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Criteria to ensure compatibility of fuel with interfacing systems 30

3. REVIEW OF FUEL ACCEPTANCE CRITERIA FOR OPERATING

3.1. OPERATIONAL STATES

3.1.4. Criteria to ensure compatibility of fuel with interfacing systems 30

Em seu trabalho A Doutrina do Choque: ascensão do capitalismo do

desastre, Naomi Klein (2008) busca entender como a racionalidade neoliberal se

utiliza de tragédias – ambientais ou de outra natureza – para sua instalação e perpetuação; o que nos ajuda a pensar o aterrador-formidável em aplicação por esta racionalidade, cuja dimensão hiperbólica encontra no desamparo aberto pela catástrofe o terreno para sua operação de governo. Klein parte de uma pesquisa psicológica na qual pessoas eram submetidas a choques constantes de intensidade pequena, depois moderada até atingir níveis que eram considerados insuportáveis. A sucessão dos choques com o aumento gradual de intensidade cria uma janela de acomodação, ou adaptação. A doutrina do choque teria esse princípio de funcionamento, ao impor paulatinamente condições adversas (ambientais) cada vez piores para condicionar as pessoas a suportar choques cada vez maiores. Contudo, para Klein, interessa a utilização social desse princípio. Segundo ela, a doutrina do choque foi utilizada para a obtenção de objetivos de crescimento econômico, como no Chile de Pinochet em 1973, para imprimir o modelo de capitalismo nos países sul-americanos que flertavam com o socialismo soviético, um risco mundial à época. Havia um risco a circular nesse momento que se transforma na referência a partir da

qual se constrói uma justificativa para as medidas políticas e sociais empreendidas; como distância entre segurança e insegurança, sua determinação determina a ação, instaura práticas para evitar o aterrador sob a máscara do risco, facilita a identificação com a saída apontada63. Ao mesmo tempo em que essa prática é dirigida para a fuga, ela instala a lógica que se pretende, traça o caminho de escape conforme o espírito da época e as relações de poder, já que é construída em uma gramática que as reproduz. Os termos dessa gramática são trazidos por Klein, que presume o “choque” como meio para a instalação de um modelo liberal de economia. Para a autora, quando Pinochet assumiu o poder no Chile em 1973, cedeu seu país para implementação das ideias econômicas de Friedman64.

A década de 1970 aponta para uma torção nos valores culturais; há uma efervescência contestatória sobre o modo de vida, no qual se verificam críticas ao industrialismo, às guerras, à degradação do meio ambiente e aos valores tradicionais da sociedade nas relações familiares, afetivas e de trabalho. Beck (2010) esteve atento a essas transformações, e as identifica dentro do processo de transformação da sociedade industrial em sociedade de risco. Essas transformações, inseridas em um processo histórico que pode ser designado sob o nome de destradicionalização, como mencionam os teóricos do risco, poderiam ser condensadas em um valor a circular na modernidade reflexiva, confirmado também por outras abordagens que se dedicam a interpretar nosso tempo. Boltanski e Chiapello (2009), por exemplo, pensam que o que emerge como valor condensado daquelas reivindicações fragmentárias foi sintetizada sob a ideia de flexibilidade. A flexibilidade parece ser um valor a partir do qual se articula essa nova configuração. Ela também aparece na interpretação de Harvey (2008) sobre essa década de 1970, especialmente quando pontua que o “choque do petróleo” foi o ápice de um momento de crise da organização econômica, referida como “fordista-keynesiana”, e que o “colapso desse sistema a partir de 1973 iniciou um período de rápida mudança, de fluidez e de incerteza” (Ibidem, p. 119). O autor tenta traduzir esse período como a transformação de um modelo de rigidez para um modelo de

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Parece-nos um processo semelhante ao descrito por Arendt no sentido em que cria um princípio organizador segundo o qual a prática instalada ganha o sentido de proteção, solução, salvação ou saída de um estado de coisas o qual se pretende evitar.

