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A criminal case to qualify and punish the offence that caused the damage

Dans le document Ecological damage and ecological torts (Page 53-56)

A teoria marxista do jornalismo proposta por Adelmo Genro Filho (2012) converge para o jornalismo libertador ao propor um fazer jornalístico que não seja panfletário nem imparcial, mas que leve em conta a questão de classe e veja o fato em sua totalidade, procurando pensar a realidade e atuar sobre ela. Genro Filho (2012) vê no jornalismo informativo um papel revolucionário como uma forma social de produção do conhecimento que, embora condicionado historicamente pelo capitalismo, possui potencialidades para

ultrapassar esse modo de produção. Isso pode ser claramente percebido na análise das reportagens que fizemos acima.

Nesse mesmo sentido o jornalismo libertador se propõe a pensar e a narrar o mundo a partir do ponto de vista do oprimido, das vítimas do sistema que estão fora do centro, fora da totalidade, e a produzir uma narrativa que nasce da realidade latino-americana, local, trazendo para a notícia as categorias do singular, particular e universal. O jornalismo libertador trabalha com a ideia que é preciso contar as histórias dos oprimidos, dos deserdados, dos desvalidos, e que é preciso narrar o mundo do ponto de vista da realidade do outro, do que está fora do centro. Ao realizar o encontro com aquele que é sujeito de sua própria vida, o jornalista se compromete com sua história, sua dor, seus sonhos, sua vida, e, na narrativa, busca transformar a singularidade daqueles sujeitos num debate que seja capaz de chegar à universalidade, tal qual propôs Genro Filho (2012).

Um exemplo é a edição nº 22, de março/abril de 2010 que traz a matéria “Rony Martínez, jornalista na resistência” (Figura 10). A matéria fala sobre o golpe de Estado que depôs o presidente Manuel Zelaya, ocorrido em Honduras, país da América Central, em 2009. Através do relato do jornalista hondurenho Rony Martínez, percebemos um posicionamento contra as injustiças do golpe, sem ser panfletário.

Para Rony Martínez o golpe levado a cabo pelos militares em Honuras, no mês de junho de 2009, fez nascer um novo país e um povo renovado. Ninguém poderia imaginar que aquela gente, que andava calada desde as grandes greves bananeiras dos anos 50, iria despertar com tanta força e com tamanha sede de transformação. Ele mesmo, em seus pensamentos mais revolucionários, jamais sonhara com o que aconteceu. [...]

“No dia do golpe, chegamos à rádio e ali estavam os militares. Não nos deixavam entrar. Os demais veículos estavam no ar. Só nós estávamos impedidos. Então, conversamos e os convencemos que iríamos dizer o que nos mandavam, que aquilo era uma substituição constitucional. Mas, assim que entramos no ar passamos a dizer ao povo de Honduras e ao mundo que aquilo era um golpe de estado. Como chamar de constitucional o sequestro de um presidente, os tanques na rua, os militares por toda a parte? Era um golpe e assim noticiamos. Durou apenas 10 minutos a transmissão e nos cortaram” (p. 12).

Figura 10: Jornalistas hondurenhos cobriram as marchas populares e denunciaram o golpe militar

A matéria mostra a fonte, o jornalista Rony Martínez, tornando-se sujeito de sua própria vida, se comprometendo com sua história, vivendo a dor causada por um golpe em seu país e a mudança na vida das pessoas. Existe a subjetividade do jornalista, mas o foco é a descrição dos fatos, a informação sobre golpe, a necessidade de informar às pessoas sobre a realidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Escrever essa pesquisa foi uma tarefa instigante e desafiadora. Debruçar sobre a teoria marxista do jornalismo de Adelmo Genro Filho (2012) permitiu-nos vislumbrar as possibilidades e as potencialidades do jornalismo como uma forma de conhecimento, a práxis. Um saber que o profissional da área precisa ter e se apropriar para que seja capaz de pensar sobre a realidade e transformá-la. Vimos que essa teoria fundamenta a reflexão que Elaine Tavares (2004) faz sobre a comunicação em comunidades empobrecidas, criando a teoria do jornalismo libertador.

A partir dessas propostas teóricas é que surgiu a revista Pobres&Nojentas, conforme descrevemos no segundo capítulo dessa monografia. A Pobres foi uma sementeira ao propor uma narrativa com uma perspectiva de gênero e de classe, e motivou esse pesquisador a seguir por essas estradas secundárias. Durante sua publicação, a P&N contou as histórias das pessoas comuns e que constroem o mundo dia-a-dia. A fonte como sujeito e protagonista da sua história.

Durante a análise das reportagens e dos textos da revista, pudemos observar o quanto esse trabalho, que durou 10 anos como material impresso, foi importante para registrar não apenas as grandes lutas realizadas na América Latina, mas principalmente as lutas na cidade de Florianópolis, justamente num período de tempo em que a especulação imobiliária atingiu níveis bastante elevados, o que provocou grandes batalhas na questão do Plano Diretor. A Pobres, e sua proposta de jornalismo baseada em Dussel (1977) e Adelmo (2012), se configura como um documento histórico dessas vidas que não costumam ser narradas pela mídia comercial.

