O acesso as reuniões dos grupos de NA em Salvador e à sua literatura, ajuda a revelar a complexidade do tema adicção, da recuperação de adictos, e de elementos presente na cultura desses grupos, como a “dádiva”, conceituada nesta seção.
Os grupos de NA são, de certo modo, auto-referenciados, pois deles só participam adictos, e ao mesmo tempo sua compreensão exige uma visão
13
[...] um processo semelhante a uma mudança de cultura (LEWIN, 1978, p. 74). Definição completa está na página 84 desta tese.
multirreferencial, pois requer especialmente abordagens psicológicas, antropológicas, sociológicas, dentre outras.
Assim, nesta seção são trazidos aportes complementares da complexidade e multireferencialidade para auxiliar a compreensão acerca desses grupos e sua atuação na recuperação de adictos.
Ao ingressar em uma sala de reunião de um grupo de NA com o olhar do pesquisador, de imediato surge a necessidade de um aprofundamento teórico sobre os efeitos do uso de drogas, e algumas síntese são trazidas aqui.
Como já foi delineado em seções anteriores, apesar do uso de substâncias psicoativas ou drogas terem tido origem muito remota, o relato de seus efeitos consta de muitas publicações clássicas de autores como da bíblia passando por gregos e permeando a história, porém, o estudo formal de seus efeitos remonta, segundo Planeta e DeLucia (2009a; 2009b), ao início do século 19, o que resultou em classificações na área de saúde. Citam-se como exemplos o estudo da embriaguez na sua forma mais crônica, classificada como dipsomania por von Bruhl-Cramer em 1819, ou mesmo os estudos publicados em 1845 por Jean Jacques Moreau sobre os efeitos do haxixe no comportamento e psiquismo humano, considerado um marco nas discussões com base científica.
O aspecto socializante das drogas é observado nas falas dos membros de NA durante suas reuniões. Este aspecto já foi indicado nesta tese e é apontado por diversos autores. Por exemplo, Gilberto Velho (apud CARDOSO, 2006, p. 86) constatou que existe uma tendência ao uso coletivo de drogas, ou seja, “as drogas podem se tornar um importante elemento de socialização e, em alguns momentos, de diferenciação de estilos de vida e, portanto, de hierarquização social”.
Considerando que mesmo sendo comum o consumo individual de cocaína, “é sintomático que a iniciação no seu uso seja, quase sempre, por intermédio de um grupo” (CARDOSO, 2006, p. 86).
Como, para alguns usuários, o padrão de uso muda ao longo do tempo, deixando de ter aspectos socializantes, e, assim, leva esses usuários ao ingresso em uma etapa que revela a face mais obscura de sua personalidade. Não é raro adictos cometerem crimes para manter o uso de drogas, e algumas menções a pequenos
furtos a bens de famílias e outras ações ilícitas cometidas durante o período de adicção também foram observados nas partilhas de membros de NA.
De modo geral, foi observado que quando o adicto chega a uma fase em que a droga absorve grande parte de sua atenção, toda a sua energia volta-se para conseguir meios, lícitos ou ilícitos, para manter seu consumo. Mas isto não acontece sem custos: há um grande sofrimento emocional, devido à dissonância cognitiva entre o que em seu íntimo o adicto gostaria de ser e o que ele está fazendo de sua vida.
Alguns, quando esse sofrimento chega a um nível insuportável, conseguem pedir ajuda e iniciam o seu processo de recuperação, normalmente em clinicas ou grupos de ajuda-mútua. Muitos outros na busca de esquecer o sofrimento intensificam o uso de drogas e morrem de overdose. Outros ainda envolvem-se de tal modo em atos ilícitos que são presos e ingressam em uma fase ainda mais difícil de sua vida.
Para os que ingressam nos grupos de Narcóticos Anônimos (NA), foi observado que esses grupos utilizam de maneira pragmática o conceito de adicto para o “dependente químico”, e “adicção” para o estado de “dependência química”, considerada como uma doença incurável, podendo-se apenas controlar seus efeitos através da abstinência total de qualquer substância psicoativa, e este processo é denominado “recuperação”. Segundo consta em um de seus principais livros, a “identificação como adictos inclui toda e qualquer substância que modifique o humor ou altere a mente” (NARCÓTICOS ANÔNIMOS, 2015b, p. xxv).