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Professor e teórico de crítica econômica do modelo Keynesiano, seu trabalho fundou uma escola do pensamento econômico que passou a ser chamada de Escola de Chicago. Parte da juventude do Chile, os chamados Chicago Boys, foi estudar economia nos EUA, sob essa matriz do pensamento econômico.

flexibilidade de acumulação (ibidem, p. 140), marcado por um internacionalismo em busca de novos mercados com precários direitos trabalhistas, movimento que impulsiona a industrialização dos países periféricos, o Sul global, que passam a ser considerados como importantes mecanismos para o crescimento econômico.

as décadas de 70 e 80 foram um conturbado período de reestruturação econômica e de reajustamento social e político. No espaço social criado por todas essas oscilações e incertezas, uma série de novas experiências nos domínios da organização industrial e da vida social e política começou a tomar forma. Essas experiências podem representar os primeiros ímpetos da passagem para um regime de acumulação inteiramente novo, associado com um sistema de regulamentação política e social bem distinta (ibidem, p. 140)

O autor refere que dentre as necessidades dessa reestruturação econômica há o estabelecimento de novos padrões de consumo e uma valorização crescente das inovações comercial, tecnológica e organizacional (ibidem, p. 140). São os mesmos parâmetros com os quais o regime sustentável busca implementar seu mandato, organizando as nações a partir deles, mas o fazendo desde uma perspectiva de risco mundial sobre o ambiente global, presente nesse discurso. O documento que institui o Desenvolvimento Sustentável, como argumentamos, utiliza a crise ambiental como a unificadora das diferentes crises (ONU, 1987), mas as medidas apresentadas para seu enfrentamento fazem parte da reestruturação econômica neoliberal. A crise é compreendida como o buraco no simbólico que nos aproxima do insuportável real, remete à finitude para a qual as práticas sociais se estruturam visando evitar esse encontro. Esta crise é, contudo, revestida simbolicamente sob a estrutura de valores neoliberais, de modo que suas formas de enfrentamento não prescindem dos valores aí contidos, mas, ao contrário, os reforçam, e a própria realidade apreendida sob essa estrutura flexível nos deixa crer em um convívio harmonioso de um agir para o ilimitado crescimento capaz de tamponar a finitude.

A luta pela existência, noção presente tanto na filosofia política quanto na ecologia, atualizada por uma nova economização, faz o mundo se totalizar desde uma perspectiva econômica: a luta pela existência se torna competição no livre- mercado, entre corporações, empresas, Estados e indivíduos (DARDOT e LAVAL, 2016). Ao mesmo tempo em que há um movimento de unificação e reconhecimento da humanidade em um sistema único de mundo – a perspectiva lunática –, o

sistema do livre-mercado assume o semblante de totalidade, rearticulando a cadeia de saber-fazer no mundo desde seus preceitos. Manter as condições de vida ou o ecossistema significa manter o sistema econômico que planeja sua perpetuação eterna65. Esta perspectiva de perpetuação exige o governo do futuro ao modo empresarial, o qual atua com os riscos desde uma lógica de mercado.

É possível pensar o Chile de 1973 como um momento extremo pelo uso do choque, como um laboratório para o neoliberalismo, como propõe Klein. Mas o choque também pode se tornar virtual, uma sombra para a instalação de algum princípio, e é nesse ponto que o discurso que modula as relações humanas passa a ser determinante. Os riscos – como as assombrações da tragédia colocada no futuro – são apresentados como os emissários da antecipação do choque e como instrumentos de gestão para o governo do futuro que age para a negação da finitude, com práticas gerenciais empreendidas a partir de um choque virtual.

