3. T HE SYNTAX OF A- BAR SUBJECT MOVEMENT
3.4. A critical analysis of Koopman and Sportiche’s (2014) theory of LSQs
O pensamento holístico teve suas raízes desde os filósofos gregos, sendo retomado no período moderno pelos renascentistas e pelos românticos germânicos. Conforme Gonçalves (2006) durante o século XVI, no período renascentista, o pensamento platônico de alma do mundo foi retomado por Giordano Bruno através de seus ideais sobre a organização da natureza. Além disso, essas ideias influenciaram de modo significativo os filósofos da natureza, como Leibniz, Herder, Goethe e principalmente Schelling, ao longo dos séculos.
A Filosofia da Natureza renasceu com o romantismo e o idealismo, no final do século XVII e início do XIX, sob a forma de uma Naturphilosophie que reagiu ao mecanicismo e sublinhou, acertadamente, o vital, o orgânico e o sistema da natureza (ARTIGAS, 2005).
Segundo Beckenkamp (2004), Schelling influenciado pelo organicismo na
Crítica da Faculdade do Juízo de Kant reencontrava com o pensamento platônico,
para qual o mundo era visto como um organismo animado, composto por um corpo, a matéria e por uma alma. Contrapondo-se a ideia de um mundo mecânico e inanimado.
Para Schelling, segundo Beckenkamp (2004), a natureza era um ser orgânico, que evolui por si mesma:
A natureza não é um mero não-eu que precisa ser construído pelo eu. Ao contrário, o homem, inclusive o eu do filósofo, é um produto da natureza, encontrando-se no fim de uma longa cadeia de produtos da natureza. A natureza não é um agregado mecânico, regido por leis indiferentes à organização superior; ela é um organismo que se rege por leis orgânicas, organizando-se progressivamente, até chegar, no homem, à consciência de si mesmo: no homem, a natureza abre finalmente os olhos e percebe que existe (BECKENKAMP, 2004).
Por sua vez, Engels (1976) considerou a natureza como um sistema formado por um conjunto de corpos, e que atuariam dialeticamente uns sobre os outros, proporcionando, com isso, o próprio movimento da natureza.
Nesse sentido, Mateo et al. (2007) reiteram a ideia de Frederich Engels ao tratar a natureza como sistema num plano dialético:
[...] toda a natureza exequível a nós forma um sistema, uma concatenação geral de corpos, entendendo aqui por corpos todas as existências materiais [...]. O fato de que estes corpos aparecem concatenados deixa implícito que atuam uns sobre os outros, e nesta sua ação mútua consiste precisamente o movimento. Por conseguinte, a matéria aparece diante de nós como algo dado, como algo que não foi criado nem pode ser destruído, isto quer dizer que também o movimento é algo não criado e indestrutível. Esta conclusão se relevou como irrefutável desde o momento em que o universo se impôs ao conhecimento como um sistema, como uma concatenação de corpos (ENGELS, 1955 apud MATEO et al., 2007).
Naquele período de amadurecimento científico predominavam as ideias mecanicistas promovidas por Isaac Newton. Porém, como destacou Engels os primeiros estágios de um pensamento orgânico estavam em desenvolvimento, em parte pelas ideias evolucionistas:
O primeiro período da ciência moderna termina – no domínio do inorgânico – com Newton. […] No domínio do orgânico, entretanto, não se foi muito além de alguns passos adiante. A investigação das formas da vida, que se sucedem historicamente e se substituem entre si, assim como as variáveis condições de vida que lhes correspondem (paleontologia e geologia), ainda não existia. (ENGELS, 1976).
Além disso, naquela época o método comparativo – também utilizado pela Geografia Física – proporcionou o rompimento com a visão de uma natureza imutável. Esta mudança no paradigma mecanicista foi explicitada por Engels (2006):
A nova concepção da Natureza ficava, assim, configurada em suas linhas gerais: tudo aquilo que se considerava rígido, se havia tornado flexível; tudo quanto era fixo, foi posto em movimento; tudo quanto era tido por eterno, tornou-se transitório; ficara comprovado que toda a Natureza se movia num eterno fluxo e permanente circulação (ENGELS, 1976).
