CHAPITRE 2 : Quelques perspectives aléthiques
2.2 L’involontarisme doxastique
2.2.2 Sur les croyances « correctes »
No contexto das experiências formadoras, surgem situações que trazem em sí as marcas de grandes mudanças. São momentos que se configuram como “divisores de águas”, e prefiguram um marco que separa o antes do depois. Essas experiências são
referidas por Josso (1988, 2004) como formadoras e denominadas como “momento charneira”, por implicar mudanças de rumo que atingem o sujeito como um todo.
Das narrativas dos autores emergiram falas que expressam esses momentos em suas trajetórias. Escolhi os relatos de Carlos e de Nicole como os mais significativos no sentido de demarcar uma passagem de fase em suas vidas. O seguinte relato de Carlos descreve uma briga de rua que teve com um de seus primos, companheiro de brincadeiras, que estava regularmente em dia com sua vida estudantil:
[...] A única coisa que ele disse foi que eu era um analfabeto, um burro de pai e mãe, que não sabia ler e nem escrever. Naquele momento, pra mim, foi como uma surra que levei sem que me fosse tocado um dedo e que atingiu em cheio a minha consciência, possibilitando perceber que alguma coisa deveria mudar e que eu precisaria tomar a decisão de transformar a minha vida. Com 16 anos sem saber ler nem escrever e eles já sabiam tudo isso e eu continuava como uma folha em branco esperando para ser preenchida.
O relato de Carlos impressiona pela sensibilidade que o faz adentrar a história para poder narrá-la. Esse é um “momento charneira” em sua vida, um “divisor de águas” e é tão real que o faz chegar às lagrimas na nítida descrição da cena da qual faz parte como autor e agente.
O que é evidenciado no momento seguinte de sua fala é a mudança inesperada de uma situação forjada em uma circunstância de ruptura para ele, por ocasião da separação de seus irmãos na infância, fato que o afetou ao ponto de culminar em seu total desencanto com os estudos. Houve dois momentos críticos em sua vida. O primeiro desencadeia uma crise de apatia para a vida, e consequentemente, se reflete no desprezo pelos estudos. No segundo, ele é agredido por palavras que o movem dessa condição e o acordam para tomar decisões e fazer escolhas em relação à sua vida. Ele se deu conta de que havia parado no tempo e que os colegas estavam avançando em uma direção que o deixava em visível desvantagem.
Essa experiência vivenciada por Carlos traduz muito bem o princípio elucidado por Josso (1988, 2004), por representar de fato a passagem entre duas etapas de sua vida, um “divisor de águas”. Com procedência nessa situação, ele dispara em uma corrida em busca de recuperar o tempo perdido, aos 16 anos de idade, sem saber ler nem escrever. Essa carreira o levou ao momento de sua narrativa, com 33 anos de idade, concluindo a terceira graduação e se preparando para ingressar no mestrado. Esse ciclo corrobora o pensamento de Josso (1988, p. 44), justamente ao afirmar que em tal posição “o sujeito escolheu -sentiu-se obrigado a – uma reorientação na sua maneira de se comportar e/ou na sua maneira de pensar em si através de novas atividades”.
Para Nicole, uma “experiência-charneira” acontece na passagem do Ensino Médio para a entrada na faculdade. Ela já havia iniciado o curso de Educação Ambiental e trancado para realizar seu sonho de fazer faculdade de Música. As influências de familiares, de professores e de amigos, no entanto, deixaram nela as marcas da dúvida. O relato seguinte exprime detalhes desse momento vivenciado por Nicole em um contexto de ações e emoções que modificaram o rumo que ela poderia dar às suas escolhas:
Só que concluindo o semestre eu estava com muitas dúvidas se eu realmente queria ficar no curso. Por muitas razões pessoais, por muitas coisas do ensino médio ainda estarem na mente, que profissão eu gostaria de seguir. E como eu tinha feito ENEM eu me inscrevi para uma bolsa para psicologia e ganhei essa bolsa. Eu me animei e achei que seria uma grande oportunidade. Já teria dois pedaços de graduação, de gestão ambiental, de Música e já iria partir para psicologia, procurando mesmo onde me encontrar... que bagunça eu estava
vivendo! Eu tranquei a faculdade e fui para uma entrevista para essa bolsa. Na entrevista me foi dito que eu não poderia cursar porque tinha um documento errado, e como eu já tinha entrado no PROUNI por Gestão Ambiental, mesmo tendo trancado eu não poderia assumir. Eu fiquei com muita raiva, estressada e decepcionada comigo pelo que eu estava fazendo. Decepcionada por essa bagunça que eu estava fazendo com relação a minha escolha profissional, estava sendo guiada pelo que as outras pessoas diziam, e quando você está muito indecisa acaba indo pelo caminho que as pessoas vão achar que é bom. Foi aí que eu percebi que estava indo por um caminho que não iria me fazer bem. E esse período de trancamento foi muito, muito importante porque meus colegas continuaram morando aqui e eu fui pra casa passar esse semestre em casa. Foi ai que eu comecei a estudar de tudo e tendo esse tempo como um momento de decisão sobre o que eu queria profissionalmente. Foi quando eu me decidi voltar pra Música.
