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Construindo Saberes
O Curso Técnico de Nível Médio Integrado em Informática do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), Câmpus Chapecó, é um curso oferecido em oito módulos (4 anos), no turno vespertino. Sua matriz curricular possui, em todos os semestres, um componente curricular denominado Oficina de Integração que busca construir/
articular saberes relacionados aos demais componentes ofertados no semestre corrente e é ministrado por professores de diferentes formações, da área técnica e de formação propedêutica. Ao final de cada semestre acontecem as apresentações dos trabalhos produzidos por todos os estudantes do curso para toda comunidade escolar.
Além das Oficinas de Integração, componente obrigatório do currículo, outras experiências interdisciplinares foram construídas ao longo dos semestres e o Workshop de Informática, apresentado na sequência, foi uma delas.
O Workshop de Informática é uma ação de ensino-aprendizagem interdisciplinar, planejada e desenvolvida coletivamente pelos cinco professores de informática e estudantes do quarto, quinto e sexto módulo do Curso Técnico de Nível Médio Integrado Informática do IFSC, Câmpus Chapecó, e acontece desde o segundo semestre de 2013, envolvendo os componentes curriculares de Programação Orientada a Eventos, Programação Orientada a Objetos, Programação Estruturada, Banco de Dados, Engenharia de Software e Análise de Sistemas.
As atividades são desenvolvidas em três momentos: no primeiro momento, os professores apresentam como desafio aos estudantes, a necessidade da busca de um problema do cotidiano que possa ser traduzido em uma aplicação de informática. Esse é o momento da busca por um problema e, se pensarmos em um movimento dialético de aprendizagem, poderíamos tratá-lo como o momento de mobilização para o conhecimento. Nele, os professores estimulam os estudantes na busca por situações cotidianas, que aos olhos menos atentos podem até parecer ‘simples demais’, ou já existentes, para serem novamente implementadas.
Entretanto, a “mobilização se coloca como um momento especificamente pedagógico, em relação à teoria dialética do conhecimento, uma vez que esta supõe o interesse do sujeito em conhecer.” (VASCONCELLOS, 1992, p. 3). Mas é nessa provocação pedagógica que o interesse do estudante aflora e é também ali que os significados para os desafios se estabelecem. É no (“approche”), no provocar, no acordar, no desequilibrar, no fazer a “corte” que o trabalho do professor estabelece as primeiras significações para que o estudante consiga elaborar suas representações mentais do objeto a ser conhecido. (VASCONCELLOS, 1992).
No segundo momento, a partir das atividades de integração dos componentes curriculares ofertados no módulo corrente e das experiências vivenciadas nos módulos anteriores, os estudantes implementam soluções para os problemas apresentados.
É nesta etapa da atividade interdisciplinar que os saberes disciplinares se entrecruzam. Os conhecimentos científicos começam a fazer sentido se articulados e os professores precisam estar atentos em colaborar com o estudante para que ele consiga decifrar a importância de cada conteúdo no todo da implementação.
Na perspectiva dialética, podemos assumir esse momento como a migração do senso comum, com uma visão fragmentada, parcial e sincrética, para a partilha e (construção) de conhecimentos novos que através da mediação, propicia a análise e síntese do educando, de forma a que chegue ao conhecimento mais elaborado. (VASCONCELLOS, 1992).
E, no terceiro momento, as aplicações desenvolvidas são socializadas com todos os estudantes dos módulos envolvidos. É neste momento que ocorre o que chamamos de Workshop de Informática, realizado ao final do semestre letivo como síntese de todas as produções coletivas na área técnica de informática.
Sobre a importância da sistematização do processo educativo, Vasconcellos (1992, p. 15) afirma que:
Na perspectiva dialética, em que o educando, tendo percorrido as etapas anteriores de aproximação e análise do objeto de conhecimento, deve ter oportunidade de sistematizar o conhecimento que vem adquirindo e expressá-lo concretamente, seja de forma oral, gestual, gráfica/escrita ou prática. (VASCONCELLOS, 1992, p. 15).
Propostas como a do Workshop de Informática trazem em sua gênese a defesa de Santomé (1998), que apresenta vantagens na intervenção educativa mais aberta e dialógica, vantagens que propiciam o exercício do protagonismo, tanto no ato de aprender como no ato de ensinar. Esse autor afirma, ainda, que quanto maior a abertura do canal de comunicação entre os professores e os estudantes no cenário curricular, maior possibilidade de trabalho, análise e interpretação dos conteúdos trabalhados.
Cada componente curricular envolvido tem função primordial para o alcance da aplicação implementada, já que para o desenvolvimento de um projeto interdisciplinar é necessário determinar a valoração de cada componente curricular, seu nível teórico, suas estruturas e a intencionalidade de seu papel no currículo escolar. São esses fundamentos que permitem a compreensão de que a interdisciplinaridade vai muito além da integração de conteúdos. (JAPIASSU, 1976).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio afirmam que:
A interdisciplinaridade não dilui as disciplinas, ao contrário, mantém sua individualidade. Mas integra as disciplinas a partir da compreensão das múltiplas causas ou fatores que intervêm sobre a realidade e trabalha todas as linguagens necessárias para a constituição de conhecimentos, comunicação e negociação de significados e registro sistemático dos resultados. (BRASIL, 1999, p. 89).
Esse mesmo documento também afirma:
O conceito de interdisciplinaridade fica mais claro quando se considera o fato trivial de que todo conhecimento mantém um diálogo permanente como os outros conhecimentos, que pode ser de questionamento, de confirmação, de complementação, de negação, de ampliação, [...] (BRASIL, 1999, p.88).
É com o olhar voltado para a necessidade de se ter cada vez mais experiências interdisciplinares no Curso Técnico de Nível Médio Integrado em Informática do IFSC, Câmpus Chapecó, que a ação de ensino-aprendizagem interdisciplinar se constitui.
Vários autores como Japiassu (1976) e Fazenda (1979) afirmam que, quanto mais vivências interdisciplinares nós temos, mais nos aproximamos do seu conceito. São experiências como a apresentada que ajudam na construção dos saberes de forma interdisciplinar. Santomé (1998) corrobora quando afirma que a interdisciplinaridade nunca será completamente alcançada enquanto objetivo educacional e por isso deve ser um objeto permanente de busca, uma vez que não é uma proposta apenas teórica, mas que deve ser vivida, praticada e sua perfeição está
na sua prática “ [...] na medida em que são feitas experiências reais de trabalho em equipe, exercitam-se suas possibilidades, problemas e limitações.” (SANTOMÉ, 1998, p. 66).
Fazenda também compartilha da mesma ideia de Santomé, quando afirma que “a interdisciplinaridade não se ensina, nem se aprende: vive-se, exerce-se” (FAZENDA, 1993, p. 109).