Ao abordarmos os riscos ambientais, estamos falando de riscos que trazem consigo aquele sentimento aterrador ligado à consciência do fim do mundo e de aniquilação em massa sobre a totalidade do corpo-planeta; sua função de ligação afetiva é semelhante à do traço. Para a psicanálise, o traço significa um elemento que se liga a uma experiência mnêmica, podendo ser trágica ou traumática, um resquício de experiência do passado ao qual se vincula um afeto, mantido em nível inconsciente, o que implica uma espécie de apagamento (invisibilidade), dada sua insuportabilidade; mas que pode retornar deformado na estrutura de sintoma ou outras formas de sofrimento. A diferença entre traço e risco pode ser pontuada pelo componente temporal, o traço remete ao passado, enquanto o risco é referido ao futuro, conforme já o demonstrara Beck (2010). O risco é, nesse sentido, um avesso do traço, invertido, um estranho. Essa relação de oposição risco-traço encontra um uso intuitivo nas artes plásticas66.

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Em artigo de jornal brasileiro, de 2016, disponível em: https://economia.estadao.com.br/blogs/lentes-de-decisao/ecossistemas-de-negocios/; acesso: 06/02/2019; podemos encontrar o híbrido, já bastante assentado “ecossistema de negócios” e construções como: “o nascimento de uma nova espécie viva: a corporação global”. Isso mostra que a simetria da interdisciplinaridade disciplinar, que Silva Júnior e Ferreira (2013) mostram em literatura específica, é a própria modulação do discurso incidindo nas diferentes áreas.

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Um traço constrói uma imagem ou figura na medida em que acrescenta uma substância em uma superfície, como no caso de um lápis em uma folha de papel que acrescenta grafite ao papel para dar forma, o traço está lá, é parte da forma produzida. O risco, ao contrário, retira uma substância da superfície, como uma pedra ou madeira entalhada, o risco é o ganho da forma pela perda de pedaços da superfície.

Essa homologia com o desenho ilustra o processo que queremos indicar como uma característica modular do risco, em que o afeto a ele ligado dá forma às práticas e aos sujeitos, um sujeito assombrado por riscos invisíveis que prescrevem práticas securitárias, aquele aspecto que chamamos de formidável anteriormente. As políticas de risco e o gerenciamento de risco funcionam como os entalhes das relações e dos sujeitos, os modulam, dão-lhe forma em relação às tragédias virtuais. O Desenvolvimento Sustentável é, nesse sentido, sua talha, uma ferramenta de governo. Abrahan refere que “o neoliberalismo quer ser sociável, e se maquia” (ABRAHAN, 1997 apud GOLDENBERG, 1997, p.51); parece-nos que sua maquiagem, nesse caso, significa poder prescindir do governo pelo choque. Há uma brutalidade no choque tornada obsoleta pela sofisticação de seu emissário, o risco, funcionando como cálculo, mesma língua da técnica e da economia. A face administrativa do Desenvolvimento Sustentável interessa ser salientada para demarcar o seu lugar nesse discurso em que se evidencia uma matriz econômica inspirando seus desdobramentos. A governança global, se seguirmos a metáfora plástica, pode ser vista como a própria arte de esculpir esse corpo-planeta, seja pela prescrição de hábitos ambientalmente sustentáveis, seja cirurgicamente67 com inovações tecnológicas e transferência de tecnologia, seja por outras variações de investimento em capital humano. Em todo caso, o Desenvolvimento Sustentável se mostra como técnicas de governo. A presença dos riscos se torna importante para dar forma às políticas internacionais em que o Desenvolvimento Sustentável surge como estilo de vida do planeta para evitar a morte ou o esgotamento; é a forma que devemos assumir na presença dos riscos crônicos. A mensagem dos relatórios da ONU, como argumentamos neste trabalho, coloca a divisão entre o fim do mundo e a “Nova Era de Crescimento”, um tipo de alternativa infernal, como colocam Pignarre e Stengers (2005), em que a própria recusa da finitude deve ser realizada pela ação dirigida para o ilimitado.

As prescrições desse estilo de vida seguem emitindo mal ditos sobre o futuro no horizonte de finitude, mostram os riscos para realizar a forma de ser sustentável, assim definem as margens do caminho mantendo a indeterminação sobre o futuro.