Enquanto Carlos aos 16 anos, definia sua saída da obscuridade de não saber ler nem escrever, Nicole, também aos 16 anos, passava por outro conflito - o da escolha profissional - lutando entre as forças das influências de outros agentes e suas escolhas, na definição da vida que era sua e não de outros. Esse é notadamente um “divisor de águas” em sua história. E, ao fazer seu relato, é como se as cenas adquirissem novos significados para ela. Se, no passado, essa situação provocou nela tomar as rédeas de suas escolhas, tornando-a uma pessoa mais autônoma, visualizar esse momento lhe trouxe a consolidação de seus esforços na direção tomada.
Essa “experiência charneira” de Nicole se evidencia como exercício formador, em especial pelo seu duplo caráter reflexivo, demonstrado no momento da tomada de decisão, no contexto do fato narrado e no momento da narrativa. Ao narrar-se, ela reflete sobre suas escolhas e esboça em palavras o significado que ela passa a dar a essa experiência, entendendo que, naquele momento, ela confundiu sua posição de agente de sua história e
tornou sua vida “uma bagunça”, como ela mesma denomina. Essa parada para refletir
expressa o fator formativo dessa experiência e torna-se mais clara na citação de Santos (2010, p.88-89):
[...] a formação só pode ser entendida como tal, se implicar o sujeito numa reflexão. Portanto, a dimensão da reflexão assume papel fundante. A vinculação experiência/formação se dá na medida em que se presume que a formação só pode ser denominada enquanto tal se for experiencial, embora a sua incidência nas transformações da nossa subjetividade e das nossas identidades possa ter maior ou menor relevância.
A reflexão a priori, ou seja, que ela faz antes da tomada de decisão, muda a direção, ou melhor, define a direção que ela deveria dar à sua vida profissional e passa a orientar suas decisões, posicionando-a em um determinado campo. Nesse caso, os
conflitos podem ser vistos como peças fundamentais para a formação da pessoa, desde sua consciência de que não pode eliminá-los e a percepção da necessidade de enfrentá- los e (re) significá-los.
Escolhi esses dois relatos para exemplificar de modo mais claro essas
“experiências charneira” que ocorrem na vida de todas as pessoas e que são definidoras
de seus projetos formativos.
Poderia, no entanto, citar sucintamente, “momentos charneira” vivenciados pelos demais autores. Consideremos o exemplo de Álvaro. Em seu relato, ele fala da saída de um emprego com um bom ordenado para fazer o curso de graduação em Educação Musical, como uma situação determinante a fim de tomar a direção da docência. O relato deixa claro que esse fato foi um “divisor de águas” na vida de Álvaro e o encaminhou diretamente para a docência em Música. No caso de Luiz, menciono seu encontro com a igreja, por meio dos tios, como fato que deliberou diversas tomadas de posição para seu encontro com a Música e com a docência. Já na trajetória de Neil, a decisão de participar da primeira banda foi o fator que desencadeou inúmeras oportunidades de trabalho e possibilitou um desfecho exitoso em sua vida profissional na Música.
Por conseguinte, fica claro o fato de que estas “experiências charneira” são formadoras (JOSSO, 1988, 2004) e, como tais, trouxeram implicações para o sujeitos em todos os aspectos de suas vidas, mudando comportamentos, maneira de pensar, de agir, afetando, inclusive, dimensões afetivas, sensíveis e de consciência (SANTOS, 2010).
Além disso, essas e outras experiências desenvolvidas durante o percurso de vida dos sujeitos, no âmbito familiar e, principalmente, somadas às vivências do período escolar, forjaram um processo de autoformação, nitidamente expresso em seus relatos. Nesse caso, faz-se relevante discutir a elaboração da autonomia e da autonomização dos sujeitos ante processos de auto formação.