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A CTEURS DE TERRAIN : ENTRETIENS

Chapitre IV : COOPERATIONS CULTURELLES

3. LE POINT DE VUE ARTISTIQUE : ACTEURS ET INFRASTRUCTURES

3.2 A CTEURS DE TERRAIN : ENTRETIENS

“A compreensão é um caso particular do mal-entendido”72. Este aforismo, um dos favoritos de Culioli, introduz a visão de linguagem que embasa nosso trabalho. Afinal, a expressão acima ressalta o fato de que o processo enunciativo foge da troca de informação unívoca, enfatizando que o jogo interpretativo entre enunciador-enunciatário é algo provisório e instável. Graças à variabilidade e à deformabilidade, a estabilidade é conquistada e não pré- existente. A comunicação, assim, “será resultado de um árduo processo de conquista de valores e significados” (REZENDE, 2014, p. 82). “Desse modo, qualquer sujeito enunciador, ao enunciar, cria ambiguidades. Entretanto, para ele, a sua fala nunca é ambígua, a não ser que seja intencional” (ZAVAGLIA, [2009] 2016, p. 42). Nesse sentido, o arranjo de formas e o encadeamento de operações materializam o enunciado construído, passível de interpretação dentro de uma situação enunciativa, <Sit>, tal como explicado anteriormente. É dessa maneira

71 Tradução nossa: “Cette re-détermination successive de la relation par des repérages successifs peut certains

cas être reliée à différents plans : notionnel, syntaxique, énonciatif”.

72

que o sentido do enunciado se organiza dentro de seus valores referenciais, também construídos no ato enunciativo.

A instabilidade descrita acima lembra, de certo modo, a questão levantada por Hans- Georg Gadamer ([1960] 2010, p. 235) sobre a questão do diálogo hermenêutico. Segundo o autor, são as situações em que “o entendimento é perturbado ou complicado que permitem mais facilmente tomar consciência das condições a que se submete todo entendimento. O processo linguístico é especialmente ilustrativo quando uma conversa em duas línguas estrangeiras torna-se possível através de tradução e transposição” ([1960] 2010, p. 237).

Na teoria de Culioli, o enunciado bem-formado e compreendido nunca é visto isoladamente; é, por outro lado, considerado membro de uma classe de variantes parafrásticas que compartilham um mesmo esquema central. Todo enunciado é, portanto, um elemento de uma família parafrástica inserido numa dada rede de combinações e operações enunciativas em jogo. É chamado de léxis, assim, aquilo que permite capturar as propriedades comuns dos membros de um dado paradigma parafrástico. Dito de outra maneira:

O esquema de léxis é representado por um termo de partida, um termo de chegada e um relator de predicação que orienta a relação λ = < ε0 ε1 π >,

respectivamente, cujos termos são instanciados por noções. Uma léxis – termo próximo de lekton, o dito em grego, e dictum, o dito em latim – não é um enunciado: ela é um esquema pré-assertivo gerador de enunciados, ou seja, de contextos diferentes. Desse modo, todo enunciado é construído a partir da escolha de uma dentre todas as paráfrases possíveis geradas por uma léxis. Assim, uma léxis, orientada a partir da relação primitiva, poderá gerar n enunciados diferentes, como um suporte de operações de modalidades que participam de sua construção (asserção positiva e negativa, diátese, transitividade etc.). Como um enunciado só se constitui em relação a uma situação de enunciação, a notação formal de uma léxis deve ser definida levando-se em consideração outros elementos que estão implicados nas operações enunciativas: < ε0 ε1 π > ϵ Sit (S/s, T/t), em que Sit remete a

situação de enunciação, S a sujeito enunciador, s a sujeito do enunciado, T a momento da enunciação, t a momento ao qual se refere o enunciado. Haverá, portanto, um pacote de relações entre S/s e outro entre T/t. Essa relação complexa é fundamental: além de constituir um enunciado, ela também desambiguiza os enunciados. Assim, por exemplo, “O livro de Pedro”; “Pedro, seu livro”; “Pedro, ele, seu livro”; “Pedro tem um livro”; “Pedro, ele, tem um livro” pertencem à mesma família e foram gerados por um mesmo esquema de léxis: (< ε0 /Pedro/, ε1 /livro/, π >). (FLORES;

ZAVAGLIA, 2009, p. 149)

Com base na explicação acima, o esquema de léxis da sequência parafrástica (1) abaixo pode ser entendido como < ε0 /canário/, ε1 //, π /cantar/> :

(1a) um canário ‘tá cantando (1b) este canário canta bonito (1c) tem um canário cantando (1d) o nosso canário canta muito (1e) é um canário que ‘tá cantando (1f) é o canário que ‘tá cantando

