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A identidade pessoal e a identidade cultural se vinculam, visto que a identidade cultural serve como moldura da constituição da identidade do sujeito. Da mesma forma, as considerações acerca das possibilidades de compreender a identidade brasileira como parte da prática da Capoeira serão apresentadas mais adiante, porém, é importante considerar desde já que a Capoeira permeou o desenvolvimento e a história do Brasil, desde a época Colonial e, portanto, também faz parte da identidade brasileira, principalmente do mestiço e do negro.

Portanto, para entendermos a respeito da identidade cultural brasileira, primeiramente precisamos entender o uso do termo identidade nacional, pois é um conceito designado para demonstrar uma espécie de identidade mais ampla dentre as demais assumidas por cada indivíduo, como por exemplo identidade profissional, religiosa, classista, ou a identidade de capoeirista. Isto é, ela é como niveladora de todas as formas de identificação que cada sujeito estabelece entre si e os outros. A identidade nacional, portanto, serve para estabelecer uma fronteira entre o “nós” e o “eles”, como conceitua Bauman (2005).

Segundo Hall (2005), atualmente, um dos mais eficazes instrumentos identitários é a cultura nacional, pois a mesma é formada por discursos simbólicos. Assim, as culturas nacionais unificam as diferenças culturais numa única identidade, constituindo assim a nação e a ideia de pertencimento nacional.

Entretanto, com relação a isso, é possível relacionar com o conceito proposto por Benedict Anderson sobre as “Comunidades Imaginadas”, em que apresenta algumas reflexões sobre os sentidos de nação, nacionalidade e nacionalismo. O autor percebe o nacionalismo e a nacionalidade como um produto cultural, pois a nação é imaginada, modelada, adaptada e transformada conforme a política da época.

De acordo com o autor, nações não possuem datas de nascimento identificadas em registros oficiais e são comunidades políticas imaginadas como limitadas e ao mesmo tempo soberanas. São imaginadas no sentido de fazer sentido para a “alma” e serem objetos de desejo. Desta maneira, a “naturalização” de realidades imaginadas faz com que haja sentimento de comunidade em que embora os membros da mesma não tenham conhecimento de todos que a integram, há a imagem de comunhão entre eles (ideia de um “nós” comum e identificado).

A nação é imaginada, então, como comunidade, pois independentemente das desigualdades internas que possui, é concebida como detentora de uma “camaradagem horizontal”. As nações são limitadas porque possuem fronteiras, apesar de elásticas. Ao mesmo tempo são soberanas pelo sonho de serem livres (imagem do Estado Soberano). Portanto, não há comunidades “verdadeiras”, todas são imaginadas e o que as distingue é o “estilo” como são imaginadas e os recursos que possuem.

Segundo Anderson (2005), os povos têm bastante apego por suas imaginações e são capazes de morrer por suas invenções. Os romances (principalmente os de fundação) e os jornais (notícias locais) são ideais para representar o tipo de comunidade inventada correspondente a uma nação sólida. Assim, é através de um imaginário afetuoso que a história e a solidez da comunidade é naturalizada e confirmada. Desta maneira, de acordo com Almeida et al. (2012), atualmente, com a globalização, modernidade e homogeneização cultural há a preocupação dos países e comunidades em relação a não perder suas identidades construídas, por isso ocorre o fenômeno de fortalecimento de vínculos com a cultura local e identificação de símbolos nacionais.

Por fim, é interessante pensar na transformação de datas em eventos e passagens rápidas em marcos fundadores para legitimar uma comunidade, a exemplo da nação brasileira, onde a identidade é definida pela “falta”. No século XIX, o brasileiro era entendido como se fosse europeu ou no máximo índio, apesar de cerca de 80% da população ser constituída por negros ou mestiços. Schwarcz (2005), que faz a introdução do livro de Anderson, coloca que, na representação oficial, a instituição escravocrata é esquecida e romantizada. Em vez disso, o destaque é o clima tropical e a nossa flora exuberante.

Diante deste exposto, Ortiz (2006) assinala em seu trabalho sobre a cultura brasileira e a identidade nacional, que vários intelectuais brasileiros, em diferentes épocas da nossa história, se esforçaram para criar uma identidade brasileira e também fazer uma definição do povo brasileiro. De acordo com o autor, os discursos e estudos dos intelectuais que se comprometeram a realizar a construção de uma identidade brasileira foram perpassados por relações de poder, pois houve uma pluralidade de discursos criados por diversos grupos, a partir de diferentes manifestações culturais. O autor ainda complementa que a construção de uma identidade brasileira deve ser investigada e considerada pelas dimensões políticas

dos grupos sociais e principalmente pela historicidade para não correr o risco de ser abordada de forma anacrônica.