O pensamento de Engels exemplifica claramente a mudança de paradigma na visão do cosmos, entre o mundo imutável e o mutável – entre o mecânico e o orgânico. De certo modo, era algo que estava incrustrado no pensamento geográfico daquela época. Portanto, a Geografia teve seu impulso científico num mundo que estava ainda sob a influência do pensamento mecanicista, ao mesmo tempo em que foi concebida no contexto do movimento romântico germânico, no qual se apoiava na visão de um mundo orgânico e em constante movimento dialético. Assim como afirmou Engels (1976):
Voltava-se às concepções dos grandes fundadores da filosofia grega: em toda a Natureza, desde o menor ao maior, do grão de areia aos sóis, dos protistas ao homem, há um eterno vir a ser e desaparecer, numa corrente incessante, numa incansável movimento e transformação (ENGELS, 1976). Naquela época, a natureza não possuía uma história, um tempo, mas somente em sua extensão espacial. Por isso, o orgânico – ideia de evolução – fora subjugado perante o domínio do inorgânico – ideia de imutável – que se limitava à dimensão espacial, sem a necessidade da ideia de tempo, ou seja, de um princípio de evolução.
Neste contexto, desde a sistematização da Geografia, no século XIX, o seu papel era de compreender a Terra em todo o seu conjunto de leis:
A Terra, em seu conjunto, em sua complexa organização, remonta a inúmeros fatores de ordem física e social, mas apresenta um resultado global visível e sintético em sua face. Em outras palavras, a imagem da Terra, sua aparência ou as de suas partes (regiões, paisagens, estados), pode relevar o complexo jogo de interações de fatores e elementos do qual ela, a aparência, é o resultado-síntese (GOMES, 1997).
Além disso, a Geografia trilhou desde a sua estruturação científica, entre uma dualidade de pensamentos sobre a concepção de sua metodologia científica. Que de acordo com Gomes (1997):
A ideia forte desta pretensão é a Terra vista como um todo. Um todo composto por diversas engrenagens de múltiplas relações de causa e efeito, que se estrutura na metáfora do mundo visto como uma máquina. Ou, ainda, em uma versão concorrente, a Terra vista como um todo orgânico, composto de parcelas com formas e função diferenciadas e complementares, presente na metáfora do mundo como um organismo [...] No primeiro caso, a dinâmica dos diversos fatores naturais, em conjunto com a ação humana, agiria no sentindo de produzir um equilíbrio. No segundo caso, o do organicismo, a harmonia das partes com o todo era o valor supremo a ser demonstrado (GOMES, 1997).
Em relação ao posicionamento filosófico dos fundadores da Geografia Moderna, Tatham (1960) afirmou que na mesma linha do raciocínio filosófico, tanto Kant, como Humboldt e Ritter enxergavam a natureza através da filosofia da estrutura idealista. Conforme Gomes (1997) ―no caso de Ritter, a influência do Romantismo e do Idealismo alemão foi a responsável por sua grande preocupação com a noção do todo‖. Enquanto isso, a importância de Humboldt para a ciência geográfica ocorreu principalmente pelos seus trabalhos terem contribuído para a formação de um método de pesquisa na Geografia Física. Conforme Broek (1972) ―[Humboldt] lutou para compreender as inter-relações entre as características terrestres que dão caráter a uma paisagem‖.
Embora Humboldt e Ritter possuíssem métodos aproximados, ambos se diferenciavam de acordo com Tatham (1960) pela forma de abordar a natureza, pois Humboldt acreditava numa unidade da natureza que se aproximava dos conceitos de Goethe, isto é, atrelada mais a estética do que a teológica, como argumentava Ritter. Entretanto, segundo Broek (1976) ―Ritter lutou constantemente para mostrar
cada unidade individual da Terra como um todo, como um complexo inter- relacionado de elementos‖.
Além do mais, o método de Ritter não separava o homem do seu meio, pois segundo Broek (1976):
Sua influência ainda pode ser constatada em certos métodos de ensino: definir a área como uma unidade do ambiente físico; colocar nela o homem e mostrar como ele, com o equipamento mental e material de que dispõe, se adapta ao seu habitat e dele se utiliza (BROEK, 1976).