Com base em (1), chegamos à noção de paráfrase, essencial para o desenvolvimento de nosso trabalho. Tal como questiona Fuchs (1982, p. 9 apud ZAVAGLIA, [2009] 2016, p. 136), será “realmente possível dizer ‘a mesma coisa’ de várias maneiras? (...) Se é realmente o caso, em que termos pode-se descrever o que, do conteúdo de X, se conserva de maneira estável em Y, e o que se encontra modificado?”. Todas as sequências acima, por exemplo, são diferentes, de modo que cada membro de (1) pode ser tomado como um enunciado distinto. Mas o que os torna únicos? Como bem define Milner (1992, p. 25), “um enunciado enquanto tal se distingue de outro enunciado a partir das operações enunciativas que estão em jogo”73

. Dessa forma, os membros de (1) se distinguem não apenas pelo conjunto de seu material léxico-morfológico, mas pelas operações que regem cada enunciado. Os termos em comum – canário e ‘tá cantando – não são, assim, suficientes, para dizer que “a mesma coisa” está sendo dita. Observemos a sequência (2) abaixo:

(2a) Esta casa foi projetada pela Andressa. (2b) A Andressa projetou esta casa.

Apesar de remeterem ao mesmo esquema de léxis </Andressa/, /construir/, /casa/>, o enunciado passivo e o enunciado ativo em (2) geram relações de predicação diferentes. Segundo a T.O.E., o conceito de paráfrase não é, desse modo, entendido apenas como uma reformulação, em que se diz a mesma coisa por meio de palavras diferentes74. Essa seria, de

73

Tradução nossa: “(…) la théorie de l’énoncé propose une réponse : un énoncé en tant qu’énoncé se distingue de chaque autre par les opérations énonciatives qu’il met en jeu. Ces opérations sont représentées dans la théorie par un calcul dont les règles sont précises.”

74 É importante ressaltar aqui a diferença entre os conceitos de paráfrase e glosa, de acordo com a T.O.E.: “A

paráfrase (...) é uma atividade metalinguística consciente que tem regras próprias e que é controlada pelo linguista. Poderíamos dizer que a paráfrase é a tentativa, por parte do linguista, de simular as glosas produzidas pelos sujeitos enunciadores” (ZAVAGLIA, [2009] 2016, p. 147), de modo que “[a] glosa poderia ser definida como a atividade epilinguística que o sujeito coloca em prática a todo instante e que pode ser percebida nos comentários que ele faz para explicar sequências, desambiguando-as para fazer-se entender” (ibidem, p. 146).

acordo com Fuchs (1994), uma abordagem tradicionalista da paráfrase como atividade de reformulação textual, correndo o risco de ser muito abrangente. Já na visão sintático- semântica, a paráfrase é descrita como uma relação potencial de transformação sintática e de equivalência semântica entre frases, podendo ser, por outro lado, muito redutiva. É a partir dessa problemática que a autora, embasada na perspectiva da linguística da enunciação, defende o estudo do parentesco semântico entre os enunciados, alicerce da relação parafrástica linguística. Tal parentesco é entendido como a condição necessária para que um sujeito, dentro de uma dada situação discursiva, possa reconhecer ou produzir um enunciado como parafrástico de outro.

A relação de paráfrase resume-se, nas palavras de Fuchs (1994, p. 174), a uma “estratégia cognitivo-linguageira dos sujeitos que realizam uma identificação momentânea das significações de cada um dos enunciados, anulando suas diferenças em prol apenas de suas semelhanças”. De modo inconsciente escolhemos uma forma em detrimento de outras que podem ser produzidas a partir de um mesmo esquema de léxis. Partindo de um dado enunciado ou sequência textual, podemos então fabricar outros equivalentes ou substitutos pertencentes a uma mesma família de enunciados próximos e comparáveis entre si, processo este chamado de manipulação parafrástica.

Pode-se dizer que as paráfrases não compartilham uma identidade completa e fixa de sentido, mas um centro invariante comum para além das especificidades semântico- enunciativas das formas em jogo. Por meio de aproximações e acomodações parafrásticas, é possível adaptarmos conceitos e ideias, assim, em diferentes línguas, traduzindo:

Considerar a paráfrase na Teoria das Operações Enunciativas é antes de mais nada defini-la no âmbito da diferença, pois a variância linguística, intrínseca à atividade de linguagem em relação com as línguas, está implícita em e é parte integrante da invariância processual linguageira.

(...)

