A história de ocupação do bairro Monte Cristo começa como um movimento retirante de moradores do oeste catarinense para o litoral do Estado. Este tipo de movimento se caracteriza pela migração de habitantes de áreas agrárias que se utilizam da agricultura familiar como geração de renda de forma direta ou indireta.
Desde finais da década de 1980 e início da década de 1990, o país e o mundo rendem-se à intensificação do processo de globalização das políticas sócio-econômicas neo-liberais. Este processo direcionou os investimentos estatais e privados para benefício de grandes corporações de bens e serviços levando a uma manutenção da relação com o trabalho implicando em um rearranjo territorial. Esta população, sem perspectivas de renda, abandona sua região e parte em direção a regiões mais desenvolvidas.
Neste mesmo período, nota-se, no caso do Estado de Santa Catarina, um movimento maior de migração para as regiões litorâneas, em especial para a capital Florianópolis. Esta cidade se diferencia das demais capitais por ser de porte médio, menos populosa e com um número quase inexistente de indústrias. Sua população economicamente ativa é formada basicamente por funcionários públicos e prestadores de serviço.
Durante a década de 1980 e, especificamente, durante o mandato do prefeito Édson Andrino do PMDB (1985-1988), houve uma campanha midiática muito forte por parte do poder público municipal e pelos empresários no sentido de fortalecer uma imagem de que Florianópolis possuía uma “vocação turística” e de que a cidade precisava investir e usufruir deste bem. Neste
mesmo período, surgiu a marca “Ilha da Magia” que começava a ser divulgada em plano nacional e internacional na tentativa de intensificar o projeto turístico (CANELLA, 1992).
É este contexto que os migrantes encontram e a chegada na cidade não poderia ser menos conflituosa, pois a lógica que segrega no campo é a mesma na cidade. O dinheiro conseguido pela venda de suas propriedades, em geral, não completa 50% do valor de uma casa na região litorânea do Estado.
No entanto, Florianópolis tem suas especificidades ou suas diferenças bem demarcáveis. Se o plano econômico está voltado para o turismo e, portanto, para olhares estrangeiros, conseqüentemente, o plano social seguirá o mesmo rumo. As elites econômica e política de Florianópolis querem investir no desenvolvimento urbano da cidade comunicando uma imagem de progresso e riqueza.
Neste discurso não cabem os movimentos migratórios que começavam a tomar a capital e ocupar terrenos privados e do Estado de forma ilegal para montar seus “barracos”. Os maiores movimentos de ocupação se localizavam em áreas de grande visibilidade urbana, como: região do “maciço” – conjunto de morros localizado em torno da região central da ilha; perto da casa do governador – localizado no Morro d’Agronômica; e na via expressa – um dos principais acessos do lado da cidade que fica no continente para o lado que fica na ilha (CANELLA,1992). No caso das comunidades do bairro do Monte Cristo a ocupação foi feita, em seu início por moradores que habitavam provisoriamente os arredores da via expressa (conforme foto abaixo).
Localização do Complexo de Bairros Monte Cristo
Ao procurar o poder público local não encontram uma compreensão favorável sobre suas demandas, sendo que a primeira delas era a necessidade de moradia. Sem uma orientação clara por parte do Estado, a solução encontrada foi ocupar terrenos ociosos pertencentes à União Federal. Os cidadãos tentam se inserir num movimento global de urbanização das populações impulsionado por uma produção capitalística desse modo de habitar o mundo, mas não encontram apoio do Estado e são obrigados a criar táticas de sobrevivência. No entanto, estas técnicas de sobrevivência urbana não correspondem ao planejamento ascético de uma cidade moderna, o que contribui para intensificar o conflito entre cidade e migrantes.
Nos jornais aumentam as notícias sobre este novo incômodo social. Aparecem vários discursos de repúdio ao movimento, pois a estética da “Ilha da Magia” não combinava com a estética da favela. Adjetivos, como, por exemplo, a “porcalhada”, “horrível” e “sujeira”, começam a proliferar em notas mandadas para os jornais por antigos moradores da cidade (CANELLA,1992).
CANELLA (1992) observa que a entrada destas notícias nas pautas dos jornais locais implicou em uma novidade para a discussão sobre a gestão pública. Novas questões sociais começam a se inscrever na cidade, o que levará à elaboração de novas estratégias e táticas anunciando novos posicionamentos políticos no coletivo.
Percebem-se, então, sujeitos que, mesmo sendo cidadãos legítimos, não encontram espaço no mercado e nem assistência do Estado para garantirem direitos básicos como o de moradia. Estes sujeitos acabam por se aglomerar em regiões que a sociedade não habita. Estes locais funcionam como verdadeiras lacunas urbanas podendo ser no meio da cidade – como no caso dos morros –, ou em regiões periféricas – como no caso do bairro Monte Cristo.
Estas lacunas urbanas compreendem em territórios considerados ociosos pela cidade onde, embora por vezes privados, não é interesse da sociedade habitar, transitar ou produzir qualquer coisa no local. Os migrantes se instalam nestes lugares da maneira mais precária possível, mas isso não significa que esta ocupação seja desorganizada e nem que o grupo não irá conseguir se organizar de alguma forma para construir o seu lugar na cidade. No entanto, mesmo com a ocupação do território por estes sujeitos, o local continua a ser uma lacuna urbana intransitável.
A cidade, por sua vez, não pode continuar ignorando este tipo de movimento que acontece dentro de seu território e começa a buscar seus instrumentos de leitura para definir a
população que ali se encontra. É preciso saber localizar esta população em algum estrato social para depois definir como operar. Esta forma de operar pretende abafar este conflito entre migrantes e cidades em prol de um bem maior: o bom funcionamento da sociedade conhecido como bem-estar social (well fare state).
Enfim, vê-se formado um cenário que se instaura como uma nova problemática com a qual a cidade terá que dialogar a partir de suas possibilidades de ação social. Com a abertura deste campo de relações serão descritas diferentes formas de leitura e intervenções existentes.