Já em relação a Humboldt, conforme Tatham (1960) Geografia ou Geografia Física (para Humboldt os termos são sinônimos) descreveria a parte terrestre. Seu objetivo final consistia em ―reconhecer a unidade na vasta diversidade dos fenômenos; e, pelo exercício do pensamento e a combinação de observações, discernir a constância dos fenômenos do meio das alterações aparentes‖ (HUMBOLDT apud TATHAM, 1960).
Alexander von Humboldt através da sua obra ―Cosmos: ensaio de uma
descrição física do mundo” concebeu uma alma na natureza, que levaria a uma
contemplação desse cosmos. A partir do qual abarcaríamos uma unidade singular da natureza, que seria distinguível pela própria paisagem.
La naturaleza, considerada por medio de la razón, es decir, sometida en su conjunto al trabajo del pensamiento, es la unidad en la diversidad de los fenómenos, la armonía entre las cosas creadas, que difieren por su forma, por su propia constitución, por las fuerzas que las animan; es el Todo animado por un soplo de vida”. [...] “El resultado mas importante de un estudio racional de la naturaleza es recoger la unidad y la armonía en esta inmensa acumulación de cosas y de fuerzas (HUMBOLDT, 1875).
A respeito do conceito de unidade da natureza, que Humboldt e Ritter compartilhavam na Geografia, Tatham (1960) afirmou que:
Neste ponto estavam ambos [Humboldt e Ritter] refletindo a mentalidade filosófica de sua época. A ideia da unidade viva da natureza, tal como proposta por Spinoza, fora retomada pelos idealistas. Foi esta uma parte essencial do pensamento de Fichte, Schelling e Hegel, que, aliás, encontrou magnífica expressão na poesia de Goethe e Schiller (TATHAM, 1960). Humboldt e Ritter refletiam o pensamento romântico germânico da época como uma proposta para o estudo da natureza. Ainda, segundo Tatham (1960)
―Humboldt partilhava com Ritter o conceito da unidade da natureza e concordava em que a tarefa da Geografia Física era demonstrar essa unidade‖.
Assim, contrariamente a concepção mecanicista de mundo, o movimento romântico defendeu uma perspectiva orgânica da natureza e que idealizava um mundo em constante evolução. Por tanto, haveria um retorno, mas não ao mesmo ponto, e, sim, a um próximo estágio, numa eterna espiral. Essa concepção nos permite entender a paisagem numa visão de evolução, por isso qualquer estudo da paisagem será um recorte no tempo, de algo dinâmico e em constante evolução.
Embora o pensamento geográfico tivesse sido sistematizado pelos mestres Humboldt e Ritter, sob a filosofia romântica de Kant, Goethe e Schelling, o ―fantasma
da máquina” reapareceu, de certa forma, desde a concepção do ciclo geográfico até
a atual ciência geográfica. Na Geografia, por exemplo, as influências mecanicistas são perceptíveis na Geomorfologia, principalmente na proposta teórica de evolução do relevo – ciclo de erosão – de W. M. Davis. Nessa abordagem o relevo era considerado como o resultado da evolução cíclica3 – juventude, maturidade e senilidade, ou seja, o relevo passaria por estes processos, mas retornaria ao ponto inicial – rejuvenescimento, isto é, para ser novamente submetido aos mesmos estágios geomorfológicos.
Por outro lado, para Troll (2003) este pensamento teria origem dos ensinamentos sobre os ciclos biológicos, haja vista, que a escola ecológica de Chicago esteve relacionada com a escola de geomorfologia em Harvard de W. M. Davis através da posterior fundação, em 1904, da American Association of
Geographers. Desse modo, os estudos sobre os ciclos do relevo estiveram
relacionados às observações botânicas sobre as sucessões ecológicas das plantas, do estágio pioneiro até o clímax, ou seja, até o estágio final.