Do ponto de vista da observação da paráfrase, o linguista culioliano não classifica estruturas sintáticas ou semânticas que se encontram na superfície das línguas, mas procura entre os enunciados em paráfrase o que permite a passagem de um para o outro. (ZAVAGLIA, [2009] 2016, p. 142-143, grifos nossos)

No contexto das ciências da linguagem, o conceito de invariância, realçado na citação acima, é muitas vezes associado à concepção tradicional dos universais linguísticos, ou seja,

elementos presentes em todas as línguas. Para a T.O.E., no entanto, os invariantes fundadores da atividade de linguagem não antecedem a análise das línguas. Procura-se, por outro lado, investigar as unidades de uma língua fora de toda categorização a priori, como entidades transcategoriais. O conceito de transcategorialidade culioliano questiona, “pelo uso real e autêntico das línguas, as fronteiras estabelecidas pela tradição gramatical e linguística. As categorias das línguas não são apenas objetos construídos, elas implicam uma dinâmica processual e cognitiva que foge aos sistemas classificatórios” (ZAVAGLIA; CELLI, 2010, p. 245). É nesse ponto que a noção de invariância culioliana se distancia, dentre outros aspectos, do pensamento chomskyano. Enquanto a T.O.E. trabalha sobre o enunciado com base nos mecanismos construtores das condições de enunciação, a gramática gerativo-transformacional atua no âmbito da frase:

Na teoria das operações enunciativas, os fenômenos sintáticos são apreendidos de maneira transversal e não central, sempre interdependente com os fenômenos semânticos; o domínio privilegiado não é de fato aquele da combinação sintagmática dos constituintes da frase, mas aquele do funcionamento sintagmático e paradigmático dos marcadores constitutivos do enunciado75. (FUCHS, 1992, p. 222)

A busca pela invariância não deve ser confundida, portanto, com a universalidade de uma gramática geral, uma vez que o objetivo culioliano não é

construir uma gramática universal, mas reconstruir, a partir de um processo teórico-formal, as noções primitivas e operações, regras e esquemas elementares responsáveis pela geração de categorias gramaticais e padrões específicos de cada língua. Em resumo, o objetivo é encontrar os invariantes que fundam e regulam a atividade de linguagem, em toda sua riqueza e complexidade. (CULIOLI, 1990, p. 179)76

75 Nossa tradução: “Dans la théorie des opérations énonciatives, les phénomènes syntaxiques sont appréhendés

de façon transverse et non pas centrale, et toujours en interdépendance avec des phénomènes sémantiques ; le domaine privilegié n’est en effet pas celui de la combinatoire syntagmatique des constituants de la phrase, mais celui du fonctionnement syntagmatique et paradigmatique des marqueurs constitutifs de l’énoncé”.

76 Tradução nossa: “The goal is not to construct a universal grammar, but to re-construct, by a theoretical and

formal process, the primitive notions, elementary operations, rules and schemata which generate grammatical categories and patterns specific to each language. In short, the goal is to find the invariants which found and regulate language activity, in all its richness and complexity”.

Ao conferir à linguagem uma relação de interdependência entre outros domínios cognitivos, Culioli se afasta ainda mais da abordagem chomskyana, para a qual a linguagem seria um sistema cognitivo independente. De acordo com a T.O.E., assim, “a linguagem não é o sistema cognitivo, mas dele faz parte, dele depende e com ele relaciona-se” (ZAVAGLIA, [2009] 2016, p. 46).

Entendemos (in)variância, portanto, como uma propriedade intrínseca à atividade de linguagem. Nota-se que falamos não apenas em invariância mas também em variância. Assim, qualquer marca gramatical, por exemplo, remete a propriedades que fazem a sua estabilidade por um processo invariante e a sua instabilidade, graças ao seu caráter plástico, pela conjugação da invariância com a variância77. É desse modo que a definição da linguística como ciência da linguagem apreendida por meio da diversidade das línguas mostra que as línguas naturais não são apenas instâncias da linguagem, mas que, a partir da singularidade de cada língua e da variação de seus componentes, podemos chegar a uma teoria da invariância.

Considerando a não existência de uma relação unívoca entre os níveis 1 (das representações cognitivas) e 2 (das representações linguísticas), Culioli nos lembra que nunca dizemos exatamente o que queremos dizer. E como jamais dizemos exatamente o que queremos dizer, há muitas maneiras de dizer, de não dizer ou de dizer de outra forma. O jogo entre os dois níveis leva a amplas possibilidades, tais como a paráfrase e a tradução. É nesse contexto que, para Culioli, a tradução pode ser considerada um “caso particular de paráfrase” (1990, p. 22) – mais especificamente, uma “paráfrase interlingual”.