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A racionalização da existência na modernidade possui traços históricos e culturais de diferentes naturezas que, evidentemente, transpassam as referidas experiências da satisfação e do bem-estar. Tais traços, como os demais, também resultam em heranças profundas nos modos com os quais o homem ordinário lida com seu cotidiano. Um dos traços mais significativos, neste sentido, resulta na formatação da temporalidade moderna com base em

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Se considerada a advertência teórico-metodológica de Moretti (2003) segundo a qual a disseminação social de um padrão narrativo somente ocorre quando existe algo na cultura circundante que o respalda, torna-se compreensível o impressionante sucesso da ―psicologia positiva‖ como fenômeno cultural popular e de mídia na contemporaneidade. Autoproclamada a ―ciência da felicidade‖, este braço da psicologia contemporânea viabiliza-se em torno dos argumentos genéricos da autonomia individual e da autoajuda, atingindo um êxito significativo no mercado editorial ocidental (BINKLEY, 2010, p.87).

aspectos próprios da calculabilidade e da cotidianidade – um percurso que, partindo da mensurabilidade e da linearidade incorporadas à dimensão temporal moderna, desemboca na configuração de um padrão mediado pelo ritmo da regularidade.

Caracterizado como um dos principais traços do modo de vida moderno, o predomínio da dimensão temporal sobre a dimensão espacial – esta última, segundo Muniz Sodré (2009, p.84), a principal dimensão ―desvalorizada pelo pensamento modernizante‖ – inscreve-se socialmente como premissa cultural indispensável. Nas palavras do autor brasileiro, ―a partir do movimento das ações cotidianas, cria-se uma unidade que correlaciona de perto o fluxo das coisas e da cultura, e faz do tempo a entidade métrica do movimento ou da passagem, inscrevendo os resultados da medição em calendários e relógios‖. A experiência cotidiana moderna passa, assim, pela linearidade temporal, ―cujo conteúdo mais evidente é a ideia de progresso, ou seja, muda-se para melhorar ou progredir‖ (SODRÉ, 2009, p.84). – concepção que dialoga no plano teórico com a problematização proposta por Henri Bergson (1979) para ideia de ―imaginários de tempo‖.

Na perspectiva bergsoniana, a noção de tempo difere radicalmente do aspecto de linearidade que esta possui no pensamento moderno, isto é, sua complexidade está na interpretação que recebe a partir da ideia de um fluxo que não possui direção nem sentido. Nas reflexões do filósofo francês, portanto, o tempo dito ―real‖ deve ser compreendido com base em uma ―multiplicidade de múltiplos‖ – ou seja, a partir da consciência e da ―própria mobilidade do ser‖ (BERGSON, 1979, p.290) – e, por assim se constituir, escapa aos limites da sucessão temporal culturalmente convencionada:

A verdade é que mudamos sem cessar, e que o estado por sua vez já é mudança. Isso equivale a dizer que não há diferença essencial entre passar de um estado a outro e persistir no mesmo estado. Se o estado que ‗continua o mesmo‘ é mais variado do que se crê, inversamente a passagem de um estado a outro assemelha-se mais do que se imagina a um mesmo estado que se prolonga; a transição é contínua. (...) Onde há uma fluidez de matizes fugidios que se interpenetram, ela (nossa imaginação) percebe cores estanques, e por assim dizer sólidas, que se justapõem como contas variadas de um colar: forçoso lhe é supor então um fio, nada menos sólido, que mantenha as contas juntas. (BERGSON, 1979, p.14-15).

Em posição critica contra o papel desempenhado pelo conhecimento técnico- científico na tentativa desenfreada de dominar a complexidade do fluxo temporal, Bergson (1979, p.290) alega que a ciência moderna deve ser classificada, sobretudo, ―por sua aspiração a tomar o tempo por variável independente‖. Nas palavras do autor:

Quando a ciência positiva fala do tempo, ela se refere ao movimento de certo móvel T em sua trajetória (...). Mas não se trata aqui do próprio fluxo, e muito menos, com mais forte razão, de seu efeito sobre a consciência; porque o considerado, no caso, são pontos T1, T2, T3... tomados no fluxo, e nunca o próprio fluxo. Pode-se reduzir o quanto se queira o tempo considerado, isto é, decompor à vontade o intervalo entre duas divisões consecutivas Tn e Tn+1, e será sempre de pontos, e de pontos apenas, que estaremos tratando. (BERGSON, 1979, p.290-291).