Sendo assim, estudar a identidade cultural de um povo é importante para sabermos quem somos, porque somos e como somos, ou seja, cada sociedade e cada indivíduo se utiliza de um número limitado de “coisas” e de experiências para construir-se como algo único, mesmo que imaginado. De acordo com DaMatta (1984), a construção de uma identidade social é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões definidas pela própria sociedade.

DaMatta (2000), também distingue o brasil minúsculo (uma terra como outra qualquer) do Brasil maiúsculo (que designa um povo, uma nação, um conjunto de valores, escolhas e ideais de vida). Dessa maneira, o brasil é apenas um objeto sem vida, autoconsciência ou pulsação interior, mas o Brasil é algo muito mais complexo, pois é país, cultura, local geográfico, fronteira e território reconhecidos internacionalmente, mas também cada pedaço de chão calçado, lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única e sagrada.

Entende-se que o Grupo Muzenza, assim como qualquer outro grupo, pode ter também as características de uma comunidade inventada, sólida e acolhedora. Assim como a Capoeira, a que se refere o autor Roberto DaMatta (1984), que também pode ser pensada pertencente ao Brasil com “B” maiúsculo, no sentido de que ela proporciona em seus praticantes emoções diversas, leis de amizade e família, considerando o grupo como uma comunidade à qual o capoeirista pertence, com hábitos, rituais e até mesmo uma religiosidade aos ancestrais, ao mestre ou aos instrumentos, como o Berimbau que para muitos é sagrado.

Salienta-se também que Gonçalves (2007) propõe que a identidade de uma nação também pode ser definida por seus monumentos e pelos bens culturais associados ao passado nacional, que formam a continuidade de uma nação ao longo do tempo. Acredita-se que a construção de uma identidade nacional brasileira passou e ainda passa por uma série de mediações que permitem a invenção de uma “alma nacional”, que significa a obtenção de alguns parâmetros simbólicos que são reconhecidos como provas da existência de um Estado e que determinam sua originalidade.

Ainda é importante salientar que, segundo Bosi (1996), devemos entender que apesar de estarmos acostumados a falar o termo “cultura brasileira”, não podemos ver a cultura como singular e sim como culturas do nosso país, pois há um

grande número de manifestações materiais e imateriais do povo brasileiro, até porque o Brasil é um país de dimensões continentais e cada região tem suas características próprias. Podemos perceber isto quando pensamos nos hábitos, costumes características e gostos do mineiro, que são muito diferentes do carioca, que por sua vez diferem do gaúcho e também do baiano.

Entretanto, também percebeu-se, principalmente por meio das entrevistas realizadas com os capoeiristas estrangeiros que o que é vendido para o exterior seriam os elementos característicos do carioca, onde são apontados elementos como a malandragem, o jeitinho, a alegria, a criatividade, uso de apelidos e hospitalidade (DAMATTA, 2000).

Entendemos também, a partir das experiências vividas durante a observação participante que a roda de Capoeira funciona como meio de formação de uma identidade cultural e de representações simbólicas de valores sociais para os seus atores, os capoeiristas, pois ela acaba sendouma prática social, histórica, científica e também política, já que nela ocorrem troca de informações principalmente sobre a sua filosofia (CASTRO JUNIOR, 2004).

Percebeu-se, portanto, que a Capoeira, como integrante da cultura brasileira, representa antes de mais nada os discursos de resistência, liberdade e luta pela valorização da cultura nacional, trazendo diálogo entre o passado, a atualidade e o futuro.

A identidade cultural brasileira misturada com a identidade do capoeirista aparece entre outras características, na forma do jeitinho brasileiro, sobre o qual Damatta (1986) e Barbosa (1992) assinalam que dentro da roda de Capoeira se evidencia os traços que configuram o jeito malandro, pela ginga e pelo jogo de cintura para sair de situações complicadas. Nesse sentido, é de extrema importância entender o significado da roda para os capoeiristas, assim como os demais elementos que constituem a Capoeira. É a partir destes elementos que se entende a identidade construída (ou imaginada) pelo capoeirista do Grupo Muzenza, seja ele brasileiro ou não.

3 O PROCESSO HISTÓRICO DA CAPOEIRA

O objetivo deste capítulo foi descrever o processo histórico da Capoeira, para que haja uma contextualização mais detalhada das transformações do universo capoeirístico no decorrer dos tempos.

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