A concepção de ciclo de relevo recebeu críticas em relação à sua postura puramente dedutiva. Assim, como afirmou Tricart (1963) ―a noção de ciclo está, igualmente, bem abalada: a evolução não retorna ao ponto de partida e o relevo não evolui para a peneplanície em todos os climas‖.
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Para Ross (2014) o modelo teórico do relevo proposto por W. M. Davis é uma concepção finalista, fundamentada na tríade metodológica estrutura, processo e tempo.
Como plano de fundo desta postura na Geografia Física, em especial na Geomorfologia, estava à representação temporal cíclica, ou seja, os processos eram vistos da mesma maneira. Observa-se que a representação do tempo na ciência geográfica foi vista de duas maneiras distintas. Num primeiro momento apresentou- se uma ideia de tempo circular, assim nos mesmos moldes do ciclo de erosão do relevo. No segundo estágio destacou-se o tempo em espiral, ou seja, uma representação da ideia de evolução (Fig.2).
Figura 2 – A dinâmica do tempo. O tempo ―círculo‖ e o tempo ―espiral‖.
Fonte: MONTEIRO (2008).
Monteiro (2008) mostrou a representação temporal dos processos dinâmicos distinguindo entre o conceito de tempo como algo circular e outra como uma espiral atrelada à ideia de desenvolvimento do sistema. Como afirmou Tricart (1963) ―as forças e tensões antagônicas próprias a qualquer fenômeno de superfície são responsáveis pela natureza dialética dos mecanismos da morfogênese, concepção que se opõe à concepção cíclica‖.
No entanto, em oposição ao modelo estrutural davisiano a geomorfologia alemã possuía um caráter holístico, pois considerava as formas do relevo como resultado de um sistema natural integrado. Assim, como considerou Ross (2014) ―a postura naturalista dos alemães imprimiu uma direção para a observação e análise dos fatos, onde o relevo se relaciona com a litologia, os solos, a hidrologia e o clima‖.
Segundo Ross (2014), na obra ―Geomorfologia: ambiente e planejamento‖ editada em 1990, a perspectiva climática na Geomorfologia teve destaque a partir da década de 1920, com o simpósio de Düsseldorfer Natuorrschertag, realizado em 1926 na Alemanha.
A partir daí, os geógrafos alemães como H. Mostensen, J. Budel, E. Felo e H. Wilhelmy, bem como os franceses representados por De Martone, Cholley, Dresh, Birot, Cailleux e Tricart, em seus trabalhos, fruto de pesquisas ou então através da publicação de manuais, passaram a trabalhar com a concepção da geomorfologia climática (ROSS, 2014). A partir dos ensaios de uma Geomorfologia Climática o relevo passou a ser visto sob a perspectiva das interações entre as esferas terrestres, numa acepção integrada da paisagem, que considerava as influências presentes e pretéritas do clima, aliadas a importância da cobertura vegetal nos processos morfodinâmicos do relevo.
Portanto, percebe-se que até meados do século XX a paisagem era abordada sob uma perspectiva cíclica de evolução, como preconizava o ciclo geográfico na Geomorfologia. Segundo Christofoletti (1980) foi partir da década de sessenta que houve um maior destaque para o enfoque da Geomorfologia Climática.
Com isso, a partir da década de 1960 a Geomorfologia no Brasil4, sob a influência da perspectiva interpretação climática do relevo, teve como fruto dessa perspectiva a proposta dos Domínios Morfoclimáticos de Aziz Ab’Sáber. Segundo Ross (2014) houve um destaque aos processos denudacionais relacionados aos domínios morfoclimáticos, colocando-os em detrimento a análise estrutural do gênese do relevo, além disso, incorporava a interpretação do relevo como resultado das condições paleoclimáticas e do clima atual.
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Ross (2014) considerou que o modelo Davisiano conduziu inúmeros adeptos nos países de língua inglesa, na França com destaque para Emanuel De Martone, e no Brasil entre Aroldo de Azevedo, Aziz Ab’Sáber e Fernando Flávio Marques de Almeida nas primeiras fases da Geomorfologia, porém paralelamente houve as influências das propostas de Lester King e, principalmente, as de Walter Penck.