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Utilizamos a expressão para indicar uma precisão proporcionada pelas inovações, como na expressão “guerra cirúrgica”. No campo ambiental, o melhor exemplo vem da agricultura de precisão, processo que tem transformado “o produtor rural em empresário rural” (TSCHIDEL e FERREIRA, 2002, p. 159).

De modo semelhante à empresa, precisamos construir meios de administrá-los para a manutenção da expansão, somos postos a trabalhar em um ambiente cada vez mais devastado. Gerenciar a indeterminação dentro da abertura que a sociedade de riscos permanentemente mantém é um valor para a sobrevivência. O risco não é apenas um valor, mas também um produtor de valor (JERONIMO, 2014), gera mais- valor na medida em que, buscando garantias securitárias, põe a trabalhar a tecnologia para a extração de eficiência que se converte em ganhos de produtividade e incrementa a atividade econômica, mas sob a justificativa de causar menos impacto, como na perspectiva colocada em Nosso Futuro Comum: produzir mais com menos.

Klein (2008) se pergunta: Qual é o valor da tragédia? E encontra a resposta na teoria de Friedman:

somente uma crise - real ou pressentida - produz mudança verdadeira. Quando a crise acontece, as ações que são tomadas dependem das ideias que estão à disposição. Esta, eu acredito, é nossa função primordial: desenvolver alternativas políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável (FRIEDMAN apud KLEIN, 2008, p. 16).

Os riscos, como assombrações (BOSCO, 2010) da crise ambiental, são a parte plástica do gerenciamento que visa “desenvolver alternativas políticas”. O Desenvolvimento Sustentável passou a ser, após 1987, o arranjo conforme o qual as alternativas devem ser guiadas, tornou-se, assim, plataforma. A ONU é a agência que emite os princípios do Desenvolvimento Sustentável; sua emissão é articulada pelo discurso capitalista, como mostramos nos capítulos anteriores. A orientação de Friedman acima citada é um dos lemas mais reproduzidos em livros de empreendedorismo que reproduzem a lógica de funcionamento desse discurso: agir conforme a crença de que toda crise é uma oportunidade.

Pode parecer simplificador pensar que o “mais sério problema da humanidade” (ONU, 1987) venha a ser tratado com uma simples frase motivacional de couching empresarial. No entanto, se estamos analisando as modulações do discurso de um tempo, devemos admitir que as mesmas crenças são reproduzidas em diferentes esferas. Diferentes autores têm chamado a atenção para essa perspectiva de mundo a estruturar o laço social pelo menos desde a década de 1970, acentuando-se desde 1990, em que a perspectiva empresarial para o governo do mundo é tomado como o valor a ser reproduzido em nossa sociedade para o

tratamento dos mais diversos problemas, senão de todos eles. E essa crença presente no discurso de espelhamento ao modo empresarial também pode ser verificada na construção que define Nosso Futuro Comum, por ele mesmo, onde se lê:

Nosso futuro comum não é uma previsão de decadência, pobreza e

dificuldades ambientais cada vez maiores num mundo cada vez mais poluído e com recursos cada vez menores. Vemos, ao contrário, a possibilidade de uma nova era de crescimento econômico, que tem de se apoiar em práticas que conservem e expandam a base de recursos ambientais (ONU, 1987, p. 1)

Por meio das assombrações técnicas evocadas nos relatórios em forma de

mal ditos sobre o futuro, emite-se o imperativo de gozo: cresça. Temos a grande

oportunidade de colocar todo o planeta na mesma racionalidade que quer a nova era de crescimento. O sucesso do Desenvolvimento Sustentável, já o pontuamos, está em se tornar essa plataforma de reprodução da lógica empresarial. Talvez por isso as ameaças que circulavam com maior intensidade até o nascimento do Desenvolvimento Sustentável foram dando lugar ao gerenciamento e a própria crise ambiental passa a ser mais explicitamente relegada ao status de acompanhante do crescimento: precisamos crescer, respeitando o ambiente.