Outro importante aspecto a ser destacado a partir da observação participante é o fato de que embora os grupos de NA estabeleçam a “abstinência total de qualquer substância psicoativa”, eles não apregoam isto para toda a vida. Parece que a perspectiva de dizer ao adicto que ele deve se abster do uso de drogas para toda a vida seria uma meta distante demais para ser alcançada. Nestes grupos é proposta uma meta de abstenção só por aquele dia e, a cada dia esta meta é renovada. A cada dia vencido, ou a cada dia “limpo”, o adicto em recuperação começa a modificar, dia após dia, sua trajetória de vida.
Outro aspecto a ser destacado a partir da observação participante é que esses grupos exercem um papel terapêutico, mas não há “um terapeuta” especificamente. De certo modo o grupo como um todo, com sua cultura, seus Princípios e Tradições, toma o lugar desse “terapeuta”.
Assim, uma forma de abordar o fenômeno de recuperação dos adictos é tentar compreender a recuperação, tal como descrita pelos membros destes grupos, como um processo de terapia de grupo entre pares, sem negar que este sistema poderia tornar-se, em última análise, uma cultura distinta, composta de ritos, caracterizados por uma configuração espaço-temporal, uma série de objetos, sistemas de comportamentos, linguagens e signos com funções emblemáticas e sentido codificado, que constitui um dos bens comuns do grupo e que os distingue e os caracteriza.
Os grupos de ajuda mútua, nas suas mais diversas vertentes, partem de um pressuposto essencial: a identificação e o compartilhamento de experiências entre pessoas acometidas por uma mesma condição têm grande valor terapêutico, com já foi citado a partir da leitura de Burns (1997).
Outro fator importante, decorrente a observação participante, na constituição desses grupos é o fato de não serem grupos compostos por um corpo de profissionais, uma vez que participam apenas aqueles (os adictos) que se identificam com a condição a ser tratada (a adicção). Desta forma, cria-se um ambiente no qual aqueles que estão participando, por mais diversas que sejam suas histórias de vida, partilham uma coisa em comum, uma mesma condição de doença – e isto, em princípio, proporciona a igualdade entre todos, o que também foi destacado nas discussões teóricas do tema, especialmente por Loeck, (2009). Foi observado que a partilha das histórias de vida é um elemento fundamental nos grupos de NA. Nas reuniões, de forma especial, os membros dão e recebem confiança mútua. Voltando para as bases teóricas em relação a este fato, pode-se dizer que, na visão antropológica de Marcel Mauss, citado por Lanna (2000), um aspecto elementar das sociedades, em todos os tempos históricos, é o “intercâmbio e a dádiva”.
Dar, receber e retribuir são, para Mauss, três momentos distintos cuja diferença é fundamental para a constituição e manutenção das relações sociais. Os membros
de grupos de ajuda mútua, como Narcóticos Anônimos, fazem isso de forma muito particular – dar, receber e retribuir fazem parte da recuperação. O argumento central do “Ensaio sobre a Dádiva” de Marcel Mauss, segundo Lanna (2000, p.175), é que:
[...] a dádiva produz a aliança, tanto as alianças matrimoniais como as políticas (trocas entre chefes ou diferentes camadas sociais), religiosas (como nos sacrifícios, entendidos como um modo de relacionamento com os deuses), econômicas, jurídicas e diplomáticas (incluindo-se aqui as relações pessoais de hospitalidade).
O dar, receber e retribuir está presente na filosofia dos grupos de NA. E esta filosofia se constrói por duas vertentes: Os Doze Passos e as Doze tradições que marcam respectivamente a “vivência” de cada membro e as relações de “convivência” entre os membros e a sociedade.
Outro aspecto percebido durante a observação participante é que, permeando as reuniões e, de certa forma, a filosofia de NA, existe um aspecto de religiosidade. Mas cabe ressaltar que este aspecto religioso não está voltado especificamente para nenhuma religião. Tal fato também é encontrado em alguns autores. Por exemplo, a abordagem plural, segundo Moreira (2004, p. 1080), associada “a uma cultura de recuperação, que não deixa de evocar a religiosidade representada em um ‘ser superior’” integrante da filosofia dos NA, permite colocar em operação o tripé – dar, receber e retribuir – que faz circular a abstinência como um valor, o que reforça a necessidade de uma abordagem multirreferencial.