Através do método materialista histórico dialético, vimos que o a teoria marxista do jornalismo fundamenta os pilares epistemológicos da revista e converge para o jornalismo libertador. Com a análise de conteúdo jornalístico observamos como essas matrizes teóricas estão presentes nos textos publicados e como isso reflete na prática das e dos jornalistas que participaram da equipe da revista. Com o método de entrevista em profundidade pudemos ouvir das próprias criadoras da revista os relatos de como surgiu essa proposta de comunicação e jornalismo.

Tendo isso claro, a Pobres é um importante material de estudo para aqueles que querem vivenciar um jornalismo diferenciado desse que conhecemos como hegemônico. Nas suas páginas brota um texto que não teme o uso dos recursos literários, que se preocupa com o aspecto formal do texto, que busca uma narrativa capaz de tocar o leitor, não na mera jogada

da sensação como propõe a chamada pós-modernidade, mas no sentido de apresentar um fato envolvido no seu contexto histórico, levando o leitor a compreender melhor os motivos daquela luta ou daquela situação. A Pobres não apenas “retrata” a realidade, ela a descreve nas três dimensões da vida e produz conhecimento, tratando o leitor também como sujeito capaz de estabelecer os nexos acerca da realidade na sua totalidade.

Nesse sentido, a revista que ora analisamos expressa ela mesma uma nova práxis, sendo capaz de amalgamar duas teorias, que muito mais do que teorias do jornalismo, são teorias sociais, que dizem respeito às relações sociais produzidas na sociedade capitalista. A perspectiva teórica de Genro Filho (2012) – no campo do jornalismo – e a de Dussel (1977) no campo da filosofia, aos serem casadas na perspectiva do jornalismo libertador proposto por Elaine Tavares (2004), apontam outros caminhos para a prática jornalística que hoje aparecem como vitais para a continuidade desse fazer. Na realidade atual, com as novas tecnologias “transformando” quaisquer pessoas com um celular em produtor de conteúdo, é, sem dúvida, essa perspectiva teórica a que mais se concretiza como necessária para mediar os fatos da realidade junto aos leitores/espectadores/ouvintes. O jornalismo como a prática da “análise do dia” é muito mais do que um celular apontado, gravando em tempo real. Ele precisa desvelar o que está escondido por trás do fenômeno.

Assim, jornalistas como as/os que produziram a revista Pobres&Nojentas são os que nos inspiram a seguir enveredando por essa profissão que Gabriel Garcia Marquez dizia ser melhor profissão do mundo. Também acreditamos nisso que diz Marquez, pois o jornalismo, como práxis – tal qual anuncia Genro Filho (2012) – nos aproxima do humano que somos e das contradições inerentes ao mundo que vivemos. Com essas narrativas ampliamos nossos horizontes e criamos possibilidades de criar um mundo onde possam conviver vários mundos. A Eko Porã, dos Guarani, o bem viver dos povos andinos, Ubuntu dos povos africanos. Por isso, pensar nessa perspectiva teórica de um fazer jornalístico que leve em conta a questão de classe e de gênero é fundamental, pois significa romper com paradigmas que reforçam o status quo bem como o jornalismo comercial e hegemônico que o sustenta. O jornalismo praticado como forma de conhecimento, na perspectiva marxista, é avançar até outra sociedade na qual as riquezas serão repartidas e o jornalismo será efetivamente libertador.

A Pobres é, nesse sentido, um sendero, um caminho, a prova concreta de que é possível fazer jornalismo, mesmo em condições tão adversas. Nas suas páginas, a nova práxis é uma esperança e uma realidade.

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APÊNDICE A

Antes de enveredar pelos caminhos do jornalismo fui jardineiro. Trabalhei cinco anos na floricultura Anjos Flores em João Pinheiro – Minas Gerais (Sant´Ana do Alegre, primeiro nome da cidade e que adoto quando me perguntam de onde sou) e também entregava flores. Escrevi minha primeira crônica para a revista Pobres&Nojentas (Figura 11) contando sobre essa minha primeira profissão. Foi nela que conheci o Seo Zézinho, que me ensinou a plantar belezas por onde caminho.

A chuva das flores

Ao Seo Zezinho, construtor de jardins... 22 de setembro de 2010. Primavera

Sempre que chega a primavera sou tomado pela nostalgia. Lá em Minas Gerais eu trabalhava numa floricultura como entregador e era a estação das flores. Então, aconteceu um fato me marcou, acredito que por toda vida. Foi a chuva das flores, bonito nome não? Mas é simples assim: Quando termina o inverno e a grama já está seca e as folhas já voaram no ar como cartas, ela vem. Primeiro, como uma chuva torrencial e as plantas parecem dizer o que o avô do Rubem Alves, outro mineiro, contemplava: “Vejam como estão agradecidas!”.

