investigações aplicam o construto do compromisso para descrever um conjunto de fatores que expliquem a persistência num

53 percurso de ação ou de relação, mesmo perante a adversidade (Becker, 1960; Brickman, 1987; Kelley, 1983; Rusbult, 1980). Ainda antes de Scanlan et al. (1993), autores como Schmidt e Stein (1991) já tinham proposto diferentes abordagens do compromisso desportivo. Na sua perspetiva, os atletas comprometidos com o envolvimento no desporto por razões de atração (positivas) deverão obter altos benefícios, um grande divertimento, baixos custos e sentem-se menos atraídos pelas alternativas associadas à sua participação no desporto. Pelo contrário, nos atletas que estão comprometidos com o seu desporto por questões secundárias, o divertimento e os benefícios decrescem, aumentando os custos associados ao seu envolvimento.

Para Scanlan et al. (1993), o compromisso desportivo é um construto psicológico que representa o desejo para continuar na participação desportiva. Em resumo, o compromisso representa o estado psicológico individual de ligação à sua participação ou uma força motivacional para continuar envolvido.

Corbin, Nielson, Borsdorf e Laurie, (1987), Martin e Hausenblaus (1998) concordam que este conceito tem bastante peso no entendimento das determinantes psicológicas do comportamento relacionado com o desporto. Estes autores definiram compromisso como um construto psicológico global que reflete a obrigação da pessoa se orientar no sentido de continuar envolvida com o desporto.

Outra definição que sai diretamente da literatura sobre a motivação desportiva operacionaliza o compromisso desportivo como um estado psicológico que representa o desejo para continuar a participar desportivamente num programa particular, num desporto específico ou no desporto em geral (Scalan et al., 1993). Dentro desta perspetiva, o compromisso desportivo tem uma ligação psicológica a uma atividade e constitui um produto de fatores afetivos e cognitivos.

O compromisso desportivo pode ser estabelecido em função de quatro antecedentes: a análise, feita pelo atleta, dos custos/benefícios da sua experiência desportiva; uma atração ou não pelas alternativas desportivas; o nível de investimento; os sentimentos do atleta acerca dos constrangimentos sociais.

As alternativas do envolvimento foram definidas como a atração pelas alternativas, em vez do esforço em continuar a participar no desporto (Scanlan, et al., 1993). Este construto mede o grau de atração dos atletas pelas atividades alternativas, sendo mais ou

54 menos desejáveis em relação à participação no programa corrente. Esta dimensão está na linha da investigação que diz que os conflitos de interesse e/ou interesses por outras atividades eram os motivos mais consistentes para o abandono de desporto (Gould, 1987). Esta situação é mais pertinente durante a adolescência, um período caracterizado por uma necessidade emergente de independência e de mudança de interesses (Lindner, Johns & Butcher, 1991).

Relativamente às componentes dos investimentos pessoais, são definidas como recursos pessoais que são colocados na atividade e que não podem ser recuperados se a participação for interrompida (Scanlan, et al., 1993). Exemplos destes recursos irrecuperáveis são o tempo, o esforço e o dinheiro. A importância relativa desses recursos pode variar de desporto para desporto. Os investimentos pessoais são um indicador do compromisso (Alexandris, Zahariadis, Tsorbatzoudis & Grovios, 2002; Casper, 2004; Scanlan, Russell, Beals & Scanlan, 2003; Wheaton, 2000; Casper, 2007), assim como a idade dos praticantes. Os investimentos (tempo, esforço e dinheiro) que estes fazem para continuar a participar estão altamente ligados ao compromisso de continuar a praticar, portanto existe uma hipótese de que um grande investimento pessoal irá promover um grande compromisso desportivo.

No que diz respeito aos constrangimentos sociais, podem definir-se como expetativas ou normas sociais que criam sentimentos de obrigatoriedade para se manter numa atividade (Scanlan, et al., 1993). Esta definição especifica a pressão social para continuar a participar numa atividade. Assim, é medida pelo grau de sentimento do atleta, que tem de permanecer na atividade para agradar a outras pessoas. Fazendo o transfer para o desporto, os outros incluem pais, amigos, treinadores e outras pessoas no geral (Scanlan et al., 1993). Quanto maior for a pressão para continuar, maior será o nível de compromisso. A hipótese subjacente a esta relação é que a pressão para continuar é uma consequência de sanções negativas inflingidas pelos outros, se o praticante abandonar o desporto.

55

Figura 2.2. Modelo do compromisso desportivo de Scanlan, Carpenter, Schmidt, Simons e Keeler (1993:23)

Em geral, um grande compromisso é associado a alta satisfação, pouca atração pelas alternativas e um grande investimento. Assim, quanto mais os indivíduos se divertem a jogar, quanto mais investem no desporto, quanto mais constrangimentos sentem que têm para continuar a jogar e quanto menos atrativas forem as alternativas do envolvimento, maior será o compromisso.

2.3.6.3. O compromisso desportivo e o consumo

O compromisso baseado nas teorias de consumo tem sido usado como forma de explicar comportamentos consistentes (Casper, 2007; Casper & Stellino, 2007; Wilson et al., 2004) e os investigadores usam este construto para compreender a participação desportiva, já que o compromisso representa uma medida de resistência à mudança (Bee & Havitz, 2010; Casper, 2007; Casper & Stellino, 2007; Funk & James, 2001).

Deste modo, aumentar o compromisso dos praticantes é uma questão importante para os gestores do desporto, uma vez que o compromisso reflete persistência numa atividade, permite aguentar tentativas persuasivas e é preditivo do comportamento (Casper & Stellino, 2007). Para além disso, a importância do aumento do compromisso dos

Divertimento Alternativas Investimentos Constrangimentos Compromisso Custos/Benefícios (analisado através da experiência desportiva)

56 praticantes deve-se ao facto de a investigação nos ter mostrado que metade dos indivíduos que fazem parte do desporto abandonam após um período de tempo curto (Dishman, 2001). Estas estatísticas sugerem que a investigação dos aspetos relacionados com o compromisso seja fundamental para incentivar as pessoas que querem fazer parte do fenómeno do desporto, pois pode ser usada como guia para desenhar estratégias de retenção.

Os analistas das indústrias desportivas precisam de entender mais acerca dos praticantes atuais, de forma a melhorar a retenção. Estes analistas conhecem os seus clientes, mas não sabem em que diferem. A indústria desportiva irá também beneficiar de uma compreensão mais profunda da relação entre os participantes comprometidos e os consumos de desporto (Casper & Stellino, 2007).

Investigações feitas por Casper (2007) e por Casper e Stellino (2007) concluíram que o compromisso estava relacionado com o consumo de desporto, nomeadamente com a intenção de compra de artigos desportivos e com a frequência de participação. Embora nos pareça lógico acreditar que um participante comprometido pratique mais vezes e esteja mais disponível para gastar mais dinheiro na compra de equipamento, é necessária uma melhor compreensão do estado psicológico do compromisso associado ao comportamento de consumo (Casper & Stellino, 2008).

Documents relatifs