A partir da 2ª Guerra Mundial e até ao final da década de sessenta, a responsabilidade do insucesso escolar esteve imputada ao aluno. Nesta abordagem do insucesso terá prevalecido a teoria dos “dons” ou dos “dotes” individuais, tida como teoria explicativa das causas deste insucesso (cf. Benavente, 1990). A teoria em causa explicava o rendimento escolar por “dons” pessoais e naturais do próprio aluno, ou seja, era a inteligência de cada um que ditava o sucesso na escola. (cf. Cortesão e Torres, 1990)
Cada discente apresentava um conjunto de “aptidões”, inatas e naturais destes, que influenciavam ritmo da sua aprendizagem. Um baixo nível intelectual expresso no Q.I. (Coeficiente de Inteligência) influenciava negativamente o seu aproveitamento escolar. Como refere Benavente (1989), citada por Ministério da Educação (cf. 1995:7), “o sucesso/insucesso é explicado pelas maiores ou menores capacidades dos alunos, pela sua inteligência, pelos seus dotes naturais”.
Considerando-se que a “teoria dos dons” assenta na origem animal e no carácter fisiológico da actividade psíquica, argumenta-se então que a inteligência da criança é hereditária e que os factores genéticos têm uma importância fundamental para se compreender as diferenças entre classes sociais. O fracasso escolar das crianças é atribuído aos seus genes e não ao contexto, conteúdo e metodologia pedagógica. Atribui-se assim, à natureza do
indivíduo, a responsabilidade pelas desigualdades intelectuais e considerou-se que as mesmas eram determinadas pela hereditariedade. (cf. Benavente e Correia, 1980)
Também Le Gall (1978) suporta a ideia de que a origem do insucesso escolar do aluno está no seu “quociente intelectual”. Nesta mesma linha de pensamento, Pires, Fernandes e Formosinho (cf. 1991:189) acrescentam ainda que a “inexistência de aptidões do aluno”, podem ser de origem “psicossomática (alunos deficientes) como de origem intelectual (determinada através de quocientes de inteligência)”. Peixoto aponta igualmente o nível intelectual como um aspecto ligado ao insucesso escolar, quando nos diz que “à medida que caminhamos do alto para o baixo nível intelectual diminui a percentagem de sujeitos com zero reprovações” (cf. 1999:138), acrescentando a auto-estima e referindo-a como sendo outro aspecto que funciona como um factor relacionado com o insucesso escolar. Segundo o mesmo estudo, “à medida que caminhamos da alta para a baixa auto-estima diminui a percentagem de sujeitos com zero reprovações” (p.130).
Para além do nível de inteligência também são apontados outros factores relativos ao aluno e que poderão conduzir a situações de fracasso escolar. A preguiça em resposta à obrigatoriedade de cumprir as tarefas escolares, que provavelmente, muitas delas, não fazem parte do leque de interesses do aluno, pode ser um indício de uma atitude de desmotivação pelo trabalho perante o embaraço em ultrapassar dificuldades. O aluno como sente que tem insucesso refugia-se na preguiça, funcionando assim este factor como um efeito do insucesso. A lentidão, ou mesmo recusa, na sua realização poderá funcionar como forma de importunar o professor e de agravar a distância dos restantes colegas em termos de aprendizagem, funcionando desta forma, como uma causa do insucesso. A preguiça, é um factor causal de insucesso avançado por Avanzini (s.d.) que a nosso ver, poderá ser simultaneamente uma causa/efeito de situações de insucesso escolar.
A diferença de atitudes e comportamentos dos alunos em contexto escolar, segundo Fontaine (cf. 1990:95), interfere, directa ou indirectamente, “na
realização e satisfação escolares”. Assim encontramos o desinteresse, a falta de participação e de confiança, a ansiedade durante a avaliação, a fraca assiduidade escolar, uma precária alimentação, a falta de cuidados de saúde e higiene, sobretudo no que diz respeito aos olhos, ouvidos e dentes, e ainda a presença de deficiências congénitas e mentais como sendo elementos referenciados que interferem no rendimento escolar.
Outra situação que também pode influenciar a aprendizagem diz respeito às relações interpessoais que o aluno estabelece. Se não se criar empatia entre o aluno e o professor, se não se constituírem laços de amizade e confiança, potenciamos determinados comportamentos como a timidez, a inibição, a falta de autoconfiança. Estes comportamentos repercutem-se de forma negativa, levando à desconcentração, nervosismo,... As deficiências a nível dos sentidos, a pouca memória visual e a dislexia podem também explicar dificuldades de aprendizagem.
A personalidade representa um papel colaborante no desempenho escolar. De acordo com Le Gall (cf. 1978:15) uma grande percentagem de insucessos escolares deve-se à “inadaptação da personalidade da criança às exigências escolares”, referindo que a personalidade de causa adjuvante e o desajuste das diferentes instituições de ensino aos condicionamentos sociopsicológicos da população escolar incrementam o insucesso. Aponta, ainda, que esta adaptação deveria ser concretizada pelo aluno e professor, indo um ao encontro do outro e a escola deveria encaminhar tais acções de forma convergente. A nosso ver, este desajuste da escola está relacionado com uma teoria que a seguir abordaremos mais aprofundadamente, a teoria sócio- institucional.
Acrescente-se que muitos destes factores, exercem influência mesmo antes do aluno iniciar a sua escolarização e prolongam os seus efeitos ao longo de toda a sua escolaridade.
O período de gestação, é outro factor importante, já que, qualquer alteração psicológica da mãe, pode ter repercussões, por vezes graves, no sistema
neurovegetativo, assim como alguns factores hereditários podem estar na origem do insucesso escolar.
Para Avanzini (s.d.) o aluno pode apresentar dificuldades na aquisição de conhecimentos, devido a insuficiência intelectual. Esta insuficiência pode dever-se a causas de tipo neurológico ou ser uma consequência de um meio de origem pouco estimulante do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, tendo assim a insuficiência intelectual um carácter social. Esta perspectiva vai ao encontro da teoria explicativa do insucesso escolar, que surgiu no final dos anos 60 e que apontava para a existência de uma relação entre a origem socioeconómica e o insucesso escolar.