Essa chuva tem um poder sobre mim. Fico a pensar nos dias em que levava flores em uma bicicleta cargueira pelas ruas de Sant`Ana do Alegre. Uma mão com a flor e a outra com a direção, e seguia sem titubear pelos morros e “banguelas”. O entregador de flores tem uma sorte grande. Ele é o que apanha o primeiro sorriso no instante da surpresa transfigurada num gesto de amor. Ou talvez isso só passasse pela minha cabeça, daí a nostalgia. Pois acontece que têm pessoas que apenas cumprem com sua obrigação, como os carteiros de hoje em dia, que na maioria das vezes entregam contas (ou “cheque especial”, diria minha vó) cartões de crédito, planos de saúde, etc... O milagre é quando vem uma carta no meio de tanta publicidade. As cartas levam palavras como gotas de chuvas para as plantas. Ah, se as pessoas soubessem o quanto precisamos delas: as palavras.

Tempos sombrios, diriam os mais antigos, em que a obrigação do serviço nos priva de descobrirmos as verdadeiras relações humanas no trabalho. No sistema capitalista, que visa o lucro, as coisas funcionam assim. Eu trabalho como entregador. Tenho muitas entregas para fazer, então, quanto mais rápido eu as fizer, mais tempo terei para outras funções, o que para o neoliberalismo, outro comparsa do capitalismo, é uma mão na roda. Como eu sou um guri com muito “sebo nas canelas” vou que é uma bala. E assim cumpro minha obrigação, embora a patroa lembre a toda hora: “se demoras, têm outros tantos na espera para ocupar teu lugar”. Acontece que um dia me deparei com uma situação que me fez pensar. Tinha eu um jardim para fazer. É que eu, além de entregador de flores, aprendi o oficio de jardineiro, do qual me orgulho muito! E lá fui eu na cargueira, com tesoura, podão, enxada, rastelo e outros apetrechos de jardinagem. A dona da floricultura disse que teria uma pessoa a me ajudar no trabalho. Ao chegar a casa vi uma bicicleta preta, marca monark, escorada no meio-fio. E, sentado na calçada estava um senhor bastante curioso. Hoje, ele me lembraria àqueles cubanos que passeiam pelo Malecon com a camisa estampada usando uma boina e fumando um charuto.

Mas, vamos ao acontecido. Ele seria a pessoa a me ajudar no jardim. Ao me apresentar descobri seu nome, Seo Zézinho. Na garupa da bicicleta, trazia uma tesoura já envernizada pelo suor. Contanto sobre seu trabalho disse, com a dignidade que as pessoas simples têm, que era jardineiro há quarenta anos e que já plantara muitas árvores na vida. Entramos na casa para fazer o jardim, uma casa luxuosa, dessas que aparecem em revistas de decoração. O lote continha uma infinidade de tapetinhos de grama, algumas fênix fazendo a decoração, ráfias, e outras plantas de sombra e sol.

Então começamos a aparar a grama e o Seo Zézinho num compasso que lembrava um samba lento ia com sua tesoura. O meio-dia já se aproximava e a barriga começava a roncar. Trabalho braçal deixa o cabra com uma fome de ontem. Perguntei onde morava o Seo Zézinho que respondeu, na calma mineira: na Água Limpa. Este é um dos bairros que fica no morro da cidade, sé que se pode existir morro numa cidade do interior de Minas. Mas, é que por lá moram as pessoas simples e trabalhadoras que vivem às margens da sociedade.

De onde estávamos trabalhando até a casa do Seo Zézinho dava mais ou menos meia hora de ida e vinda, e como tínhamos uma hora de almoço ele tinha que fazer o “quilo” (o descanso depois do almoço) pedalando. Deve ser por isso que ele era tão magrinho. Uma hora da tarde e estava lá o Seo Zézinho, pontual como esses relógios de igreja. Recomeçávamos a labuta aparando grama na rapidez em que as vacas pastam no campo. Foi assim durante três dias, os que trabalhamos juntos. Na paciência e determinação por cumprir sua profissão de jardineiro Seo Zézinho me ensinou uma lição muito importante: que mesmo nesses tempos sombrios a dignidade do homem brota como os calos nas mãos.

Simón Rodriguez dizia sobra a importância da educação que se aprende trabalhando na terra. O sistema capitalista impera e como o império há de ruir e com ele toda a estrutura que o sustenta, chegará o tempo em que as lanças se transformarão em arados e a terra será trabalhada por mãos que cultivam e zelam pela vida boa e bonita para todos, a Eko Porã dos Guarani, como diz a profecia.

Toda vez que a chuva das flores vem, minha dignidade se renova no solo fértil da esperança de que encontraremos a terra sem males. E sigo lutando e construindo jardins, assim como o Seo Zézinho.

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