Além disso, como modo de enfatizar sua argumentação, Bergson (1979) utiliza-se de outra metáfora para problematizar a relação entre o chamado ―tempo real‖ e o tempo cronológico e mensurável da sociabilidade moderna: a passagem de um rio sob pontes localizadas em suas margens. Para pensador francês, a sucessão temporal convencionada ―não se aplica ao devir, no que ele tem de móvel, tanto quanto pontes erguidas de longe em longe sobre o rio não acompanham a água que fui sob seus arcos‖ (BERGSON, 1979, p.292). Inapreensível pela inteligência, portanto, o ―tempo real‖ somente torna-se passível de compreensão quando racionalizado e assimilado culturalmente a partir de representações simbólicas – a mais famosa delas, ―uma seta que avança infinitamente do passado em direção ao futuro‖ (KILPP, 2010, p.1). O aperfeiçoamento do relógio, nesse contexto, permite a racionalização da experiência temporal e transmite uma ―reconfortante sensação de controle sobre a passagem do tempo e dos acontecimentos a ele relacionados‖ (KILPP, 2010, p.2) – percepção que, na concepção de Bergson (1979), limita-se a uma representação socialmente convencionada que não responde ontologicamente à complexidade do fenômeno.

Uma das principais premissas bergsonianas que colaboram para o entendimento da experiência temporal na modernidade sustenta-se, como revela Kilpp (2010, p.2), no postulado de que ―quando várias coisas estão em movimento, é preciso imobilizar pelo pensamento uma delas, colocar-se em seu lugar e observar o movimento das demais coisas em relação ao lugar em que artificialmente paramos o tempo ou o movimento‖. Tal exercício subjetivo, contudo, ao subordinar-se a um hábito enunciativo que resulta necessariamente na construção de uma hierarquia simbólica, acaba por afetar a apreensão da realidade concreta. Assim, longe de constituir o acesso a uma estrutura concreta estável, a percepção temporal da realidade passa a ser inevitavelmente mediada por metáforas – duas delas fundamentais para o imaginário de tempo das sociedades ocidentais: além da seta, o ciclo (GOULD, 1991). Mas, embora a noção cíclica do tempo contemple a elaboração de um elo entre a experiência temporal humana e os ciclos da natureza e permita a busca de ―princípios gerais tão regulares que existiriam fora do tempo-espaço‖ (KILPP, 2010, p.3), a experiência racional moderna

acaba por privilegiar as representações simbólicas oriundas do imaginário mensurável e linear da seta.

Nessa conjuntura, localiza-se no bojo da modernidade a valorização da noção de ―atualidade‖, processo que culmina na reorganização cultural da experiência temporal. Em outros termos, conforme ilustra Sodré (2009, p.60), significa dizer que para além das profundas mudanças na experiência espacial (pautadas, sobretudo, pelo advento das novas técnicas de medição), a experiência temporal moderna radicaliza-se pelos sentidos disseminados pela cronologia do relógio: a ideia de ―atual‖ estabelece-se, assim, como promotora de um ―curto circuito entre passado e presente‖ – traço fundamental que passa a orientar a experiência cotidiana. Tais alterações podem ser encaradas como típicos sintomas da racionalidade nos modos de experimentação do cotidiano. Em outros termos:

No momento em que se concebe a hipótese de um futuro diferente do passado, dá-se o rompimento com o mundo da tradição e das ordens eternizadas. Desde o Iluminismo, a história afirma-se como aspiração a uma unidade racional, distinta das histórias exemplares narradas, trabalhada pelos historiadores e pelos filósofos. Os acontecimentos deixam de ser pensados no quadro de uma desordem ontológica (a heterogeneidade das experiências) para serem enfeixados no conceito de uma entidade maior, racional e teleologicamente orientada no sentido de progresso. (SODRÉ, 2009, p.60-61)

Trata-se, nas reflexões de Martin-Barbero (2003), de mais um traço de ―enculturação‖ que se caracteriza, desta vez, pelas ―rupturas no sentido de tempo‖. Para o autor colombiano, a linearidade instaurada pelas mediações que posteriormente se tornariam massivas rompe, por exemplo, com a temporalidade cíclica que caracterizava as festas e outras manifestações populares nas sociedades que a antecedem. Diz o autor: ―As festas, com sua repetição, ou melhor, com seu retorno, balizam a temporalidade social nas culturas populares. Cada estação, cada ano, possui a organização de um ciclo em torno do tempo denso das festas‖ (MARTIN-BARBERO, 2003, p.142). Por outro lado, ―a aparição do relógio possibilita a unificação dos tempos, e a ‗descoberta‘ pelo mercador do valor do tempo dá origem a uma nova moral e a uma nova piedade‖ (MARTIN-BARBERO, 2003, p.143). O tempo-vivido, ressalta Martin-Barbero (2003, p.143), é substituído pelo tempo-valor, ―o tempo valorizado, ou melhor, a fonte do valor, já não é o da circulação do dinheiro e das mercadorias, mas o da produção, o do trabalho enquanto tempo irreversível e homogêneo‖.

Tal redefinição no sentido de temporalidade pode ser encarada, uma vez mais, como sintoma de um processo de mutação cultural. Assim, nas palavras de Sodré (2009, p.61), ―é

cada vez mais próprio da modernidade ocidental tomar o tempo como ‗fonte para a solução dos problemas‘‖ – ou seja, trata-se da tarefa moderna de pautar o fato pelo ―atual‖ (pelo ―aqui e agora‖) e singularizá-lo para esclarecê-lo. Margeada por essa nova noção de temporalidade, emerge também uma concepção moderna de notícia: ―sempre em busca de algum esclarecimento ou de uma unidade social explicativa no cotidiano da cidadania, daí o prestígio dessa pretensa unidade dos microaspectos singularizados do fato‖ (SODRÉ, 2009, p.61). Nessa nova caracterização da temporalidade na modernidade, norteada pelo solapamento do ―tempo denso‖ e do ―tempo-vivido‖, respalda-se ainda uma nova marcação rítmica que caracteriza o modo de vida do cotidiano. Conforme destaca Sodré (2009, p.85), a ideia de cotidianidade – ―onde a temporalidade é descontínua e múltipla‖ – passa a ser racionalizada pelo fracionamento resultante da temporalidade cronológica. Esse novo tempo cronologicamente pontuado e ritmado, por sua vez, incorpora-se e torna-se predominante também no senso comum, marcando – no plano simbólico – a experiência cotidiana socialmente construída.

Portanto, a segmentação do tempo em unidades cronológicas e métricas (voltadas a um futuro ―unidimensional e contínuo‖), bem como a segmentação do conhecimento em unidades intelectualizadas e objetivas, marcam a nova sociabilidade de uma sociedade que passa a responder por moderna. A atividade jornalística, nesse contexto, não foge à regra e, ainda além, vincula a essa nova sociabilidade algumas de suas principais premissas – tais como a noção de credibilidade, ―principal capital simbólico do jornalista‖. A credibilidade, conforme aponta Sodré (2009, p.42-43), traduz-se, então, num ―pacto induzido pela bandeira da objetividade, fincada no solo da cultura jornalística desde meados do século XIX‖. Assim, a atividade jornalística, entendida como uma construção cultural particular, estabelece suas marcações simbólicas entre a racionalidade moderna e o senso comum, contribuindo para a disseminação de um sentido peculiar que encontra suporte e finalidade nas práticas ordinárias e regulares da vida cotidiana.

6. A narrativa noticiosa como traço da experiência moderna e sua mediação pela

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